Arquivo do mês: agosto 2006

>FOTOGALERIA PRA CAIO VINÍCIUS

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Se foi ou não uma brincadeira do Caio, o mais recente e assíduo freqüentador dessa espelunca que atende pelo nome de Buteco do Edu, o fato é que o pedido feito por ele, aqui, me comoveu. Foi esse o tal pedido:

“Edu,
bota uma foto da relíquia aí.
Da caixa e do radinho tb.
Vc despertou a curiosidade dos mais novos, como eu (28 anos!!!rs).
Caio”

Eis, então, as fotos, da caixa (vejam que troço bonito, pô!) e do radinho.

caixa do radinho de pilha
radinho de pilha

Com meu abraço pro Caio.

E em homenagem aos meus cinco meses longe do cigarro, completados no dia 15 de agosto, sugiro uma visita à primeira fotogaleria do Buteco.

Até.

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JOTA CORRETOR

Como é que eu não pensei nisso antes, pô?!

Se eu me constranjo todas as vezes em que me refiro ao Jota como jornalista, por que não chamá-lo daquilo que ele efetivamente é?

É isso! O Jota é corretor! Corretor de imóveis, corretor de negócios, corretor de publicidade, por aí.

Vamos a duas – acho que dessa vez o corretor bateu seu próprio recorde – notas imundas em sua coluneta de hoje.

nota publicada no jornal O GLOBO de 16 de agosto de 2006

Notem que na primeira notinha o nada original Jota dá uma puta volta numa notícia sem nenhuma importância para dizer que “abre em setembro, naquele mesmo local, mais um bar Devassa”. E o bobalhão deve ter escrito isso cheio de orgulho, achando-se genial pela disfarçada que dá na coleta da féria.

Mas tem mais!

A segunda notinha, que faz propaganda (de graça é que não é) de uma sorveteria pernóstica, dá os valores das luvas e do aluguel de uma loja de 25m² no Leblon, é óbvio, eis que apenas o Leblon existe para os apedeutas de O GLOBO.

Bela isca para os fiscais da Receita Federal, que devem se mexer – foi o que eu sempre li a respeito – sempre que surgirem sinais externos de riqueza. Não é qualquer um que tem 300 mil cash para luvas de uma lojinha desse tamanho.

Eu também sempre li a respeito da conduta de um jornal.

Mas mesmo eu tendo cutucado, por email, mais de uma vez, os editores do tal jornal, pior a cada dia a olhos vistos, impera o silêncio sobre a transformação daquela página nobre do Segundo Caderno num simples caderno de classificados.

Ou de desclassificados, que fica bem mais coerente com a nojeira da área.

Até.

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>JOTA ATACA OUTRA VEZ

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Jota, o incansável, voltou de férias.

E a féria continua garantida.

Notem a foto nojenta que ilustra a coluneta do consoante jornalista (rio sempre quando escrevo “jornalista” em referência a ele).

nota publicada no jornal O GLOBO de 15 de agosto de 2006

E vamos à legenda abaixo da foto:

“MARCOS CARUSO, que vive Alex, o pai de Nanda em ´Páginas da Vida´, chega todo dia de bicicleta no Teatro Leblon, onde está em cartaz com a peça ´Operação Abafa´, assinada por ele e por Jandira Martini. Paulistano de nascimento e morador ocasional do Leblon, Marcos está encantado com as ciclovias da cidade. ´Faço tudo de bicicleta. Pedalo regularmente uns 14 quilômetros por dia. Em São Paulo, é muito mais difícil me locomover assim´.”

Notem a sordidez da coisa.

O que aparece como fundo da fotografia, como bem observou o leitor Caio Vinícius?

Mais um dentre tantos bares-mentira que sustentam a coluneta, o Informal, cuja plaqueta aparece em destaque não por acaso obviamente. Ah, sim. E que fica no Leblon, o único bairro possível para os apedeutas de O GLOBO.

A propósito há 22 sentidos para o verbo sustentar no Houaiss.

Até.

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>AS COISAS SIMPLES – PARTE I

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Como prometido, prossigo hoje o assunto de ontem, quando contei, tristíssimo pela angústia da busca e felicíssimo pelo achado, sobre a dificuldade que foi encontrar um simples e húmil radinho de pilha. E conto hoje dois episódios envolvendo o radinho de pilha, o meu radinho de pilha, uma vez que os episódios aconteceram quando eu já tinha o Motobrás comigo.

O primeiro: eu chego em casa como uma criança com o radinho de pilha na mão. Dou de cara com o Szegeri na sala – passou uma semana no Rio de Janeiro, o Pompa – e vejo aqueles olhões úmidos diante da visão da relíquia. Abraçou-me comovido, tomou o radinho de minhas mãos, olhou, farejou, tocou, beijou o Motobrás e disse fungando:

– Quando chegar em São Paulo vou comprar um igual.

O segundo: estou no Maracanã no sábado passado, Motobrás colado ao ouvido, um sorriso permanente em minha boca – com licença, Aldir – quando passa por mim o Alexandre. Passa por mim, estaca diante de mim e grita com sua voz de trovão:

– Um radinho de pilha?!

Eu já levanto chorando. Abraço o Alexandre, entrego a ele o Motobrás ligado, e repete-se a cena: ele olha, fareja, toca, beija o Motobrás e diz fungando:

– Edu, meu caro, me perdoe a imitação, mas na segunda-feira vou comprar um igual!

Eu, tomado pela emoção, disse:

– Escuta. Não compra, não. Eu faço questão de te dar um de presente!

E abraçamo-nos com o Motobrás entre nós.

