UM RIO DE LÁGRIMAS

Vejam vocês a ironia das situações! Vivi, no sábado, ao lado de queridos meus, um momento tão mágico quanto encantado, capaz de, até esse exato momento, me fazer questionar, sem exageros, se aquilo de fato aconteceu ou não. Vou lhes contar. Mas antes, vamos à ironia. O Flavinho, meu querido Xerife, deixou, hoje, às 8h32min, o seguinte comentário no texto dedicado ao Salgueiro, aqui:

“É o maior rio de lágrimas da net…”

Era, meu querido Flavinho, era. E vou explicar.

Acordamos no sábado, eu e minha Sorriso Maracanã, com uma determinação bíblica: vamos almoçar no Casual!

O Casual, para quem não conhece, é comandado pelo grande Santos, e fica na esquina da Rua do Ouvidor com a Travessa do Comércio, a poucos metros da melhor e mais carioca das livrarias, a Folha Seca, dos queridíssimos Rodrigo Folha Seca e Dani.

Batemos o telefone para papai e mamãe, que toparam o convite. Toparam o convite e amaram o restaurante e a livraria, que não conheciam. Foram horas de deleite, ali, saboreando lulas a vinagrete, punheta de bacalhau, muito chope, arroz de tamboril com camarão, taças de vinho tinto, e livros, e discos, e muito mais. Com outros compromissos, partiram os dois, deixando-nos ali, naquela esquina que nos reservava uma surpresa indizível.

Como a vida é feita de coincidências, e como as coincidências dão mais graça à vida pelo que guardam de inusitado, chegaram Simas e Candinha. E com eles, Adelino, Claudão e Ana com Clarinha, Rodrigão e Mônica com Miguel, Evelin, Joana, e Rodrigo Folha Seca com sua Joana depois de fecharem a livraria às 15h. Eu e Dani, evidentemente, sentamos à mesa com eles e havia, ali, como sempre há, diga-se, uma aura de coisa boa que as palavras não conseguem descrever, como os olhos, quando deitados em Mangueira.

O Simas, num gesto de generosidade olímpica, comemorando especialíssima data, anunciava:

– A conta hoje é minha!

E estava, de fato, o Simas, num dia de nítida alegria. Veio à certa altura e sentou-se a meu lado. Já tinha, o calvíssimo Simas, os olhos marejados:

– Edu… Você já conhece o Miguel? – disse referindo-se ao menino, quatro anos de idade, filho do Rodrigão e da Mônica.

– Não.

– Miguel, venha cá!

E me disse no ouvido:

– Um grande garoto, Edu! Um grande garoto… – e tomando o menino pelas mãos, disse:

– Você é filho de quem, Miguel?

– Xangô!

Gargalhou, o Simas, e voltou-se a mim, e eu também ria diante da resposta do moleque:

– Um grande brasileiro, Edu… Um grande carioca!

A certa altura liga-me o Prata. E vai ao nosso encontro. Lá chegando, saca do violão, e começamos, sem nada planejado, a cantar Noel Rosa, numa homenagem ao aniversariante, que faria hoje, 11 de dezembro, 96 anos de idade! Canto eu, canta o Simas, canta o Prata, canta o Rodrigo Folha Seca (e erra o tom), e ficamos nisso, bebendo e cantando, quando deu-se a mágica após intensa pancada de chuva, dando um tom ainda mais enigmático e impressionante pra tudo.

alunas do Jongo da Serrinha

Dobram a esquina umas trinta, quarenta crianças, guiadas por duas moças lindas, com sorrisos em flor, todas com a mesma camisa, onde lemos “JONGO DA SERRINHA” e param diante de nós, formávamos uma roda, e o Rodrigo Folha Seca dá o grito:- Palmas pro pessoal do Jongo da Serrinha!!!!!

