>O SZEGERI E O TARCÍSIO MEIRA

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Vamos, hoje, transformar o Buteco numa espécie de Via Dutra, saindo do Rio, já que durante a semana falamos muito do Simas, e tomando a direção de São Paulo, onde mora esse também fabuloso personagem, meu irmão siamês, o Szegeri, o Impronunciável, como ele mesmo faz questão, sempre, de frisar. Impronunciável porque ninguém sabe como pronunciar – evidentemente, ou não faria sentido o auto-epíteto – seu nome. Uns dizem “ségueri”, outros “sêgueri”, e eu confesso, mesmo sendo seu irmão íntimo, que não sei ao certo como se pronuncia o santo nome do malandro. Nem eu, nem a doce Stê, sua companheira, nem a Iara, sua filha e minha afilhada, nem o pai – notem o absurdo da situação – e nem mesmo a mãe. E pior, muito pior. Se você pergunta a ele “Como se pronuncia Szegeri?”, ele sorri cofiando a barba amazônica e não diz rigorosamente nada.

Dito isso, em frente. Passamos pelo pedágio e chegamos a São Paulo.

Eis aí a imagem do Szegeri.

Fernando Szegeri, em 24 de outubro de 2005, Bar do Chico, Tijuca, Rio de Janeiro

Fazia, no exato momento da fotografia, com o indicador apontado para o céu, não uma propaganda da Brahma, a cerveja que se intitula a número 1, a preferida, aliás, do meu mano paulista, mas um veemente discurso cujo ápice foi o seguinte:

– Só há um homem, um único homem, um incomparável e insuperável homem no Brasil! – bradava o Szegeri.

E os companheiros de mesa – estávamos num dos Encontros Ordinários da Sociedade Edificante Multicultural dos Prazeres e Rituais Etílicos (da qual estou me desligando) – em uníssono:

– Quem?

E ele, sorrindo de leve, ajeitando a cadeira e tomando assento:

– Tarcício Meira.

Eis aí, meus poucos mas fiéis leitores, uma verdade: o Szegeri é um homem de quatro pelo Tarcísio Meira. Dir-se-ia, até, que se pudesse voltar no tempo, tomando a coisa pelo viés da doutrina espírita, meu irmão paulista teria pedido aos homens responsáveis pela seleção reencarnacionista, se lhe fosse dada a oportunidade:

– Eu quero nascer Glória Menezes.

Ontem mesmo, comentando aqui, no Buteco, e respondendo ao Bruno Ribeiro o por quê de não mais haver bigode nos rostos brasileiros, disse ele:

“Bruno, a resposta é relativamente simples: porque NINGUÉM – não sei se você reparou – NINGUÉM mais usa bigode. Com exceção do Tarcísio Meira, é claro, que tudo pode.”

Notem o fanatismo! Notem o tom messiânico!

Daí falei em fanatismo e lhes conto mais uma.

O Szegeri já assistiu ao filme “Independência ou Morte”, com Tarcísio Meira no papel de Pedro I, mais de cem vezes. Sabe, de cor, diálogo a diálogo, corte por corte, e repete, como um insano, junto com cada personagem, todas as falas do filme, um clássico do cinema nacional, estudado a fundo por Vitória Azevedo da Fonseca em dissertação de Mestrado apresentada ao Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas sob a orientação do Professor Dr. Leandro Karnal, que pode ser lida, na íntegra, aqui.

No último dia 7 de setembro, por exemplo, estou em casa com a Dani, curtindo o feriado, e bate o telefone fixo, sem identificador de chamadas. Eu atendo e só ouço guinchos, choro, soluços, uma aura de desespero do outro lado da linha. Grito:

– Quem é? Quem é?

E ouço a resposta atropelada por soluços impressionantes:

– As cortes de Portugal querem nos escravizar! De hoje em diante, as nossas relações estão cortadas. Eu nada mais quero do governo de Lisboa. Nenhum laço nos une mais. Pelo meu sangue, pela minha honra e pelo meu Deus, juro promover a independência do Brasil. Independência ou morte!

Eu, que já havia bebido, disse assustado:

– Tarcísio Meira?

E o Szegeri, tirando o telefone dos alto-falantes da televisão:

– Edu… Edu… – ele não consegue estancar o choro – que lindo! Que lindo!

