E PROSSEGUE A PRAGA

Eu sei, eu sei, eu estou cansado de saber. Pareço sempre radical demais, repetitivo ao extremo, quase-cansativo. Mas creio, com meus botões (os únicos que me agüentam as 24 do dia), que é radicalizando e tornando o discurso repetitivo que posso entregar à assistência meu retrato mais bem moldado e integralmente visível ao alheio. Por isso peço licença para, uma vez mais, bater (com força e com o auxílio da tropa de choque, Szegeri, Zé Sergio, Borgonovi, Marcão, Julio Vellozo) nessa praga que se espalha pelo Rio de Janeiro e que vem detruindo (ou tentando destruir), aos poucos, uma das mais arraigadas tradições cariocas que é o buteco autêntico, e não esse boteco falso e nojento que precisa ser anunciado no letreiro, e refiro-me ao Belmonte (boteco, como a logomarca explica), ao Informal (botequim, idem idem), ao Manoel e Joaquim (bar e botequim, idem idem) e outras bostas do gênero.

fachada de obra na esquina da Rua Prudente de Morais com Rua Farme de Amoedo, em Ipanema, anunciando a abertura de mais uma filial da cervejaria Devassa

Vejam vocês, por exemplo, o (ou a, não sei) Devassa. Em primeiro lugar (pode ser implicância minha, mas creio que procede o que aponto com o indicador) eu duvido que essa exposição da marca durante a obra seja permitida pela Prefeitura. Em frente.

O (ou a) Devassa é uma cervejaria que começou no Leblon, outro bairro da zona sul da cidade. Fabrica sua própria cerveja (semi-sofrível), cobra por ela os olhos da cara e tem, hoje, filiais espalhadas pela cidade (não por acaso pela zona sul e pela Barra da Tijuca, apenas). Está na moda graças a babacas que vão ao bar em busca única e exclusivamente de ver pose e de expôr a própria pose. E está na moda, também, graças a jornalistas sem escrúpulo que dão nota atrás de nota incensando, adulando e bajulando esses estabelecimentos em troca de mordomias como, por exemplo, não pagar um único centavo pelo consumo.

Vejam que nojo a nota abaixo.

nota publicada no jornal O GLOBO de quinta-feira, 13 de abril de 2006

E explico por qual razão é, a nota, um nojo.

Em primeiro lugar porque ela cita três bares horrorosos: o Informal, o Belmonte e o Manoel e Joaquim.

Em segundo lugar porque refere-se a um deles, o Informal, como “botequim pé-limpo” (na verdade estendendo esse adjetivo aos demais). É engraçado, porque esse mesmo jornalista (que não entende porra nenhuma do assunto) já chamou um deles, o Belmonte, de “pé-sujo fashion”,  como se vê por aqui. Porra! É pé-sujo, é pé-limpo fashion, é o quê? É uma merda, digo eu. Vamos em frente.

É um nojo, a nota, em terceiro lugar, porque o jornalista (que não entende picas da matéria) cria uma espécie de ranking medíocre entre os estabelecimentos comerciais mantidos por investidores que estão cagando solenemente para qualquer outra coisa que não seja o lucro.

Você, por exemplo, vá ao Bar do Costa, em Vila Isabel. Bar de matriz, sem filial. Petiscos de primeira. Cerveja estupidamente gelada. Preços bastante em conta. A alma do dono boiando entre os freqüentadores. E é assim no Rio-Brasília. No Amendoeira. Nos bares sérios. Nessas franquias que atentam contra a tradição nada disso se vê. Mas a tradição não interessa ao jornalista. Interessa é esse trabalho de divulgação babaca (que os investidores jogam pesado quando o assunto é marketing) que acaba dando certo e atraindo hordas de babacas em busca de pose.

Vai daí que eu fiz essas tais duas fotos chegando à praia na quinta-feira.

Saindo da praia, na mesmíssima rua, deparo-me com outra obra. Bem mais modesta, é verdade. Mas o letreiro já estava visível… E vejam que lixo, que lixo!

Veja, mano Szegeri, você com quem tanto já discuti o assunto… Veja que nojo!

fachada de obra de bar na Rua Farme de Amoedo, em Ipanema, mais um dentre tantos filhotes que vêm nascendo fruto dessa insuportável moda que faz crescer as franquias de bares e botequins na cidade do Rio de Janeiro

“Botequim Tô Nem Aí” é o que anuncia o toldo.

Salve-se quem puder.

E aposto que muito em breve o tal jornalista em questão (apenas um dentre tantos medíocres que remam no mesmo barco) estará anunciando, com pompa e circunstância, a inauguração de mais esse cancro na vida da combalida cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, cada vez mais crivado, coitado, eis que cada filial dessas merdas, cada filhote que nasce na mesma onda (como esse escroto “Tô Nem Aí), é mais uma flecha no peito do padroeiro.

Que ainda pode se salvar.

Até.

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5 Comentários

Arquivado em botequim, imprensa

5 Respostas para “E PROSSEGUE A PRAGA

  1. >A parte odiosa dessa estória de “pé-limpo” é que não dá para imaginar os frequentadores dessas porcarias indo nos melhores botecos da cidade.Como acham o Amendoeira, o Costinha ou a Pérola sujos e mal frequentados, vão comer empada no Belmonte e ainda acham que estão fazendo um programa boêmio.

  2. >Xerife, querido, discordo de você radicalmente: A MELHOR PARTE dessa história é que a tchurminha fica comendo seus pasteizinhos de carne lá nos seus drinking centers e deixa a gente pegar nosso sapinho em paz.

  3. >Antecipadamente já peço desculpas pelo pecado incomensurável que cometi em última passagem pelas gloriosas terras cariocas: meti-me nesta espelunca chamada “Devassa”. Só um parênteses, que na verdade poderia gerar um parágrafo ou mesmo uma tese: por que tormentas d`água eles inventaram de fazer seu próprio chope (achei so-frí-vel) se a Brahma, tão honradamente, poderia tê-lo confeccionado, entregado e garantido um curso de como tirá-lo?E não foi só: cometi o ridículo, o hediondo, o inaceitável acabado de sair do “Lamas”.Estarei no Rio o quanto antes a fim de reparar a asneira.Abraço,Fernando Borgonovi

  4. Ave

    >Quem se auto denomina “botequim” ou “buteco” só pode ser enganador. Os verdadeiros tem na placa “bar”, “lanchonete” ou, raramente, “restaurante e bar”.Qum transforma tudo isso em botequim é a interação entre frequeses e donos, originadas pela qualidade dos comes, dos bebes e dos papos de balcão.Saudades do Amendoeira, dos tempos em que trabalhava em Maria da Graça…

  5. Pingback: EU, VISIONÁRIO | BUTECO DO EDU

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