Arquivo do mês: abril 2006

A ESPIRAL – PARTE III, FINAL

Dez minutos para as quatro horas dessa madrugada de 27 de abril, e se ainda hoje, a poucas horas de completar 37 anos, ainda resta “essa faculdade incoercível de sonhar e de transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade de aceitá-la tal como é, e essa visão ampla dos acontecimentos, e essa impressionante e desnecessária presciência, e essa memória anterior de mundos inexistentes, e esse heroísmo estático, e essa pequenina luz indecifrável a que às vezes os poetas dão o nome de esperança”, devo isso a essa mulher que me tem no colo, minha mãe, formosa, e para quem canto pra dentro, agora mesmo, “formosa, não faz assim…”.

E não faz assim, formosa, porque eu não tenho mais o coração novo e à prova de emoções fortes que eu tinha nesse longínquo 69, nem tampouco essa capacidade de sorrir puro desse jeito. Vai que eu nem chego aos 37. Eu, hein! Toc-toc-toc, que viver é bom. Aliás, formosa, eu continuo cantando e, puta merda, eu precisava levar tão a sério essa história de que “ninguém tem nada de bom sem sofrer”?

minha mãe e eu, 1969, na Quinta da Boa Vista, RJ

Formosa, estava lembrando agorinha mesmo daquela manhã de domingo.

E vejam vocês, com quem divido esse arremesso ao passado dentro dessa espiral que me tira pela terceira noite seguida o sono e conseqüentemente os sonhos, se isso é possível e se teria sido possível eu ser 100% normal.

Sexta-feira, 25 de abril de 1969, vai mamãe ao médico. Exames, exames, exames, e diz o doutor:

– Muito bem, minha filha! Tudo em ordem! O bebê chega na segunda quinzena de maio!

Êta ferro a festa que foi.

Papai trabalhava, nessa época, na REDUC, refinaria da Petrobras, em Duque de Caxias, em regime de plantão. Pegava no batente às nove horas da manhã, na Brigada de Incêndio da empresa.

Já é madrugada de domingo e o velho Isaac acorda sobressaltado.

E lá, não um corpo estendido no chão, mas um índio, parrudíssimo, de pé ao lado da cama onde dormiam. Estranhamente, sente-se calmíssimo diante da visão, que é novidade até então. Papai – é ele quem conta – vê luzes impressionantes, coloridas, riscando o quarto do bebê que chegará na segunda quinzena de maio. Ouve uns sons, não os identifica, também vindos do quarto ao lado. E o caboclo dá o aviso. O curumim nasce hoje, domingo, dá um sorriso firme, faz que sim com a cabeça diante do susto do pai de primeira viagem e como surgiu, some. E somem as luzes, volta a fazer silêncio, e cadê que o velho Isaac voltou a dormir? Tinha de tomar o ônibus às seis da manhã. Levanta-se. Banho. E vai a formosa à cozinha preparar seu café, sua marmita, e vem o velho já pronto.

Faz um carinho na barriga da formosa:

– Não vou trabalhar… Nasce hoje, o bebê.

Aliás, ô tempo que permitia a ansiedade… menino ou menina?

– Mas o que é isso? – diz a formosa – Você não ouviu, Isaac? É para o meio de maio…

E faz um cafuné na cabeça de meu pai, que por sua vez conta pra formosa sobre a visita do caboclo, as luzes e os sons vindos do quarto, e mamãe diz apenas:

– Você está impressionado…

E meu pai não sossega enquanto não convoca a sogra para passar o domingo com a filha, não desencana enquanto não telefona para o médico que confirma o prognóstico. E segue o rumo do trabalho.

Chega à Duque de Caxias.

E dá de cara com seu chefe, aflitíssimo:

– Isaac! Volta pra casa, rapaz! Teu filho nascendo!

Antes das nove da manhã, ó, pow! Estoura a bolsa da formosa.