Dito isso, em frente.

Os dois episódios são extremamente significativos. E vou explicar.

Os dois episódios nos tornam irmãos na nostalgia, nos tornam irmãos na saudade de uma forma de existência que vai desaparecendo, e explico mais, explico mais!

As coisas simples, como as casas com cadeiras na calçada e uma fachada escrito em cima que é um lar, estão sumindo, e sumindo mesmo.

Vejam.

sorvete napolitano

Deixemos de lado o radinho de pilha, que ilustra bem essa angústia e essa busca desenfreada pelo simples e falemos de sorvete. Sorvete? É. Sorvete.

Fui ao supermercado na sexta-feira a pedido da Dani:

– Traz uma caixa de sorvete napolitano! – disse minha garota.

Reside na minha busca alucinada pelo sorvete napolitano – e também pelo de chocolate, que eu queria para mim – a morte das coisas simples também no setor das guloseimas (que é uma palavra em desuso, perfeita para o enredo de hoje).

Há nas prateleiras e nas geladeiras dos mercados uma aridez impressionante e angustiante de sorvetes simples: chocolate, flocos, creme, napolitano… São dificílimos de achar!

O que há, então?

Sorvete de côco com raspas de abóbora e lâminas de hortelã. Sorvete de pistache com gotas de chocolate meio-amargo. Sorvete de manga Tommy com patê de rúcula selvagem. E por aí vai.

Há um atropelo revoltante das coisas simples, das coisas primitivas que sempre nos bastaram. E há o surgimento de sorvetes – estamos falando de sorvetes – caríssimos em detrimentos dos baratos, mais gostosos, mas mais simples, e deve ser desse “mais simples” que as pessoas querem fugir em busca da adeqüação às regras sujas que o marketing impõe. As pessoas que querem estar na moda. Que querem estar in.

“Mais um exagero do Edu”, ouço daqui as críticas.

Pois dêem tempo ao tempo.

Amanhã volto ao tema. Com mais provas robustas de que estou sendo preciso, de novo.

Até.

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>MOTORÁDIO

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Antes de entrar no assunto de hoje, alguns esclarecimentos.

O Buteco manteve-se sem textos novos desde 09 de agosto de propósito. Agradeço a todos que me escreveram preocupadíssimos – e como são curiosas as relações que gera um blog. Quis apenas deixar, por cinco dias, a longa entrevista com o Fausto Wolff como página inicial do blog para que todos pudessem lê-la com calma e para que perdurasse, por um bocadinho mais de tempo, minha homenagem ao Fernando Toledo.

Feitos os esclarecimentos, e antes ainda de entrar no assunto de hoje, um brinde de pé diante do balcão do Buteco a esse grande sujeito que faz anos hoje, Wlader Dutra Miranda, meu sogro, meu amigo, o legendário Comandante.

Comandante em Volta Redonda, 30 de julho de 2005

Vamos, então, em frente.

Vocês sabem que eu estive no Maracanã há umas semanas, como contei aqui, e vivi, na rampa de subida do estádio, emoções violentíssimas que me fizeram chorar como criança.

O que não lhes contei é que senti-me um aleijado durante a partida.

Faltava-me o radinho de pilha.

E eis, então, o assunto de hoje, o palpitante assunto de hoje.

Um homem como eu, com 37 anos de idade, com mais de 25 anos de futebol nas costas, não concebe a arquibancada sem o rádio colado ao ouvido. Confesso que a ida ao Maracanã naquele sábado, decidida de última hora, me fez nem lembrar do radinho de pilha. Mas fui, durante os 90 minutos de jogo, um homem com urticária na orelha esquerda. A mão esquerda na orelha esquerda, aquele vazio, aquela angústia sem o radinho e decidi já descendo a rampa, em voz alta:

– Sábado que vem eu venho com meu radinho.

E aí está o drama.

Não havia radinho.

O último, um Motoradio preto, pequeno, lembro-me que perdeu-se há anos. Teria, então, que comprar um novo radinho de pilha.

Senti-me – mais ainda, se isso é possível – matusalêmico, velho, caquético, encarquilhado diante do balcão das lojas no centro da cidade perguntando às mocinhas de piercing:

– Eu gostaria de ver radinhos de pilha.

As reações variaram.

Umas puseram a mãozinha em concha diante da boca e gargalharam sem nenhum pudor, o único resquício de pudor era a mão impedindo o arremesso dos perdigotos. Outras balançaram a cabecinha em direção ao ombro esquerdo, depois ao direito, fizeram beicinho e devolveram:

– Um pendrive, senhor? Ou um MP3?

Eu tentava, em vão, explicar o que eu queria.

Algumas até entenderam. Uma fez um “ahhhhhmmmmm, sei…” e veio ao balcão com um rádio-relógio digital de cabeceira. Como eu devo ter feito uma cara estranha, ela disse:

– Pode funcionar com pilha, tio.

Nem tentei explicar nada. Agradeci e fui embora com aquele “tio” cravado na minha testa enrugada.

Já sem ânimo entrei numa filial das Casas Bahia.

Com os olhos embaçados – eu já chorava decepcionado – eu disse à moça:

– A senhora tem radinho de pilha? Dos antigos… um Motoradio…

Gentilíssima, penso que com pena do idosão à sua frente, explicou-me que a Motoradio fora processada por uma empresa americana, que agora a empresa chamava-se Motobrás e que, sim, ela tinha um radinho de pilha.

É rigorosamente impossível descrever a emoção diante daquela caixa, depois de tantas negativas e de incontáveis recusas para adquirir rádios vagabundos coreanos, chineses, esses lixos que nascem do chão na Rua Uruguaiana.

