A ESPIRAL – PARTE II

São três e vinte da manhã, madrugada de 26 de abril, véspera do dia em que nasci, e tal qual nas madrugadas da minha cada vez mais distante adolescência, quando de dentro do quarto do apartamento da Professor Gabizo vazava luz pela fresta da porta em direção ao corredor, eu, o menino debruçado sobre a poesia de Vinicius preocupando papai e mamãe com uma insônia que parecia-me, à época, fruto das angústias dos vestibulares iminentes, fruto das angústias e das dores de amores que tinham fatalidades capazes de induzir à morte, e cá estou, de novo acordado, sem qualquer espectro de vestibular à vista mas ainda com dores de amores capazes de induzir à morte, novamente sem sono e insone, minha insônia é perene, e novamente debruçado sobre a poesia que me redime desde que me entendo tal como sou.

Vinicius de Moraes, Poesia Completa e Prosa, Volume Único, Editora Nova Aguilar, 1998, capa

E eu fico, tal como ficava, com as mãos trêmulas folheando as 1.571 páginas impressas em papel-bíblia, o que dá conotações ainda mais espetaculares à minha saga poética em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Rio, e por dentro rio espetacularmente quando lembro de quantas mulheres impressionei, e quantas conquistei, recitando Vinicius de Moraes, e rio ainda mais intensamente quando lembro do critério criado por aquele adolescente sempre muito feio e por isso mesmo sempre muito tenaz quando o assunto era a sedução, sempre ligada à poesia, que me fazia ser o autor daqueles versos que faziam os olhos da namorada darem voltas impressionantes a ponto de deixá-las tontas a ponto de, pronto!, caírem todas no meu colo e nos meus braços fraquíssimos mas dotados de uma paixão lancinante, como devem ser as paixões que valem a pena. “O Poetinha há de me perdoar”, eu dizia enquanto cantava empunhando o violão “se você quer ser minha namorada, ah, que linda namorada você poderia ser, se quiser ser somente minha…”, e eu tinha ímpetos de declará-lo santo eis que várias foram mesmo minhas namoradas, todas lindíssimas e todas somente minhas, coisinha que ninguém mais pôde ser.

Vinicius de Moraes, Poesia Completa e Prosa, Volume Único, Editora Nova Aguilar, 1998

E daí as mãos trêmulas têm de dar lugar a uma mão firme. Quero fazer fotografias. Preciso ilustrar o texto. Preciso caprichar. Tenho gostado tanto do Buteco. Bebi ontem à noite com meus companheiros da confraria e hesito diante da garrafa de Red Label que faz psiu do bar em minha direção. Ou é o Vinicius que me chama? Imagina se o Véio Vina perderia um só segundo de uma noite dessas comigo! Se bem que um golinho acalmaria o tremor das minhas mãos. Tenho o corpo suado. Não bebo. Mas faço as fotografias. Vinicius morreu há 26 anos. Faço 37 amanhã. Lembro-me, nitidamente, do dia de sua morte. Tinha eu só 11 anos de idade naquele julho longínquo. Ele já era um santo quando vivo. Orixá poderoso. Saravá, Vinicius.

Busco, diante da noite, alta madrugada, a tal intimidade perfeita com o silêncio enquanto peço perdão por tudo, enquanto exerço a auto-piedade, eu não tenho culpa de ter nascido.

Tenho, ainda hoje, como tinha, já naquele quarto de minha adolescência encoberto pela fumaça de maços de Carlton que fumava desbragadamente, um respeito tremendo pela noite, que é por isso mesmo antigo, e vaza uma lágrima sobre a página 526 da edição da Nova Aguilar de 1998 e tenho novamente arrancos de rir quando lembro de quantas edições já tive e de quantas edições já dei de presente para mulheres que juraram, um dia, seguir comigo em meu caminho mesmo diante do meu anúncio de que talvez o meu caminho fosse triste para todas elas.

Voltam a mim, novamente como sempre, esses sentimentos de infância subitamente desentranhados de pequenos absurdos e essa capacidade de rir à toa – como rio, hoje… – e esse ridículo desejo de ser útil e essa coragem para comprometer-se sem necessidade e que tem me custado caríssimo, mas um preço que eu pago e que pagarei ainda que me neguem o troco.

Vinicius de Moraes, Poesia Completa e Prosa, Volume Único, Editora Nova Aguilar, 1998

“O Haver”. 15 de abril de 1962. Não havia Edu ainda. E o bruxo de cabelos esvoaçantes brancos, mago do malte e dono da voz que me embalou os sonhos de ser como ele – ah, essa faculdade incoercível de sonhar e de transfigurar a realidade – já havia escrito a oração que mais rezei, que ainda rezo, que agora rezo, que rezarei enquanto me for possível. “O Haver”.

Até.

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8 Comentários

Arquivado em confissões, poesia

8 Respostas para “A ESPIRAL – PARTE II

  1. >Huumpf… apagaram a luz…

  2. >Deuses deuses deuses afinal ainda existem homens assim!

  3. >Eu teria dado meu sangue, minha alma e minha alegria pelo amor eterno enquanto dure – um eufemismo inequívoco de “efêmero” – de Vinicius de Moraes. Agora só me resta contar com a reencarnação “com um pau um pouquinho maior” do Poetinha. Se Mãe Diná fosse uma médium séria e trouxesse de fato o amor eterno em 3 dias, eu já teria feito meus despachos.

  4. >Edu muito emocionante o texto e a poesia na voz do Vinícius. É o Edu Lobo no violão, não é? Você sabe o nome da canção? Vanessa, não precisa esperar pela reencarnação do poeta. Vou te escrever!

  5. >EDU SE VOCÊ QUISER EU TE DOU UM AMOR DESSES DE CINEMA.LU

  6. >O poema escrito que dá para ler na terceira fotografia é diferente do que ele (Vinicius) lê. Qual a versão que vale? Não importa, é só curiosidade mesmo. É muito lindo o poema. Lindo o seu texto. E você também. Parabéns de véspera, Eduardo!

  7. >Lu, anônima,Como você, além de ser do sexo feminino (não vou usar “mulher”em respeito às que acho que fazem jus ao título) é também covarde o suficiente para se ocultar atrás de um anonimato, esafortunadamente não posso arrebentar-lhe os cornos e preciso usar do espaço público pra dizer o que tem que ser dito, com a autoridade a mim reiteradamente confiada.Sua piranha imunda, você não vai dar porra nenhuma, nem de cinema, nem de teatro e nem da puta que te pariu, porque ela já tem mulher – E MUITO MULHER! – que lhe dê; não precisa de vagabundas oferecidas e mal-amadas que vivem de preencher o seu nada com ciriricas de internet.Sem carinho,Szegeri

  8. Pingback: EU, COADJUVANTE | BUTECO DO EDU

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