Arquivo do mês: março 2006

RABADA, A RECEITA

Toca de tatu, lingüiça e paio e boi zebu
Rabada com angu, rabo-de-saia…
(João Bosco – Aldir Blanc)

(pro Marcelo Coelho, de novo)

Lembrem-se que quando eu escrevi, aqui no Buteco, a receita da minha feijoada, aqui, pedida pelo meu dileto amigo Coelho, mencionei que ele havia, na mesmíssima oportunidade, aflito, pedido também a receita da rabada (eu ia dizer “da minha rabada” mas não pegaria bem).

E, escoltado pela belíssima fotografia da rabada que preparei na casa de papai e mamãe, passo a ensinar (oh, maldita pretensão!) ao Coelho, e a todos os que gostam da coisa, como preparo o prato, e vai na medida para 10 pessoas.

Antes de mais nada, é preciso decidir fazer a rabada no mínimo com quatro dias de antecedência, que é esse o tempo que a carne leva, na geladeira, dentro da vinha d´alhos. Então, mano Coelho, se você pensar na rabada pra um domingo (o ideal! o ideal!), compre tudo na quarta-feira pois na quinta à noitinha você terá de começar o preparo do prato.

Vamos às compras antes. Para a vinha d´alhos são 3 garrafas de vinho tinto (seco, pelamordedeus!), 1 litro d´água, 5 cebolas de casca bem escura (as argentinas!) cortadas em quatro, 8 dentes de alho inteiros, folhas de louro fresco (eu ponho umas 10), 3 ramos de tomilho, 1 maço de cebolinha e um maço de salsinha picadas, e uma colher de café de pimenta-do-reino preta em grão.

Para a rabada propriamente dita, muna-se de paciência. Esqueça os supermercados para comprar a carne. Os mercados metem a rabada de qualquer jeito na serra elétrica e estraçalham tudo. Prefira um açougue. De preferência com um cabeça branca no comando. Ele seguramente vai piscar o olho quando você fizer o pedido e vai dizer:

– Esse entende das coisas!

É o seguinte: peça a ele 3kg de rabada cortada na junção dos ossos. Eis um dos segredos. Assim, mesmo bastante cozida, a carne não vai soltar completamente do osso. Vá por mim. Tenha ainda por perto óleo de milho, uma 1 cebola picada, 4 dentes de alho picados, 1 maço de coentro picado, 1 maço de manjericão picado, além de sal e pimenta-do-reino moída na hora, a gosto.

E para a polenta, acompanhamento ideal, você vai precisar de umas 10 xícaras de chá do líquido da vinha d´alhos, 3 xícaras de fubá de milho, 3 colheres de sopa de manteiga sem sal e sal a gosto.

Comprou tudo? Vamos em frente.

Quinta-feira à noite, num belo copo, umas 5 pedras de gelo e uma boa dose de um 8 anos. Pegue uma senhora bacia plástica com tampa (vende-se a rodo isso hoje em dia) e coloque toda a rabada. Cubra tudo com todos os ingredientes da vinha d´alhos. Vá sacando o cheiro, malandro, inebriante… Depois tampe e ponha na geladeira. Na sexta e no sábado, umas duas vezes ao dia, você vai lá na geladeira, põe a bacia pra fora, destampa – o uísque sempre ao lado! – e sente o aroma, mexendo para distribuir bem a vinha d´alhos.

Sábado à noite você retira, uma por uma, a rabada da bacia, reservando a vinha d´alhos. Com uma toalha que você jamais voltará a usar, enxugue – mesmo! – peça por peça. Enxugou? Deixa numa bacia à parte.

Coe toda a vinha d´alhos e guarde o líquido.

Daí pega o panelão. Ponha o óleo, uns 100ml, não sei, tem que ter olho! Refogue a cebola e o alho, até começarem a dourar. Daí vá pondo, devagar, a rabada, dourando uma por uma… Veja você que tem que ser uma senhora panela!!!!! Vá pondo, aos poucos, até cobrir, a água da vinha d´alhos, lembrando de separar as 10 xícaras pra fazer a polenta no final! A rabada está coberta?