Uma caixa cafona, como eu, de papelão, azul e branca, com apenas uma bola de futebol desenhada na frente, a marca MOTOBRÁS em destaque, com aquele “O” característico – e somente os jurássicos como eu saberão do que falo – e fui um feliz com minha compra, como fui um feliz no sábado, durante o sonolento Flamengo x Ponte Preta, com meu radinho de pilha novo colado ao ouvido durante todo o tempo.

Volto ao tema – esses saudosismos, esse massacre da modernidade – amanhã mesmo.

Até.

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ENTREVISTA – FAUSTO WOLFF

No dia 19 de junho de 2004, um sábado, eu, Fernando Toledo, Gustavo Dumas e a Betinha passamos uma agradabilíssima tarde no Bar Brasil, na Lapa, na companhia do Fausto Wolff, para uma pequena entrevista com o Velho Lobo, que eu pretendia ter publicado aqui, no Buteco, desde então.

Hoje, 09 de agosto de 2006, mais de dois anos depois daquela agradabilíssima tarde, faz um ano, exatamente um ano, que o meu irmão Fernando Toledo mandou-se daqui deixando a gente com uma saudade doída, danada, que não cessa e que arde mais forte hoje.

E é em homenagem a ele, Fernando Toledo, orgulho da minha geração, amigo querido que faz uma falta que só ele sabe – tenho certeza de que o puto me lê – que eu publico hoje, na íntegra (ô, trabalhão que deu!), a tal entrevista, com todos os detalhes, e agradeço de público, de pé no balcão do Buteco, ao Marcelo Moutinho e ao Cesar Tartaglia pelas dicas e pelas manhas com relação à transcrição de uma entrevista gravada.

Ergo o copo, também, com um especial carinho no rosto da minha querida Áurea Santos, a quem ofereço, milagres da tecnologia, a voz do meu irmão, que ainda ecoa em cada buteco vagabundo dessa cidade que ele tanto ama, e a gente fica aqui, “chogando p´ga cagalho”, com saudade, onde tudo o que amei sobrevive.

E eu falei no presente de propósito.

Fernando Toledo: Dr. Fausto Wolff, bem… é… o que você acha do jornalismo feito hoje pelos nossos colegas mais jovens?

Fausto Wolff: Eu acho que é um jornalismo de merda. Acho que é um jornalismo de merda porque ele não leva o povo em consideração. Porque ele faz um jornalismo imparcial. Eu sou um jornalista parcial. Entre o bancário e o banqueiro eu vou escrever sempre a favor do bancário.

Eduardo Goldenberg: Deixa eu fazer uma pergunta que eu não sei se vai ser complicado pra responder… Você, quando o Roberto Marinho morreu, foi a única voz na imprensa brasileira que não o bajulou, não o transformou num, num anjo, num homem que foi capaz de fazer benesses pelo País, e fechou o teu artigo dizendo, pedindo desculpa, a todos esses que vinham dizendo que ele era um grande jornalista, dizendo que você era um grande jornalista. Quem é que você hoje, no Brasil, na grande imprensa, escrita, jornal, ou revista, pode considerar seu colega, jornalista também?

FW: Jânio de Freitas, Millôr Fernandes, Carlos Heitor Cony, Veríssimo, os irmãos Caruso, Angeli, é… Glauco, Nani, enfim, a grande, grande maioria são cartunistas, o que também é mais fácil porque o poder perdoa o que vem em chave de humor, e quando você mostra, por exemplo, um… um pitbull como se ele fosse um poodle de divã, todo mundo acha graça, mas o pittbull não deixa de ser um pitbull. Então você pode fazer gracinha com o Delfim Neto, você pode fazer gracinha com o Antônio Carlos Magalhães, você pode fazer gracinha com o Sarney, você pode fazer gracinha com o Barbalho, mas eles continuam sendo os mesmos genocidas de sempre. E olha que eu falei a palavra genocida!

FT: O Millôr falou uma vez que, que imprensa é de oposição, o resto é armazém de secos e molhados. Essa imprensa bunda mole que ´cê tá vendo por aí… A que você atribuiria esse fato dela simplesmente seguir a corrente e não mostrar a bunda do rei?

FW: Não entendi a pergunta!

FT: Bem… Hoje tem uma pequena praga que é a imprensa a favor. Você vê que, é… revista como a Caros Amigos e tal e outras afins hoje estão perdidas porque elas não conseguem ser exatamente uma oposição a um governo que teoricamente seria de esquerda. Né? Por que ela age assim?

FW: Há uma diferença fundamental entre o rebelde e o revolucionário. O revolucionário sabe que o poder corrompe sempre, o revolucionário sabe que o capitalismo é um sistema selvagem sim, o revolucionário sabe que ele não pode abrir a guarda. O rebelde, ele só é rebelde até ser convidado à mesa do poder. Eu conheci vários rebeldes durante os meus cinqüenta anos de jornalismo; estão todos n´O Globo hoje, e eu ensinei eles a escrever.

EG: Ô, Fausto, você dentro dessa perspectiva de que o revolucionário ao sentar na mesa do poder deixa de ser um revolucionário…

Roberta Oliveira: Rebelde!

EG: É, rebelde! Consegue enxergar hoje, dentro de um quadro de decepção que eu posso dizer que a gente tá vivendo, e você tem manifestado isso o tempo inteiro, consegue enxergar alguma nova liderança ou algum novo caminho que possa efetivamente fazer as mudanças que todo mundo que votou no governo, hoje, gostaria que fossem realizadas?