Façam uma idéia da viagem de volta de meu pobre pai, que encontra um bilhete em casa, Rua Barão de Mesquita, na Tijuca, evidentemente, dando conta de que a formosa e a mãe estão na Ordem Terceira da Penitência, na Tijuca, obviamente.

E façam uma idéia do encontro dos olhos dos dois. Papai com aquele olhar “não-te-disse” e mamãe com um espantadíssimo olhar de volta no melhor estilo “que-índio-é-esse”.

Que índio é esse?

Sem mais detalhes.

Mas são hilariantes as histórias do curumim, ainda começando a falar, dizendo aos pais:

Vô pro quarto brincar de flecha com meus amiguinhos.

Ou diante do marzão, na Praia do Pepino:

no mar conversar um bocadinho e já volto.

E contam, a formosa e meu pai, que saltavam as veias do pescoço do garoto que gesticulava desesperado em direção ao horizonte, pra depois voltar pra areia calmo e com cara de satisfeito, aquele olhar “tudo-resolvido”.

É isso.

Às 15h32min eu cheguei.

Quando eu for embora – toc-toc-toc, que quero seguir vivendo tendo tudo de bom mesmo que pra isso eu tenha de sofrer ainda mais, formosa… – tem gente já instruída pra abrir o gurufim com essa canção que, sabe-se lá por quê, me faz parecer o chafariz da Praça Xavier de Brito nos seus melhores dias, na Tijuca, é evidente.

“De que calada maneira
você chega assim sorrindo.
Como se fosse a primavera…
Eu morrendo…
E de que modo sutil
me derramou na camisa
todas as flores de abril.

Quem lhe disse que eu era
riso sempre e nunca pranto.
Como se fosse a primavera…
Não sou tanto…
No entanto, que espiritual
você me dar uma rosa
de seu rosal principal

De que calada maneira
você chega assim sorrindo.
Como se fosse a primavera…
Eu morrendo…
Eu morrendo!”

Até.

PS: duas coisas já me derrubaram antes mesmo do sol aparecer. O primeiro telefonema, da mais-que-doce Robertinha Valente, de SP, longe infelizmente, e o primeiro email, empolgadíssimo, do Cristiano, da França, ainda mais longe. E, putz!, eu consigo ficar ainda mais bobo e ainda mais emotivo nesse dia.

9 Comentários

Arquivado em confissões

A ESPIRAL – PARTE II

São três e vinte da manhã, madrugada de 26 de abril, véspera do dia em que nasci, e tal qual nas madrugadas da minha cada vez mais distante adolescência, quando de dentro do quarto do apartamento da Professor Gabizo vazava luz pela fresta da porta em direção ao corredor, eu, o menino debruçado sobre a poesia de Vinicius preocupando papai e mamãe com uma insônia que parecia-me, à época, fruto das angústias dos vestibulares iminentes, fruto das angústias e das dores de amores que tinham fatalidades capazes de induzir à morte, e cá estou, de novo acordado, sem qualquer espectro de vestibular à vista mas ainda com dores de amores capazes de induzir à morte, novamente sem sono e insone, minha insônia é perene, e novamente debruçado sobre a poesia que me redime desde que me entendo tal como sou.

Vinicius de Moraes, Poesia Completa e Prosa, Volume Único, Editora Nova Aguilar, 1998, capa

E eu fico, tal como ficava, com as mãos trêmulas folheando as 1.571 páginas impressas em papel-bíblia, o que dá conotações ainda mais espetaculares à minha saga poética em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Rio, e por dentro rio espetacularmente quando lembro de quantas mulheres impressionei, e quantas conquistei, recitando Vinicius de Moraes, e rio ainda mais intensamente quando lembro do critério criado por aquele adolescente sempre muito feio e por isso mesmo sempre muito tenaz quando o assunto era a sedução, sempre ligada à poesia, que me fazia ser o autor daqueles versos que faziam os olhos da namorada darem voltas impressionantes a ponto de deixá-las tontas a ponto de, pronto!, caírem todas no meu colo e nos meus braços fraquíssimos mas dotados de uma paixão lancinante, como devem ser as paixões que valem a pena. “O Poetinha há de me perdoar”, eu dizia enquanto cantava empunhando o violão “se você quer ser minha namorada, ah, que linda namorada você poderia ser, se quiser ser somente minha…”, e eu tinha ímpetos de declará-lo santo eis que várias foram mesmo minhas namoradas, todas lindíssimas e todas somente minhas, coisinha que ninguém mais pôde ser.