Então coloque os tomates, o manjericão e o coentro, aliás, é esse exato momento que a fotografia mostra!

Você vai deixar umas 3 horas cozinhando em fogo baixo, mas sempre de olho, até a carne se desprender do osso (não soltar totalmente!), acrescentando água sempre que necessário. Ficou pronto? Tira a panela do fogo, deixa esfriar um bocado e deixe na geladeira umas seis horas, até que a gordura excedente endureça na superfície.

No domingo, quando for servir, retire a gordura da superfície (é bem fácil), leve ao fogo de novo, tempere com sal e pimenta e está prontíssimo!

Agora, a polenta. Eu ia lhe dizer como fazer polenta. Mas lembrei-me que você é casado com uma Terzi, camarada! Itália em estado bruto! E polenta é com eles! Divirta-se!

Até.

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>O JUIZ

>

“Ah, meu bom Juiz
Não bata este martelo nem dê a sentença
Antes de ouvir o que o meu samba diz…
Pois este homem nao é tão ruim quanto o senhor pensa…”

(Bezerra da Siva)

O Bigode entrou no bar aos berros:

– O Beto passou no concurso! O Beto passou no concurso!

Seu Osório, que não é lá muito chegado a euforias antes do almoço, espalmou a mão em direção ao Bigode, trovejou um caprichado arroto e berrou ainda mais alto:

– Que concurso, ô putão? E que Beto, animal?

– O Alberto Anil, seu Osório, filho da dona Olívia e do seu Radamés… Passou pra juiz!

– Aquele gordo? – perguntou Bule por trás do balcão.

Seu Osório, Bigode e Zezinho olharam ao mesmo tempo para o obeso Bule, rindo, e foi Bigode quem o respondeu:

– Ele mesmo. Mas não tão gordo quanto tu! – e deu de gargalhar.

No que foi interrompido pelo Bule:

– Experimenta me sacanear pra ver se tu bebe mais uma dose do teu conhaque na base do pendura…

– Foi mal, Bule, foi mal… E já que tu falou o nome do santo, desce um pra mim, vai…

Bule o serviu e Bigode virou num trago só. E continuou:

– E juiz federal, minha gente! Quem diria… Um juiz na nossa rua! E federal! E ó… parece que hoje o seu Radamés vai descer com o filho e com a dona Olívia pra uma comemoração aqui no bar, foi o que me disseram quando chegaram, agorinha mesmo. Tavam numa alegria de fazer gosto…

– Grandes merda – foi o gentil comentário do velho Osório.

Sacomossão as coisas na Vila, né? Em coisa de uma, duas horas, não se falava noutro assunto nas redondezas. O salão de beleza lotou, as senhoras querendo estar nos trinques pra tal festa anunciada pelo Bigode. E o buteco, lá pras seis, seis e meia, já estava lotado. Seis-com-Fome, Amorim, Vidal recém chegado do consultório, Quincas com o táxi estacionado diante do bar e meia dúzia de garrafas de cerveja no teto do carro, Amorim, no lugar de sempre, Zezinho com o mau humor característico, seu Osório de papo com Waldomiro, que não aparecia há várias semanas, tinha até cadeira de praia na calçada, tremenda expectativa pra entrada triunfal da família Anil.

Daí oito em ponto apontam na esquina os três: dona Olívia, Alberto no meio e seu Radamés, os três de mãos dadas, tendo dona Olívia, equilibrado na mão direita, um enorme prato com um bolo ostentando uma figura tosca segurando uma balança, a Justiça.

Explodiram aplausos, e foi um tal de puxa-saquismo de deixar lobista com vergonha:

– Bob, meu querido! – foi o que disse o Waldomiro que estava conhecendo o Alberto naquele instante.

– Ô, Alberto… eu sempre te disse que você levava jeito pra juiz… – disse com um cigarro pendendo da boca o Amorim que vivia dizendo, pra quem quisesse ouvir, durante as peladas, que em matéria de futebol o Alberto tinha talento, no máximo, pra ser o árbitro.

