Arquivo do mês: abril 2006

A ESPIRAL – PARTE I

Vou ser preciso do início ao fim, hoje (como sempre), e não vou mascarar a hora em que escrevo, pouco mais do que quatro da manhã. Acho que como mais uma manifestação de TOC (veja aqui e aqui) eu fico padronizando o horário das postagens, sempre às sete da manhã. Mas hoje, não. Essa insônia olímpica, esse despertar despropositado, só pode ter a ver com as 72h que me separam do dia 27, quando farei anos, 37, e pronto!, essa profusão de sete bastou para que eu fosse arremessado longe, mais precisamente para 1969, ano em que nasci.

Eu disse uma vez, aqui, que meu pai cravou em mim o futebol como sacerdócio, e creio eu que isso deu-se nesse dia aí, em que estava em seu colo (notem seu sorriso de orgulho), no setor das cadeiras especiais, ainda de fraldas, provavelmente num domingo, dentro desse gigante de concreto amalgamado com as lágrimas da paixão enfurecida das torcidas cariocas, o Estádio Mário Filho, o Maracanã.

E valendo-me de mais uma dentre tantas preciosas imagens de autoria da Ju, tenho sobre o peito, hoje, e agora, o mais pesado dos paralelepípedos. É abril, é abril. E vem chegando o dia 27, e foi meu mano Szegeri quem me sinalizou isso hoje, quando bati o telefone pra ele, no meio da tarde, oprimido e espremido dentro do terno, suado, no centro da cidade. Nem sei por quê liguei, mas creio que em busca de alívio. E disse-me o meu Xamã:

– É abril, Edu. Mas maio vem aí.

Resta um orgulho rasgadíssimo por estar resistindo à tentação do cigarro.

Resta uma saudade estúpida, já que em vão, os tempos não voltam, desse 1969 quando eu não sabia rigorosamente nada, não sabia de nada, e era, provavelmente, mais feliz e justo graças à ignorância, santa, inocente, imaculada e porta aberta para constantes absolvições.

E por causa dessa saudade, estúpida e leviana, as primeiras pessoas que me vêm à mente, e que eu gostaria de encontrar na quinta-feira, depois de amanhã, no Trapiche Gamboa, são a minha Bia, o Marco Aurélio, o Fabinho, o Toledão, e daí eu tenho ainda mais fome e sede de 1969, quando além de não saber nada eu também não conhecia qualquer espécie de saudade.

Ô, abril!

Até.

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>CONVITE

>

Bem, mantendo minha, como diria minha sumida comadre Mariana Blanc, linha confessional, devo admitir que sou daqueles apaixonados capazes de tudo em nome da paixão. E explico melhor, que isso dito assim ficou vago demais.

Vamos lá.

Gosto de alguém? Então sou derramado, faço declarações públicas, sou tátil, abraço, beijo, não meço posturas nem controlo explosões de demonstrações olímpicas do meu bem-querer.

Gosto de um determinado prato num determinado restaurante? Pronto! É o desespero e o marasmo na vida do cozinheiro. Só pedirei aquilo, sempre, como se antolhos me impedissem de verificar qualquer nesga de novidade no cardápio.

E por aí vai.

Vai daí que na semana passada, dia 13 para ser mais preciso (do início ao fim, como sempre), véspera de feriado, fui com a Sorriso Maracanã e mais Betinha e Flavinho, Sérgio Barreto e Alex, o Justo, ao Trapiche Gamboa, atendendo dica do Paulo Roberto Pires, no NoMínimo, assistir à apresentação da cantora Fabiana Cozza, a quem eu não conhecia. Infelizmente, aliás (ela canta que é uma beleza!), e notem aqui um traço doentio da minha personalidade… O Szegeri não apenas conhece a Fabiana há anos como é seu amigo, íntimo, e debochou de mim de forma colossal quando eu lhe telefonei na tarde do dia 13 perguntando se podia, mesmo, ir ao Trapiche naquela noite com a certeza de que veria uma boa cantora (liguei pra Stê, na verdade, mas é impossível não pôr o Szegeri no roteiro do meu dia-a-dia).

Disse-me o meu pomposo irmão paulista:

– Vá de olhos fechados, Edu! A Fabi (residindo aí, nesse dissílabo, a intimidade que me fere ainda agora) canta muito.

E canta mesmo.

Quem cantou também, nesse dia, foi o Moacyr Luz, que apareceu não para uma canja, que canja é coisa pouca. O Moacyr apareceu foi para uma granja. Cantou pra burro (bem e muito) e, disse-me a Dani (eu estava assim, meio fora de órbita), levou-me ao delírio.

Voltando.

Daí decidi que na quinta-feira que vem, 27 de abril, quando faço 37 anos (meu Deus… eu cada vez mais velho…), vou estar lá, no Trapiche Gamboa, na Rua Sacadura Cabral 155, a partir das 20h, tendo o privilégio, novamente, de ver e ouvir a Fabiana que, de fato, é um portento cantando. Dona de presença fortíssima, marcante, com repertório de primeiríssima, uma divisão espetacular, quebrando qualquer concepção original de qualquer canção, a Fabiana já é (daí a menção ao meu modo de paixão) uma das minhas preferidas.

