>O GLOBO E UM CRIME DE LESA-PÁTRIA

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Eu escreveria um texto sobre o crime de lesa-pátria cometido pelo jornal O GLOBO, ontem, mas prefiro transcrever, na íntegra, o que escreveu meu mano Simas, no imprescindível “Histórias do Brasil”. Mas não sem antes dizer que é triste verificar a vertiginosa queda de qualidade do jornal que é um dos – eis a funesta piada – principais jornais brasileiros. É inadmissível, como vocês verão, uma de suas empregadas escrever o que escreveu. Como é inadmissível que os editores não tenham impedido a publicação do texto mal escrito, burro, deseducador. Com vocês, o texto “O SAMBA DA JORNALISTA DOIDA”:

“Senhoras e senhores, escrevo hoje em missão cívica, com a alma exacerbada dos maiores clamores patrióticos. Sinto-me, em essência, um André Vidal de Negreiros combatendo em defesa da terra nas gestas de Guararapes. Um fato gravíssimo, de dimensões maiores do que supomos inicialmente, aconteceu. Explico, ainda trêmulo de indignação.

O metrô do Rio entrou em pane essa manhã. Fiquei mais de uma hora parado na estação Afonso Pena aguardando a normalização do tráfego. Para matar o tempo, comprei um exemplar de O GLOBO, jornal que parei de assinar recentemente. Ao passar os olhos pelo caderno RioShow, deparei-me com uma reportagem sobre a estréia do musical “Besouro Cordão-de-Ouro”, com texto e músicas do grande Paulo César Pinheiro. Como fã dos dois, Paulinho e Besouro Mangangá, comecei a ler a reportagem com a curiosidade de um cristão que lê um relato sobre o Santo Sepulcro.

Eis que, em certo trecho, para minha completa estupefação, ponho os olhos no seguinte:

´Amado não escreveu, mas o capoeirista logo voltou à vida do músico por meio dos versos “Quando eu morrer / Não quero choro nem vela / Quero uma fita amarela / Gravada com o nome dela”, escritos por Besouro e usados por Pinheiro e Baden Powell no sucesso Lapinha.´

Leitores, eu senti um frio no estômago só comparável ao que sentia quando andava no Bicho da Seda – no saudoso parquinho da Quinta da Boa Vista – e ficava tudo escuro.

Li, reli, tornei a ler e, só então, dei-me conta do inapelável – era isso mesmo que estava lá, nas páginas do jornal de maior circulação da cidade. O nome da herege é Luciana Brum.

Como é que uma empregada de um jornal que se pretende sério, atribui a Besouro Mangangá a autoria de ´Fita Amarela´? Isso é Noel Rosa, criatura. Será que a moça não sabe que os versos atribuídos ao capoeirista são ´Quando eu morrer me enterrem na Lapinha / calça culote, paletó almofadinha´, brilhantemente citados no clássico do Paulo César Pinheiro e do Baden?

Como é que um jornal publica um negócio desses? E um jornal carioca, cacete. Para piorar, tal barbaridade foi escrita na semana em que Noel Rosa completaria 96 anos, fato, aliás, ignorado pelo O GLOBO.

Aposto um time de botões de galalite como essa Luciana Brum resolveu pesquisar no Google as referências sobre a música. Mesma opinião tem o Edu Goldenberg, para quem liguei assim que li o arrazoado bestial. Dez por um como ela colocou o ´quando eu morrer´ para guiar a pesquisa, veio a letra de ´Fita Amarela´ e a ex-jornalista tascou na matéria, com o mesmo rigor com que eu ponho polvilho antisséptico Granado em assadura na bunda e Leite de Rosas no suvaco.

Dona Luciana e O GLOBO deveriam ser processados por quatro tentativas de assassinato, os de Besouro, Baden, Paulinho e Noel. Escrever uma monstruosidade dessas é comparável, em Portugal , a atribuir a Bocage o verso ´as armas e os barões assinalados´. Dá cadeia e tudo.

Se perguntarem pra esses arremedos de jornalistas que inundam a redação de O GLOBO sobre a arte contemporânea pop, a festa High Noon de Santa Teresa, o Rio E-Music Festival , o DJ Mike Relm, a cozinha contemporânea do Manekineko Diferente, o Rio Garden Festival e a reforma de R$500 mil da boate Baronneti – tá tudo isso noticiado na edição de hoje de O GLOBO – os caras vão falar tudo certinho. Botou a cultura brasileira na história, deu merda.

É, meus amigos, o negócio é fortalecer cada vez mais nossas trincheiras, que os bárbaros estão tomando tudo. Roubam nossa língua, nossos butecos, nossos batuques, nossos mitos, nossos heróis… Tá feia a coisa. São os mudernos, queridos, os mudernos…

Eu sugiro, por fim, que a cidadã que escreveu isso seja condenada a varrer a redação por uma semana. A editora do caderno deve ser sumariamente obrigada a comparecer ao bairro de Vila Isabel durante um mês, todos os dias, para respirar o ar que Noel Rosa respirou e parar de compactuar com maluquices. O GLOBO é caso perdido, a redação é um valhacouto de bestas quadradas. Eles que se danem.

Eu, daqui, às margens do rio Maracanã, abro a primeira gelada do dia em homenagem a Besouro, Baden, Paulinho e Noel, cantando, como se canta o Hino Nacional em final de Copa do Mundo, ´Fita Amarela´ e ´Lapinha´.

Não passarão!”

Até.

