EU, VISIONÁRIO

Notem uma coisa. Eu, que mantenho o Buteco aberto há anos, que tento escrever com uma regularidade impressionante textos inéditos, rasgo, em pedacinhos minúsculos, os mais olímpicos elogios aos alvos de meu bem-querer com uma freqüência igualmente impressionante e os exemplos são inúmeros. Já cansei de dizer que o Szegeri é um mito e meu Otto, que a Inês e a Ju (em ordem alfabética para não gerar suscetibilidades) foram as maiores surpresas e aquisições de 2005, que a Robertinha Valente é a maior pandeirista que conheço, que o Ó do Borogodó é o maior buteco do Brasil, que a Betinha é um doce que não enjoa, que o Fefê é meu siamês, que a Dani é a mulher que me ensinou a sorrir, enfim, estou sempre a elogiar os outros. Sempre.

Mas hoje, passando a vista no jornal bem cedo, deparei-me com uma nota que despertou em mim o auto-elogio dito por um Edu empertigado diante do espelho, dando tapas com os quatro dedos das costas da mão na folha 3 do Segundo Caderno d´O Globo:

– Eu sou foda.

Peço perdão por esse “foda”, assim, dito logo pela manhã. Mas não me ocorreu palavra mais adequada à dimensão do meu acerto.

Vejam a nota. Aliás, nota de autoria do mesmo bobalhão citado aqui e que não se cansa de elogiar com regularidade cartesiana os pseudo-butecos que vêm se espalhando pela cidade como uma praga (não se cansa porque com essa propaganda espontânea – pausa para um pigarro – não paga um único centavo nos estabelecimentos que incensa).

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Vejam isso! Vejam isso!Bem recentemente eu mesmo escrevi sobre o tal Chico aqui. E já, em outras tantas oportunidades, os que me lêem saberão que isso é uma verdade, cansei de dizer que tanto o Chico, do Bracarense, como o Paiva, do Jobi, cobram por um humilde “boa-noite”, por um simpático “como vai?”, ou ainda por um óbvio “querem ver o cardápio?”.

Mas vou me centrar no Chico, que como se vê – e como nos mostra o sujeito (recuso-me a chamá-lo de jornalista) que assina a dita coluna – está tomando o rumo da fama. Gravou uma participação em um programa da TV Globo, irá à Copa da Alemanha servir bonachões em um camarote VIP e ainda vai aparecer na nova novela da mesmíssima TV Globo. Ora, ora, ora… “Mas o que é que tem isso, Edu?”, dirão alguns incautos. “Só por que é garçom não pode aparecer?”, dirão outros ainda mais idiotas. Nada disso. E explico.

O Chico é um garçom medíocre. E – uma amiga minha, de confiança, relatou-me o fato – é um “excelente e atencioso garçom” quando pingam em sua mãozinha, sempre em concha, umas notinhas que somem, no mínimo, R$50,00. A tal “gorjeta”. Legítimo, dirão alguns. Mas então que não se venda essa imagem do Chico, como o melhor garçom do Rio de Janeiro. O Chico não está nem entre os 100 melhores garçons. Mas é o primeiro quando o assunto é pose, mídia, fama, salamaleques e rapapés.

Exatamente como o Bracarense, bar onde trabalha. Nada além de razoável. Mas segundo alguns jornalistas e colunistas que nada pagam em troca de notas e mais notas sobre os mais estúpidos assuntos envolvendo esses estabelecimentos, é um fenômeno, como é um fenômeno os tais salgadinhos feitos pela Alaíde, a chef de cozinha do Bracarense (notem bem que no Bracarense não há cozinheira!). Que são, quero repetir, medianos. Medianos e engordurados. Medianos, engordurados e caríssimos.

Mas o que acontece depois de mais uma nota como essa publicada no maior jornal carioca?