FW: Com um pé atrás, levo muita fé no Movimento dos Sem-Terra. Gostaria, já disse pra eles isso várias vezes, que me convidassem, é claro, com despesas pagas, pra eu passar dois meses com eles e escrever um livro sobre esse movimento. Eu creio que é a única esperança que nós podemos ter. Porque hoje eu estava verificando, além de vocês e alguns poucos amigos, sobrou pouco do meu Rio de Janeiro. Eu reconheço a cidade mas não reconheço os habitantes. A maioria das pessoas tornou-se rude e não gentil. O carioca era por natureza gentil, cordato, cordial, prazeroso, sem ser puxa-saco. Hoje nós vemos as pessoas que não têm esperanças e não têm perspectivas e estão apenas aprisionadas a um emprego, e que te tratam mal porque sabem que não vão poder tomar um chope na esquina, porque esse chope vai representar um litro de leite a menos na casa deles. Essa é a herança que o militarismo passou pro neoliberalismo.

FT: Bem, é… Há uns anos atrás eu visitei um assentamento de sem-terra em Barra Mansa, parece pergunta de Jesus Chediak isso, né?… E uma coisa que eu achei muito interessante, e que é uma coisa que a esquerda brasileira geralmente não faz. Os caras têm um trabalho de… é… ideológico, desde a escola deles lá, que é muito boa, eu assisti uma aula, e tudo deles envolve a tomada de consciência e que eu acho que foi uma das falhas da esquerda durante anos e anos no Brasil. E eu gostaria de saber o que é que você, se você acha que… acerca dessa falha da esquerda… essa ruptura que a esquerda opera entre a massa que ela quer, é… instrumentalizar e ela mesma, a esquerda que se coloca num patamar acima dessa mesma massa.

FW: Em primeiro lugar eu acho que não há mais esquerda no Brasil, eu já falei isso. Tô depositando minhas esperanças no movimento dos trabalhadores sem-terra. Porque a esquerda no Brasil me parece hoje é um bando de rebeldes sem caráter e sem vergonha. Isso vale pro PPS… parece que é, parece partido de viado do Oscar Wilde, partido que não ousa dizer o seu nome… (Toledo rola de rir), tá entendo? E pro Partido Comunista Brasileiro que como é que ousa manchar esse nome – comunismo – enquanto luta na Câmara e no Senado pra não aumentarem o, o salário mínimo em vinte reais, ou quinze reais. Isso é uma vergonha, um nojo!

FT: É… Como você vai se sentir quando o Antônio Carlos Magalhães levantar o braço e dizer: eu consegui aumentar o salário mínimo que o Lula queria dar!!!!!

(todo mundo ri)

FW: Eu vou me sentir como sempre me senti, como… é… irritado com o fato de ser um homem de paz e não ter um revólver e não dar um tiro nos cornos.

(a mesa rola de rir)

EG: Ô, Fausto, você já escreveu várias vezes que um dos dias mais felizes da tua vida foi o dia da eleição do Lula, e isso aconteceu comigo também, com todos nós…

FT: Chorei que nem um…

EG: … estávamos, eu particularmente num churrasco onde a festa foi pra isso, todo mundo chorou muito, foi uma grande esperança. E você há pouco disse que não há mais esquerda no Brasil. Mas naquele dia nós acreditávamos que a esquerda tinha chegado ao poder. Aonde, quando e de que forma você acha que houve essa quebra de compromisso com a linha de pensamento da esquerda?

FW: Hoje eu fui obrigado, por causa do comportamento do governo, a julgar a coisa como um romancista e ir para o passado. Mal ou bem, antes do PT aparecer, nós tínhamos um partido comunista, tínhamos dois partidos comunistas. O PT apareceu como o PTB na época do Getúlio, para formar um partido trabalhista, nada contra uma vez que a… a… a…, o axioma era que o comunismo comia crianças e isso foi colocado durante tantos e tantos anos que era até compreensível que um pai de família fosse prum partido trabalhista e não prum partido comunista. Esse partido trabalhista já é cópia do partido trabalhista do Getúlio. Mas aí aparece onde Freud e Marx se encontram. Nós temos uns garotos, todos filhos de papai, com raras exceções, que com dezenove, vinte anos, decidem que são contra, que os pais são uns exploradores etc etc e que eles vão fazer a guerrilha, que vão fazer isso e vão fazer aquilo. Mas eles precisavam de um líder. E esse líder naturalmente, já que eram todos comunistas, só podia ser um operário. E eles encontraram esse operário e endeusaram esse operário, e viveram em função desse operário, e esse operário achou bom. E a coisa toda virou meio religiosa. Se não você não era do PT você não era ninguém. Se você não era do PT você era burro. Se você não era do PT havia alguma coisa de errado com você. Porque o Suplicy foi aquele príncipe que encontrou a verdade, eles todos encontraram a verdade no profeta que veio de Garanhuns, naquele rapaz que não tinha nada e que chegou a ser presidente do sindicato, e foi indo e foi indo e foi indo. E o povo acreditou. Esse babaca aqui não acreditou nunca porque eu nunca votei no Lula, sempre votei no Lula em segunda instância, votei num outro maluco que é o Brizola, mas que eu prefiro. Mas aí o Lula chegou ao poder. Eu achava impossível. E ele chegou. E ele chegou e ele chegou e disse… a primeira coisa que nós vamos fazer é mostrar a fome no Brasil. O Projeto Fome Zero. E levou um bando de ministros riquíssimos pra ver a fome… Olha aqui, ô, Sr., essa é a fome, esse é o Ministro, essa é a fome, esse é o Ministro, essa é a fome perebenta e esse é o Ministro… (a mesa rolando de rir) E foi a última vez que eles viram a fome. E no dia seguinte eu comecei a fazer, não campanha contra o Lula, mas apenas dizer que aquilo era uma demagogia barata, que eles eram uns incompetentes, que não tinham um programa e que o Lula era um Cabo Anselmo, coisa que eu acho.