Daí eu digo:

– Está vendo de novo esse filme, querido?

– Três vezes só hoje.

E deu de gitar:

– Cachorros! Cachorros!

Tentei acalmá-lo, mas em vão.

Pus o telefone no viva-voz, e minha garota testemunhou a confissão patética:

– Eu caso com o Tarcísio Meira! Eu caso!

E antes de desligar, alucinado:

– Tenho ódio, inveja, raiva, da Glória Menezes!

Até.

11 Comentários

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11 Respostas para “>O SZEGERI E O TARCÍSIO MEIRA

  1. >Estou estupefato! Como é, Dr. Goldenberg, que o senhor descobriu essa dissertação de mestrado? Sensacional! Tinha programado dedicar o fim-de-semana a compromissos etílicos ininterruptos, mas resolvi reservar um tempo de lucidez para proceder a leitura criteriosa do momentoso trabalho. Ah! Lembrei-me de outro brasileiro que usa bigode: o presidente da excelsa Câmara Federal, deputado Aldo Rebelo. Beijo.

  2. >Simas: melhor poderá lhe dizer, sobre essa minha capacidade de buscar coisas na grande rede, o personagem de hoje, meu mano Szegeri.Quanto ao Aldo Rebelo, trata-se de um comunista, como o Szegeri, que usa, como se vê, barba, cabelo e bigode.Será um pré-requisito para o ingresso nas fileiras do PCdoB?Aguarde notícias minhas para o final de semana. Ligo mais tarde para sua portentosa pessoa. Ou, então, vemo-nos na Folha Seca no horário combinado, hoje mesmo.

  3. >Eduardo, mas que dupla a SS, hein! Szegeri e Simas. Belíssimos personagens.

  4. >Já não bastasse a bebida, agora estou me viciando nesse buteco. Como são bons os textos!Parabens Edu!Abraços!

  5. >Edu, decida-se:É “Tarcicio” ou “Tarcisio”? Bigodes ainda há no Brasil! Eu me referia à ausência de bigodudos nos times de futebol. Na música também estão quase extintos. Louve-se a vasta cabeleira labial do grande Belchior!Abraço, mano!

  6. >Eu devo dizer que eu e meu amigo Fernando Szegeri temos inúmeras parecências (com exceção da barba e do bigode, fique claro): o amor incondicional pelo rei maior, Roberto Carlos, que nos arranca lágrimas imediatas, sempre; o samba e sua infinitude; o contorno familiar e suas esquinas; e o Tarcísio Meira, nosso Capitão Rodrigo, nosso Hermógenes, nosso Dom Pedro!, o homem mais lindo do mundo, ator incomparável em sua canastrice perfeita (alcunha que predica outros grandes como o Allain Delon e o Mastroiani), que sabe como ninguém sorrir por debaixo dos seus bigodes grisalhos, e que está, a cada dia que passa, mais sensacional, a despeito do Manoel Carlos e da Ana Paula Arosio (eu e Szegeri, sim senhor, assistimos à novela das oito só por causa dele). Sim, e que me perdoe o amor da minha vida, Augusto Diniz, eu casava com o Tarcísio, feliz e contente, pra todo sempre, amém.

  7. >A Juliana revelou uma faceta do Szegeri que eu não conhecia. Sinto-me à vontade para revelar também:- Szegeri, o Rei é foda. E “Emoções” é uma das músicas mais bonitas já feitas no Brasil!”Se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi”. Digna de um epitáfio! Lapidar!

  8. >Edu!Eu, na minha mais pura ignorância, pensava que algumas coisas eram inconfesáveis! Pois bem, depois de vários meses sem acesso aos comentários deste buteco, deparei-me com estas confissões sobre o Tarcísio e o Rei… Supresa total… Não me sinto gerada de outro barro!Parabéns.. vou tentar manter contato nos comentários!Pat Moreira

  9. >O Szegeri não merece a frase “um homem de quatro pelo Tarcísio Meira”! Edu, isso não se faz!

  10. >Não posso imaginar o nosso confrade barbudo e másculo tendo uma crise de ciúmes da Glória Menezes!!!

  11. >O Szegeri pode, Flavinho….

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