O OLHAR NATIVO, AGORA SIM

Hoje eu vou contar o que lhes contaria ontem, não tivesse eu desviado no meio do caminho e tropeçado nesse engodo que é a Brasserie Rosário. Brevíssima pausa: ao escrever engodo senti agudíssima saudade do eterno Leonel de Moura Brizola, fazendo tanta falta ao país neste ano de eleições.

Mas vamos lá.

Não.

Antes quero chamar a atenção de vocês para dois pequenos fenômenos interessantes, ambos acontecendo no balcão do Buteco. O primeiro passa-se aqui, onde se discute a origem da palavra “queijo” para definir a plataforma, geralmente de madeira, onde ficam os destaques de uma escola de samba e as putas nos cabarés-não-família, para aproveitar uma expressão imunda citada na coluna igualmente imunda do Jota (que está de férias). O segundo passa-se aqui, onde a discussão tem ares quase que sagrados. Quase que discute-se o pão e o vinho. Quase. A discussão é sobre o pão e o chope, e estão todos convidados a dar palpites para tornar o balcão ainda mais tumultuado, instante ápice de qualquer buteco que se preza.

Mas então vamos lá.

Eu fui ao centro da cidade para comprar os pães na Brasserie Rosário, atendendo sugestão da Betinha, na manhã de um sábado, e lá cheguei às 9 horas. Dei de cara com um funcionário pernóstico (envenenado pelos proprietários da padaria) varrendo a calçada que me disse:

– A Brasserie Rosário abre apenas às 10 horas, senhor, com os melhores pães da cidade do Rio de Janeiro e será um prazer recebê-lo para que…

Dei as costas e segui em frente.

Eu tinha uma hora para andar, à toa, pelo Centro. É preciso lembrar que eu havia chegado há pouquíssimo de Portugal, onde andei quilômetros, embevecido com tudo o que vi. Daí pensei o que todos pensam n´alguma altura mas raramente põem em prática: é preciso ter, na nossa própria cidade, o olhar nativo que nos permitirá saber o que ver e ao mesmo tempo o olhar do imigrante, curioso, sem pressa, atento aos detalhes que nos escapam na correria do dia-a-dia. É preciso reduzir à metade a velocidade dos passos, é preciso olhar mais pra cima, é preciso estar atento a tudo, aos movimentos, à luz, às sombras, e eu tinha, ali, uma hora para tanto. E que manhã de sábado, e que manhã de sábado!

Centro do Rio, Rua do Rosário

Saí dali, daquele canto da Rua do Rosário, e tomei a direção da Rua do Ouvidor e, surpresa!, dei de cara com o Rodrigo Ferrari, que escreveu essa resenha sobre meu livro (nunca é demais uma propaganda) e que estava abrindo a Folha Seca, livraria que comanda com tremendo carinho. Nova pausa para mais uma propaganda: a Folha Seca é, de longe, a mais carioca das livrarias da cidade e, seguramente, a que tem o melhor acervo nas matérias que são a essência da minha mui amada cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Fica na Rua do Ouvidor 37, telefone 2507-7175 (nunca é demais uma propaganda). Papo rápido e segui caminho.

Tomei o caminho da Praça XV, atravessando o Arco do Teles, e tomei o rumo da feirinha de antigüidades que acontece ali, todos os sábados, debaixo do viaduto, bem em frente ao Paço Imperial.

Igreja da Ordem Terceira do Monte do Carmo, na Rua Primeiro de Março, centro do Rio de Janeiro

Munido da câmera (é impressionante como andar com uma nos faz mais atentos a tudo em volta) fui, como um turista (eis o agá da questão!), fazendo fotografias e me emocionando, de verdade, com o tanto de história que escorria diante de mim.

Percorri as barraquinhas da feira, sentei-me depois diante do Paço Imperial e fiz a indispensável viagem no tempo que monumentos históricos geralmente nos impõem, numa das mais doces imposições.

Uma hora depois, embevecido e comovido, amando ainda mais – como se possível fosse – a minha cidade, fui à tal padaria, a Brasserie Rosário.

Ansioso pelo pão, sofrendo a nostalgia do pão, como lhes contei ontem, deparei-me com uma grande mentira. A Brasserie Rosário não vale uma migalha.

Mas o Centro do Rio vale. E muito.

Até.