– Vem cá, vem, Betão!

– Excelência!

– Vade mecum!

E levou-se bem uns 15 minutos nessa papagaiada de querer agradar o moço.

Daí o Bule sugeriu, depois de pedir silêncio, antes de partirem o bolo:

– Seu Osório vai subir no banquinho e fazer um discurs…

Alberto irrompeu de dedo em riste e estacou diante do Bule:

– Nã-nã-ni-nã-não. Quem vai falar hoje sou eu.

Um “ohhhhhhhhhhhh” de espanto espocou na esquina.

Seu Osório arrotou assim que o Alberto, apoiando-se nos ombros do Zezinho e do Bule, subiu na cadeira, que o banquinho não ia agüentar o peso.

Alberto, segurando um martelo desses de amaciar carne, começou:

– Minha gente, meus vizinhos, meus amigos, meus afetos e meus desafetos…

Seu Osório só trovejando, coçando a orelha de pé no balcão, bicando sua cerveja, quando disse ao Bule:

– Lá vem merda.

– … quero me dirigir a você, Amorim, que nunca acreditou em mim. Estou aqui, Amorim. Estudei. Fiz a prova. E hoje sou Juiz Federal, com “j” e com “f” maiúsculos. Quero me dirigir a você, Bule, que vive reclamando do faturamento do bar, meu caro Bule… É difícil manter um bar, Bule? É. É muito difícil. Mas diziam que a prova que eu fiz era difícil. Mas estou aqui. Passei. Sou Juiz Federal…

E ficou nessa ladainha, nessa autopromoção constante, citando um por um, neguinho já bocejando, o bolo já quase no fim, quando seu Osório pediu a palavra. Assustado, Alberto interrompeu o discurso e todos voltaram, de novo, a prestar atenção no troço. Fez sinal com a mão pra que o Alberto descesse. Alberto desceu. E subiu, o velho Osório, no banquinho. Mandou um arroto federal e disse:

– Tenho mais de 60 anos, Excrescência, e abaixa esse nariz de merda quando falar comigo!

Aplausos, muitos aplausos, dona Olívia pálida e seu Radamés abanando a mulher. Alberto, vermelhíssimo, esboçava reagir mas a autoridade do seu Osório ali é impressionante. E ele continuou:

– Sem mais delongas, Alberto, tu me perdoe a intimidade, data vênia, mas vá pra pôta que o pariu com seu cargo, com sua pose, com sua empáfia…

E nem terminou o discurso.

A patuléia assobiava, gritava, carregava seu Osório no colo, e arremessava no pobre Alberto os farelos que restavam do bolo. Partiram pra casa dona Olívia, Alberto no meio e seu Radamés, tendo seu Osório gritado antes dos três atingirem a esquina seguinte:

– A Vila não quer abafar ninguém, ô putão! Por isso não vem querendo abafar, não, que aqui tu só se fode!

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O PASQUIM

“O meu pai era paulista
meu avô, pernambucano
o meu bisavô, mineiro
meu tataravô baiano…”

(Chico Buarque)

Na foto vê-se um grande amigo, Luiz Carlos Toledo, abraçado à coleção caprichosamente encardernada, de 12 volumes, mais um sacão desses de lixo industrial de quase um metro de altura contendo jornais ainda a encadernar. Ah, sim… a coleção é do legendário “O Pasquim”, e estão encadernados os anos de 1969 até 1974. Fora, não se esqueçam, todos os exemplares que estão no tal saco.

Ontem estivemos, eu e Dani, a convite do grande Toledo (que vem a ser o “Pai do Ilustrador”), no sítio onde ele e a Luciana se refugiam vez por outra, e ainda na companhia do Pedro (que vem a ser o “Ilustrador”) com a Diana e suas duas filhas, Bia e Nina. Saímos de casa por volta das 10h e chegamos lá pouco antes das 11h. O Toledo me provocando desde a semana anterior, quando fizera o convite:

– Vou te dar o presente do ano! Do ano!