E prosseguindo a onda novidadeira do Buteco, um vídeo da Fabiana cantando “O Samba é Meu Dom”, com rápida propaganda do meu provedor!

Se você não tem o RealPlayer assista o video aqui.

Mas se você já tem o RealPlayer, então é mais simples! Assista o video aqui!

Até, e espero você lá, 27 de abril, quinta-feira, a partir das 20h no Trapiche.

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>SALVE, JORGE!

>

Ontem, sábado, 22 de abril, véspera do dia dedicado a São Jorge, fomos eu e a Sorriso Maracanã à quinta edição do Samba de Jorge, no Centro Cultural Carioca, na Praça Tiradentes.

São Jorge Guerreiro

Se valeu a pena? Ora, ora. No comando do furdunço, Nei Lopes. E mais nada precisa ser dito.

E como mais nada precisa ser dito com relação à qualidade da festa, vamos a algumas passagens da agradabilíssima noite de sábado.

Fomos eu e Dani, Maria Paula com Maria Sílvia, sua mãe, Ruivinha com Itamar, Ciccio com Andre e Frederico, Cris com a Cláudia e ele, o Mauro, que na visão do meu irmão Szegeri é a verdadeira beleza acachapante e que ontem exerceu, como sempre, sua função de embaixador informal da cidade. Explico.

O Mauro tem sempre no bolso um estrangeiro ou uma estrangeira (geralmente uma estrangeira). Você esbarra com o Mauro na praia e ele apresenta a você sua companhia:

– Edu, Inês, Inês, Edu! (ela, a portuguesa)

Ou:

– Edu, Cecilia, Cecilia, Edu! (ela, a italiana)

Ou ainda:

– Edu, Araitz, Araitz, Edu! (ela, a espanhola)

E isso não tem fim. Pois ontem o Mauro levou, a tiracolo, o Ciccio (que eu e Dani conhecemos na Itália quando lá estivemos), o Andrea e o Federico, sobrinhos do Ciccio e que têm, no Mauro, uma espécie de ídolo. Aliás, o Mauro ontem estava especialmente dengoso e carinhoso comigo como se pode ver pela fotografia abaixo.

eu e Mauro no CCC, 22 de abril de 2006

Além do Ciccio, além do Andrea, além do Federico, o Mauro levou, no outro bolso, a Claudia e a Cristine, fã declaradíssima do meu irmão (e quem não é?).

Eu perguntei “e quem não é” e tenho que responder.

Todos são.

O Mauro, por exemplo (tenho hoje vontades olímpicas de falar sobre ele), é capaz de fazer gente de toda a parte do mundo se despencar em direção ao Brasil. E não em busca de Copacabana. Não em busca do Corcovado. Não em busca do Pão de Açucar. Não em busca da garota de Ipanema. As pessoas vêm (homens e mulheres, diga-se) apenas para vê-lo e ter com ele um, dois, três dias de convívio. Um troço impressionante.

eu, Andrea, Federico e Mauro no CCC, 22 de abril de 2006

Ciccio, Dani e Mauro no CCC, 22 de abril de 2006

Maria Paula, eu e Mauro no CCC, 22 de abril de 2006

Eu e Dani no CCC, 22 de abril de 2006

Mas vamos à noite.

O CCC estava de vermelho e branco.

Como eu já disse, mestre Nei Lopes estava como mestre (obviamente) de cerimônia.

Nei Lopes no CCC, 22 de abril de 2006

Dani e Nei Lopes no CCC, 22 de abril de 2006

Eu, aproveitando o gancho da palavra, mais sem cerimônia que nunca. Tenho estado assim desde que parei de fumar e sabe-se lá por quê.

Uma das primeiras a se apresentar foi a Dorina.

E é sempre um prazer espetacular vê-la cantar. A Dorina canta (por mais que isso soe piegas) com a alma retalhada e ontem pareceu-me fazê-lo ainda mais intensamente, já que declarou-se comovida com a festa.

Outra boa surpresa (eis que não sabia que elas estariam lá!) foi rever o Quarteto em Cy, por quem tenho especial carinho. Cyva, Cynara, Cybele e Sônia cantaram algumas músicas e com a mesma graça que as caracteriza.

Quarteto em Cy no CCC, 22 de abril de 2006

E quem mais estava? O magnata supremo da elegância moderna!

Walter Alfaiate. O mesmo vozeirão. A mesma categoria. A mesma elegância (dando contornos de coerência ao epíteto que ele mesmo criou), a mesma cadência das melhores escolas do gênero, padrão Cyro Monteiro.

Dani e Walter Alfaite no CCC, 22 de abril de 2006

Do CCC partimos para CCCC (piada infame da noite e explico).

Do Centro Cultural Carioca partimos para comer cabrito no Capela com o Cícero.

E deu-se o final da noite com mais chope, com arroz de brócolis e com o cabrito mais famoso da cidade e que estava, ontem, especialmente bom, talvez devido à companhia.

Itamar e Ruivinha no Capela, 22 de abril de 2006

Cristine e Cláudia no Capela, 22 de abril de 2006

Maria Paula e Maria Sílvia no Capela, 22 de abril de 2006

Chegamos em casa, de volta, já era alta madrugada.

