>AS VANTAGENS DOS CONFRONTOS

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Eu disse, recentemente, quando declarei, de público, de pé no banquinho imaginário do Buteco, meus votos no primeiro turno das eleições e meu voto em Lula nesse segundo turno que se aproxima, que uma das vantagens desse segundo turno é, justamente, o que emerge do confronto direto entre apenas dois candidatos. Disse eu, naquela oportunidade: “O segundo turno tem inúmeras vantagens – e mesmo tendo votado em Lula, confesso que achei ideal essa segunda etapa da eleição presidencial, que veio como a materialização de um gesto simbólico de não entregar carta branca ao atual Presidente da República – e dentre elas a que eu julgo a principal: pôr, frente a frente, como as duas únicas opções, os preferidos do eleitorado.”.

Feito esse breve intróito, vamos ao assunto que quero abordar hoje. Fica, o intróito, como digressão necessária para melhor compreensão do que penso.

Estou pensando aqui na maneira ideal de dizer o que eu quero e me vem à cabeça – vejam como ando, vejam como ando! – o Gérson, o Canhotinha de Ouro. Ele tem mania de, em suas explanações durante as partidas de futebol, referir-se aos jogadores como “figura A”, “figura B”, para que o ouvinte entenda o que ele diz. Vou me valer do mesmo método, até mesmo para não ter que escrever o nome sujo da figura tosca que é o que me move a escrever na tarde de hoje.

Mas vocês entenderão o que quero dizer. Estou confuso, estou confuso, é verdade, mas tudo ficará claro no final. Não entrarei no mérito do gesto da “figura A”. Dissertarei, isso, sim, sobre a covardia que se esconde sob o manto da imparcialidade ou mesmo sob a aparente nobreza do gesto de não tomar partido diante de um confronto. Farei nova breve digressão. Disse o Szegeri, quando escreveu o texto que figura na orelha de meu livro (comprem, comprem, comprem!), que não há nada mais gostoso (algo assim, o termo exato me foge e, creiam, não tenho meu próprio livro aqui comigo!) do que brigar por um amigo mesmo quando ele não tem razão. Isso, meus poucos mas fiéis leitores, é de uma beleza e de uma profundidade agudíssimas! Dito isso, em frente.

Um certo dia, bate à porta da “figura B” a “figura A”. A “figura A”, apresentada à “figura B” por uma terceira figura, pede, implora, roga, esmola mesmo, uma ajuda, uma mãozinha (como diriam os antigos, como eu), alegando – e eu digo isso de mãos dadas com a precisão que me acompanha como sombra inseparável – necessidade, extrema necessidade, pedindo uma oportunidade, um “help” (como diria minha Sorriso Maracanã), e a “figura B”, alma de altíssimo quilate, atende o pedido, comove-se com a cena, com a situação, estende as mãos, abraça a nefasta figura com a gratidão que nem os franciscanos têm disponível.

E um dia – mas nada disso importa, vejam bem! – a “figura A”, agindo como se tudo fosse planejado desde o princípio, agindo de forma suja, fétida, de uma forma que enoja e causa engulhos, cospe no prato que comeu (a expressão é escrita propositalmente, eis que literal até a alma) e trai – não há verbo mais bem empregado – a “figura B” de maneira torpe. Eis aí, meus caros, a Ingratidão, maiúscula, que nesse exato instante me dá ânsia de vômito, eu que aprendi com meus pais, quando ainda não sabia nem falar, que não há nada mais bonito do que o sentimento de gratidão, que eu nutro e alimento diariamente em nome do amor de meus pais, vítimas também, por tabela, dessas vilanias que infelizmente crescem, vertiginosamente, nesse mundo cada vez mais feio.

Mas se nada disso importa do que vou falar?, ouço daqui a pergunta.

Vou falar da vantagem que tem um confronto estabelecido, por exemplo, depois do gesto sujo da “figura A” contra a “figura B”.

É que fica, como no segundo turno das eleições, tudo muito nítido.

E me enojam, também, as demais figuras que eventualmente cercam “A” e “B” e que dizem, com um risinho cínico na cara, aquela frase feita que é característica dos covardes que não tomam posição diante de um conflito: “não quero me meter”.

Como – eu me pergunto – não tomar posição diante das evidências?

Como não tomar partido do que é correto, do que tem um passado limpo no que diz repeito a gestos humanitários (não estou exagerando) e não execrar, com toda a força, aquele que joga sujo, premeditado, que não merece um mísero gesto de compaixão?

De pé, diante do balcão, quero dizer a todos vocês – leitores assíduos, visitantes ocasionais, aos que me conhecem, aos que não me conhecem, aos que estão aqui pela primeira vez por um acaso qualquer – que eu, sim, sou guerreiro, disposto a lutar, sempre e até o final, pelo que é justo e pelo que me é caro, pelos meus caras, pelas minhas pessoas, pelos meus amigos. De mim – escrevam! escrevam! -, da minha boca, vocês jamais (dito com ênfase szegeriana) ouvirão esse blá-blá-blá confortável que se confunde – eis a verdade que machuca – com covardia.

É preciso – penso isso com mais certeza a cada dia que passa -, sim, sempre, tomar partidos e marcar posições, nem que seja, apenas, para que tenhamos, depois, quando formos apenas saudade, uma biografia mais bonita.

Até.

5 Comentários

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5 Respostas para “>AS VANTAGENS DOS CONFRONTOS

  1. >Capitão-do-mato,As baterias estão voltadas, em estado furioso, para a figura “A”, e fodam-se os que forem omissos. Saravá!

  2. >Assino embaixo, Edu. O “muro” é o lugar dos covardes, dos que têm medo, desde cedo, da suposta cobrança posterior. Como bem disse o Paulo Cesar Pinheiro, se a mudança em que a gente acredita não dá certo, “a gente muda de esperança”, mas deixar de tê-la? Isso não!

  3. >Capitão-do-mato,Em ainda crescente indignação, um adendo, endereçado aos vis em cima do muro: … “para que quando forem saudade, possam vir a ter uma biografia que seja”.Saravá!

  4. >Edu eu sou leitor assíduo e me junto a vocês no repúdio aos covardes. Muito bom o texto. Abraço.

  5. >Também tenho nojo dos que se acovardam. Texto obrigatório sobre o assunto.

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