A essa altura vocês já sabem. O malandro, num gesto que me fez ter vontades olímpicas de fumar de tão nervoso (não fumei), que me fez ter vontade de beber em pleno período de abstinência programada (bebi), entregou-me, um a um, os volumes, enormes como se vê, e ainda disse sorrindo:

– Ainda falta aquele saco! Ainda falta aquele saco!

E eu fazendo força pra não desabar diante do cara e da Luciana (Dani, já que moças são menos controladas nessa hora, já chorava), com a cara mais embasbacada do mundo diante daquele presente que nunca (dito com veemência) imaginei ganhar na vida.

Mas eis o momento em que desabei de vez, em que fiquei com as pernas bambas e os olhos que não desgrudavam do tesouro.

Eu, como vou dizer isso?, pra não cair no chão e abraçar aqueles livros, lancei-me nos braços do Toledo, diante dos olhos da Sorriso Maracanã e da Luciana, e só consegui dizer:

– Obrigado! – pra em seguida tascar-lhe um beijo de gratidão, de sei lá mais o quê (estava visivelmente eufórico), no pescoço.

E ele, mal disfarçando a emoção:

– Não sou eu que estou te dando…

E eu ainda abraçado ao cara.

– É meu pai.

Bem, façam uma idéia do que eu fui dali em diante, vocês que me conhecem. Luiz Carlos, arquiteto, filho do Aldary Toledo, um dos mais destacados arquitetos brasileiros, e um senhor artista plástico, estava ali, diante de mim, entregando a mim um tesouro guardado, com esmero, por seu pai, que lhe dera a coleção a certa altura da vida. E eu fiquei sem saber o que dizer, literalmente.

Mas há mais! Há mais! Ainda há mais!

Já semi-refeitos da “cerimônia de entrega”, já sentados e bicando uma cerveja (minha abstinência foi pras cucuias), eu folheava excitadíssimo o volume I, com a coleção do ano de 1969, quando “O Pasquim” foi lançado.

A capa do jornal número 01 é essa aí embaixo.

O dedo no alto é da Dani, felicíssima por mim.

Então. Eu folheava um por um e o Toledo valeu-se de sua autoridade:

– Pára de olhar isso agora, pô! – e riu.

Estava certíssimo. Eu estava tão absorto ali que não aproveitaria o dia.

E disse ele, olhando pra longe:

– Edu… Eu não poderia dar isso a mais ninguém. E você há de me prometer. Quando você fizer 60 anos, saberá a quem passar esse tesouro, como meu pai fez comigo, como faço agora contigo.

– Prometo, prometo… – também olhando pro mesmo longe que ele, dizendo por dentro ao seu Aldary, a quem conheci quando namorava a filha do “Pai do Ilustrador” (a vida e seus meandros…), que não o decepcionaria.

E ficamos ali bebendo, comendo uma lingüicinha mineira, mudamos o assunto, Pepê chegou com a Diana e as duas meninas, eu fiquei apaixonadíssimo pela Nina, e até a hora de irmos embora, todos, eu não estava exatamente ali, se me entendem.

Ah, e Toledo… Eu continuo sem saber o que te dizer.

Beijo (pra ele) e até (pra todos).

PS: hoje, dia 20 de março, é aniversário da Sônia, minha queridíssima Manguassônia, por quem ergo o copo no balcão imaginário do Buteco.

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RESENHA (por Juliana Amaral)

“Quando a maré vazar
Vou ver Juliana
Vou ver Juliana
Vou ver Juliana…”

(Dorival Caymmi)

Ói eu com a Juliana Amaral (esse site está desatualizado, eis que não menciona o disco novíssimo que a Ju está pra lançar, mas dá pra ouvir trecho de duas canções de seu primeiro disco e conhecer um cadinho de seu trabalho) na manhã do domingo de Carnaval! No Rio-Brasília, extensão da minha casa, um dos melhores e mais honestos butecos da Tijuca, onde sentamos pra beber e jogar conversa fora. Pois bem. Eu tenho, vira e mexe, falado da Ju procês (mas que raio de mineirice é essa?). A Ju, com quem venho trocando, há meses, emails que vão pra lá, emails que vêm pra cá, a Ju, que canta (e escreve) bem pra burro e que lança disco novo ainda este ano (depois aviso, depois aviso!), diz que leu meu livro e gostou. Escreve pra burro mesmo. A Betinha, por exemplo, leitora fidelíssima do Buteco, já disse isso até de público! Daí fiquei bobo. A Ju sabe das coisas, cês vão ver (chega, porra!). E não tô falando das minhas coisas, não! Ela sabe das coisas do mundo, minha nêga.