E já era, é claro, 23 de abril, dia do Santo Guerreiro!

Cantei, baixinho, antes de dormir:

“Deus me perdoe essa intimidade:
Jorge, me guarde no coração!
Que a malvadeza desse mundo
é grande em extensão.
E muita vez tem ar de anjo
e garras de dragão…”

Até.

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EU, VISIONÁRIO

Notem uma coisa. Eu, que mantenho o Buteco aberto há anos, que tento escrever com uma regularidade impressionante textos inéditos, rasgo, em pedacinhos minúsculos, os mais olímpicos elogios aos alvos de meu bem-querer com uma freqüência igualmente impressionante e os exemplos são inúmeros. Já cansei de dizer que o Szegeri é um mito e meu Otto, que a Inês e a Ju (em ordem alfabética para não gerar suscetibilidades) foram as maiores surpresas e aquisições de 2005, que a Robertinha Valente é a maior pandeirista que conheço, que o Ó do Borogodó é o maior buteco do Brasil, que a Betinha é um doce que não enjoa, que o Fefê é meu siamês, que a Dani é a mulher que me ensinou a sorrir, enfim, estou sempre a elogiar os outros. Sempre.

Mas hoje, passando a vista no jornal bem cedo, deparei-me com uma nota que despertou em mim o auto-elogio dito por um Edu empertigado diante do espelho, dando tapas com os quatro dedos das costas da mão na folha 3 do Segundo Caderno d´O Globo:

– Eu sou foda.

Peço perdão por esse “foda”, assim, dito logo pela manhã. Mas não me ocorreu palavra mais adequada à dimensão do meu acerto.

Vejam a nota. Aliás, nota de autoria do mesmo bobalhão citado aqui e que não se cansa de elogiar com regularidade cartesiana os pseudo-butecos que vêm se espalhando pela cidade como uma praga (não se cansa porque com essa propaganda espontânea – pausa para um pigarro – não paga um único centavo nos estabelecimentos que incensa).

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Vejam isso! Vejam isso!Bem recentemente eu mesmo escrevi sobre o tal Chico aqui. E já, em outras tantas oportunidades, os que me lêem saberão que isso é uma verdade, cansei de dizer que tanto o Chico, do Bracarense, como o Paiva, do Jobi, cobram por um humilde “boa-noite”, por um simpático “como vai?”, ou ainda por um óbvio “querem ver o cardápio?”.

Mas vou me centrar no Chico, que como se vê – e como nos mostra o sujeito (recuso-me a chamá-lo de jornalista) que assina a dita coluna – está tomando o rumo da fama. Gravou uma participação em um programa da TV Globo, irá à Copa da Alemanha servir bonachões em um camarote VIP e ainda vai aparecer na nova novela da mesmíssima TV Globo. Ora, ora, ora… “Mas o que é que tem isso, Edu?”, dirão alguns incautos. “Só por que é garçom não pode aparecer?”, dirão outros ainda mais idiotas. Nada disso. E explico.

O Chico é um garçom medíocre. E – uma amiga minha, de confiança, relatou-me o fato – é um “excelente e atencioso garçom” quando pingam em sua mãozinha, sempre em concha, umas notinhas que somem, no mínimo, R$50,00. A tal “gorjeta”. Legítimo, dirão alguns. Mas então que não se venda essa imagem do Chico, como o melhor garçom do Rio de Janeiro. O Chico não está nem entre os 100 melhores garçons. Mas é o primeiro quando o assunto é pose, mídia, fama, salamaleques e rapapés.

Exatamente como o Bracarense, bar onde trabalha. Nada além de razoável. Mas segundo alguns jornalistas e colunistas que nada pagam em troca de notas e mais notas sobre os mais estúpidos assuntos envolvendo esses estabelecimentos, é um fenômeno, como é um fenômeno os tais salgadinhos feitos pela Alaíde, a chef de cozinha do Bracarense (notem bem que no Bracarense não há cozinheira!). Que são, quero repetir, medianos. Medianos e engordurados. Medianos, engordurados e caríssimos.

Mas o que acontece depois de mais uma nota como essa publicada no maior jornal carioca?

A patuléia, a escumalha, toda a gente sem senso parte em direção ao Bracarense. E para lá vão munidos de câmeras fotográficas (para depois dizerem “olha, esse sou eu e o Chico”, mas mal sabem que sem grana não tem foto!), papeizinhos para os autógrafos (idem idem), e assim, graças a babacas como o autor dessa coluna podre, vai perdendo terreno a verdadeira tradição carioca, dos butecos autênticos, dos pé-sujos anônimos, dos verdadeiros garçons, santos que almejam a simpatia da freguesia e – vá lá! – uma gorjeta polpuda como retribuição pela gentileza do bom atendimento. E não uma polpuda gorjeta como adiantamento para que esse mesmo atendimento venha a galopes.

Uma forma bonitinha e aparentemente inocente de exercer a corrupção.

Até.

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TEMA DE TODO ABRIL

Há, em mim, constantemente, e mais em abril do que em qualquer outro mês, uma permanente gana de dizer o que já foi dito, de escrever o que já foi escrito, de inventar o que já está inventado há dezenas, centenas, milhares de abris.