O Simas cutuca o Prata e puxa:

“Serra
Dos meus sonhos dourados…”

A criançada em côro:

“… onde nós fomos criados
Eu hei de morrer
Não desfazendo de ninguém
Serrinha custa mas vem…”

Deu-se o seguinte: eu chorava, Prata chorava, Simas chorava, Rodrigo Folha Seca chorava (errando o tom, evidentemente), todos nós ali, diante daquela força inexplicável, diante daquele susto, diante da beleza dos sorrisos daqueles meninos e meninas, chorávamos copiosamente. Uma das meninas disse:

– Vamos cantar um jongo pra eles…

E cantaram. E das mesas fizeram tambores, surdos, caixas, bongôs, e quando partiram, ainda cantando, devolvemos – como se fosse possível – a homenagem:

“Menino de 47!
De ti ninguém esquece!
Serrinha, Congonha, Tamarineira,
nasceu Império Serrano
o reizinho de Madureira…”

Eu, particularmente, nunca mais – esse “nunca” dito com a ênfase szegeriana – vou me esquecer não apenas do momento, que durou no máximo uns 10 minutos, mas do olhar daquelas crianças, orgulhosas, emocionadas também diante da emoção de um bando de malucos, e especialmente do olhar de uma das meninas, também marejado enquanto ela cantava, e eu, num delírio, pensando que era pra mim.

Até.

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28 Comentários

Arquivado em botequim, Rio de Janeiro

28 Respostas para “UM RIO DE LÁGRIMAS

  1. >Que dia, hein? Que dia!! Na mesma hora dessa porra toda, eu ouvia comovido meu amigo Lauro falar que descobriu agora ser pai de uma mulher de 40 anos (vascaína e abstêmia), gerada, segundo ele, “no tempo em que eu ficava de pau duro até vendo galinha fazer cocô”. Que beleza! Que rica construção poética!

  2. >Cacetada, mano. Não há o que escrever sobre isso. Apenas queria deixar registrado: foi difícil segurar o choro ao ler o seu texto. Foi mesmo. Estou comovido, quase como se tivesse estado presente. Essas coisas, só no Brasil. E na rua, Edu. Na rua!Beijos.

  3. >Zé Sérgio: tu não contou o mais bonito!!!!! O cara já estava conformado com a história. Mas diante da descoberta – filha vascaína – ele, rubro-negro até a alma, gritou:- Vascaína?! Eu EXIJO o exame de DNA, porra!!!!!Brunão: foi justamente o que dissemos, uns aos outros, quando o bando de erês partiu… Sabe quando veríamos aquilo no Belmonte? Ou no Jobi? Na zona sul, que seja? Ou dentro de um shopping? Nunca, malandro! Nunca! Salve o Rio de Janeiro! Salve a rua, mano! Salve a rua!

  4. >Quem me dera estar lá para presenciar – e participar – desta cena. Eu, que já me emociono a cada vez que entro na quadra do Império Serrano, me desfaria na chuva desse canto infantil tão verdadeiro, tão de dentro, tão sincero, como sincero foi o seu texto. Abs Marcelo

  5. >Adoro esse samba, “Menino de 47”, é bom demais, sobretudo aquela parte “Só se falava na Portela…”

  6. >E você, Edu, que estava de porre quando contei a história, prometeu acompanhar o exame, na qualidade de advogado dele.

  7. >Zé Sergio, minha dinda querida: e você não estava de porre quando me contou, não? Parecia estar com a dentadura solta, dançando dentro da boca, inclusive… Aliás… você e seu dileto amigo, meu cliente constituído por telefone!

  8. >Edu, sensacional texto. Também fiquei com vontade de ter estado lá. Se foi metade do que você relata, já teria valido a pena.

  9. >”Metade do que você relata”??? Ô Romualdo, tanto tempo por aqui e você não entendeu nada…

  10. >Emocionante relato, Edu!

  11. >Roberto Romualdo, nada como ter um irmão, como o Szegeri sempre a postos… Eu sou preciso do início ao fim. Sempre!!!!!Paulo: obrigado. E me permita uma ironia que sem elas eu não sou eu. Depois do Bip-Bip, li isso lá em seu blog vocês foram ao detestável bar cujo nome não quero dizer. Você acha que haveria uma chance mínimo de viverem, lá, troço semelhante? Não, né! Um abraço!

  12. >Certamente que não, meu querido. Não há discordância quanto a esse ponto. Abração.

  13. >Edu… eu sempre digo q a amizade se constroi em função das afinidades e dos momentos vividos juntos.Cara… nos presenciamos a mais pura manifestação da alma carioca… A cidade resolveu dar um Oi …. e nos restou chorar….. A mais perfeita manifestação do axé do Rio.