Pausa. Eu tô falando sério. Por que escrevo com esse sotaque? Abstinência? Szegeri, ajude-me.

Mas vamos lá.

A Ju mandou-me, há exatamente uma semana, um email lindo de morrer. Começa o email dizendo não se tratar de uma resenha. Mas é. Leiam (e vejam) vocês mesmos.

Não é uma resenha.

Tive dois professores que me ensinaram a ler.

A primeira, ainda no colegial, apresentou-me o Bispo do Rosário e seus bordados divinizados e malditos em lençóis do hospício, linhas tingidas de sangue e urina tecendo palavras ordenadas de modo carnavalesco, falando de Deus e dos homens em parangolés coloridos e tristes, rôtos e sagrados, ex-votos de sua maldição, de sua baixeza, de sua sacralidade. Lembro-me do assombro no coração de menina ainda quando entendi que não importa só a palavra, mas sim o seu movimento, seu contorno no mundo, seu espaço, sua espessura.

O outro, já na faculdade, (re)apresentou-me Manuel Bandeira e Machado de Assis e depois me desvirginou definitivamente para o maior de todos, Guimarães Rosa. A morte e a humildade do Manuel, a crueza e a precisão cirúrgica do Machado, e a violência, a bruteza e a imensidão do sertão do Guimarães, e suas infinitas belezas, forjaram em mim (pretensiosamente) um jeito de ler vertical, fizeram-me querer procurar com teimosia por entre as fibras do tecido (o manto do Bispo) os fios escondidos, as filigranas, aquilo que não se vê talvez, mas que está lá, e que faz o corpo da palavra, seu desenho, sua carnatura; aquilo que eu fecho os olhos e quase consigo pegar, morder, cravar minhas unhas. Ao mesmo tempo, pra desafiar minha natureza cartesiana (sou como o Riobaldo, quero o preto longe do branco, o feio apartado do bonito, cada coisa em seu lugar), com essa minha fôrma vou aprendendo, me forçando a aprender, a cada dia, a entender as coisas que são e não são ao mesmo tempo, no revés, pelos avessos, e isso é coisa que me dá um conforto e um desespero, mas que alimenta meu espírito e me dá oxigênio pra andar pra frente com o umbigo longe do chão, pés firmes, olhos erguidos.

Falo tudo isso porque não faria uma resenha do teu livro, não sei mais fazer isso, embora me dê sempre um aperto no peito em pensar que minha vocação primeira seria essa. O que posso, consigo e quero fazer é falar de duas coisinhas talvez meio escondidas, mas que tomam pra mim a dimensão das grandes felicidades, fruto disso aí que sou.

Gosto dos caminhos que vão paralelos às histórias, dois em especial: a tijucanice e o anacronismo. Como é próprio do discurso pessoal (e você faz muito bom uso da primeira pessoa, tanto na liberdade das digressões quanto no empréstimo da palavra a outro narrador), ele não prende o foco num só lugar, ele é redondo; as repetidas voltas a esses dois “assuntos”, e a sua precisão em fazer isso de modo sempre variado – gradiente construído do pequeno ao grande, do tom esmaecido ao colorido intenso – avolumam o texto, costuram uma linha que transpassa os contos, refletindo sobre ele mesmo e dimensionando pra quem lê aquele que escreve e aquilo que se escreve no tempo e no espaço. Esses caminhos vão adjetivando e modulando o texto, e me dão aquela sensação de espessura, de corporeidade, de materialidade.