Vai daí que vasculhando arquivos bati de cara com essa foto que fiz em junho de 2005 em Amsterdam. Lá, para assombro da vendedora, danei da cantar uma canção que gostaria de ter composto, dizendo o que eu gostaria de ter dito primeiro, o que gostaria de ter escrito antes, o que já estava inventado pelo Aldir (sobre canção lancinante do Guinga) que, como diz a Ju, tem a mania de falar por todos nós.

Girassóis, Amsterdam, Holanda, 20 de junho de 2005

“Meu catavento tem dentro
o que há do lado de fora do teu girassol

Entre o escancaro e o contido
eu te pedi sustenido
e você riu bemol.

Você só pensa no espaço
Eu exigi duração
Eu sou um gato de subúrbio
Você é litorânea

Quando eu respeito os sinais
vejo você de patins
vindo na contra-mão

Mas quando ataco de macho
você se faz de capacho
e não quer confusão

Nenhum dos dois se entrega
nós não ouvimos conselho:
Eu sou você que se vai
no sumidouro do espelho

Eu sou do Engenho de Dentro
e você vive no vento do Arpoador

Eu tenho um jeito arredio
e você é expansiva
(o inseto e a flor)

Um torce pra Mia Farrow
o outro é Woody Allen…
Quando assovio uma seresta
Você dança, havaiana…

Eu vou de tênis e jeans
encontro você demais:
Scarpin, soirée

Quando o pau quebra na esquina
´cê ataca de fina
e me oferece em inglês:
É fuck you, bate-bronha!
E ninguém mete o bedelho:
Você sou eu que me vou
no sumidouro do espelho

A paz é feita no motel
de alma lavada e passada
pra descobrir logo depois
que não serviu pra nada

Nos dias de carnaval
aumentam os desenganos:
Você vai pra Parati
e eu pro Cacique de Ramos

Meu catavento tem dentro
o vento escancarado do Arpoador

Teu girassol tem de fora
o escondido do Engenho de Dentro da flor

Eu sinto muita saudade
você é contemporânea

Eu penso em tudo quanto faço
você é tão espontânea!

Sei que um depende do outro
só pra ser diferente
pra se completar

Sei que um se afasta do outro
no sufoco somente pra se aproximar

´cê tem um jeito verde de ser
e eu sou meio vermelho
Mas os dois juntos se vão
No sumidouro do espelho.”

Acabei de ouvi-la, mais uma vez.

E é rigorosamente minha a canção, a letra, hoje mais do que nunca. E deu-me vontades olímpicas de dar os girassóis de presente. Esses girassóis. Os da foto. Colhê-los no jardim impossível e levá-los por aí, dando a quem os merece.

Ô, abril, que não termina!

Até.

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E PROSSEGUE A PRAGA

Eu sei, eu sei, eu estou cansado de saber. Pareço sempre radical demais, repetitivo ao extremo, quase-cansativo. Mas creio, com meus botões (os únicos que me agüentam as 24 do dia), que é radicalizando e tornando o discurso repetitivo que posso entregar à assistência meu retrato mais bem moldado e integralmente visível ao alheio. Por isso peço licença para, uma vez mais, bater (com força e com o auxílio da tropa de choque, Szegeri, Zé Sergio, Borgonovi, Marcão, Julio Vellozo) nessa praga que se espalha pelo Rio de Janeiro e que vem detruindo (ou tentando destruir), aos poucos, uma das mais arraigadas tradições cariocas que é o buteco autêntico, e não esse boteco falso e nojento que precisa ser anunciado no letreiro, e refiro-me ao Belmonte (boteco, como a logomarca explica), ao Informal (botequim, idem idem), ao Manoel e Joaquim (bar e botequim, idem idem) e outras bostas do gênero.

fachada de obra na esquina da Rua Prudente de Morais com Rua Farme de Amoedo, em Ipanema, anunciando a abertura de mais uma filial da cervejaria Devassa

Vejam vocês, por exemplo, o (ou a, não sei) Devassa. Em primeiro lugar (pode ser implicância minha, mas creio que procede o que aponto com o indicador) eu duvido que essa exposição da marca durante a obra seja permitida pela Prefeitura. Em frente.

O (ou a) Devassa é uma cervejaria que começou no Leblon, outro bairro da zona sul da cidade. Fabrica sua própria cerveja (semi-sofrível), cobra por ela os olhos da cara e tem, hoje, filiais espalhadas pela cidade (não por acaso pela zona sul e pela Barra da Tijuca, apenas). Está na moda graças a babacas que vão ao bar em busca única e exclusivamente de ver pose e de expôr a própria pose. E está na moda, também, graças a jornalistas sem escrúpulo que dão nota atrás de nota incensando, adulando e bajulando esses estabelecimentos em troca de mordomias como, por exemplo, não pagar um único centavo pelo consumo.

Vejam que nojo a nota abaixo.

nota publicada no jornal O GLOBO de quinta-feira, 13 de abril de 2006

E explico por qual razão é, a nota, um nojo.

Em primeiro lugar porque ela cita três bares horrorosos: o Informal, o Belmonte e o Manoel e Joaquim.

