BRASIL 1 X 0 CROÁCIA

Arrã. Então . Manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo. Arrã. Pódexá.

Às quatro da madrugada – eu disse quatro – de ontem eu já estava de pé, sacodido por um pesadelo tenebroso: a Croácia batia no Brasil de forma desonesta. Pensei em telefonar pro Pompa, mas antevi que meu irmão sequer me atenderia àquela hora. Daí fiquei vendo TV, assistindo os intermináveis comentários sobre o que seria a estréia brasileira, previsões as mais variadas, entrei em sites de jornais de todo o mundo, e cheguei a uma conclusão. Eu precisava beber para ficar mais calmo. A pedido do Fefê, comecei a gravar um CD para levar pro Estephanio´s: hino nacional na voz da Fafá de Belém, hino nacional em ritmo de forró, as vinhetas das Copas do Mundo, Voa Canarinho na voz do Junior, e eu chorava que dava dó. Aí decidi: às dez eu bebo uma coisinha. Assim mesmo, no diminutivo. Senti-me bem menos dodói por isso.

no Buteco do Edu

Bem, daí eu pus essa coisinha, que atende pelo nome de RedLabel, nesse copinho pequeno. Sentei-me no Buteco do Edu, fiquei dando pequenos goles, ouvindo resenhas intermináveis no rádio quando ouço a voz da mulher que me ensinou a sorrir:

Kêksetá chorando?

Pra quê?

Solidária, Dani chorou junto dando ligeiros soquinhos no meu ombro enquanto me abraçava:

– Pára com isso, pô… – pedia minha garota, em vão.

– Vamos indo? – eu disse.

– Vamos. – e isso com o sorriso mais bonito do mundo no rosto.

O plano era ir a pé, com calma, fazendo estratégicas paradas pelo caminho, para que chegássemos ao Estephanio´s às 13h, para o jogo da França. Descemos a Hadock Lobo na contramão, ultrapassamos o Largo da Segunda-Feira e chegamos no Alzirão. E, meus poucos mas fiéis leitores, o que é o Alzirão nesse 2006? Ainda mais gigantesco que noutros tempos e ainda mais bonito, embora eu rejeite as novidades babacas: área vip, área vip vip, esses troços que fazem com que uma meia-dúzia de espertos garantam algum pro resto do ano. Vejam a Dani no cantinho à direita da fotografia!

Dani no Alzirão

Nossa primeira parada foi no Bar Estrela, glória tijucana desde 1966, na esquina da Rua Conde de Bonfim com a Rua dos Araújos. Toca o celular. É o Vidal, a Lenda:

– Edu, qual sua posição?

– Estamos chegando em 20 minutos na Saens Peña. Ligo pra você. Bêjo-tchau.

Seguimos caminho e paramos num pé-sujíssimo na Rua Desembargador Isidro. Convoquei o Vidal que chegou em segundos. Bebemos uma, bebemos duas, bebemos três, pagamos a conta e seguimos para o Roquinha, na General Roca (daí o nome). Chope na pressão pros três, churrasquinho no pão (um clássico da casa) e toca o celular. Quem era? Quem era? Quem era?

O Pompa.

Fui um feliz naquele instante.

O telefone rodou a mesa (sempre, todos, sejam quantos forem, querem falar com o Pompa, ouvir-lhe a voz, os conselhos, a gargalhada sábia).

Quase 13h. Dani toma o rumo do salão (por que mulheres são assim?) e eu e Vidal o do Estephanio´s.

Estephanio´s

Encontramos meu pai, Fefê, Bruno e Fraga. Os quatro com os olhos levemente marejados. E notem a grandeza e a maturidade dos diálogos:

– Edu… li o texto de hoje cedo… Também não paro de chorar… – e fungou, o Fraga.

– Edu… – disse o Fefê – estou com péssimo pressentimento…

– Mas por que?

– Joguei Brasil e Croácia no Fifa 2006 e deu 2 a 1 pra eles.

Aí todos estrilaram. Eu primeiro:

– Mas, Fê… você jurou por Deus antes do jogo começar que o resultado seria o real?

A respiração coletiva suspensa:

– Não.

Aí todos relaxaram, mas disse o Vidal:

– Cacete, Fê… eu não tive coragem de jogar lá em casa… Até jurei por Deus que jogaria e que o resultado seria o real, mas não consegui.

Dalton e eu

Neguinho foi chegando. Manguaça, Fernanda, Lelê Peitos, Maria Paula, Alex, o Fraga bebia uísque como quem respira, mamãe, Dalton, Guerreira, Kaká, Fumaça (por uns dias no Brasil!), Gláucia, Brinco com a Yasmim, Carmen com a Gabi, Vítor, Fred, Cachorro, Cris, Mauro, Sogrinho, Bianca, Deyse, Índio, Zé Colméia, uma horda de hunos enfurecidos, e os diálogos enriquecedores ganhando força.

– Edu, meu filho… – é minha mãe na área – vai lá dar uma força pro seu pai, vai…

– O que houve, mama?

– O jogo nem começou e ele está chorando…

Daí comecei a chorar de novo, que choro contagia.

Dani chega do salão. A vejo, corro pro abraço e choro:

– Ô, amor… não gostou do meu cabelo?

– Cabelo? Que cabelo?

O Fraga, à minha esquerda, na provável décima-segunda dose de uísque chora. O Vidal funga (e com aquele nariz, quando ele funga, já viu). O Fefê traz o Sogrinho pela mão:

– Edu, sabia que o Sogrinho vai ser avô?

O Sogrinho chora.

– Pô, Sogrinho, não fica assim… – eu disse – Você vai curtir ser avô…

Ele, finíssimo:

– Avô é o caralho, Edu! Brasil, porra! Brasil!

