OS PRESENTES IRRETRIBUÍVEIS

Dentre as coisas que me dão orgulho na vida estão o que tenho chamado de presentes irretribuíveis, e vou explicar. Não são, exatamente, os tais presentes que me dão orgulho; são, evidentemente, as pessoas, generosas e gentis, que através de gestos incríveis de desprendimento, vão permeando minha já não tão curta vida de emoções e beleza indizíveis.

Vou correr o evidente risco de um ou outro esquecimento, puramente momentâneo eis que os tais presentes estão tatuados na minha alma de forma perene. Mas posso dizer que foi como presente irretribuível que recebi o carinho da Gloria, do Delson e do Tico, quando acolheram a mim e à Dani em Natal (aqui). Foi como presente irretribuível que recebi, embasbacado, numa de minhas idas a São Paulo, uma cuíca de presente oferecida pelo Capitão Leo (aqui). Foi como presente irretribuível que recebi, antes mesmo do início do lançamento do meu livro em São Paulo, no Ó do Borogodó, a caneta Parker 51 com que meu irmão Szegeri aprendeu a escrever (aqui). Foi também como presente irretribuível que recebi, na condição de fiel depositário, das mãos do Toledo, o pai do ilustrador, a coleção completa d´O Pasquim (aqui). Igualmente irretribuível foi o presente que nos deram os queridos Próspero e Cidália, em Portugal, uma garrafa-relíquia de vinho do Porto, guardada como tesouro (aqui). E, o mais recente presente irretribuível, jóia dada pelo Bruno Ribeiro, um cracaço, uma fita-cassete com um discurso do Brizola, em Brasília, durante a Marcha dos Cem Mil (aqui).

Pausa para breve digressão.

Tudo isso veio a reboque, tudo isso veio depois que a Dani Sorriso Maracanã, a mulher que me ensinou a sorrir e a ser verdadeiramente feliz, chegou, como a concretização plena de tudo o que sempre sonhei. Para vocês terem uma idéia, na época em que vacas tentavam destruir meu pasto, em vão, eu não ganhava nem um “olá”, um “oba”, um nada. Termino a digressão, pigarreio, achato o cigarro no fundo do cinzeiro e sigo em frente.

Eis que no domingo passado, quando entrevistei o Moacyr Luz no Beco do Rato, na Lapa, quando já me dava por satisfeito com essas intensas manifestações de amor – é amor, sim, pô! -, vem o Simas e me apronta mais uma.

Devo dizer, antes, que um presente irretribuível não é necessariamente algo de valor, e estou falando de dinheiro. O tal presente é, geralmente, nada mais nada menos do que a alma de quem o dá transformada em matéria para que possamos, nós, os laureados, tê-la, vê-la, guardá-la, tocá-la, e somente os craques, somente os que têm sensibilidade para isso, percebem que nos farão intensamente felizes com essa entrega. Eu digo mais: o presente irretribuível só tem sentido para quem o recebe. Um ou outro ainda será capaz de fazer cara de espanto e muxoxar “mas por que tamanha felicidade?”. Em nós, não. Em nós o troço cala fundo. E chega a doer de tão bonito.

Daí o Simas, que chora mais que o Szegeri, faz um “vem cá” com o indicador já com os olhos vermelhíssimos e úmidos.

Nova pausa.

O Szegeri costuma dizer, às vezes, diante de uma história linda de declaração de amor, o seguinte:

– Puxa vida… Eu sei que é mentira, mas é tão lindo…

Isso me passou pela cabeça quando terminei de ouvir a história e a declaração do Simas, mas esfumou-se a impressão. Tenho como verdades incontestáveis essas coisas bonitas que se derramam sobre nós.

– Edu… – ele está chorando enquanto fala com a mão estendendo algo que ainda não vi.

– Fala, querido… – já noto que vem coisa por aí.

– Eu estive em Cuba durante cinco meses, sabe? Lá, malandro, tive a chance de comprar cinco notas de cinco pesos, raríssimas!, raríssimas! – ele parecia fazer um comício – São de 1960, 1961, quando Ernesto Che Guevara foi nomeado Presidente do Banco Nacional de Cuba, e as trouxe para o Brasil para presentear meus amigos mais queridos… Toma!

frente de nota de cinco pesos cubanos, de 1960, assinada por Ernesto Che Guevara
verso de nota de cinco pesoas cubanos, de 1960

Ficamos ali, ó, um tempão, abraçados, celebrando a arte do encontro.

Até.

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4 Comentários

Arquivado em gente

4 Respostas para “OS PRESENTES IRRETRIBUÍVEIS

  1. >Você só ganha isso tudo porque merece!

  2. >O valor está além da nota, além da história, além de tudo. Putaqueopariu! E depois não querem que a gente saia por aí, chorando feito criança.

  3. >Você merece, você tem que chorar feito criança mesmo, você enche a nossa vida de ternura. Os 3 disseram tudo!

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