Vinicius de Moraes, Poesia Completa e Prosa, Volume Único, Editora Nova Aguilar, 1998

E daí as mãos trêmulas têm de dar lugar a uma mão firme. Quero fazer fotografias. Preciso ilustrar o texto. Preciso caprichar. Tenho gostado tanto do Buteco. Bebi ontem à noite com meus companheiros da confraria e hesito diante da garrafa de Red Label que faz psiu do bar em minha direção. Ou é o Vinicius que me chama? Imagina se o Véio Vina perderia um só segundo de uma noite dessas comigo! Se bem que um golinho acalmaria o tremor das minhas mãos. Tenho o corpo suado. Não bebo. Mas faço as fotografias. Vinicius morreu há 26 anos. Faço 37 amanhã. Lembro-me, nitidamente, do dia de sua morte. Tinha eu só 11 anos de idade naquele julho longínquo. Ele já era um santo quando vivo. Orixá poderoso. Saravá, Vinicius.

Busco, diante da noite, alta madrugada, a tal intimidade perfeita com o silêncio enquanto peço perdão por tudo, enquanto exerço a auto-piedade, eu não tenho culpa de ter nascido.

Tenho, ainda hoje, como tinha, já naquele quarto de minha adolescência encoberto pela fumaça de maços de Carlton que fumava desbragadamente, um respeito tremendo pela noite, que é por isso mesmo antigo, e vaza uma lágrima sobre a página 526 da edição da Nova Aguilar de 1998 e tenho novamente arrancos de rir quando lembro de quantas edições já tive e de quantas edições já dei de presente para mulheres que juraram, um dia, seguir comigo em meu caminho mesmo diante do meu anúncio de que talvez o meu caminho fosse triste para todas elas.

Voltam a mim, novamente como sempre, esses sentimentos de infância subitamente desentranhados de pequenos absurdos e essa capacidade de rir à toa – como rio, hoje… – e esse ridículo desejo de ser útil e essa coragem para comprometer-se sem necessidade e que tem me custado caríssimo, mas um preço que eu pago e que pagarei ainda que me neguem o troco.

Vinicius de Moraes, Poesia Completa e Prosa, Volume Único, Editora Nova Aguilar, 1998

“O Haver”. 15 de abril de 1962. Não havia Edu ainda. E o bruxo de cabelos esvoaçantes brancos, mago do malte e dono da voz que me embalou os sonhos de ser como ele – ah, essa faculdade incoercível de sonhar e de transfigurar a realidade – já havia escrito a oração que mais rezei, que ainda rezo, que agora rezo, que rezarei enquanto me for possível. “O Haver”.

Até.

8 Comentários

Arquivado em confissões, poesia

>25 DE ABRIL

>

E há 32 anos, a Revolução dos Cravos, em Portugal. E lembrando da data, lanço uma curiosidade que não sei se é do conhecimento de todos. Trasnscrevo, primeiro, a letra original de Chico Buarque, para a canção “Tanto Mar”, alusiva à data, vetada pela bruta e burra censura brasileira.

Nem sequer posso desconfiar a razão do veto.

Importa é que a segunda versão, gravada no Brasil, é muito mais significativa. E os imbecis a liberaram. Vá entender.

Em 25 de abril de 1974, há 32 anos, acontecia, em Portugal, a Revolução dos Cravos
Tanto Mar
(Chico Buarque)

Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim

Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim

* Letra original,vetada pela censura; gravação editada apenas em Portugal, em 1975.

