DUAS NOTAS TRISTES

Como já lhes disse, deixei de assinar O GLOBO. Mas o Jota não deixou de faturar mais um bocado com a nota que publica, hoje, em sua coluneta. Como estou sem câmera fotográfica (acionando a Canon judicialmente), fico devendo a fotografia da prova do crime. Mas eis a íntegra da mesma:

“On te rocks

Dono de seis botecos Belmonte, Antônio Rodrigues abrirá novo bar em janeiro, agora de padrão sofisticado, em Ipanema. Nada de chope. Será especializado em uísque e destilados. Chamar-se-á, numa referência à catedral da boemia Zona Sul nos anos 60 e 70, Antonio´s.”

Vejam que lixo, acompanhem comigo. O Jota deu seu jeito de meter, de novo, o nome Belmonte no jornal, e isso para anunciar um outro bar que inaugurará apenas em janeiro. Deu seu jeito de citar o testa-de-ferro dos espanhóis, o Antônio Rodrigues, e de dizer que já são seis as mentiras espalhadas pela cidade sob a grife Belmonte. Mas há mais! Há mais! Não diz, o homúnculo, que da mesma forma que o Belmonte não é o verdadeiro Belmonte, glorioso pé-sujo na Praia do Flamengo que foi comprado, reformado, conspurcado e destruído pelo investidor, o Antonio´s a ser inaugurado em Ipanema não será, jamais, o Antonio´s original. Mas não será esse o peixe a ser vendido mais à frente. Vocês vão ver.

Mas agora, mudando de pato a ganso, ou de pato à vaca – termo mais apropriado para o tema, como vocês verão – quero lhes contar sobre um troço que me deixou envergonhadíssimo, revoltado, indignado, puto da vida. Breve pigarro, um tapa no cigarro no fundo do cinzeiro, e vamos em frente.

Na manhã de ontem, segunda-feira, foi homenageada na Câmara de Vereadores da Cidade do Rio de Janeiro uma mulher de nome Maria Dora dos Santos Arbex (sem o negrito, que ela não merece). Recebeu a outrora valorosa medalha Pedro Ernesto. Vamos fazer breve histórico dessa barbaridade para que vocês possam acompanhar a palhaçada sem precedentes. Maria Dora, recentemente, reagindo a um assalto que sofrera no Flamengo, e portando ilegalmente uma arma de fogo, atirou no homem que tentara assaltá-la e, errando o alvo, acertou sua mão.

Valendo-se de uma absurda regra do Regimento Interno da Câmara dos Vereadores, apenas dois – eu disse dois! – vereadores (um do PFL e outro do PSDB) votaram e aprovaram o requerimento apresentado à Mesa Diretora da Câmara pelo vereador Carlos Bolsonaro, filho do deputado federal Jair Bolsonaro e irmão do deputado estadual Flávio Bolsonaro, todos três presentes à absurda solenidade, e toda a canalha sem o negrito também. Atentem, por exemplo, para o discurso do fascista vereador:

“Estamos congratulando uma pessoa que cansou de esperar o governo do estado para defendê-la. A medalha não é por ela ter atirado em alguém, mas pelo simbolismo do ato, que externa o sentimento de um povo cansado de tanta violência, sem que os órgãos responsáveis tomem qualquer atitude. É uma pena que o tiro tenha pegado na mão e não no coração, pois seria um vagabundo a menos.

O grifo é meu, evidentemente. Como é meu o adendo: o vereador é apenas mais um que envergonha o cidadão do Rio de Janeiro, mais um Bolsonaro preconceituoso, de extrema radical direita, fascista, e que deveria – se tivéssemos alguém corajoso à frente das instituições públicas – ter, apenas por essa sua fala, cassado seu mandato.

Empolgada com a homenagem, e cercada de fascistas como ela – vocês sabem que esses caras crescem quando juntos – disse o seguinte, Maria Dora:

“Se não tem albergue ou não quer ficar no albergue, então fica no meio do mar. Bota num navio e descarrega longe. Na minha calçada, na minha rua, é que não vai ficar.”

Propondo um método utilizado no Brasil durante a ditadura militar, e em outros países da América do Sul, a homenageada não teve um único vereador, uma única vereadora, com coragem suficiente para, de dedo em riste, lhe dizer que as calçadas, as ruas, são do povo, e não sua propriedade, arrogância bastante comum em gente dessa estirpe.

Mas que fazer?, me pergunto.

Até João Ubaldo Ribeiro, que só escreve bosta aos domingos, não por acaso no jornal O GLOBO, veio a público defender essa fascista, que deve responder pelo crime que cometeu.

Como também deve responder pelo crime que cometeu o sujeito que tentou assaltá-la, devo dizer antes que uma canadense qualquer venha bradar contra mim.