Em segundo lugar porque refere-se a um deles, o Informal, como “botequim pé-limpo” (na verdade estendendo esse adjetivo aos demais). É engraçado, porque esse mesmo jornalista (que não entende porra nenhuma do assunto) já chamou um deles, o Belmonte, de “pé-sujo fashion”,  como se vê por aqui. Porra! É pé-sujo, é pé-limpo fashion, é o quê? É uma merda, digo eu. Vamos em frente.

É um nojo, a nota, em terceiro lugar, porque o jornalista (que não entende picas da matéria) cria uma espécie de ranking medíocre entre os estabelecimentos comerciais mantidos por investidores que estão cagando solenemente para qualquer outra coisa que não seja o lucro.

Você, por exemplo, vá ao Bar do Costa, em Vila Isabel. Bar de matriz, sem filial. Petiscos de primeira. Cerveja estupidamente gelada. Preços bastante em conta. A alma do dono boiando entre os freqüentadores. E é assim no Rio-Brasília. No Amendoeira. Nos bares sérios. Nessas franquias que atentam contra a tradição nada disso se vê. Mas a tradição não interessa ao jornalista. Interessa é esse trabalho de divulgação babaca (que os investidores jogam pesado quando o assunto é marketing) que acaba dando certo e atraindo hordas de babacas em busca de pose.

Vai daí que eu fiz essas tais duas fotos chegando à praia na quinta-feira.

Saindo da praia, na mesmíssima rua, deparo-me com outra obra. Bem mais modesta, é verdade. Mas o letreiro já estava visível… E vejam que lixo, que lixo!

Veja, mano Szegeri, você com quem tanto já discuti o assunto… Veja que nojo!

fachada de obra de bar na Rua Farme de Amoedo, em Ipanema, mais um dentre tantos filhotes que vêm nascendo fruto dessa insuportável moda que faz crescer as franquias de bares e botequins na cidade do Rio de Janeiro

“Botequim Tô Nem Aí” é o que anuncia o toldo.

Salve-se quem puder.

E aposto que muito em breve o tal jornalista em questão (apenas um dentre tantos medíocres que remam no mesmo barco) estará anunciando, com pompa e circunstância, a inauguração de mais esse cancro na vida da combalida cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, cada vez mais crivado, coitado, eis que cada filial dessas merdas, cada filhote que nasce na mesma onda (como esse escroto “Tô Nem Aí), é mais uma flecha no peito do padroeiro.

Que ainda pode se salvar.

Até.

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FERNANDO JOSÉ SZEGERI, O MITO

“Szé, O Impronunciável, também conhecido pela alcunha de Zé do Guéri Guéri (apud Nei Lopes) é uma criatura capaz de chegar num botequim às oito, beber todo o estoque de tudo que não o morda antes e ainda emitir opiniões inteligentes de madrugada, a caminho da rodoviária (e olhem que esta é apenas uma das histórias que testemunhei). Sabe-se lá para que em que mundos, em que estrelas se escondem os litros consumidos. Nascido por mero acaso em São Paulo, é mais carioca que 99,999999% da população do balneário. No café da manhã, bebe três doses de pandeiro, misturadas a quatro piadas de português e arrematadas com seis comentários sobre a bunda da mulher que acabou de passar. Existência saudável, esta do Szé.”

(Fernando Toledo)

Eduardo Goldenberg e Fernando Szegeri

Vejam vocês que hoje, segundo as contas feitas pelo buscador do próprio blogspot(e que segundo as minhas contas, de memória, estão subfaturadas), falarei do meu irmão Szegeri pela octagésima oitava vez. Mas ele merece, obviamente. Não merecesse e não teria gasto com ele o abraço flagrado pelas lentes da Betinha em novembro do ano passado, durante seu casamento com a Stefânia, aliás, diga-se, o maior e melhor casamento que já testemunhei (bate, de longe, um grã-fino, no Jockey Club de São Paulo, ao qual também fui). Não merecesse e eu não teria cravado em sua testa o carimbo: meu Otto! Não merecesse e eu não gastaria fortunas em ligações quase que diárias para seu celular, uma espécie de oráculo que recebe minhas mais variadas consultas e nas mais variadas horas.E por que falarei dessa pompa hoje novamente?

Simples, e explico.

Fui ler, já resignado (acostumado com a escassez de movimento na Barca de Caronte…), o excelente blog de minha comadre Mariana Blanc, o Cartas de Hades, aqui. E qual não foi minha surpresa!

Estava lá o texto novo, chamado Caríssimo Szegeri, aqui.

A princípio, roí-me de ciúmes.

Mas que coisa essa!, pensei eu. O que tem a Mariana que recorrer ao MEU personagem quando lhe falta assunto?!, prossegui bradando como uma criança contrariada.

Mas isso durou, creiam, alguns segundos.