E eis a segunda versão, de 1978.

Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
E inda guardo, renitente
Um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto do jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim

Até.

3 Comentários

Arquivado em Uncategorized

A ESPIRAL – PARTE I

Vou ser preciso do início ao fim, hoje (como sempre), e não vou mascarar a hora em que escrevo, pouco mais do que quatro da manhã. Acho que como mais uma manifestação de TOC (veja aqui e aqui) eu fico padronizando o horário das postagens, sempre às sete da manhã. Mas hoje, não. Essa insônia olímpica, esse despertar despropositado, só pode ter a ver com as 72h que me separam do dia 27, quando farei anos, 37, e pronto!, essa profusão de sete bastou para que eu fosse arremessado longe, mais precisamente para 1969, ano em que nasci.

Eu disse uma vez, aqui, que meu pai cravou em mim o futebol como sacerdócio, e creio eu que isso deu-se nesse dia aí, em que estava em seu colo (notem seu sorriso de orgulho), no setor das cadeiras especiais, ainda de fraldas, provavelmente num domingo, dentro desse gigante de concreto amalgamado com as lágrimas da paixão enfurecida das torcidas cariocas, o Estádio Mário Filho, o Maracanã.

E valendo-me de mais uma dentre tantas preciosas imagens de autoria da Ju, tenho sobre o peito, hoje, e agora, o mais pesado dos paralelepípedos. É abril, é abril. E vem chegando o dia 27, e foi meu mano Szegeri quem me sinalizou isso hoje, quando bati o telefone pra ele, no meio da tarde, oprimido e espremido dentro do terno, suado, no centro da cidade. Nem sei por quê liguei, mas creio que em busca de alívio. E disse-me o meu Xamã:

– É abril, Edu. Mas maio vem aí.

Resta um orgulho rasgadíssimo por estar resistindo à tentação do cigarro.

Resta uma saudade estúpida, já que em vão, os tempos não voltam, desse 1969 quando eu não sabia rigorosamente nada, não sabia de nada, e era, provavelmente, mais feliz e justo graças à ignorância, santa, inocente, imaculada e porta aberta para constantes absolvições.

E por causa dessa saudade, estúpida e leviana, as primeiras pessoas que me vêm à mente, e que eu gostaria de encontrar na quinta-feira, depois de amanhã, no Trapiche Gamboa, são a minha Bia, o Marco Aurélio, o Fabinho, o Toledão, e daí eu tenho ainda mais fome e sede de 1969, quando além de não saber nada eu também não conhecia qualquer espécie de saudade.

Ô, abril!

Até.

2 Comentários

Arquivado em confissões

>CONVITE

>

Bem, mantendo minha, como diria minha sumida comadre Mariana Blanc, linha confessional, devo admitir que sou daqueles apaixonados capazes de tudo em nome da paixão. E explico melhor, que isso dito assim ficou vago demais.

Vamos lá.

Gosto de alguém? Então sou derramado, faço declarações públicas, sou tátil, abraço, beijo, não meço posturas nem controlo explosões de demonstrações olímpicas do meu bem-querer.

Gosto de um determinado prato num determinado restaurante? Pronto! É o desespero e o marasmo na vida do cozinheiro. Só pedirei aquilo, sempre, como se antolhos me impedissem de verificar qualquer nesga de novidade no cardápio.

E por aí vai.

Vai daí que na semana passada, dia 13 para ser mais preciso (do início ao fim, como sempre), véspera de feriado, fui com a Sorriso Maracanã e mais Betinha e Flavinho, Sérgio Barreto e Alex, o Justo, ao Trapiche Gamboa, atendendo dica do Paulo Roberto Pires, no NoMínimo, assistir à apresentação da cantora Fabiana Cozza, a quem eu não conhecia. Infelizmente, aliás (ela canta que é uma beleza!), e notem aqui um traço doentio da minha personalidade… O Szegeri não apenas conhece a Fabiana há anos como é seu amigo, íntimo, e debochou de mim de forma colossal quando eu lhe telefonei na tarde do dia 13 perguntando se podia, mesmo, ir ao Trapiche naquela noite com a certeza de que veria uma boa cantora (liguei pra Stê, na verdade, mas é impossível não pôr o Szegeri no roteiro do meu dia-a-dia).

