LUZES NA RUA DO OUVIDOR

Meus poucos mas fiéis leitores: vocês hão de me perdoar o derramamento inevitável, que o sábado passado foi assim, digamos, um sábado mágico. Mágico mesmo. Não há explicação racional para o que testemunhou a esquina da Rua do Ouvidor com a Travessa do Comércio, bem no coração do velho Centro do Rio. Vou explicar e – ainda bem – há testemunhas.

Eu havia estado, no dia 02 de setembro, com a Dani Sorriso Maracanã, na Livraria Folha Seca, a livraria do meu coração, comandada pelo Rodrigo e pela Dani – não a minha, não a minha! – na Rua do Ouvidor 37, só mesmo pra comprar um presente pra Betinha e Flavinho, que nos receberiam em casa, naquele dia, para comemorar – são dos nossos – aniversário de casamento.

Livraria Folha Seca

E sabe como são as coisas… Chegamos lá, demos de cara com o Rodrigo, com o Pratinha, com o Bruno, bela figura que trabalha na livraria, começamos a pedir chope no bar da esquina – ah, as coisas que só no Rio de Janeiro… – e eu fui curtindo violentamente estar ali, sentado à mesa, jogando conversa fora, quando tive uma idéia, como que num presságio de bons ventos, e propus:

– Rodrigo, Pratinha… Vamos armar um troço sábado que vem aqui? A gente chega cedo, bebe, faz um samba… Vamos?

E o Rodrigo, de folha-seca:

– Sábado que vem eu de folga. Dia 16 pode ser. Fechado?

Um brinde e deixamos, os três, o programa marcado.

Daí fomos convocando gente.

E chegou o dia 16.

Cheguei eu ao meio-dia e já dei de cara com o Pratinha, com a Dani – não a minha, não a minha! -, com a Betinha, com o Flavinho, e foram chegando o Fefê, a Brinco, o Simas, a Cândida, a Sorriso Maracanã, o Janir, a Karen, e chegou o Moacyr Luz, convocado pelo Pratinha, e chegou o Alex, chegou a Márcia, o Fraga, a Renatinha, o Carlos, e a mesa estava formada, na rua, quase diante da livraria, na esquina do Casual, de onde chegavam carradas de chope.

Pratinha, Simas e Moacyr Luz

Que o Moacyr Luz é um sujeito generoso com o violão nas mãos é fato. Mas naquele sábado, e quero testemunhas de que estou sendo preciso do início ao fim, o Môa estava especialmente tocado.

Foi desfiando, como um tecedor sabedor de sua responsabilidade, obra-prima atrás de obra-prima, acompanhado pelo cavaquinho do Simas, que o Pratinha também tocou, e pelo 7 cordas do monstro de 18 anos de idade.

Mostrou as obras-primas já consagradas, e deu de mostrar as inéditas, com o Sereno, com o Hermínio, e o que dizer quando o côro cantava junto “Rua do Carmo, Uruguaiana, Ouvidor, são pontes de safena pra tamanho amor…”????? E o que dizer quando, na volta do mesmo samba, neguinho de olhos marejados cantava “Deus desenhou meu coração de um jeito igualzinho ao velho Centro do Rio, são tantos pontos de luz…”?????

Moacyr Luz em 16 de setembro de 2006

Escrevíamos, ali, naquela esquina, uma página na história da cidade, tão combalida, e hoje disputada a tapa por sujeitos que merecem tapas na cara como Sérgio Cabral – o filho -, Crivella e Denise Frossard (não vão em negrito, tais nomes, de propósito). Havia, entre os presentes, a consciência da beleza contemporânea que a todos envolvia, numa espécie de missa campal, ao lado da Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, em festa naquele sábado sagrado e profano.

A certa altura, abusando, eu pedi:

– Moacyr… Mostra aquela que você fez pro teu pai…

E ele mostrou.

Ele mostrou, e quando começou “Luzes acesas na minha memória… escuto o silêncio e sinto saudade da voz de meu pai…”, deu-se a danação coletiva das carpideiras.