Fernando Szegeri e Dani Sorriso Maracanã

Logo abateu-se sobre mim uma certeza acachapante, como a beleza do Branco (que o Szegeri acha que é do Mauro, muito mais bonito que o Branco na sua opinião): o Szegeri, o meu Otto, Fernando José Szegeri, é um mito. Notem na foto acima, por exemplo, o tamanho do Maracanã no instante do abraço, o orgulho, a felicidade (devo dizer que nesse dia, no dia de seu casamento, o Szegeri foi mais abraçado que o Carlos Alberto e o Pelé, juntos, na Copa de 70, disputado ferozmente por todos os convidados).Mas mais que um mito (e o texto da minha comadre apenas corrobora essa verdade) ele é um homem semi-santo a quem todos querem recorrer. Aliás (talvez isso explique o fato!), ele já foi, imaginem vocês, coroinha. Pra mim, foi acólito, eis que de coroinha, geralmente um menino bobo cujo principal papel é lustrar os sapatos e fazer a bainha da batina dos padres, o meu irmão paulista nada tem! E, dizem, roubava a cena durante as missas, humilhando o sacerdote, que se sentia um pequeno diante da autoridade szegeriana e era vaiado pela multidão de beatas impressionadas com a desenvoltura daquele menino (!) dentro da Casa de Deus. Até hoje fala latim como quem respira (um dia quebro o sigilo de nossa correspondência e lhes mostro emails imensos, todos em latim, eis que tenho, precisamente, nesse momento, 3.114 mensagens enviadas pelo gênio arquivadas).

Essa é apenas uma das razões pela quais o Szegeri merece o respeito de um homem com a erudição, a cultura e a importância de um, por exemplo, Nei Lopes, que jamais respondeu a um simples “bom dia, Nei!”, dito por mim. Vão tomando nota!

O Szegeri joga nas onze. Senão vejamos (aproveitei um tempinho vago para separar para vocês, meus fiéis leitores, provas inequívocas de que é, o bom Szegeri, um mito).

O Szegeri é funcionário público, já lhes contei. E quando discute-se, seriamente, o papel do funcionário público, a imagem deturpada que a população tem desses abnegados, é ele, o mito, quem concede entrevistas (aqui) para aclarar as dúvidas que assolam um pobre mortal.

Mas ele é, também, produtor cultural. E dá banhos quando discorre sobre qualquer assunto, como convém a um verdadeiro produtor cultural. Pixinguinha? É com ele mesmo (aqui).

Direitos autorais. A indústria que nivela por baixo o que ela, indústria, chama de cultura nacional. Assunto tormentoso. Quem domina? Ele, o meu Otto, que escreve freqüentemente no jornal da AMAR, aqui.

Vocês hão de se lembrar. Eu sempre disse que o Szegeri é um velho, tem centenas de anos de vida, já nasceu barbudo, peludo, gordo e já funcionário público.

Betinha e Fernando Szegeri

Na foto acima é a Betinha, musa confessa do meu irmão, quem sorri de alegria ao lado do mito.Mas então. Pensem em algo bem antigo. Assim como, discos de 78 rotações por minuto. E pensem em, por exemplo, Francisco Alves.

Francisco Alves morreu em setembro de 1952, carbonizado, vítima de um acidente com seu Buick (que antigo! que antigo!) na Rio-São Paulo. Eu disse 1952. O Szegeri nem no saco do velho Zé Szegeri estava.

E quem?, quem?, quem prestou-lhe homenagem em 2002 na passagem do cinqüentenário do Chico Viola? Ele, meus amigos. Fernando José Szegeri, vejam que não minto, aqui. Notem o que vai escrito na matéria!!!!! O Szegeri nem vinte anos tinha (que mentira! que mentira!) e já freqüentava as reuniões do antigo (que coerência! que coerência!) Clube da Seresta…

Mas há mais! Há mais!

Fernando Szegeri e seu pai, José Szegeri

Vejam que belo instantâneo de pai e filho, meu mano Szegeri e seu pai, esse outro portento que é José Szegeri! Voltando.Notem como é burro o eleitor brasileiro. Burro. Um asno!

Ele, o mito, candidatou-se nas eleições de 2004 para o cargo de vereador pela combalida cidade de São Paulo.

E 15 (eu disse quinze!), apenas 15 eleitores cravaram o número daquele capaz de modificar tudo! (eu sei quem foram os 15: José Szegeri, Paula Szegeri, Dona Cecília, Railídia, Robson, Stefânia, Roberta Valente, Fernando Borgonovi, Marcão, Julio Vellozo, Roberta Valente, Capitão Leo, Augusto, Ju e Marcy – esse último voto eu cabalei) Duvidam? Pois além de funcionário público, produtor cultural, saudosista e comunista o meu irmão é candidato! Ele também é candidato, vejam aqui.

Como se não bastasse isso tudo, meu irmão é cantor. Comanda com uma voz daquelas de antigamente (é óbvio!) o excepcional conjunto Inimigos do Batente.

Fernando Szegeri e José Sergio Rocha

Nessa aí de cima, é José Sergio Rocha quem se orgulha pela pose ao lado do mito. Pausa para pequena confissão.Além de funcionário público, produtor cultural, saudosista, comunista, candidato e cantor, o Szegeri é um piadista de mão cheia. E chama o pobre do Zé Sergio de “Velha Coroca”, dia desses explico o por quê.

É ainda membro da Sociedade Edificante Multicultural dos Prazeres e Rituais Etílicos. É o único homem que eu conheço, na vida, que já tomou a Ponte Aérea apenas pra comer uma porção de iscas de fígado acebolado, voltando pra São Paulo no mesmíssimo dia poucas horas depois.