Choramos abraçados.

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Quem também deu o ar da graça foi um louro. No ombro do dono o tempo inteiro, foi anunciado assim pela Fumaça quando adentrou o recinto:

– Ih! Um louro!

A Guerreira já galopando:

– Um louro? Gato? Tá sozinho? Aonde? Aonde? Cadê?

Daí canta-se o hino, daí começa o jogo, daí a gente sofre de doer, o Brasil joga mal pacas mas faz um gol. Fefê e Cachorro, gênios do marketing, bolaram a promoção: a cada gol do Brasil um chope grátis para quem estiver com a camisa do Estephanio´s para a Copa do Mundo. O bar inteiro estava com a camisa. E notem a categoria da torcida brasileira segundos após o gol:

– Chope! Tamtamtam! Chope! Tamtamtam! Chope!

Pra logo depois o côro irromper noutro grito:

– Eu, eu, eu, o Fernando se fudeu! Eu, eu, eu, o Cachorro se fudeu!

Uma categoria de fazer croata pedir penico.

Eu, Fefê e Vidal

E assim foi o Brasil, mal das pernas, rendendo muito menos do que o esperado, mas é Copa do Mundo.

Um a zero são três pontos.

E é o que importa.

Vidal Fefê, Dani e Fumaça

Fechamos a noite, eu e Dani, na companhia sempre hilária da Fumaça, no Galeto Columbia, glória da gastronomia tijucana, conduzidos, é óbvio, pelo maior taxista de que se tem notícia, o Paulinho.

Até.

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5 Comentários

Arquivado em botequim, futebol

5 Respostas para “BRASIL 1 X 0 CROÁCIA

  1. >Belo texto, Edu, daqueles de fazer rir bastante. A Copa promete pelo visto! Um abraço.

  2. >Caro Edu me permita uma observação! Desde a passagem da Guerreira no seu divertidíssimo livro, naquele casamento, que não rio tanto com uma intervenção dessa grande personagem de humor. Gostei do texto à sua melhor moda. Um abraço.

  3. >Discordo cabal, frontal e absolutamente. A miopia futebolística do diagnóstico da atuação brasileira deve-se, provavelmente, a essa mania de transformar jogo do Brasil em baile de carnaval. O Brasil jogou o seu jogo, com os melhores jogadores concentrados, determinados, superando suas limitações técnicas e posicionais. É uma estréia, tem o nervosismo, a Croácia foi o asversário mais forte enfrentado pelos cabeças de chave (à exceção de Costa do Marfim). É uma Copa difícil como talvez nenhuma outra. Equilíbrio é a palavra. Território europeu, não esqueçam. Tivemos os problemas de posiocionamento que não são novidade pra ninguém: a zaga (que atuou bem indiviualmente) que não acerta o esquema das coberturas e acabou nos fazendo tomar 4 bolas na cara do Dida e os dois avantes. Provavelmente anuncia-se mais um homem no meio, pra recuar o Emerson quase como um terceiro zagueiro e deixar o Ronaldinho mais à frente, sacrificando-se um dos avantes. Mas é cedo para afirmar peremptoriamente. Vamos parar com o oba-oba, vamos lembrar que nossos jogadores tem qualidade inegável e que o Parreira é técnico pra trazer caneco, não pra dar espetáculo. E vamos beber menos, chorar menos e ver mais o jogo. Só assim a gente ajuda o Brasil.

  4. >Tô assustado com uma coisa. Tem brasileiro, ou melhor, nego nascido no Brasil, na seleção do Japão, da Espanha, do México e de algum outro país aí, se não me engano. O drama é que o Brasil produziu e produz mais craques da bola do que qualquer outro País do mundo, por algum motivo que desconheço. Será que os craques do futuro vestirão a amarelinha?? Já se fala em levar garotos de treze anos para a Holanda, para não sei onde. Avacalhação tem limite. É o fim total e acabado da idéia de Copa do Mundo.E pelo-amor-de-Deus!!! Ronaldo merece outras chances por tudo que já fez, pode ajudar muito e até ser decisivo, mas nessa Copa, que mal começou, o cara já teve bolha, febre, tontura e siricotico. Já parou numa clínica e já entubaram o estômago do cidadão.Nem se um de nós estivesse na Alemanha, se entupindo de cerveja, salsicha (a comida, bem entendido) e outros que tais teria tantos problemas assim. Se ele não tiver condições, não pode jogar, porque nem o Pelé jogou sem condições. E ele não é o Pelé.

  5. >Grande Marcão, grande verdade! O Fritz Utzeri, o Veríssimo, muita gente vem demonstrando certa revolta com esse troço dos brasileiros infiltrados noutras seleções, como se fosse natural.Minha mãe, por exemplo, que entende menos de futebol do que o Pepperoni, mandou essa na segunda-feira: A FIFA deveria proibir técnico estrangeiro dirigindo qualquer seleção. Nada pode ser mais patético e constrangedor do que o cidadão estar perfilado ouvindo e cantando o hino de um país que não é o seu numa Copa do Mundo, país dirigido por ele e capaz de enfrentar sua pátria num jogo, eventualmente. E há o Felipão, há o Zico (que enfrentará o Brasil), há o Renê Simões, há mais.Mas o Pompa, Marcão, sei lá o que deu no Pompa. Não bastasse o non-sense do conselho – beber menos e chorar menos, dois verbos que ele conjuga o tempo inteiro e intensamente – ele ainda manda essa, de que só bebendo menos e chorando menos é que poderemos ajudar o Brasil. Não entendi. Ou melhor, acho que entendi… Nosso bom Pompa escreveu isso aos prantos e violentamente bêbado.Só pode.

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