RIO-BRASÍLIA

Vamos, hoje, mudar o papo, de pato a ganso, no Buteco. A regra aqui tem sido bater, mais do que fazer festa. A gente bate no Joaquim Ferreira dos Santos, a gente bate na Ana Cristina Reis, a gente bate no Jefferson Lessa, a gente bate na Luciana Fróes, e acaba que ficamos sem tempo – até mesmo porque é divertido o exercício – de dar espaço a quem merece espaço.

Terezinha e Joaquim

E o faço cheio de um justificável orgulho.

Na semana passada, mesmo, na quinta-feira, tive a honra de apresentar esse portento encravado na Tijuca, o Rio-Brasília, ao Bruno Ribeiro, parceiro novo, de Campinas, de passagem pelo Rio, que apareceu com a Bia Fontes a tiracolo, que por sua vez levou, no colo, o Flávio Moreira, seu namorado. Comandado pelo casal Joaquim – cearense, e não português como faz crer o nome – e Terezinha, o Rio-Brasília é, de fato, extensão da minha casa. Fica na minúscula Rua Almirante Gavião, entre as ruas Haddock Lobo e Dr. Satamini, e nem preciso lhes dizer o número, que buteco sério dispensa essas formalidades. É o único bar da rua, fica sob um toldo verde, e o bochicho permanente é seu autêntico outdoor.

Rio-Brasília

Eu não sei se vocês sabem do que estou falando, mas apresentar um buteco desses a gente de peso, conhecedora da matéria, como o Szegeri, o Augusto, o Zé Sergio, o Borgonovi, o Fraga, o Caio, o Bruninho, o Bruno Ribeiro, o Dalton – só pra citar alguns – e vê-los lambendo os beiços dá um orgulho danado. O Rio-Brasília tem todos os componentes capazes de nos fazer apaixonados de cara. A começar pelos anfitriões, que o Joaquim e a Terezinha têm sorrisos permanentes no rosto e atenção olímpica aos pedidos dos freqüentadores – lá, tudo pode. Azulejos avoengos, azuis e pretos. Piso hidráulico. Mesas ancestrais que pertenceram ao refeitório do Instituto Lafayette. Um permanentemente renovado pé de arruda no balcão. Uma cozinha que produz comida de fazer a Alaíde, do Bracarense, perder a cor, de vergonha.

São inigualáveis a carne de panela com batatas coradas, servida em porções ou mesmo como refeição, o bife de fígado acebolado (idem, idem), a dobradinha, a feijoada, o caldinho de feijão, as sardinhas expostas no balcão sempre farto, a batidinha de maracujá a inacreditáveis R$1,50 a dose industrial, servida em copo americano até a boca.

Rio-Brasília

A cerveja está sempre gelada e eu gozo, na área, o Bruno Ribeiro é a mais recente testemunha disso, de uma imunidade que nem Ministro de Estado conhece. Troco cheque, recebo recado pelo telefone, dou pitaco nas receitas, decido o cardápio, e já que falei no Bruno Ribeiro quero contar um episódio ocorrido na quinta-feira passada.

Mantendo uma de minhas tradições mais arraigadas, fruto da educação austera que recebi, não permiti que meus convidados pagassem a conta da noite.

Fui ao balcão quitar o débito, com o talão de cheques já aberto, dizendo baixinho pro Joaquim, “é minha, é minha…”.

E vem atrás de mim, o Bruno. O malandro estica em direção ao Joaquim a nota solitária de R$50,00 – que não dava nem pra saída em razão da prodigalidade dos pedidos – e diz:

– A conta é minha!

O Joaquim, sem levantar, do balcão, os olhos:

– Quem manda aqui é o doutor! – e nem toca na onça pintada que rugia, tímida, já de volta às mãos do Bruno.

Rio-Brasília

O amor que nutro por espeluncas como o Rio-Brasília, um buteco vagabundo ao qual não resisto, é a força-motriz da ira santa que sustenta a briga que compro, incessantemente, contra as vergonhas exaltadas pelo Joaquim Ferreira dos Santos. O Joaquim e a Terezinha, cada vez que suspendem, de manhã bem cedo, as portas de ferro do Rio-Brasília, estão fazendo sua parte, tirando mais uma flecha do peito do meu padroeiro, que São Sebastião do Rio de Janeiro ainda pode se salvar; com a devida licença, que peço a Moacyr Luz, Aldir Blanc e Paulinho Pinheiro.