E ainda arruma tempo pra ser um pai exemplar (da minha sereia Iara) e marido nem tanto (perdão, mano!), das antigas, daqueles que saem do banheiro com roupão felpudo, chinelões, machista, chorão, um gênio, um gênio, um gênio!

Tenho muita sorte de tê-lo comigo.

Stefânia e Fernando Szegeri

Fechando o texto de hoje – enorme, mas que fica aqui até segunda-feira, depois do feriadão – essa outra pequena obra-prima da Betinha, que foi a única sóbria capaz de fotografar tudo, do princípio ao fim.Até.

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>IMPERDÍVEL

>

“Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico.”

(Nelson Rodrigues)

Está em cartaz na Fundição Progresso, de quinta a domingo, às 20h, a peça “Toda Nudez Será Castigada”, de Nelson Rodrigues, e somente até o dia 30 de abril. E preciso urrar de pé, no banquinho imaginário: Corram! Corram! E não percam!

Fui assisti-la nesse último domingo, com a Sorriso Maracanã e de lá saímos estupefatos.

Trata-se de um clássico de Nélson Rodrigues. Ouso dizer (sabendo que digo isso no calor do momento) que é talvez o meu texto preferido (talvez não seja, mas é incrível sair do teatro com essa verdade badalando dentro do peito).

A montagem que está em cartaz é assinada pelo grupo Armazém Companhia de Teatro, do Paraná e dirigida por Paulo de Moraes.

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Impressionou-me, nessa montagem, a forma como cenário, trilha sonora (original e pesquisada) e iluminação pulsam em perfeita sintonia atingindo na mosca o objetivo de levar o espectador a viajar, literalmente, na mente de Herculano, o principal personagem, magistralmente interpretado por Thales Coutinho. Como se sabe, toda a construção do texto impinge ao espectador o ingresso nas lembranças de Herculano, o viúvo que que depois de perder a mulher, é levado pelo irmão, Patrício, a se envolver com a prostituta Geni, também num show de interpretação de Patrícia Selonk.

No meio de tudo, três tias solteironas (machadianas! machadianas!) que a tudo acompanham, que tudo controlam, e que cuidam do filho único de Herculano, obcecado pela figura da mãe.

A marcação da passagem do tempo, durante o espetáculo, é feita através de portas giratórias que o tempo todo abrem e fecham, justamente como fragmentos da memória de Herculano.

Surpreendente, ainda, nessa montagem, o início da peça, que começa, na verdade, pelo fim, com o suicídio de Geni.

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E imaginando que ninguém dará ouvidos à minha dica, dou-lhes uma notícia capaz de tornar séria minha indicação. A montagem foi indicada ao Prêmio Shell de Teatro em quatro categorias, a de melhor direção (Paulo de Moraes), melhor atriz (Patrícia Selonk), melhor cenário (Paulo de Moraes e Carla Berri) e melhor iluminação (Maneco Quinderé, responsável pela luz dos últimos shows de Maria Bethânia).

Em “Toda Nudez Será Castigada”, Nelson Rodrigues explora, itensamente sua clássica impressão de que “todo casto é antes de tudo um obsceno”.

E se a peça quando estreiou foi capaz de chocar a assistência (o que os textos de Nelson sempre fez), ainda hoje é capaz, não de chocar, mas de impressionar pela atualidade e pela presença de uma problemática, recorrente, em qualquer relação amorosa. Daí, castos e obcenos, misturados na platéia, entram em êxtase no decorrer do espetáculo.

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Um programaço.

E logo ali, na Lapa, dando cores ainda mais rodrigueanas à noite.

Até.

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>EXERCÍCIO

>“Minha mãe, manda comprar um quilo de papel almaço na venda
Quero fazer uma poesia.”

(Vinicius de Moraes)

Rio de Janeiro, 1938
in Novos Poemas
in Antologia Poética
in Poesia completa e prosa: “A saudade do cotidiano”

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Eu também tenho tido um tédio enorme da vida.

Me perdoe, meu pai,
me perdoe, minha mãe,
mas apesar de fazer sol
estamos em abril.

Vai longe o tempo
– dele mal me lembro –
em que abril era mês de festa
como sempre foi dezembro.

Me perdoem, meu irmãos,
os dois de sangue
e os demais
com quem fiz pactos
também de sangue:
somos todos anormais.

Me perdoe, você,
que me ensinou a sorrir.
Mas é abril.
E em abril eu desaprendo.

Me perdoem as mãos, todas,
sempre estendidas.

Obrigado pelos conselhos,
para os quais sou surdo,
obrigado pelos convites,
recuso todos.

E me perdoem o tédio.

Até.

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ABRIL, O MÊS CRUEL

“Suavemente Maio se insinua
Por entre os véus de Abril, o mês cruel
E lava o ar de anil, alegra a rua
Alumbra os astros e aproxima o céu.”