9 Comentários

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9 Respostas para “>O GLOBO E UM CRIME DE LESA-PÁTRIA

  1. >Alguém leu o exemplar de hoje? Eles admitiram a cagada? Abraços

  2. >Simas, querido: eu li! Eu li! Li na praia. E – adivinhe? – é evidente que não há NENHUMA menção a esse crime. Há, depois você mesmo leia, um texto patético, mal escrito, preconceituoso e repugnante assinado pelo tal do Ximenes, coleguinha da ACR, do caderno ELA, sobre o Trem do Samba… Um troço execrável, depois me diga.

  3. >Edu, acabei de ler o tal texto e vou te fazer um pedido, na condição de irmão e carioca – responde a esse Ximenes, pelo amor de Deus e de São Sebastião.Beijo

  4. >Realmente essa foi inacreditável. Mais um motivo para comemorar o cancelamento desse lixo entregue em casa.

  5. >Olha, Edu, eu, nas minhas condições de capoeirista, se visse a tal jornalista que cometeu essa lamentável gafe, daria uma meia-lua de compasso e um martelo nos córneos dela! Que que há, porra!, Besouro compositor? Essa foi de doer os ouvidos!!!

  6. >Amigos:O jornalismo está em crise no mundo inteiro, não apenas no Globo. A pobre jornalista que vocês execram com tanta desenvoltura é apenas uma menina, que recebe uma salário miserável (acreditem: miserável) para escrever oito, dez matérias por dia. Se há alguém ou algo que mereça uma meia-lua de compasso nos córneos não é ela (nem o Globo). É o modelo econômico que nos leva a essa situação. Que contribui para a falta de interesse da população por jornalismo de qualidade. Que alimenta a sede da nossa sociedade pelo supérfluo, pelo efêmero, pelo fácil e pelo rasteiro. Que incentiva a explosão dos jornais populares, e obriga os veículos tradicionais a minguarem, enxugarem custos e investimentos, e a se popularizarem também. Os jornais, amigos, vocês sabem, não educam ninguém. A sociedade é que se educa, se reeduca (e, infelizmente, às vezes, como hoje, se deseduca) através dos jornais. E nesse nosso atual inferno pós-moderno-globalizado, a pobre jornalista que vocês desejam espancar é, na verdade, uma guerreira. Uma triste guerreira. Mas, certamente, a que menos tem culpa pelo erro que justificadamente revoltou vocês. O erro merece todo o repúdio, claro, mas o errador merece, certamente, um pouco mais de tolerância. Pois o problema aqui é muito mais grave e comprometedor do que apenas um jornal em decadência. Um abraço a todos,Juarez BecozaColuna Pé-SujoCaderno Rio Show

  7. >Discordo quase totalmente do que foi escrito aqui em defesa da “jornalista doida”. Entendendo que o sistema, vilão escolhido pelo defensor, tem uma queda forte pela exploração do trabalhador. Mas eu, leitor, quando saco minha carteira e pago, caro, diga-se de passagem, pelo jornal que pretende ser um dos melhores do Brasil, não quero saber se a “herege” , como disse o Simas, precisa se virar pra fazer oito ou dez matérias por dia em troca de um salário miserável. Quero um trabalho com um mínimo de qualidade e que não cometa erros grotescos como esse! Que seja realmente supervisionado por alguém que não deve ter um salário tão miserável assim. Ou ainda, se cometido o erro, que o jornal tenha a decência de fazer uma errata, o que, pelo que eu saiba, ainda não foi feito. É por essas e outras já bastante debatidas aqui neste BUTECO que o jornal vem perdendo assinaturas de leitores que não precisam dele para ter opinião, pois são mentes livres e independentes, mas que precisam de um jornal que lhes traga informação com qualidade.

  8. >Caro Edu.Primeiro, parabéns pelo Buteco. Vou frequentar.Tenho um blog que tenta contar um pouco da história da música brasileira por meio de algumas letras. (http://portrasdaletra.blogspot.com.br). Acaba sendo, também, uma espécie de buteco. Pelo menos, essa é a idéia.Sou, também, amigo do Szegeri e endosso todas as palavras carinhosas com que você se refere a ele.Mas venho aqui para livrar, em parte, o da jornalista da reta. Óbvio que os versos de “Fita Amarela” não são de Paulo César Pinheiro, mas são, como os de “Lapinha”, inspirados em Besouro. Senão, veja a ladainha de capoeira abaixo:”Quando eu morrer Iê!Quando eu morrer disse Besouro (bis)Não quero choro nem velatamben não quero barulhona porta do cemiterioSo quero meu berimbaucom uma fita amarela, gravada com o nome delaE o meu nomeE BesouroComo é meu nomeÉ BesouroComo é meu nomeÉ Besouro”Saudações etílicas!Luís Pini Nader

  9. >Essa discussão encerrou faz tempo, mas cai aqui hoje exatamente pra pesquisar quais eram os versos do besouro nessa música. Sou jornalista e recebi o seguinte release da assessoria de imprensa: “Existe um samba, chamado Canto do Besouro, cujos versos de sua autoria “Quando eu morrer/Não quero choro nem vela/ quero uma fita amarela/ gravada com o nome dela” fazem parte desse samba conhecido de Noel Rosa, no qual nosso poeta escreveu a segunda parte. Esse refrão também foi usado por Paulo César Pinheiro em Lapinha (em parceira com Baden Powell) – sua primeira música gravada, e sucesso na voz de Elis Regina – com a qual venceu um dos mais concorridos festivais de música popular, a Bienal do Samba, da TV Record, em 1968.”Como tá ultra mal-escrito, faz a gente pensar q a fita amarela é verso do Besouro. A tal jornalista deve ter usado essa fonte.

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