FRIO POLAR NA TIJUCA

Eu tenho certeza que quando escrevi, aqui, em 08 de julho do ano passado, que “no Rio, basta a temperatura romper, pra baixo, a barreira dos 20 graus, e as ruas são uma festa de casacas, ponchos, gorros, luvas, mantas, cachecóis, coletes e sobretudos”, todos pensaram em mais um exagero, em mais um hiperbolismo, em mais uma mentira de leve da minha parte, o que eu rejeito com veemência eis que sou preciso do início ao fim, sempre.

Foi assim, ontem.

As rádios anunciavam um frio de 8 graus para a madrugada, e os termômetros da Tijuca marcavam, às sete da noite, 13 graus, e eu não me recordo de tamanho susto termo-visual em 37 anos de vida.

Havíamos marcado, eu e Dani, um jantar com minha avó, mãe de mamãe, a vó Tida, aqui em nossa casa. E às sete horas estrila o interfone. Está subindo a vovozinha, como carinhosamente a chama a Sorriso Maracanã. Eis, meus poucos mas fiéis leitores, o atestado da verdade que nunca sonego.

82 anos, elegante como uma rainha – que é como a chama o Comandante -, enterrada num casacão, com um pesado cachecol e vestindo luvas, minha avó era apenas mais uma dentre tantos e tantas que aproveitavam o frio para o espetacular desfile das roupas de inverno. E isso, na Tijuca, tem outras delícias. Explico.

Jantamos.

E enquanto jantávamos um cheiro espetacularmente vivo, de queijo e óleo, invadia o apartamento, vindo de fora. Fui à janela. Um fog londrino obstaculizava a visão do prédio imediatamente em frente ao nosso. Eram as famílias tijucanas, meus caros, em festa, em torno de suas respectivas mesas, utilizando suas panelinhas de fondue, que essa é – a panelinha de fondue – uma das obsessões das listas de casamento da patuléia.

Não há um único casal de noivos tijucanos – há ainda noivados formalíssimos na Tijuca – que não anseie sofregamente pela panelinha de fondue, que eles chamam, na expectativa de aplacar a cafonice do desejo – e o tiro sai pela culatra – de “aparelho de fondue“.

Apurei os ouvidos.

E o som era nítido, implacável, estéreo.

Os metaizinhos, dos detestáveis garfinhos de cabos coloridos, batendo uns nos outros – eu era capaz de ver as batalhas caseiras pelo naco maior do pão envolto na crosta do queijo fundido – produziam um repenicar frenético, gerando uma sonoplastia quase irritante como pano de fundo praquela noite de frio polar na Tijuca.

Contou, minha avó, curioso caso envolvendo a neta de uma amiga de salão – de cabeleireiros, que fique claro.

Casou-se, a “pequena” – a expressão é dela – no Le Buffet, casa de festas hoje tradicionalíssima no Rio Comprido, em 1975. Mais de quatrocentos convidados, a orquestra Tabajara, do Severino Araújo, dando a nota da garbosa noite, e a noiva, numa alegria incomensurável, cochichava o tempo inteiro no ouvido da avó, que se chama Escolástica:

– Vó… será que ganharemos o aparelhinho de fondue?

A avó desconversava: “Isso deixa para lá, minha princesa”, “O que é um aparelho de fondue diante de uma festa dessas?”, e por aí ia.

Filha única, Maria Aparecida era mais mimada que a mais mimada das moças.

Para evitar contrariá-la, a família desistira de fazê-la esquecer Oswaldo, trocador de ônibus por quem Maria Aparecida se apaixonara, sacomussão aquelas trocas de olhares nas idas e vindas do Colégio de Aplicação. Mas o affair não é o assunto. Vamos em frente.

Oswaldo, grosso, recebera instruções do sogro, industrial do ramo de tecidos, praticamente dono de todas as fábricas na Rua Aristides Lobo, também no Rio Comprido, para ficar mudo o quanto pudesse.

– Sorria, apenas, Oswaldo. Evite abrir essa boca de merda durante a festa. – era adorável com o futuro genro.

A festa também não é o assunto. Sigamos em frente.

Terminada a festa, partem os pombinhos para a mansão da família da noiva, em Petrópolis, conduzidos pelo chauffeur do Dr. Lourenço.

E lá chegando, deu-se o seguinte.

A versão, é preciso em nome da minha precisão alertá-los para o fato, foi contada à minha avó pela Escolástica, avó da noiva, que recebeu assustado telefonema da neta na manhã seguinte à noite de núpcias.

Sai do banho, num peignoir de seda, Maria Aparecida.

Oswaldo fumando, de pijama de flanela, na cama.

E Maria Aparecida vem chorando sentar-se ao lado do marido.

Diz, o Oswaldo:

– O que houve, Cidinha? – o sogro tinha horror do apelido ordinário.

– Estou ansiosa com os nossos presentes…

– Ora, Cidinha… Mas o que há? Qual a pendência?

– Eu queria tanto um aparelho de fondue… – disse, obcecada pela panelinha.

Oswaldo transformou-se numa espécie de Zé Pelintra serrano.

E ergueu-se, num salto, arriando as calças de flanela do pijamão com uma das mãos, tomando Maria Aparecida pelos cabelos, gritando em meio a gargalhadas estupendas:

– Táqui, minha filha, táqui o aparelho do Oswaldão… Não te basta?

Até.

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8 Comentários

Arquivado em Tijuca

8 Respostas para “FRIO POLAR NA TIJUCA

  1. >Eduardo, o Buteco do Edu firma-se como a minha primeira opção do dia em matéria de leitura de blogs. Você tem estado melhor e mais afiado a cada dia. A crônica de hoje está entre as minhas preferidas. Você vai de um assunto ao outro com maestria sem perder o fio de humor, condutor principal de seus textos. Receba meu abraço e meus sinceros votos de parabéns. Já li seu livro. Não deixo de ler o Buteco do Edu um único dia. Você vai longe! Sinceramente. Um abraço,Renato Machado

  2. >putaqueopariu… só você pra me fazer gargalhar no meio da repartição! Beijos congelados.

  3. >AHAHAHAHAHAHAHAHHAHAAHAHAHAHAHAAHHAHDEMAIS!!!!!!!!!!!CONTA OUTRAS!!!!!

  4. >Fica chato repetir o que todos dizem, mas esse texto está maravilhoso, me fez rir feito hiena por aqui!

  5. >”Susto termo-visual”!!!!!!!!:-):´):-)))))Um achado.

  6. >Como você diria: estou GUINCHANDO de rir.

  7. >Valeu umas boas gargalhadas, excelente!!!

  8. >UHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHAUHA! DOS MELHORES!

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