A patuléia, a escumalha, toda a gente sem senso parte em direção ao Bracarense. E para lá vão munidos de câmeras fotográficas (para depois dizerem “olha, esse sou eu e o Chico”, mas mal sabem que sem grana não tem foto!), papeizinhos para os autógrafos (idem idem), e assim, graças a babacas como o autor dessa coluna podre, vai perdendo terreno a verdadeira tradição carioca, dos butecos autênticos, dos pé-sujos anônimos, dos verdadeiros garçons, santos que almejam a simpatia da freguesia e – vá lá! – uma gorjeta polpuda como retribuição pela gentileza do bom atendimento. E não uma polpuda gorjeta como adiantamento para que esse mesmo atendimento venha a galopes.

Uma forma bonitinha e aparentemente inocente de exercer a corrupção.

Até.

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13 Comentários

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13 Respostas para “EU, VISIONÁRIO

  1. >O melhor garçom que eu conheci no Rio de Janeiro foi o Léo, do Estephanio’s. Sem cabotinismos nem protestos, só uma ponta de tristeza impotente. Apenas para bem da verdade histórica e à guisa de homenagem. Para desespero dos leitores, de novo, sem paz.

  2. >Eu também detesto o Joaquim Ferreira dos Santos. Por que você não dá o nome ao boi? E acho que é repugnante essa mania de jornalista de paparicar a, b ou c em troca de mamata.Alex

  3. >Hoje, almoçando com um amigo que só bebe vodca Orloff, a única que não contém glúten, lembrei daquele que considerava o melhor garçom do Sistema Solar: o Bengala, do Amarelinho dos anos 70, depois do Vermelhinho, na década seguinte, quando se aposentou. Ninguém enfiava nota de 50 contos no bolso do Bengala para ser mais bem tratado do que os outros fregueses. Ao contrário, era o Bengala que, além de pendurar nossas contas, tirava algum do próprio bolso para aqueles que esqueciam até do dinheiro para voltar para casa. Bengala, que o Cesar Tartaglia, leitor desse Buteco (e que tem também um blog, No front do Rio, em parceria com Mauro Ventura), também conheceu bem, era, ele sim, um puta garçom, e não um garçom-puta, como foi muito bem dito pelo Marcão num comentário postado na bem lembrada edição desse mesmo Buteco citada pelo Edu hoje. Mandou bem. O colunista que homenageia esses caras que de garçons só têm a gravatinha também deve ter conhecido o Bengala, mas não deve saber mais o que aquilo tudo significava, senão não babava tanto o ovo desses chicos e paivas. E tenho dito, pombas!

  4. >É por isso que eu frequento o melhor butiquim do mundo. – Erasmo! Desce meia dúzia para comemorar.Parabéns Estephanio’s !!!

  5. Pat

    >Ih, é verdade Casé! Hoje 19 de abril vamos comemorar seis anos da nossa segunda casa, o grande Estephanio´s, Stéfi pros intímos! Abaixo mentiras e farsas como essa Bracarense e o Chico. Viva o Estephanio´s e o Erasmo, o Zezinho, o Ilton, o Maurício, o Leôncio, o Fernando, o Cachorro e o Edu.

  6. >E olha que eu venho falando disso ha anos….

  7. >SZEGERI, MEU OTTO, SUMIDADE: o BUTECO melhora, e muito, com sua presença. Entre a paz dos leitores (não compreendi sua piada) e o seu toque de gênio, fico com esta última opção.ALEX: não dou o nome em respeito aos bois.ZÉ SERGIO, VELHA COROCA, DINDA QUERIDA: espalha, espalha, espalha as histórias do Bengala! E como era (ou é) mesmo o apelido desse colunista, hein?CASÉ e PAT: esqueci-me completamente dos 6 anos do Estephanio´s, vejam vocês! Mas vocês merecem mais os parabéns que eu, que vou menos que vocês àquela esquina!FEFÊ: do que você vem falando há anos, Fê?