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14 Comentários

Arquivado em Rio de Janeiro

14 Respostas para “O OLHAR NATIVO, AGORA SIM

  1. >A parada na FOlha Seca para um “plá” com o Rodrigo é obrigatória quando a gente está flanando pela região. Aquela é uma das áreas mais belas do Centro mesmo. Outro lugar que me remete ao passado é o Morro da Conceição…

  2. >Nossa Edu, que você escreve e pinta horrores eu já sabia mas que você também fotografa absurdamente bem é uma novidade. Quer dizer, nem é tanto porque as fotos que você sempre posta são muito lindas, só que essas do centro da cidade do Rio de Janeiro ainda mais com um discurso tão apaixonado como pano de fundo estão o máximo dos máximos. Sabia que tenho todo o Buteco impresso? Você escreve melhor a cada dia que passa. Não sei como ainda não te contrataram para crônicas diárias em jornais. Seria sem dúvida a delícia do dia. Parabéns e um abraço.

  3. >Impressionanate como, quando se julgava que já nada mais poderia tornar a Cidade Maravilhosa ainda mais Maravilhosa, o Rio consegue semrpe ser mais e mais Bonito.Beijo e Saudade!

  4. >Querido Edu: o Centro mostrado por suas lentes, sensíveis como a sua alma, é é m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o.

  5. >Edu, parabéns! Eu como um legítimo “Barra Fundense”, que adoro as coisas antigas, também fiquei emocionado com o texto e as fotos. Ah, e não são somente os cariocas que reclamam do pão de sua terra. Os mineiros, goianos, paranaenses tbm reclamam dos seus… Bem, a um tempo atrás já cheguei a conclusão que o que há de melhor mesmo em Sampa é o pão! Quanto ao chope, o que o Szegeri disser também assino embaixo. De olhos fechados!!!!Abração!Arthur Tirone (Favela)

  6. >O RIO DE JANEIRO CONTINUA LINDOO RIO DE JANEIRO CONTINUA SENDOO RIO DE JANEIRO FEVEREIRO E MARÇOALÔ ALÔ REALENGOAQUELE ABRAÇOALÔ TORCIDA DO FLAMENGOAQUELE ABRAÇOBUTECO DO EDU TÁ MAIS MARAVILHOSOO EDU TÁ ESCREVENDO A CADA DIA MAIS GOSTOSOE A GENTE DELIRANDO LENDO ESSE BUTECOALÔ ALÔ EDUZINHOAQUELE ABRAÇOSEMÍRAMIS

  7. >Eduzinho, acabaram as férias do teu pincel, cumpadre. Eles voltaram… Até desanima a gente de escrever algo que preste.Favela, obrigado pelo “cheque em branco”. A responsa é grande… Qualquer dia desses a gente faz um tur.

  8. >Agora até dá gosto da gente escrever algo que preste:”Deus desenhou meu coraçãoDe um jeito igualzinhoAo velho Centro do RioSão tantos pontos de luzEm direção à procissãoDa festa da Candelária…”Êeeeita ferro…

  9. >Sem ciúmes: esse namoro de vocês está lindo.

  10. >Ana Maria e Semíramis não sabem o perigo que estão correndo… Hahaha!!!

  11. >Marcelo: isso é um fato. Passar ali no finalzinho da Ouvidor, trocar uma idéia com o Rodrigo, e de preferência com um chope ao alcance da mão no português ali da esquina, é sempre muito bom.Inês, querida: o Rio é, de verdade, uma surpresa a cada esquina, a cada rua, a cada instante.Ana Maria: obrigado, mas é exagero seu.Favela, meu caro, que bom que você se comoveu, meu velho. Faço de público a promessa e o convite: arme uma vinda ao Rio. Faço QUESTÃO de rodar o Centro da cidade contigo parando nos grandes bares, cheios de história, pra que tenhamos um dia daqueles. Aguardo notícias suas!Semíramis: menos, querida, menos. Salvo engano meu é seu primeiro comentário. Começou mal. Perdoe a franqueza.Pompinha: ignoremos os que merecem desprezo, Pompa! Beijo, querido.

  12. >Szegeri, mano velho: foi a emoção, seguramente, que te fez esquecer de dizer que essa obra-prima aí é letra do Aldir Blanc pra música do Moacyr Luz, certo?Flávio: o Pompa vai te responder.

  13. >Mais um pouco de Aldir, desta vez com João Bosco.(Da África à Sapucaí)”…Já danceiLá da Praça Onze à Sapucaí,Do Deixa Falar do Estácio ao Bafo do CatumbiSamba é a voz que me guardaEnquanto eu aguardoA procissão se espraiarDe Santo Cristo a Oswaldo Cruz,Esperando a vez do MorroSe unir pra arrebentar”

  14. >Edu, eu não escrevo nada aqui no Buteco há muito tempo. Só que hoje, lendo “O Olhar Nativo, Agora Sim” verifiquei orgulhoso que também deixei lá meu comentário. E reitero cada uma de minhas palavras. Você é coerente e comovente. Parabéns e um abraço. E desculpa se estou sendo inconveniente.

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