FT: É… bem, eu queria mudar um pouco o enfoque, agora, e queria falar da tua obra literária…

FW: Mas não era pra ser uma mini-entrevista?

(Roberta ri)

FT: Mas tá aumentando a mini-entrevista… Olha só! Deixa o Eduardo falar mais uma coisinha aqui…

RO: Antes de mudar o foco!

EG: Antes de mudar o foco, e agora quase que matando uma curiosidade pessoal minha. Eu também sempre votei no Brizola, meu carro até hoje tem adesivos do Brizola…

FT: Inclusive ele é reconhecido na Vila Isabel por causa do carro!

RO: Por isso!

EG: Reconhecido, é verdade! E você sempre que menciona o Brizola, como um homem em quem você acreditou, acredita ainda, não sei, como o “homem do dedo podre”. Por que isso?

FW: Porque o Brizola não tinha a genialidade, não tem a genialidade do Getúlio, o Brizola é um caudilho. Mas o Brizola tinha um programa de alfabetização e de educação, e de transformar crianças em cidadãos: o CIEP. Eu muito mais que brizolista sempre fui “ciepista”. Porque eu imaginei que se você tem 500 escolas dessas, você tira… põe 1.000 crianças em cada escola, e essas crianças vão comer, vão ter noções de higiene do próprio corpo, essas crianças vão se tornar cidadãs, eu não quero mais nada. Se isso tivesse acontecido em 1986, quando o Moreira Franco tomou conta pra isso acabar… Esse Moreira “francamente” Moreira eu gostaria de dizer… É a única pessoa no mundo que eu conheço que não tem serventia alguma.

(a mesa vem abaixo de tanto que ri!)

FW: Só pra ficar registrado. Mas enfim, ele queria acabar com a criminalidade no, no Rio de Janeiro em seis meses, e entrou no, no lugar do Darcy (Ribeiro) que também não seria um grande governador, não, porque o Darcy não entendia disso, mas alguém faria alguma coisa. E eu desconfio que o Brizola já sabia disso e preferia o Darcy perdendo pra ele poder depois das cagadas do Moreira chegar bem. Enfim, o Brizola não é um intelectual naquilo que o intelectual tem de bom sentido, o Brizola jamais se disse comunista, acho que nunca leu Marx, eu acho que o sujeito que… Ele era mais ligado era ao Alberto Pasqualini que escreveu um livro chamado… é… (pensando)… “Bases e Proposições Para Uma Política Social”, ali é onde está todo o comunismo do PTB, e posteriormente o Brizola, como tem medo de intelectuais, como tem medo de pessoas que pensam, acabou se cercando de vigaristas. E é por isso que ele está onde está. Eu diria: um homem de bem, mas não é uma pessoa confiável.

FT: Uma pergunta rápida… Você falou que do Brizola ter medo de intelectuais. Porque que o brasileiro tem tanto preconceito em relação a quem pensa e a quem questiona, a quem se arrisca a raciocinar. E perguntar o “por que”… Porque na minha opinião a pergunta mais significante que o ser humano pode fazer é “por que?” Porque que o brasileiro tem tanto medo do “por que”?

FW: Porque o brasileiro é um povo como qualquer outro, com a diferença de ser um povo um pouco melhor, principalmente o povo aqui do Rio de Janeiro que tinha uma cultura. Mas a cultura lhe foi roubada, seu jornalismo foi roubado, sua cultura foi roubada, seu esporte foi roubado, sua música foi roubada, tudo, e ele está carente e continua. Por que é que tem medo de intelectuais? Quais são os intelectuais? Eu não vejo intelectuais. Eu vejo um bando de acadêmicos idiotas dizendo besteiras uns por outros e aparecerem na televisão dizendo coisas que o povo não entende.

FT: Isso cai numa questão do Stockman, do Ibsen…

FW: Você vai perguntar se eu conheço o Ibsen?

FT: Claro que não, porra! Lentilha garni! Lentilha garni! (pedindo o prato ao garçom) Por que é que todo Stockman se fode?

FW: Porque os “Stockman” da vida, eles… em vez de seguir um código eles preferem criar um código. Qual é o código do Stockman? Eu tenho que denunciar a podridão. Eu não consigo conviver com o cheiro da podridão. Talvez se eu conseguisse eu seria galã da Globo, eu seria produtor da TV Globo… E depois, depois escreveria artigos sobre a morte do…

FT: Roberto Marinho!

FW: Não! Daquele garoto que morreu em São Paulo… O primeiro a ser suicidado em São Paulo… Jornalista. Jornalista judeu, meu Deus do céu!

EG: Samuel Wainer!

FW: Não! Jornalista judeu! Foi suicidado em São Paulo!

EG: Herzog!

FW: Herzog!!!!! Aí depois de ter colaborado com o suicídio do Herzog eu escreveria artigos louvando o Herzog. Porque o que está se passando na imprensa brasileira é isso! Hoje O GLOBO está falando de todos os heróis de 64, 65, 66, 67, 68, como se ele não fosse responsável pela morte dessas pessoas. E só tem um puto nesse país que diz isso, que sou eu, porra!