E gosto dos lirismos que vão tímidos em um ou outro lugar, palavras pequenas que revelam um olhar tão masculino (é preciso um parêntesis: as feministas de plantão virão certamente me bater com seus sutiãs queimados em riste; morram todas elas que não sabem ser amadas nem comidas nem nada…): a moça que limpa a boca com as costas das mãos, que deseja o cunhado no quarto ao lado; o amor do senhor pela mulher morta, seu delírio; a saudade da bisavó. O seu discurso me encanta justamente por sua masculinidade, pois que daí aparece a devoção – devoção essa que faz parte mais da natureza dos homens, assim como a amizade masculina cuja grandeza invejo. Há quem diga que é “o lado feminino” do escritor; eu, ao contrário, acredito ser esta a parte masculina, que não está dissociada de todas as outras (a força, o pragmatismo, a bruteza, a rigidez), e que só pode existir por causa dessas outras. É que eu definitivamente sou pela distinção dos gêneros, homem é homem, mulher é mulher, graças a Deus, são as diferenças que fazem a beleza dos amores, que só assim podem ser intransitivos e generosos.

Como nos mantos do Bispo, como nos detalhes preciosos do Machado, como na paixão bruta de Guimarães, como nos móveis do quarto do Manuel, (e sem comparar diretamente que não teria essa coragem, vou usando só de propícia metonímia) teu texto fala do pequeno pra dizer do grande, sai da esquina pra dizer dos cantos do meu peito, do peito de todos nós. E tem a tristeza, a tristeza. E traz depois o silêncio que sucede os grandes encontros.

Falei mais de mim do que do livro, que vergonha. Mas mesmo assim, lá vai.

Beijo grande,

Juliana

PS: porque sou apaixonada por ele, lá vai um pós-fácio: “Amigo, para mim, é só isso: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, ou quase; e os todos sacrifícios. Ou – amigo – é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é.” (João Guimarães Rosa, in Grande Sertão: Veredas)

E aí? É ou não é de me deixar bobo?

Até.

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PÉ-SUJO FASHION?

“No tempo que Don Don jogava no Andaraí
Nossa vida era mais simples de viver
Não tinha tanto miserê,
nem tinha tanto tititi
No tempo que Don Don jogava no Andaraí…”
(Nei Lopes)
Depois dizem que eu sou radical quando digo com todas as letras que não piso num lixo como o Belmonte, gerido não por um dono de bar, mas por um investidor que joga contra uma das mais bonitas instituições cariocas, que é o buteco. Assim é o Belmonte, assim é o Informal, assim é o Manoel & Joaquim, dentre outros, e vejam que verdadeiro lixo a nota de hoje n´O Globo.

Até.

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>VATICÍNIO

>

“Confesso, querido diário…
Garanto, querido diário…
Constato, querido diário…”

(João Bosco – Aldir Blanc)

Olha… Não me bastava o pito do papai. Agora foi o Szegeri, justo ele, meu Otto particular, quem me esculhambou ontem através de um email que reli umas cem vezes e do qual não entendi patavinas (ainda estou bêbado de minha bisavó). Tem só um troço que fica claro na truncada mensagem de meu irmão paulista: ele anda odiando o Buteco, e isso me dá, creiam, cólicas que nem Ponstan cura, nem doses cavalares de ácido mefenâmico aliviam.

Falei em cólica e lembrei que ontem meu intestino não funcionou, graças à ausência do cigarro no organismo. Uma amiga, pesquisadora e ampla conhecedora da matéria, me garante que há uma substância no cigarro que vicia, também, o intestino, que passa a precisar da coisa pra funcionar. Mas hoje, mesmo sem cigarro, já deu tudo certo. E gritei “paiê, acabei!!!!!” apenas para me lembrar do som do grito, embora o interfone tenha tocado logo depois. Era o porteiro, preocupado.

De volta ao Szegeri (que deve ter a-d-o-r-a-d-o, assim como o papai, a confissão semi-escatológica de hoje, não bastasse a de ontem).

