NOVE DE MAIO

Estava eu com pouco mais de dois anos de idade naquele maio de 1971.

Era domingo, dia das mães, e minha mãe, a formosa, ganhou de presente seu segundo filho, um moreno bem mais moreno que o até então filho único, olhos bem pretos de jabuticaba, cabelos encaracolados e um jeito malemolente perceptível assim, de cara, pela mãe que não coube em si de tanta alegria e pelo pai, o caboclo.

Um jeito malemolente, um jeito marrento que seria evidente anos mais tarde, um corpo atarracado, uma covinha no rosto que fazia pais, avós, bisavós e toda a gente babar, e o até então filho único seguramente foi incapaz de perceber que nascia, ali, seu maior amigo.

Fefê, 30 de abril de 2006

Já discorri, mais de uma vez, sobre a paixão que nutro pelo menino de 71.

Sou mais que seu irmão mais velho, e dentro de mim se misturam as tintas do pai que não sou, do avô encantado pelo neto, do amigo e confidente indispensável, do cúmplice que tudo sabe, tudo ouve, tudo aponta, e eis que ele me comove de maneira olímpica pelo simples fato de existir e de ser meu a meu modo.

Estive com ele, pela última vez, no domingo retrasado, 30 de abril, para um churrasco em sua casa, em Vila Isabel, que ele agora divide com a Brinco e com suas meninas, Shayanne e Yasmim.

Pequena pausa para dizer que o Fê era, há até pouco tempo, daqueles solteiros convictos, radicais, capaz de fazer os militantes do MST e do PSTU parecerem cordeirinhos.

Era.

Encontrei meu irmão em estado de graça, sem caber em si de tanta felicidade, e isso estava ali, claríssimo, no brilho de seus olhos, nos gestos de atenção e doçura apontando para um homem em paz, e comovidíssimo que fiquei, bebi intensamente e fui incapaz de lhe dizer isso.

Aliás, fui incapaz de ir, antes, à sua casa para atestar o que atestei naquele domingo. Eu, fóbico incorrigível, eu, cada vez mais vulnerável a torrentes emotivas capazes de me derrubar (e um dia eu não levanto mais!), adiei o quanto pude o encontro com essa realidade que me fez tão bem vivenciar.

Preciso falar do Szegeri, rapidamente. Preciso porque quero que fique nítido o quanto o Pompa me ocupa a mente, e porque ele sabe, como poucos (talvez como ninguém) o que significa essa equação louca que me afasta de quem amo em certas ocasiões, por mero instinto de sobrevivência.

Fefê, 30 de abril de 2006

Daí fiquei grande parte do dia, naquele domingo de céu azul, cerveja gelada e carne na brasa, admirando meu irmão.

Admirando seus gestos expansivos, sua gargalhada que jamais conseguirei reproduzir (quando eu gargalho, o que é raro, pareco latir), seu sorriso puro (puro, sim, ô babacas, por quê?), sua ternura constante, e ver as marcas do tempo em seu rosto, e ver em seu rosto tanto gosto por estar vivendo aquilo naquele momento, deu-me a dimensão de sua sabedoria e a certeza de que a prece que faço, dia após dia, é imperiosa: tem de ser atendida.

Sabedoria, sim, eis que não há traumas nem tantas dores em seu caminho como há no meu, e talvez isso seja fruto de minhas preces, que creio fazer desde aquele longínquo 71, quando ainda não sabia rezar (e hoje eu acho que desaprendi).

Teria eu o dobro das dores que já sofri se isso significasse ausência de sofrimento para ele.

Fefê e Dani, 30 de abril de 2006

E por conta desses troços todos, desse amor desmedido, dessa espécie saudável de dependência, dessa idolatria infantil, é que tenho vontade de reproduzir, pelo terceiro ano consecutivo, o poema que dediquei a ele, Fefê, meu irmão siamês, pela primeira vez, em 2004.

Ergo do Buteco o copo a ele. Com quem passarei o dia, que tiro de folga hoje. Vejam se não é coisa de pai coruja, avô babão ou irmão apaixonado.

“Sendo eu Flamengo até a alma,
tendo o sangue negro
a bombear o coração vermelho,
preciso de um cigarro e muita calma
pra escrever,
depois de alguns ensaios diante do espelho,
uma frase capaz de lhe fazer compreender
a dimensão do amor que me une a você,
meu irmão siamês.
E vou escrever uma única vez:
por você sou vascaíno.

Por mais que o tempo passe
insisto em vê-lo como um menino,
mas o menino sou eu
a idolatrar o irmão que é meu maior tesouro,
num movimento e num impasse inexplicável do tempo,
que dobra as datas e me faz ter nascido depois do seu primeiro chôro.

Entre nós dois, pactos de sangue, cumplicidade,
cinzeiros cheios, muita cerveja, olhos marejados,
samba, mulheres e futebol.

Torço permanentemente para que a Vida,
a tal senhora por vezes desatenta,
atenda minha reza estúpida
que pede para que eu jamais lhe sinta a falta.

Passarei, como os craques passam,
de passagem,
deixando com você,
como homenagem,
meu coração calejado, na colina mais alta,
devidamente marcado pela Cruz de Malta.”

Até.

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4 Comentários

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4 Respostas para “NOVE DE MAIO

  1. Fefêliz aniversário!!!

  2. Fê, xará-confrade-irmão, um puta beijo público, porque não pode haver (o Edu sabe!) nenhuma chance de não se dizer o que se sente. Como disse dia desses ao teu pai, graças aos encontros da vida e pelo intermédio do teu irmão, que é também meu, agradeço por hoje te amar fraternalmente também.

  3. Eeita!! Esse sou eu? Pareço até perfeito! ehehe! Dentre meus inúmeros defeitos, a minha falta de talento para expressar dessa forma minhas emoções, me impede de retribuir o carinho do Edu nesse espaço da forma que eu gostaria. Mas, comovidíssimo, agradeço o exagero! Beijo Edu, beijo Szegeri, beijo Zé.

  4. Pingback: 40 ANOS NÃO SÃO 40 DIAS | BUTECO DO EDU

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