FT: Bem, é… a gente pode falar de literatura agora? Eu observo – eu li todos os seus livros, você sabe muito bem disso – bem, é… que no início quando você começou a escrever, você tinha uma tendência até um pouco surrealista, quase que escrita automática, muito próxima do Henry Miller e que hoje você é mais sintético, você tenta dizer as coisas com menos palavras e com mais clareza. Você passou anos sem escrever ficção, década de 90, né? É… você pode explicar – eu como escritor gostaria de ouvir isso – como se dá esse mudança e como se dá esse amadurecimento estilístico?

(longo silêncio)

FW: É natural que todo o sujeito com 22 anos escreva com o subconsciente e tente mais ou menos domar aquilo que o seu consciente dita. Isso não é natural (ri) 50 anos depois.

FT: É, eu vejo isso, eu vejo poemas que você escreveu em mesa de bar, quando você tinha em torno de 50 anos, mais ou menos na época em que eu te conheci, um pouco mais derramados, prolongados, com 50 anos! Hoje você faz quase hai-kais em certos momentos, você tenta é… conduzir a coisa até o cerne da coisa, né? E com musicalidade na coisa. Como é que você consegue fazer esse troço?

FW: Eu decidi que eu ia escrever poesia a sério depois dos 60 anos, quando eu tivesse alguma coisa pra dizer.

(Fernando Toledo ri)

FW: Os outros poemas de mesa de bar foram poemas gentis, pra amigos. Se havia alguma qualidade nos poemas, que bom. Mas a idéia principal era lembrar uma data e louvar um amigo.

FT: Tinha uma pergunta pro Gustavo Dumas aqui, que é um grande amigo meu, que é escritor, poeta… Pergunte!

Gustavo Dumas: Bom, vou tentar fazer aqui uma provocação com o Fausto, com todo o respeito… Uma pergunta ligando a literatura a…

Fausto: Não faz não, eu me conheço, se a provocação for idiota eu vou ficar puto…

RO: Ah, faz, faz!

GD: Você me diz, você me diz… Tá bom! É o seguinte, você respondeu pro Fernando, essa mudança de… uma mudança até de postura estética, de consciência, que quando você tinha 22 anos você escrevia muito com o seu subconsciente, se foi isso que eu entendi, acho que foi essa a sua afirmação. E que depois com o passar do tempo, essa, essa… vai se adquirindo uma consciência literária. Eu queria retomar aquele assunto inicial, que era o assunto política. Será que a desculpa pra essa transformação do revolucionário pro rebelde, a desculpa dessa transformação não seria um suposto amadurecimento? E eu teria outra pergunta ainda sobre política. Você falou que a esperança partia do campo. Em relação à cidade… Como pensar a cidade como agente de transformação hoje? São duas perguntas, na verdade, diferentes.

FW: A pergunta se eu acho que o revolucionário que se transforma num rebelde não é uma demonstração de amadurecimento. Não. É uma demonstração de filho da puta. Esse não vale nada, esse quer grana, quer poder.

GD: A outra pergunta sobre… Sobre a questão da cidade, né? Porque a esperança no campo seria os sem-terra. E quanto à cidade? Qual seria a esperança na cidade?

FW: Não pode haver esperança nas cidades enquanto não houver uma reforma agrária e essa reforma agrária vai ter que ser sangrenta. E talvez nós possamos ganhar nas cidades, porque por mais pobres que morram, nós sempre vamos ser em número maior que latifundiários e seus filhos.

FT: O que você acha que dá pra esperar da arte brasileira, e da literatura em particular, hoje, é… em termos de participação da literatura não como um compartimento estanque em relação à sociedade, mas da literatura da arte em si como elemento transformador da sociedade? E eu acho que é uma boa pergunta pra terminar a entrevista.

FW: Nada.

(risos)

FT: Ótimo! Fechamos! Dia… 18 de junho…

RO: 19!

FT: 19 de junho de 2004, Bar Brasil, às três e meia da tarde… Robertinha… Essa menina linda de morrer vai fazer uma pergunta…

RO: Eu não tenho pergunta pra fazer… Por favor! Tchau! Tchau!

EG: Um dos livros do Fausto que mais me impressionou e eu até trouxe pra cá no último encontro que nós tivemos aqui, foi “Palestinos: judeus da terceira guerra mundial”. A situação que está hoje, com aquele muro construído, a opressão cada vez maior, o isolamento do Arafat de uma forma cada vez mais… daqui a pouco ele vai se tornar uma figura desprezível internacionalmente… Quais são as perspectivas que você vê para o conflito entre os palestinos e os israelenses? E o que é que você adquiriu naquela teu livro, naquela época daquele teu livro, que você verifica hoje como realidade?

FW: Olha, tudo o que eu escrevi no livro está acontecendo hoje. E tudo poderia ter sido evitado naquela época.

EG: E daqui pra frente, você vai acha que aquilo vai se transformar no quê?

FW: Daqui pra frente nós vamos ver uma mistura de… Freud… tá muito ligado a isso, né? Eu acho que o Sharon é louco, né?, como todas as pessoas que tem esse tipo de cargo, e eu acho que ele quer um Holocausto glorioso, eu acho que ele tá… há uma vergonha por parte do militarismo judeu por parte daquilo que aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial, ou seja, deles deixarem se matar daquela maneira. Então eles estão reagindo contra o inimigo errado. Os judeus em vez de transferirem, transferirem não!, em vez de continuarem com ódio dos alemães estão transferindo o ódio deles para os árabes.

FT: Você falou em “politicamente correto”… É, antes, primeiro eu queria fazer um preâmbulo. Você conhece um romance do Sinclair Lewis chamado “Nobre Senhor Kingsblood”?

FW: Conheço.