Até.

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13 Comentários

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13 Respostas para “RIO-BRASÍLIA

  1. >ONÇA PINTADA! HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA! Você anda mesmo inspiradíssimo!

  2. >Hummmmm… Que vontade de comer aquele pastel de carne…

  3. >Grande Edu! E devo dizer que aquela carne assada com coradas me faz salivar ainda hoje! Com certeza terei de voltar ao Rio-Brasília para prová-la novamente, com aquele maracujá e a tua companhia! E quanto à conta: você foi mais rápido no gatilho, mas a volta será aqui no meu território e aí vamos ver quem tem a preferência na dolorosa. Aguardo sua vinda e a do Szegeri. Abração!PS – ao olhar as fotos do buteco, do Joaquim e até dos azulejos, me bateu uma puta saudade, dessas que a gente já tinha e não sabia.

  4. >Maria Paula: ô, MP, sabe como é que se mata saudade nesse caso, né? Indo, ué!Brunão, meu velho: Campinas vai ficar pra próxima, que nem a São Paulo eu vou mais, adiando esse encontro que já se anuncia histórico, eu, você e o Coelho, um sujeito que eu faço questão que você conheça. Mas já tá com saudade, velho? Ó, mesmo recado que eu mandei pra MP… Desembarca aqui de novo, malandro. Além do Rio-Brasília tem uma penca de tesouros escondidos na região… Abração!

  5. >Olá Edu!Voltei ontem de férias e estive a ler, aos poucos, os seus textos das últimas 3 semanas.Delicioso….No silencio, mas continuo aqui.Cumprimentos calorosos,Susana.

  6. >Fala Edu!!Agradeço até hoje a oportunidade de conhecer 2 lugares dos mais maravilhosos desse Rio de Janeiro.O Pernil(Maiúsculo mesmo) acebolado com pãozinho e limão com o maracujá mágico do Rio-Brasília e logo depois o chopp ,maravilhoso e o caldinho de feijão do Estephanio´s, tudo acompanhando de um bom bate-papo, pra ficar perfeito!!Recomendo a todos, com um gostinho na boca de quero mais e com muita vontade de conhecer essa isquinha de fígado cuja fama precede seu nome…Um Abraço!!!Caio

  7. >Oi, Susy: seja bem chegada, de volta ao Buteco! Apareça sempre, como sempre, dê sempre seus pitacos e é isso aí!Grande Caio: quem agradece sou eu, malandro! Como eu disse, é um prazer indizível mostrar nossos butecos de fé pros mais chegados. E quando quiser, mano, mande um alô e nós marcamos nova visita ao Rio-Brasília. Sem esquecer que eu estou te devendo uma ida aos cafundós da Barra / Jacarepaguá, na tua área, pra (re)conhecer os teus tesouros! Abração!

  8. >Então vamos! Quando? Me diga você! Beijos e muitas saudades…

  9. >Edu querido, Campinas te espera de braços abertos. A conta é nossa claro, minha e do Bruno, o mando de campo é nosso. Mas o local eu deixo por conta do Bruno, que eu ainda não conheço pessoalmente, mas leio todos os domingos…Grande abraço

  10. >Espero que estes verdadeiros botecos fiquem apenas no mundo “blogueano” e não caiam na grande mídia. Vou visitar, o mais rápido possível, este autêntico boteco.

  11. >Edu, que lhe fala é o Felipinho, amigo do Zé, tudo bem? Como sabes, sou frequentador do Joaquim há uns 18 anos e realmente aquele é um canto maravilhoso, onde estamos em casa e esquecemos de tudo. Nos concentramos somente naquele maracujá e nas estupidamente geladas… Só estou sentindo falta do Tarciso e do Helio (cozinheiro) que sairam recentemente da casa.Bom qualquer hora nos encontramos por lá.Grande abraço.

  12. >já tô aqui edu! já sei onde é e qualquer hora pinto aí, valeu? um abraço niteroiense.

  13. Pingback: CHAMA, MANOLO! SALVE, O BAR MADRID! | BUTECO DO EDU

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