Disse-me o meu pomposo irmão paulista:

– Vá de olhos fechados, Edu! A Fabi (residindo aí, nesse dissílabo, a intimidade que me fere ainda agora) canta muito.

E canta mesmo.

Quem cantou também, nesse dia, foi o Moacyr Luz, que apareceu não para uma canja, que canja é coisa pouca. O Moacyr apareceu foi para uma granja. Cantou pra burro (bem e muito) e, disse-me a Dani (eu estava assim, meio fora de órbita), levou-me ao delírio.

Voltando.

Daí decidi que na quinta-feira que vem, 27 de abril, quando faço 37 anos (meu Deus… eu cada vez mais velho…), vou estar lá, no Trapiche Gamboa, na Rua Sacadura Cabral 155, a partir das 20h, tendo o privilégio, novamente, de ver e ouvir a Fabiana que, de fato, é um portento cantando. Dona de presença fortíssima, marcante, com repertório de primeiríssima, uma divisão espetacular, quebrando qualquer concepção original de qualquer canção, a Fabiana já é (daí a menção ao meu modo de paixão) uma das minhas preferidas.

E prosseguindo a onda novidadeira do Buteco, um vídeo da Fabiana cantando “O Samba é Meu Dom”, com rápida propaganda do meu provedor!

Se você não tem o RealPlayer assista o video aqui.

Mas se você já tem o RealPlayer, então é mais simples! Assista o video aqui!

Até, e espero você lá, 27 de abril, quinta-feira, a partir das 20h no Trapiche.

3 Comentários

Arquivado em Uncategorized

>SALVE, JORGE!

>

Ontem, sábado, 22 de abril, véspera do dia dedicado a São Jorge, fomos eu e a Sorriso Maracanã à quinta edição do Samba de Jorge, no Centro Cultural Carioca, na Praça Tiradentes.

São Jorge Guerreiro

Se valeu a pena? Ora, ora. No comando do furdunço, Nei Lopes. E mais nada precisa ser dito.

E como mais nada precisa ser dito com relação à qualidade da festa, vamos a algumas passagens da agradabilíssima noite de sábado.

Fomos eu e Dani, Maria Paula com Maria Sílvia, sua mãe, Ruivinha com Itamar, Ciccio com Andre e Frederico, Cris com a Cláudia e ele, o Mauro, que na visão do meu irmão Szegeri é a verdadeira beleza acachapante e que ontem exerceu, como sempre, sua função de embaixador informal da cidade. Explico.

O Mauro tem sempre no bolso um estrangeiro ou uma estrangeira (geralmente uma estrangeira). Você esbarra com o Mauro na praia e ele apresenta a você sua companhia:

– Edu, Inês, Inês, Edu! (ela, a portuguesa)

Ou:

– Edu, Cecilia, Cecilia, Edu! (ela, a italiana)

Ou ainda:

– Edu, Araitz, Araitz, Edu! (ela, a espanhola)

E isso não tem fim. Pois ontem o Mauro levou, a tiracolo, o Ciccio (que eu e Dani conhecemos na Itália quando lá estivemos), o Andrea e o Federico, sobrinhos do Ciccio e que têm, no Mauro, uma espécie de ídolo. Aliás, o Mauro ontem estava especialmente dengoso e carinhoso comigo como se pode ver pela fotografia abaixo.

eu e Mauro no CCC, 22 de abril de 2006

Além do Ciccio, além do Andrea, além do Federico, o Mauro levou, no outro bolso, a Claudia e a Cristine, fã declaradíssima do meu irmão (e quem não é?).

