FILIAL DE BUTECO

Como diria o Chico Buarque, e quem me conhece sabe – ou mesmo quem apenas me lê – quem canta comigo, canta o meu refrão. E sabe mais, que o refrão que eu canto é pra que todos saibam que eu não dou o braço pra ninguém torcer, já que eu, violão!, não mudo não!

O que alguns chamam de intransigência, ou mesmo de radicalismo, eu chamo de coerência.

Vou explicar a conversa de hoje.

Eu não admito buteco que tenha filial. Não admito, e mais à frente vou explicar o por quê.

O assunto me veio à cabeça ontem mesmo. Fuçando caixas e mais caixas aqui em casa, caixas com jornais antigos, anotações diversas, revistas etc etc, me deparei com a seguinte entrevista do Moacyr Luz.

matéria publicada no GLOBO TIJUCA

Eis aí, nessa frase, “eu não acredito em filiais”, uma verdade inconteste.

Por não acreditar em filiais – e pior, por ter aguda aversão aos butecos que procriam como ratos geneticamente modificados – é que eu não piso em mentiras como Belmonte, Devassa, Informal, Conversa Fiada, Manoel & Joaquim (o precursor da praga), essas merdas.

Mas por que tamanha aversão?, a pergunta ecoa.

Elucido a questão.

Expliquei, certa vez, a uma jornalista do Estadão que bateu o telefone pra mim justamente pra saber o por quê da celeuma, o seguinte.

Um dos meu butecos preferidos aqui no Rio é o Amendoeira. Sequer sei seu nome. Fica em Maria da Graça, numa esquina, na Rua Conde de Azambuja, e diante dele uma frondosa amendoeira dá, além da sombra farta, o nome à espelunca irresistível. Imaginem, então, vocês, que os donos enlouqueçam e resolvam abrir, no Leblon – para que o deboche fique perfeito – uma filial.

Poderão levar pra lá o mesmo bom chope, a sempre perfeita carne-seca desfiada e acebolada, poderão até mesmo abrir a filial imaginária na Conde Bernardote pra manter o título nobiliárquico.

Mas o que farão – eis a questão nodal – com a amendoeira?, eu lhes pergunto.

Junto às raízes da rosácea é que se escondem os mistérios intransponíveis do Amendoeira, e somente uma azêmola não percebe isso.

Nesse diálogo, também imaginário, mas factível, entre dois parvos, é que reside o atestado de óbito do buteco. Vejam só:

– Oi, Fulano! Beleza?

– Beleza!

– Vamos ao Belmonte hoje?

– Vamos. Mas qual?

Esse “mas qual?”, meus poucos mas fiéis leitores, é a facada que aniquila a possibilidade de ser, o Belmonte, tratado como um buteco.

É, o Belmonte, apenas mais um McDonald´s de bêbado, um drinking-center metido a besta, uma Disneylândia de candidato-a-biriteiro.

E tenho dito.

Até.

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10 Comentários

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10 Respostas para “FILIAL DE BUTECO

  1. Ontem fiquei das 11h00 as 23h00 no Bar do Sinval, entre cervejas, conhaques, torresmos, caxeta, mentiras e bons papos com os amigos do bairro… um dia perfeito num legítimo pé-sujo… não satisfeito, ainda fui tomar um caldo de mocotó com meu irmão Daniel no Bar do Fofoca, e tive o prazer de encontrar por lá os baluartes da Velha Guarda da Camisa Verde e Branco e ouvir histórias até as 3h00… Edu, esses são butecos há anos consagrados na Barra Funda, daqueles que o engravatado senta na mesa com o pedreiro todo sujo, amigo de infância das peladas de rua… Abração!

  2. Edu, sinto rotunda decepção. Ainda outro dia fui comer um galo com macarrão no Paulinho, em Higienópolis, e estiquei no bar da Amendoeira, com seus petiscos honestíssimos e o chopp bem tirado. Amendoeira no Leblon? Inacreditável…sem palavras. Abraço.

  3. Ô, Simas… presta atenção, mano! Eu estou apenas imaginando que os donos do Amendoeira ficassem malucos, malandro, justamente para grifar o nonsense que seria! Sabe quando haverá um Amendoeira no Leblon?NUNCA! Não passarão!

  4. Edu,porra… não me mata! eu li rápido e quase surtei… não faz um negócio desses. Entrei em parafuso! Que bom… Não passarão!! Irei em breve ao Amendoeira me refazer do susto. Abraço, que eu estou indo tomar umas no Santos.

  5. E tenta pedir a saideira pra ver o que te acontece.

  6. Bela explicação sobre a Amendoeira e como aquela esquina em Maria da Graça é única.

  7. Brunão: o Bar da Maria, que já foi sério, hoje faz o seguinte… Dia desses meu irmão bebia lá com um amigo. Quase uma caixa. Vê que o dono (o filho da dona, pra ser preciso) começa a arriar a porta de ferro. E diz:- Dá uma saideira, por favor? E o cavalo: – Não está vendo que estamos fechando? De fuder, né? Flavinho: mas é ou não verdade? Já pensou filial do Amendoeira no Leblon?

  8. Olá! Estou pesquizando um apartamento pra comprar aí na rua Azambuja… Não conheço o local, o que você me diz dele? Obrigada! Elaine

  9. Elaine: sugiro que você vá lá, pessoalmente, pra conhecer. Vale a pena. Um abraço.

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