Por fim, mesmo sabendo que eu jamais serei indicado para receber a medalha Pedro Ernesto – que não tem nenhum valor já há bastante tempo – quero dizer que, se isso vier a acontecer um dia, eu rejeitarei, com toda a veemência possível, a honraria que foi entregue a essa psicopata.

Até.

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14 Comentários

Arquivado em botequim, imprensa

14 Respostas para “DUAS NOTAS TRISTES

  1. >Fiquei estarrecido e indignado com essa homenagem…Pior foi vendo agora a TV ALERJ, outro da laia dos Bolsonaros, o Deputado Sivuca (o que diz que bandido bom é bandido morto), defendendo também o ato, e dizendo que a fascista devia, sim, era ter atirado na testa do assaltante.Assaltante este que, segundo amigos meus que moram pelo Flamengo, nunca fez nada de mal a ninguém, e que inclusive é um mendigo educado, que dá bom dia para os moradores…Ridículo (e nesse caso incluo meu amigo Eliomar Coelho) é nenhum vereador ter tomado atitude contra…Vou perguntar ao Eliomar detalhes sobre o que realmente houve.Acho que todas as pessoas de bem (e não foram poucas) que receberam essa medalha, deviam fazer o mesmo que fez o querido Jaguar, quando Roberto Jefferson foi agraciado com tal comenda, e devolver a medalha…Podíamos iniciar uma campanha para isso, encabeçada pelo proprio Jaguar, que tal?!?!Abraços,Tiago Prata

  2. >Capitão-do-mato,Quem é um merda como esse testa-de-ferro para “homenagear” o Antonio’s? Putaqueopariu! Agora, realmente, o malandro ultrapassou o limite do tolerável; isso não é homenagem a catedral da boemia porra nenhuma, trata-se de vilipendiação de cadáver, crime inscrito no Código Penal e sujeito a pena de detenção.E, Pratinha, não creio que o Jaguar assumisse a frente de qualquer campanha que o “comprometesse” …Saravá!Fraga

  3. >Pratinha: sou obrigado a concordar com o Fraga, mano. O Jaguar não é muito de liderar qualquer campanha que represente risco mínimo, que seja, para sua imagem. Além disso, tem umas visões dúbias sobre uma porrada de coisas… Detesta chope com creme, que ele chama genialmente de “chope com peruca”, mas está sempre no Belmonte. E escreve no jornal O DIA, sendo que jamais bateu, nem de leve, nos verdadeiros donos do jornal, o Casal Garotinho. Ele devolveu a medalha, é verdade, mas não por causa tão nobre.E Fraga, meu dileto advogado… Você acha que o jota tem limites?Beijo nos dois.

  4. >Edu, o Jota é caso perdido. Concordo inteiramente com o Fraga. Sugiro apenas que você, seguindo a tradição de não destacar nomes de fascistas e pilantras, retire do negrito os nomes dos canalhas da família Bolsonaro.Pratinha, meu amor, o Jaguar vai ficar na dele. É melhor você perguntar de fato ao Eliomar que merda é essa.Não passarão!

  5. >Simas: negritos retirados, meu caro. Bem lembrado!Não passarão!

  6. >Cacetada, Edu. Essas notícias estragaram o meu dia. Principalmente a segunda. Essa velha é a síntese do fascismo enrustido que ronda as cabeças da classe média alta do Rio e São Paulo. Pra cima deles. Não passarão!

  7. >Preciso vir ao seu blog com mais frequência. Me faz muito bem a leitura.Obrigada.

  8. >Edu,Sinistros acontecimentos.Vê luz no fim desse túnel?A medalinha dos vereadores não quer dizer porra nenhuma, não precisa de aprovação para ser cedida, graças a isso a filha do roberto jefferson conseguiu seus 2 únicos projetos como veredora : titulo de cidadão honorário do rio de janeiro para o seu papai e titulo de persona non grata ao Evo Morales no Rio de Janeiro…Qto ao Jota…po….todo mundo já sabe que aquilo é página de classificados mas ainda bem que existe gente que não se conforma, não esmorece..senão já era…Abraço…Flamengo x Vasco amanhã?P.S.:Pratinha tocando carinhoso na novela das 8 foi maneiro!!!rsCaio Vinícius

  9. >Sou contra ser politicamente correto, mas essa figura triste é um excelente exemplo do pior tipo de fascismo.Não sei como ela recebeu alguma medalha se o crime dela é inafiançável.

  10. >O fato citado é triste, mas assustador é a passividade dos “nossos” representantes.

  11. >O negrito do nome do escritor baiano citado também poderia muito bem ter sido limado.

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