FT: Maravilhoso. Eu acho a melhor análise do racismo norte-americano. Quanto ao “politicamente correto”… Na verdade eu acho que essa imposição do “politicamente correto” acaba sendo uma espécie de racismo às avessas, porque… porra, eu não posso chegar pro Zózimo Bulbul e chamá-lo de “Afrão”, porra, porque ele é afro-brasileiro. O que você acha dessa imposição politicamente correta?

FW: Politicamente correto é coisa de viado reacionário.

FT: Concordo!

FW: Meus amigos vão continuar me chamando de Alemão, vão continuar me chamando de Gigante, vão continuar me chamando de Vara Pau, ta entendendo?. E eu quero continuar chamando meus amigos judeus, “fala, Jacó!”, e o crioulo, “fala, crioulo!” e assim por diante, porra! No momento em que você começar a colocar uma ordem na língua do povo, no linguajar do povo… essas coisas elas só podem e devem ser perseguidas quando elas vêm de cima pra baixo, quando são nazistas que fazem através dos meios de comunicação você odiar os judeus, você ta entendendo?, quando são os americanos dos anos 20 mostrando que os negros todos são palhaços, são idiotas etc. Qualquer coisa que saia do povo para o meio de comunicação é arte. Aquilo que vai do meio de comunicação pro povo é imposição de arte. Isso vale pra qualquer coisa.

FT: Exatamente… Olha… Uma coisa curiosa… Eu tenho passado por uma coisa semelhante… O samba, que é uma arte popular, é uma arte altamente complexa e altamente sofisticada, você concorda comigo, eu sei que você concorda, toda vez que eu, porra, o Zuza Homem de Mello, o Roberto Moura, a gente tenta pegar e teorizar sobre o samba nós somos taxados de elitistas em relação ao samba. Você acha que, porra, o samba não merece ser estudado, ser observado com a postura epistemológica, você acha que o samba não merece isso?

FW: Isso é um negócio tão burro, essas coisa me deixam tão puto! Ta entendendo? Mozart, Bethoven, Strauss, por que é que eles são clássicos hoje?

FT: Porque eles faziam coisas maravilhosas, lindas!

FW: Por que eles eram populares, pôrra! Clássico é o popular que vira clássico, é aquilo que passa pela triagem.

FT: Mas você acha que a arte popular, além da análise gosta, não gosta, ela não merece também ser estudada a fundo como são estudados a fundo como as pessoas estudam Stravinsky por exemplo?

FW: Eu acho que não existe arte popular. Eu acho que todo cara que fala em arte popular, música popular brasileira, devia ser castrado e colocado em praça pública para ser fuzilado. O que existe é a arte.

FT: E todas as formas de arte não merecem ser tratadas da mesma maneira?

FW: Claro, eu por exemplo não conheço… qual é a música clássica brasileira? Que eu saiba o Carlos Gomes, que fez uma ópera que já era arte popular na Itália, que por sua vez vinha da comedia dell´arte, porra, pelo amor de Deus, não me enche o saco com arte clássica, porra!

(risos)

EG: Fausto, deixa eu te perguntar uma coisa pra voltar ao teu estilo de Pasquim. Hoje, 2004, junho, quem é “O Coiso” e como se combate “O Coiso”?

FW: O Coiso já foi na mitológica história judaica, Arnaz e Caifás. Porque Arnaz e Caifás fizeram uma gangue no grande Sinédrio na época de Jesus e eles permaneceram donos do poder econômico e religioso da Judéia durante 70 anos, era o mesmo pessoal. Esse pessoal queria que Jesus morresse realmente porque ele poderia subverter as coisas. Então “O Coiso” é sempre o homem de palha do poder. No caso do Brasil, o homem de palha do poder era o Roberto Marinho. Agora eu vou ter que arranjar um outro Coiso, mas está cheio de gente querendo tomar o lugar do Coiso!

EG: E como é possível, não combater, mas fazer com que este espírito que era o Roberto Marinho e que hoje se traduz nessa imprensa pastiche, como é que se faz para que ela não seja a maior influência sobre a população em geral? Isso foi até o princípio de uma conversa minha com o Fernando… a internet hoje é efetivamente um canal possível de levar pras pessoas informação e dados que não têm que passar pelo crivo da censura desses instrumentos?

FW: Por acaso aconteceu uma coisa excelente. A classe média brasileira, internacional, foi obrigada a tomar vergonha por causa do Consenso de Washington e do neoliberalismo e do salve-se quem puder. E essa classe média tá utilizando a internet e isso tá jogando muita água no chope dos poderosos.

FT: Chega!

EG: Acabei de lembrar de uma coisa! Através do Jean Scharleau, você mantém hoje um site, Fausto Wolff, que é muitíssimo visitado e que obviamente é um troço que você incentiva, tem um extremo apreço por aquilo e tal. Você consegue enxergar que aquilo é, ainda que dentro do universo pequeno de pessoas no Brasil que têm acesso à internet, um canal pra levar a verdadeira informação e a transformação pras pessoas que acessam o site?

FW: Claro! A minha idéia basicamente é isso, fazer do site um lugar pras pessoas inconformadas, as pessoas que foram feridas, as pessoas que não têm um lugar pra falar, você tá entendendo?, mesmo que seja um menino, uma menina, mas um lugar onde elas tenham o que dizer… Aquilo não é uma ONG, mas como ali tem nomes, endereços, tem tudo, talvez outras pessoas ajudem aquelas que estão precisando, mas basicamente é um lugar libertário pra todo mundo escrever. Um cara aí que escreveu uma bobagem enorme sobre os CIEP´s eu disse, “claro, publica!”, é claro que escrevi o que eu pensava, mas eu quero que seja um espaço aberto pra todo brasileiro que se considere sacaneado…

EG: E que esteja à esquerda da esquerda!