O Simas guinchava, o Fraga gemia, o Prtainha chorava, o Rodrigo se esvaía, e transformamos em mar aquela esquina, dando cores de delírio ao que era e não era real.

Moacyr Luz em 16 de setembro de 2006

Eu senti, particular e intensamente, a falta do meu irmão paulista, meu mano Szegeri, tão afeito às nossas coisas, tão ligado ao Rio de Janeiro, tão carioca quanto todos nós que ali estávamos.

Liguei pra ele, que não me atendeu.

Atendeu-me a doce Stê.

Meu mano estava – não é coincidência – comandando roda de samba em São Paulo, comungando junto conosco – tenho certeza – no também sagrado espaço paulista que atende pelo nome de Ó do Borogodó, onde tu nunca tá só e tá sempre protegido, como São Jorge falou.

Deixo pra ele, Szegeri, a quem dedico – não tardiamente, eis que as mágicas do sábado permitem esses dribles – a tarde de 16 de setembro de 2006, primeiro capítulo de uma História, maiúscula, que está apenas começando.

Até.

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15 Comentários

Arquivado em gente, música, Rio de Janeiro

15 Respostas para “LUZES NA RUA DO OUVIDOR

  1. Ai… Saudade vossa, Saudade do Rio e dessa expontaneadade que só os Brasileiro têm, em que tudo é música e sentimento!Beijo e abraço apertado!

  2. Sem comentários!!! Beijos, Tiago Prata

  3. >Cacetada, que coisa linda! E era pra eu ter participado desse momento histórico! Mas me dá imensa felicidade saber que o Brasil continua de Pátria o Muerte pelas mãos de seus melhores filhos! E como o Moa envelheceu! Cacetada, ele ficou grisalho de repente! Ou quer dizer que passava uma tinta nos pêlos? Que time, Edu! Que time!

  4. Só uma observação. Como vocês imperdoavelmente não me convocam para um sarau desses? Registro aqui meu protesto, que levarei pessoalmente ao Rodrigo e à Dani (aproveitando para tomar um chope com eles, evidentemente)…

  5. >Em tempo: seu texto está uma beleza, decerto à altura do que foi o encontro

  6. Edu, maravilha de texto. O Môa, na verdade, foi convocado pelo Digão, e via orkut (o que justificou a existência dessa merda). E, cá prá nós, a pastora Marluci segurou o canto com galhardia. Enfim, a tarde das tardes. Abraços e… não passarão!

  7. Expressivo o texto. E a julgar pela manifestação de todos, representativo da verdade também. Parabéns mais uma vez.

  8. Puxa Edu, Vocês nem me avisaram… Não se esqueçam de mim na próxima tá. Por favor! Beijos Lú

  9. A alma das ruas, Eduardo! Como você a interpreta bem!

  10. Edu, voltei… meu irmão, me salva! Estou obcecado. Como é mesmo aquele verso do Môa que fala em Robin Hood e Guilherme Tell? E olha, relendo o texto, me permita dizer a mesma coisa que você disse para o Pratinha: vai escrever bem assim na pqp! Beijo…

  11. Simas: assim, de memória? Hum. Deixe-me ver… Tem um troço que é assim, no final do samba, estilo partido-alto: “Não quero encrenca com o Leblon nem intriga com Vila Isabel, me deixa tomar meu conhaque de mel! Pra que saber que o Sílvio Santos se chamava Abravanel? Me deixa tomar meu conhaque de mel! Nunca roubei como Robin Hood nem atirei como Guilherme Tell, me deixa tomar meu conhaque de mel!” Salvo engano! Salvo engano! E valeu pelos elogios, camarada! Imerecidos! E não passarão! Beijo.

  12. Que beleza! É o tipo de coisa que forjaria até um sequestro. rsrsrs. Abraço!

  13. Edu, só mesmo você para conseguir descrever aquela tarde. Eu sinceramente não teria palavras.Beijo!

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