  8. >Faltou o Edu dizer que o Chico recebia as notinhas de R$ 50,00 antes de começar a servir, o que gerava uma atenção instantânea do suposto “fenômeno” do Bracarense.Excelente a lembrança do Léo, competentíssimo e uma gentileza só, embora a dupla do Costa, Alonso e Bigode, seja imbatível no quesito eficiência sem extorsão.

  9. >FLAVINHO, MEU XERIFE: imagino que esteja bêbado a essa altura, nove e meia da noite de quarta-feira. Evidente que eu deixei claríssimo que o Chico recebe ANTES a caixinha, pô! Releia, Xerife, releia!Agora, outra coisa… Bengala (escalado pelo Zé Sergio), Alonso e Bigode!!!!!É esse o ataque!

  10. >São 23:56, diz o reloginho do computador. Estou ralando, tenho que acordar às seis e meia, porque alguém está doente e não vai poder trabalhar, e eu tenho que cobrir, porém, intimado a falar no Bengala, vou lembrar uma de suas muitas histórias. Bengala, ainda no tempo do Amarelinho (vão lá e perguntem aos fregueses e garçons da antiga sobre a peça), um dia foi cantado pelo pessoal do Partidão de São Gonçalo para ser candidato a vereador. Fez uma consulta informal a vários fregueses, entre eles o Lauro Faria, o Paulão, o Roberto Petti e eu – todos conhecidos do dono do Buteco. Pois bem, embora fôssemos petistas, pedetistas ou anarquistas, ficamos meio sem graça de dizer que não votaríamos nele por dois motivos: nossos títulos não eram do município vizinho a Niterói e jamais votaríamos no Partidão. Porém, o ajudaríamos de alguma forma. Eis que, certa noite, o Bengala, presidente do Independente Futebol Clube e árbitro dos torneios que patrocinava no bairro Santa Isabel, com o apoio das biroscas locais, veio todo sorridente dizer que já havia acertado tudo para concorrer. O Partidão se comprometera a lhe dar um jogo de camisas novas para seu time. Aquilo era notícia, pensamos, e alguém passou a nota para a coluna do Swann (o Ricardo Boechat não a assinava na época). O Partidão gonçalense adorou e o Bengala mais ainda. Claro que perdeu a eleição. Só teve os votos dos times que jogavam na várzea, mas, puta que pariu, aquele novo uniforme vermelho ficou bonito pra cacete! E arranjamos também um jeito de inteirar a grana para comprar um milheiro de panfletos. No dia em que levamos a arte final para o Bengala aprovar, o candidato, com seu incrível faro para o marketing, implicou com a foice e o martelo e o símbolo de sua campanha mudou para a bengala e o martelo. Nem o pessoal do Partidão que já havia fechado com a candidatura votou nele, mas o melhor garçom do mundo cagou para o lance. Como andaram implicando com ele no Amarelinho, por causa daquela história de comunismo, nosso amigo pediu as contas e foi trabalhar no bar ao lado, que tinha nome mais adequado à sua nova ideologia. E se aposentou no Vermelhinho. São 00:14, vou dormir, porra!

  11. >edu, passei aqui no buteco pra saber das últimas (envergonhada por lembrar de repente que te devo um email há anos) e quis deixar o registro: é sempre muito boa essa visita! eu sou muito sempre muito enrolada, mas algum dia a gente marca esse encontro num buteco de verdade! beijo, maria

  12. >excelente o comentario de como a midia cria seus idolos,sou barman ha mais de15 anos e fico indiguinado como neste meio tem farsantes,o garrincha maitre do tower gril é simplesmente horroroso,os tais jornalistas pucha saco dizem que ele é otimo,o siri ex-barman do caroline café quase fica conhecido como o melhor barman do rio,sendo que ele nuca tinha trabalhado em bar,só que o seu patrão que é o marcelo do rio(devassa)largou o caroline para vender chop de fundo de quintal.

  13. Pingback: INGRATIDÃO É ISSO AÍ | BUTECO DO EDU

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