Eu perguntei “e quem não é” e tenho que responder.

Todos são.

O Mauro, por exemplo (tenho hoje vontades olímpicas de falar sobre ele), é capaz de fazer gente de toda a parte do mundo se despencar em direção ao Brasil. E não em busca de Copacabana. Não em busca do Corcovado. Não em busca do Pão de Açucar. Não em busca da garota de Ipanema. As pessoas vêm (homens e mulheres, diga-se) apenas para vê-lo e ter com ele um, dois, três dias de convívio. Um troço impressionante.

eu, Andrea, Federico e Mauro no CCC, 22 de abril de 2006

Ciccio, Dani e Mauro no CCC, 22 de abril de 2006

Maria Paula, eu e Mauro no CCC, 22 de abril de 2006

Eu e Dani no CCC, 22 de abril de 2006

Mas vamos à noite.

O CCC estava de vermelho e branco.

Como eu já disse, mestre Nei Lopes estava como mestre (obviamente) de cerimônia.

Nei Lopes no CCC, 22 de abril de 2006

Dani e Nei Lopes no CCC, 22 de abril de 2006

Eu, aproveitando o gancho da palavra, mais sem cerimônia que nunca. Tenho estado assim desde que parei de fumar e sabe-se lá por quê.

Uma das primeiras a se apresentar foi a Dorina.

E é sempre um prazer espetacular vê-la cantar. A Dorina canta (por mais que isso soe piegas) com a alma retalhada e ontem pareceu-me fazê-lo ainda mais intensamente, já que declarou-se comovida com a festa.

Outra boa surpresa (eis que não sabia que elas estariam lá!) foi rever o Quarteto em Cy, por quem tenho especial carinho. Cyva, Cynara, Cybele e Sônia cantaram algumas músicas e com a mesma graça que as caracteriza.

Quarteto em Cy no CCC, 22 de abril de 2006

E quem mais estava? O magnata supremo da elegância moderna!

Walter Alfaiate. O mesmo vozeirão. A mesma categoria. A mesma elegância (dando contornos de coerência ao epíteto que ele mesmo criou), a mesma cadência das melhores escolas do gênero, padrão Cyro Monteiro.

Dani e Walter Alfaite no CCC, 22 de abril de 2006

Do CCC partimos para CCCC (piada infame da noite e explico).

Do Centro Cultural Carioca partimos para comer cabrito no Capela com o Cícero.

E deu-se o final da noite com mais chope, com arroz de brócolis e com o cabrito mais famoso da cidade e que estava, ontem, especialmente bom, talvez devido à companhia.

Itamar e Ruivinha no Capela, 22 de abril de 2006

Cristine e Cláudia no Capela, 22 de abril de 2006

Maria Paula e Maria Sílvia no Capela, 22 de abril de 2006

Chegamos em casa, de volta, já era alta madrugada.

E já era, é claro, 23 de abril, dia do Santo Guerreiro!

Cantei, baixinho, antes de dormir:

“Deus me perdoe essa intimidade:
Jorge, me guarde no coração!
Que a malvadeza desse mundo
é grande em extensão.
E muita vez tem ar de anjo
e garras de dragão…”

Até.

4 Comentários

Arquivado em Uncategorized

EU, VISIONÁRIO

Notem uma coisa. Eu, que mantenho o Buteco aberto há anos, que tento escrever com uma regularidade impressionante textos inéditos, rasgo, em pedacinhos minúsculos, os mais olímpicos elogios aos alvos de meu bem-querer com uma freqüência igualmente impressionante e os exemplos são inúmeros. Já cansei de dizer que o Szegeri é um mito e meu Otto, que a Inês e a Ju (em ordem alfabética para não gerar suscetibilidades) foram as maiores surpresas e aquisições de 2005, que a Robertinha Valente é a maior pandeirista que conheço, que o Ó do Borogodó é o maior buteco do Brasil, que a Betinha é um doce que não enjoa, que o Fefê é meu siamês, que a Dani é a mulher que me ensinou a sorrir, enfim, estou sempre a elogiar os outros. Sempre.