(Soneto de Maio, Vinicius de Moraes)

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Eis trecho do “Soneto de Maio”, que meu irmão Szegeri mandou-me por e-mail ontem à noite, quando valeu-se da mensagem para elogiar o Buteco e para dizer-me, ainda – e tive uma pena olímpica de meu mano paulista quando li isso:“Não ligue para abril (que eu, particularmente, adoro: é a única época do ano em que o céu é azul em SP…). Ouça o poeta, ouça…”

Ora. Por que teves pena, Edu?, hão de perguntar vocês, e sou capaz de ouvir daqui o côro dos curiosos. Explico.

Porque enquanto o bom Szegeri saúda o abril por ser o único mês (e somente quem já o ouviu pronunciar a palavra “único”, com a sílaba tônica “u” agudíssima, sabe como isso é verdade) em que o céu é azul, eu, daqui da minha janelinha com vasta vista para o horizonte tijucano, contemplo o céu cor-de-rosa, vermelho, cor-de-abóbora, alaranjado, durante o ano inteiro.

Essas duas primeiras fotos foram tiradas, por exemplo, e a terceira, logo abaixo, no dia 29 de março de 2006 por volta das seis da manhã.

Sim. Seis da manhã. Eu, quando sem fumar (agora definitivamente, mas já parei tantas vezes que sei, de cor, todos os sintomas, todos os comportamentos que terei, tudo, timtim por timtim), acordo cedíssimo, coisa de cinco da manhã, um pouco antes, um pouco depois. E vou ora escrever meu texto no Buteco, ora ler um bocado, ora ficar admirando a Sorriso Maracanã dormindo, ora estacar diante da janela e da explosão de cores no céu da Tijuca.

E tenho, ainda mais em abril, quando sinto intensamente as mesmas dores de todos os abris, como recentemente confessei aqui, vontades colossais de registrar esses momentos de beleza e dividi-los com quem eu amo.

Notem bem uma coisa. A despeito de eu amar profundamente a Tijuca, onde nasci e fui criado, onde me reconheço em cada paralelepípedo e em cada buteco, em cada esquina e em cada rio, sei o quanto massacram por aí o velho bairro e pelas mais estúpidas razões. Daí nos meus delírios – sim, sei que são delírios – somente na Tijuca é assim a cor do céu. Não é apenas São Paulo que tem escassos céus azuis e apenas em abril. É em toda a parte. No meu delírio, Paulo Emílio vira e mexe, pela manhã, toma da caixa de lápis de cor e risca cores impressionantes no céu da Tijuca que ele tanto amou. Tanto amou que cantou, e volta e meia canto eu:

“Amor eu queria te dar
O sistema solar, e o fundo do mar
Amor eu queria te dar
A minha caixa de lápis de cor
Amor eu queria te dar
Meu Botafogo e meu Salgueiro
Amor eu queria te dar
A Tijuca e o Rio de Janeiro…”

E vai daí que eu tenho estado permanentemente com os cotovelos apoiados no parapeito da minha janela e com os olhos embaçadíssimos diante de quadros como esse aí de cima, especialmente esse, tingido com cores cujos nomes desconheço, texturas inéditas, que me fazem crer que a Natureza transforma mesmo a vida em canção, como disse meu Poeta.

E eu que fico nesse despertar cedíssimo, e eu que fico nesse apoiar de cotovelos cansados no parapeito da janela, como se não me bastassem esses arrebatadores quadros vistos e fotografados em março, ainda pude ver, e fotografar, em 12 de janeiro deste mesmo ano, outros tantos quadros, de um laranja vivo, como se fosse lava a escorrer do céu em direção a mim.

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Eram cinco horas da manhã, registrei, e bem me lembro da euforia que me tomou naquele instante, quando um vulcão imaginário entrava em erupção noutra dimensão e eu sofria sozinho na janelinha (não sei por que razão vali-me do diminutivo que aqui me parece ridículo, mas vou mantê-lo para ser coerente e honesto), angustiado por saber-me quase que a única – sabe-se lá se não a única mesmo – testemunha do espetáculo de cor e luz.Tenho agora, enquanto escrevo, a nostalgia do momento, e lamento profundamente não ter me lembrado, na hora, do meu mano Szegeri. Não sabia eu, ainda, de sua agora confessada tristeza pelo fato de que em abril, e apenas em abril, justo o mês que menos gosto, o céu fica azul em São Paulo.

Não sinto falta nenhuma do azul no céu.

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E para que eu mantenha meu firme propósito de ser preciso do início ao fim, e para que tudo não soe como mentira ou como delírio, eis essa fotografia impressionante, e de fato impressionante eis que não sei manusear qualquer programa capaz de manipular as cores ou qualquer outro detalhe da imagem.Foi isso, foi exatamente isso que eu vi às cinco da manhã do dia 12 do último janeiro.

Foi essa a imagem – e dirijo-me agora ao Szegeri – que até hoje mantém-se em mim, e que busco, desde aquele dia, em todas as manhãs. E o que é mais incrível – e é isso que eu queria exatamente dizer a ele – é que em fevereiro houve manhãs também impressionantes, em março também, e as haverá em maio, em junho, em julho, até que dezembro venha.

Mas as manhãs de abril, meu mano, são feias demais.

Talvez porque não haja sol, em mim, durante todo o mês de abril. Inexplicavelmente.

Até.

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