>UM SENHOR SÁBADO

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Ir a um ensaio da Acadêmicos do Salgueiro nunca é, como estou cansado de dizer, um simples programa. É, como diria o Paulo César Pinheiro (vilipendiado pelo jornal O GLOBO, leiam aqui), feito uma reza, um ritual. Mas quando decidimos, eu e a minha Sorriso Maracanã, ir à quadra no sábado passado, não imaginávamos que fôssemos viver as emoções violentas que vivemos. Vou contar tudo, evidentemente. Com a precisão costumeira.

Passamos o dia inteiro na praia. Céu sem nuvens, caipirinhas preparadas pelo Mário (dia desses lhes conto sobre essa figura fundamental nas areias), e propus à certa altura irmos à quadra da vermelho e branco. Dani topou no ato – pra nascer alguém que me faça as vontades de maneira tão constante – e o Pratinha, também conosco, mandou seu tradicional “oba!”.

Às dez da noite chegava aqui em casa o menino, Prata Querubim, com o Dorival (leiam aqui para conhecê-lo). Partimos de táxi, saltamos na esquina da Barão de Mesquita com a Silva Teles, e fomos caminhando ali, por aquela rua, que tanto me comove com suas casinhas que se transformam em biroscas, tendinhas, bebemos uma meia dúzia de cervejas e entramos. Dizer isso que vou dizer, agora, depois de tudo o que vivemos, soará como oportunismo, mas o Salgueiro estava em dia de graça. Os puxadores, acompanhados pela Furiosa, a pujante bateria comandada pelo Mestre Marcão, desfiavam os mais significativos sambas de sua história, e eu já estava quase em transe cantando “venham ter felicidade salgueirando a humanidade”, “Ifá mandou Exu, o mensageiro, abrir caminhos pelo mundo inteiro”, “Salgueiro, vermelho, balança o coração da gente”, “salgueirar vem de criança, o centenário não se apagará”, e eu antevia – eis aí o que soará como oportunismo – uma noite de surpresas.

Breve pausa para lhes contar um troço hilariante. Enquanto eu Dani nos esbaldávamos, o Prata, estático, me fez um sinal com o indicador:

– Edu, vamos embora. morrendo de frio.

No Salgueiro, única quadra com ar-condicionado – e fortíssimo – nunca faz frio, respondi ao menino, ignorando seu apelo. Vamos seguir.

À certa altura, Bira do R anuncia ao microfone:

– E vamos anunciar a presença da madrinha do samba na quadra do Salgueiro… Beth Carvalho!!!!!

Nesse instante – eu notei – o Prata começou a suar, e intensamente. Ligado à Beth Carvalho por sentimentos intensos e confusos, o menino olhava fixamente para o camarote, gotas de suor brotavam de sua testa, quando eu disse:

– Quer subir?

Ele não me respondeu, mas abriu um sorriso franco e excitado.

Fomos pra mais perto e acenei pra Beth que, como sempre, dulcíssima, nos convidou para subir. O Prata, meus fiéis leitores, estava mais salgueirense que nunca… Dono de pele alvíssima, tinha a face vermelha, as orelhas em fogo, os olhos vidrados.

Subimos. E lá ficamos até às quatro da manhã quando me cutucou a Beth:

– Vamos à Mangueira?

Fomos.

E meninos, eu vi.

Eu vi, e é justo o que eu quero lhes contar desde o início. Eu jamais havia visto, tão de perto, uma manifestação coletiva de carinho tão intensa como a que vi quando chegamos à verde-e-rosa.

Foi a Beth embicar o carro na Visconde de Niterói, lotada, para que eu me sentisse um hebreu atravessando o mar. Homens, mulheres, velhos e moços, olhos em festa pra dentro do carro, centenas de mãos indicando vagas que não existiam, flashes de câmeras digitais e de celulares explodindo em direção a ela, um troço que não dava pistas exatas do que ainda assistiríamos dentro da quadra.