FW: Isso é o melhor! Mas enfim que se considere sacaneado, que tenha sido machucado como ser humano e queira limpar isso de alguma maneira.

FT: Pode funcionar como a consciência da consciência. Lembra dos desenhos animados? Que ficava a consciência no ombro do personagem: “Eu sou a boa consciência!!!”. E a esquerda não parece esquecer que ela necessita de uma consciência? Ela parece se arvorar da própria consciência, ela é a própria consciência dela mesmo. O que você pensa a respeito dessa arrogância dessa pseudo-esquerda que tomou o poder.

FW: Eu fiquei impressionado com a burrice dos intelectuais do PT e realmente poucas coisas me dão mais nojo do que um fim de semana na Granja do Torto.

FT: É impressionante que um cara como o Frei Betto, que, porra!, não é um cara burro, porra!, esteja corroborando a burrice. Você conhece o Frei Betto… A posição dele é meio esquisita.

FW: Ninguém é frei de graça!

(risos)

FT: Podemos encerrar?

(desliga o gravador)

(liga o gravador de novo)

EG: Falou em estrada eu lembrei dele! O Ministério Público já conseguiu provas. A Justiça já tem provas. E Paulo Maluf continua dizendo, como em ladainha, “não tenho conta na Suíça”… Depois de 40 anos os mesmos homens estão no poder e ainda almejando o poder… Aqui no Rio, se é que é possível você me responder isso agora, temos uma eleição municipal pra brevíssimo, onde estão disputando a princípio César Maia tentando a reeleição, Crivela, aquele Bispo da Igreja Universal, do PL, o Conde, que é vice da Rosinha, e parece que vem a Jandira do PC do B como opção de esquerda, e o Jorge Bittar do PT. Tem alguém que você consiga enxergar como capaz de modificar esse estado de merda que a gente ta vivendo na cidade de hoje?

FW: O Maluf, eu tenho a maior admiração por ele. Quanto ao futuro prefeito, ta muito difícil, porque é uma corrida de incompetências, mas eu ficaria com o Bittar, pela coerência. Acho que o Lula, como ele mudou, e o Bittar não mudou, ele vai ficar com César Maia. César Maia por sua vez é um fascista e ladrão. Sobra o Conde que eu poderia levar a sério se não fosse vice da Garotinha que ainda não sabe o que é álgebra. De modo que a situação tá muito braba. Quanto à Jandira Feghali, é uma médica, do PC do B, mas em compensação apóia o Lula… Difícil… Muito difícil…

Até.

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AS COLUNAS DO JORNAL O GLOBO

Quem acompanha as discussões no interior do Buteco, de pé no balcão ou mesmo sentado à mesa, sabe que eu sou um indignado com o modus operandi de algumas colunetas do jornal O Globo. O volume daquilo que chamo de barbaridades dá bem a dimensão do quanto é, no mínimo, questionável o critério dos responsáveis pelas colunetas para dar uma notinha, termo que eles adoram.

E hoje eu trago mais uma barbaridade para o conhecimento de vocês, meus poucos mas fiéis leitores. Não sobre os bares-mentira que a coluneta Joaquim Ferreira dos Santos tanto exalta, como vocês verão, mas sobre uma propaganda mal disfarçada, deselegante e que atenta contra a inteligência do leitor médio. Vejam bem que eu não estou dizendo que os responsáveis por essa coluneta venderam o espaço, não estou dizendo que foram eles os deselegantes nem tampouco estou dizendo que eles atentaram contra a inteligência do leitor, embora tudo isso possa – eu disse possa – ser verdade. Mas estou dizendo que o sujeito que cravou a tal fotografia e o tal texto bem no centrão da coluna deveria ter tido o mínimo cuidado de checar uns poucos dados, coisa que eu fiz ainda há pouco e que me tomou menos de cinco minutos.

nota publicada no jornal O GLOBO de 07 de agosto de 2006

lá, como vocês podem ver, uma foto bastante grande de uma orquídea “transplantada” (a palavra e as aspas são do texto da coluneta) para “esta árvore na altura do número 185 da Rua do Lavradio, na Lapa”.

Na foto, como vocês podem ver, assim, sem querer (preciso pedir licença para gargalhar), em destaque, um toldo no qual se lê “TEL: 2507-5111 – brecho.multiply.com”.

Muito bem.

Vamos continuar “lendo” a nota: “É a primeira vez que ela floresce, coisa que só deve acontecer uma vez por ano. Flávio Rodrigues Santoro fez o registro para deleite dos nossos leitores”.

Eu não sei que leitor terá se deleitado com esse troço.

Eu liguei pro 2507-5111. Atendeu um sujeito e eis o diálogo:

– Brechó, bom dia!

– Bom dia. O Sr. Flávio Rodrigues Santoro está?

– Ainda não chegou.

– Sei. E você pode me dar o endereço daí?

– Pois não. Rua do Lavradio 185.

– Obrigado.

– Quem está falando?

Eu preferi desligar.

Notem bem…

Eu não posso ter sido a única pessoa a pensar nisso… Nessa suposta coincidência, nesse ângulo inusitado da fotografia para fazer aparecer destacado o nome e o telefone de um estabelecimento comercial…

Como diz o autor da coluneta, na minha terra o nome disso é… deixa pra lá (que pensando bem nem é um chavão original, e salve Stanislaw Ponte Preta).

Até.

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