>LENDAS E NOSSAS ESPERANÇAS – PARTE II

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Ontem lhes contei, aqui, sobre a primeira das duas histórias reais, realíssimas, genuínas, envolvendo o Simas.

A história envolvia, numa trama magnífica, o parto do nosso herói, o Império Serrano, o Botafogo, a cor dos olhos do malandro, e fechava, com letras de ouro, com uma impressionante e sensacional metamorfose policrômica. Leiam! Leiam!

E como prometido, cotovelo apoiado no balcão imaginário, vou lhes contar hoje sobre o segundo magnífico enredo envolvendo o Simas.

À mesa, no Clube de Engenharia, estávamos eu, Dani Sorriso Maracanã, Alex, Marechal, Simas e sua companheira, a Cândida.

Eu, Marechal e Simas formávamos um triângulo eqüilátero à mesa.

À certa altura, descamba o assunto para futebol. Assunto, como diz a minha Dani, de menino. E sacomussão os meninos. Ficam bobos e têm, em questão de segundos, calças curtas, camisetas regata e pés descalços. Como mágica, os bolsos das calças ficam cheios de figurinhas, inicia-se o bafo-bafo onírico, os botões de galalite passam a ser exibidos como troféus, esses troços. Todos nós temos nossos tesouros pessoais, táteis, apalpáveis, geralmente guardados em caixas antiqüíssimas que nos arrastam, como tufões, ao passado vivo dentro de nós. Para lhes dar um exemplo, meu time de botão, o Nova Atlanta Futebol Clube (detalhes aqui) fica guardado, até hoje, numa latinha de cuecas slip, da Club Man Temper, loja que não existe mais há não sei quanto tempo, e, confesso, nem quero saber. Como guardo, também, como relíquia invendável, o ingresso para o jogo de despedida do Zico, no Maracanã.

ingresso para o jogo de despedida do Zico

Tinha eu, como se vê, à época do jogo, vinte anos de idade. A relíquia está comigo, portanto, há quase dezessete anos. Feita a confissão temporal, em frente.

Vai daí que começa, à mesa, o que a Dani chama de brincadeira de menino. Eu puxo da bolsa o meu chaveiro do Flamengo e digo:

– Olhem! Olhem!

E como autômatos alucinados, Marechal e Simas puxam os seus, ambos do Botafogo. E começa o desfile das quinquilharias valiosas (existem, sim!). Exibo, orgulhosíssimo, minha carteira de sócio do mais-querido. O Marechal mostra suas credenciais. O Simas as suas. Até que cai, sobre a mesa, uma 3×4 da Dani.

Deu-se o seguinte: o Simas perdeu a pouca cor que tem. Os olhos verdes pareciam a bandeira do Fluminense, tão vermelhos ficaram seus olhos, de onde brotavam lágrimas com força capaz de gerar energia para uma viela de 50, 100 habitantes. E isso foi, preciso dizer em nome da precisão que me caracteriza, depois do olímpico choro de quando me contara a história envolvendo a transformação da cor de seus olhos. Soluçava, nosso herói.

Fazendo bolhinhas com a secreção salivar, elegante nome para cuspe, esfregando os olhos e segurando a 3×4 da Dani, disse-me ao pé do ouvido:

– É a Dani?

– É.

Agravou-se o quadro. Levantou-se, o Simas, com a fotografia na mão, tomou a direção do bar e voltou, em poucos minutos, com um copo longo de caipirinha. Valeu-se do canudinho para mexer vigorosamente a bebida, que ingeriu num gole só, deixando o canudo de lado.

– Preciso confessar uma coisa terrível… – e gania de fazer o Pratinha, do palco, pedir silêncio.

Eu, já preocupado, e já tomando de suas mãos a 3×4 da minha garota, ajeitando-a na carteira, disse:

– Desabafa! Desembucha!

Em câmera lenta ele pega sua carteira, surradíssima, no bolso da calça.

Atentem para a cena, que a Dani e a Cândida a tudo acompanhavam aparvalhadas. Eu suponho, apenas suponho, já que a Cândida esboçou um sorriso cândido, que a companheira de nosso herói teve, naquele momento, certeza absoluta de que sairia, como um coelho, de dentro daquela carteira, uma 3×4 com sua estampa.

Enxugando as lágrimas, o Simas põe-se de pé. Funga fortíssimo. Abre a carteira. E exibindo duas figurinhas de um álbum do final da década de 80, que abana diante da minha cara como se fossem leques, mostra ostensivamente os rostos do Paulinho Criciúma e do Josimar:

– Na minha carteira não tem foto da minha mulher, não tem foto da minha mãe, não tem foto de minha afilhada, não tem nem mesmo foto minha! Fogooooo! Fogooooo!

Foi arrastado pelos seguranças, para fora do salão, como se tomado de cólera.

Dani, tadinha, tratou de consolar a Cândida, enquanto eu e Marechal rolávamos de rir, literalmente, dando soquinhos no piso de mármore da suntuosa sede do Clube de Engenharia.

Até.

10 Comentários

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10 Respostas para “>LENDAS E NOSSAS ESPERANÇAS – PARTE II

  1. >Eduardo, o Simas é um personagem pronto!

  2. >Conta mais histórias do Simas!

  3. >Muito bom, mêrmão! Eu tenho na carteira um daqueles cards de cartão duro que vinham nos chicletes Ping Pong, lembra? É o Zenon, com aquele rabo de andorinha saindo pra fora da boca. Aliás, cabe a pergunta: por que jogador de futebol não usa mais o bigode? PS – Glória eterna ao Nova Atlanta! Eu jogava com o Real Flamboyãnt Futebol Clube e tinha até Hino (cantado antes de entrar em campo)!

  4. >Capitão-do-mato,Tenho, intacto, o ingresso da primeira final nossa em Brasileiro, aquele inesquecível 3×2 no Atlético MG, quando pulei o portão e fui preso escalando a escada para assistir o jogo da marquise.Bons tempos …Saravá!

  5. >Tô na torcida por mais Simas, o cara é realmente uma figura!

  6. >Bruno, a resposta é relativamente simples: porque NINGUÉM – não sei se você reparou – NINGUÉM mais usa bigode. Com exceção do Tarcísio Meira, é claro, que tudo pode.

  7. >Simas se tornará figura lendária daqui a alguns anos. Belo texto, belo texto!Abraço!

  8. >Grande lembrança, impronunciável.O Tarcísio Meira pode rigorosamente tudo. Ninguém acha estranho aquele bigodão mexicano.

  9. >Edu, mandou bem, malandro!Fernando e Bruno,No time de várzea em que jogo, o Anhanguera, fundado em 1928, tem jogadores que usam bigode, inclusive meu pai que joga no veterano. Também não nos rendemos às tiaras, aos calções “gigantes”, à caneleira e às chuteiras coloridas!!!Assim como, ao final do calccio, já no vestiário, não são avistados Gatorades e águas minerais, mas sim Brahmas e cachaças.Aliás Fernando, tu TEM que ir um Domingão lá pra conhecer e tomarmos umas, né??Abraços!

  10. >O Bruno usa bigode! Esta é a única explicação para querer que outros passem por este ridículo.

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