Estacionamos bem diante do Palácio do Samba e nos aguardava – aguardava a ela, é óbvio! – Percival Pires, o Presidente da Estação Primeira. Ele mesmo nos levou ao camarote. E eis então, no exato instante em que a Beth chega ao camarote e saúda a multidão – e estou falando de algo entre 4 e 5 mil pessoas – o que se deu.

Alguém anuncia sua presença na quadra e a multidão irrompe em aplausos ensurdecedores. A bateria silencia. E um puxador começa:

“Chora
Não vou ligar! Não vou ligar!
Chegou a hora!
Vais me pagar!
Pode chorar! Pode chorar!”

E eu chorei. Eu chorei porque a multidão cantava à capela, sem instrumento algum, sem sequer a bateria, só no ritmo das palmas. Eu chorei porque via mãos em sua direção, olhos de êxtase, gente mostrando a camisa do Botafogo, a camisa da Mangueira, mandando beijo, mandando beijo, mandando mais beijo, e ela, de novo generosa como sempre foi comigo – foi, por exemplo, quem me apresentou ao Brizola, leiam isso aqui – me chamou pra perto dela.

Não quis ir, ou não pude. Um pouco mais atrás, no canto do camarote, bebericando minha cerveja, eu chorava diante da energia que vinha daquele povo.

De lá ainda partimos para comer o meu podrão preferido, na Praça Saens Peña, onde – vão tomando nota da proporção que as coisas tomam – a Socorro não nos deixou pagar um centavo – “Imagina, gente, vocês trouxeram a Beth aqui…” – a Beth ainda deu uma dúzia de autógrafos, posou pra diversas fotografias e, hilariante momento, foi convidada para passar o reveillón na casa de um sujeito que se aproximou, entregou a ela um cartão e disse, “Pô, madrinha, se a senhora quiser me dar a honra de pintar lá em casa no dia 31…”.

Fomos deixados de volta, eu, Dani e Prata Querubim (que sem condições de locomoção dormiu aqui em casa), às seis da manhã, sol já mandando ver.

Fecho o texto com uma fotografia feita pelo celular do menino que, extasiado e enrolando a língua, me pediu:

– Edu… Tira uma foto minha com a Beth e com o Cartola?

Saquem a expressão do garoto, com a latinha na mão…

Beth Carvalho e Pratinha na quadra da Mangueira em 16 de dezembro de 2006

Até.

7 Comentários

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7 Respostas para “>UM SENHOR SÁBADO

  1. >Que bacana EDU!Quem me dera ter a honra de passear por grandes quadras de escola de samba acompanhado da Beth Carvalho!! E viver um momento como esses!! E a cara do Pratinha?… Diz tudo! Este trecho ficou excelente: “O Prata, meus fiéis leitores, estava mais salgueirense que nunca… Dono de pele alvíssima, tinha a face vermelha, as orelhas em fogo, os olhos vidrados”.Sensacional! Grande texto!!

  2. >Ai Edu, tanto calor aí (na temperatura e no coração) e aqui tanto frio!!Bom Natal, Susana!

  3. >Edu, que tal a caipirinha do Mário?

  4. >Fala Edu,Meu sábado também foi muito bom. Fui em uma festa na Visconde de Abaeté, em Vila Isabel, e tardão da noite, advinha pra quem eu bati o fio afim de conduzir a mim e minha dama para casa? rsAbraço!!!Caio

  5. >Caio: Pro Paulinho, evidentemente! Acertei!? O cara é o maior, né não? Abraço, cara!

  6. >Edu, vc, como sempre…….preciso do início ao fim!!!rsLógico que foi!!!Ah..mandei um e-mailzinho para O Globo com cópia pra vc..depois da uma lida!!Abç!!!

  7. >Opa Edu, tudo bem?? de repente não se lembra de mim, trabalho com a Dani (sua Sorriso Maracanã) na Wise Up, e um dia ouvi dizer que seu blog era muito bom, após algum tempo tentando lembrar o nome sabia que era um buteco, consegui encontrar e para minha grata surpresa, encontro no dia que está falando de Beth Carvalho. Deve ser uma coisa fantástica poder ter como amiga uma pessoa do carisma dela… a propósito, esse sábado em questão eu era um dos que estava cantando… tava lindo aquele dia!!!

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