  14. >AHHH.. to esperando as fotos q o Adelino tirou

  15. >Edu, como sempre você foi preciso. Para acrescentar um pequeno detalhe, se não me falha a memória, a criançada cantou um jongo chamado Madalena…e foi bonito pra cacete, como o teu texto. beijo

  16. >É pessoal, o troço foi mesmo mágico. O Edu esqueceu de dizer que até o Santos chorou! Ontem, segunda-feira, o português não falava de outra coisa… E convenhamos: a criançada está dando um banho, vide o Miguel de Xangô e o meu Miguel Folha Seca, que você já citou aqui em outros momentos.E nossa cidade, apesar das rosinhas, dos garotinhos, dos arnaldos Jabour e dos globos da vida, continua linda!Agora Edu, vai à merda que eu canto muito!!!

  17. >Claudão: o livro de cordel que você me deu, com aquela dedicatória cheia de carinho foi, também, parte-ingrediente da magia da tarde!Simas: como você e o Digão gostam… Obrigado, querido! Foi mesmo esse jongo que a gurizada cantou pra derrubar a gente!Rodrigo: meu caro… Eu sou preciso do início ao fim… E não me permito deslizes… O que você quis dizer com “até o Santos chorou?”. Acho que você errou a mão na frase. Quanto à molecada, é verdade. Mas note que a molecada que vem dando um show e soprando dentro de nós essa esperança de que o Brasil e a cidade estão a salvo são as crianças que estão nas ruas e não nos shoppings! As crianças de pé no chão, se é que me faço entender… E fechando… Se você canta bem o Prêmio Tim 2007 é meu!

  18. >Lindo Edu!!!! Lindo!!!

  19. >Caraca, Edu!, é o de sempre – você, os teus amigos-irmãos e os momentos especiais eternizados em teus textos! Fico aqui, invejosamente, diante de tua crônica maravilhosa, a forçar minha imaginação – como seria se eu estivesse naquele momento vendo os erês, o Jongo? Se eu estivesse naquela hora bebendo com vocês?Francamente, Edu, eu fico PUTO da vida por não morar aí no Rio e, conseqüentemente, não poder participar disso tudo!Abraços!

  20. >Elizete: valeu a visita, foi bonita mesma a tarde…Ô, Felipe… Isso é o Rio de Janeiro, meu caro… O Rio de Janeiro que a imprensa inviabiliza, mas que se revitaliza a cada dia, a cada fim de tarde, sempre na rua, nos paralelepípedos da velha cidade que se arrepiam noite após noite! Não fique puto, meu velho. Curta por aqui. E venha o quanto antes. Vai ser um prazer bebermos juntos. E prometo que será naquela esquina! Grande abraço!

  21. >Depois você reclama…

  22. >Deu vontade de estar lá…Realmente é uma esquina mágica, sempre fico com a sensação de que estive no verdadeiro Rio de Janeiro

  23. >Sem comentários !!!!!!!! Tem coisas q nem todo dinheiro do mundo paga ………….. ô sorte !!!!

  24. >Flavinho: aparece mais então, pô! Estamos sempre por lá…Verdade, Kadu, verdade… Abraço!

  25. >Ouvidor e Comércio formam uma encruzilhada poderosa e mágica!Quantos momentos incríveis já foram vividos ali!Parabéns pelo texto Edu!Daqui de casa, nesse calor de domingo ao meio-dia, fui transportado pelo texto ao bar do Santos e senti a força desse momento de manifestação sublime da alma carioca! Vocês “tiraram as flechas do peito do padroeiro” nesta tarde… Ele vai se salvar!!!

  26. >Edu, querido, acabei de ler o texto que o Bruno roubou de você (por uma causa justa) no blog do jornal, e claro, não puder deixar de vir aqui e dizer o quanto eu achei lindo, de uma poesia sublime, pareceria algo tirado de alguma lenda publicada em livro se não fosse verdade! Confesso que quando li, parei e pensei: Meu Deus, como eu sou feliz por ser quem sou e amar esse país, acreditar nessa pátria! Coisas maravilhosas existem por aqui, e parece mágica! Parabéns, esse momento nunca passará! Até eu me sinto como se estivesse lá, pena não ter compartilhado ao vivo e a cores, mas sinto em meu coração! Bjos enormes.

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