Mas hoje, passando a vista no jornal bem cedo, deparei-me com uma nota que despertou em mim o auto-elogio dito por um Edu empertigado diante do espelho, dando tapas com os quatro dedos das costas da mão na folha 3 do Segundo Caderno d´O Globo:

– Eu sou foda.

Peço perdão por esse “foda”, assim, dito logo pela manhã. Mas não me ocorreu palavra mais adequada à dimensão do meu acerto.

Vejam a nota. Aliás, nota de autoria do mesmo bobalhão citado aqui e que não se cansa de elogiar com regularidade cartesiana os pseudo-butecos que vêm se espalhando pela cidade como uma praga (não se cansa porque com essa propaganda espontânea – pausa para um pigarro – não paga um único centavo nos estabelecimentos que incensa).

Image Hosted by ImageShack.us

Vejam isso! Vejam isso!Bem recentemente eu mesmo escrevi sobre o tal Chico aqui. E já, em outras tantas oportunidades, os que me lêem saberão que isso é uma verdade, cansei de dizer que tanto o Chico, do Bracarense, como o Paiva, do Jobi, cobram por um humilde “boa-noite”, por um simpático “como vai?”, ou ainda por um óbvio “querem ver o cardápio?”.

Mas vou me centrar no Chico, que como se vê – e como nos mostra o sujeito (recuso-me a chamá-lo de jornalista) que assina a dita coluna – está tomando o rumo da fama. Gravou uma participação em um programa da TV Globo, irá à Copa da Alemanha servir bonachões em um camarote VIP e ainda vai aparecer na nova novela da mesmíssima TV Globo. Ora, ora, ora… “Mas o que é que tem isso, Edu?”, dirão alguns incautos. “Só por que é garçom não pode aparecer?”, dirão outros ainda mais idiotas. Nada disso. E explico.

O Chico é um garçom medíocre. E – uma amiga minha, de confiança, relatou-me o fato – é um “excelente e atencioso garçom” quando pingam em sua mãozinha, sempre em concha, umas notinhas que somem, no mínimo, R$50,00. A tal “gorjeta”. Legítimo, dirão alguns. Mas então que não se venda essa imagem do Chico, como o melhor garçom do Rio de Janeiro. O Chico não está nem entre os 100 melhores garçons. Mas é o primeiro quando o assunto é pose, mídia, fama, salamaleques e rapapés.

Exatamente como o Bracarense, bar onde trabalha. Nada além de razoável. Mas segundo alguns jornalistas e colunistas que nada pagam em troca de notas e mais notas sobre os mais estúpidos assuntos envolvendo esses estabelecimentos, é um fenômeno, como é um fenômeno os tais salgadinhos feitos pela Alaíde, a chef de cozinha do Bracarense (notem bem que no Bracarense não há cozinheira!). Que são, quero repetir, medianos. Medianos e engordurados. Medianos, engordurados e caríssimos.

Mas o que acontece depois de mais uma nota como essa publicada no maior jornal carioca?

A patuléia, a escumalha, toda a gente sem senso parte em direção ao Bracarense. E para lá vão munidos de câmeras fotográficas (para depois dizerem “olha, esse sou eu e o Chico”, mas mal sabem que sem grana não tem foto!), papeizinhos para os autógrafos (idem idem), e assim, graças a babacas como o autor dessa coluna podre, vai perdendo terreno a verdadeira tradição carioca, dos butecos autênticos, dos pé-sujos anônimos, dos verdadeiros garçons, santos que almejam a simpatia da freguesia e – vá lá! – uma gorjeta polpuda como retribuição pela gentileza do bom atendimento. E não uma polpuda gorjeta como adiantamento para que esse mesmo atendimento venha a galopes.

Uma forma bonitinha e aparentemente inocente de exercer a corrupção.

Até.

13 Comentários

Arquivado em botequim