O Szegeri foi o primeiro a pousar aqueles olhos enormes e saltados, expressivíssimos, no Buteco, quando nem Buteco ainda era. Era “Opinião do Edu”. E o Szegeri é mais antigo, é mais antigo! Vem dos tempos de “Sentando o Cacete”, e isso, ó, faz muito tempo. E sempre foi, o Szegeri, um entusiasta. Emails elogiosos, telefonemas de rompante, comentários seguidos, dia após dia, lá estava ele, o Impronunciável, como o chamava o saudoso Toledo, lendo e lendo e lendo o que eu escrevia.

Hoje ainda lê, por certo.

Mas lê desanimadíssimo. Quando manifesta-se, o faz com um “Olá, Edu”, “Bom dia, Edu”, até que na terça-feira tascou lá, nos comentários, um triste, pesaroso, profundo (não estou a debochar de meu irmão, em absoluto) e definitivo “Tá vendo, Edu…”, assim mesmo, com as reticências e sem a interrogação.

Li e fui, da leitura em diante, um deprimido.

Aumentei para 450mg a dosagem de Zyban pra ver se ajudava. Não resolveu e voltei à dosagem recomendada pela bula. Comprei “Serenus”, um remedinho que faz propaganda na TV e mostra gente calmíssima depois de um comprimido com um copo d´água. Nada. Aquele “Tá vendo, Edu…” me soou como um vaticínio, um aruspício gravíssimo e vencendo a vergonha de parecer ignorante mandei um email para meu irmão, curto como seu comentário, dizendo apenas “Tá vendo o quê, Guru?”, e é preciso dizer que o chamo de Guru desde o dia em que o exemplar funcionário público, diante de um prognóstico nebuloso envolvendo uma pessoa muito querida (não quero falar disso hoje), gargalhou como o Seu Tiriri e disse:

– Edu. Não é nada. Confie em mim.

Assim. Simples. E deu, depois, mais uma meia dúzia de provas de que aqueles olhos escondem algo que ainda não conheço.

Pois bem. Mandei o email. E o que veio de volta foi a tal resposta mais nebulosa que o prognóstico. Não entendi nada, e ainda agora – notem como estou perdido – me dói a verdade contida na mensagem cifrada.

Até.

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>CONTRA O MAU-OLHADO

>

“Eu vou me banhar de manjericão
Vou sacudir a poeira do corpo batendo com a mão
E vou voltar lá pro meu congado
Pra pedir pro santo
Pra rezar quebranto
Cortar mau-olhado

Eu vou bater na madeira três vezes com dedo cruzado
Vou pendurar uma figa de aço no meu cordão
Em casa um galho de arruda é que corta
Um copo d’água no canto da porta
Vela acesa e uma pimenteira no portão

É com vovó Maria que tem simpatia pra corpo fechado
É com pai Benedito que benze os aflitos com um toque de mão
E pai Antônio cura desengano
E tem a reza de São Cipriano
E tem as ervas que abrem os caminhos do cristão”

(João Nogueira – Paulo Cesar Pinheiro)

Fiéis leitores, meus amigos, permitam-me o desabafo. Eis-me aí, na foto, dançando com minha bisavó, a famosíssima Bia (famosa para os que me lêem e para os que me têm por perto), provavelmente em 1980, no apartamento 203 da Rua São Francisco Xavier 90, Tijuca, obviamente. Tinha eu 11 anos de idade, e a pouca nitidez da foto deve-se ao fato de que a mesma foi tirada por minhas mãos trêmulas, com uma câmera digital, diante da imagem do slide projetado na parede da casa de papai e mamãe no domingo, quando fui, súbito, arremessado ao passado durante as mais de quatro horas de sessão de filmes. E por quê lhes conto isso? O que vocês tem a ver com minha vida? Explico.

Ontem papai deu-me sonoro esporro (ouço as palavras que leio) e reproduzo aqui o pito (eu disse “pito” porque estou embriagado de minha bisavó):

“Du, uma vez mais lamento como voce está tomando a sua decisão, que deve ser a 27ª decisão, e sempre com os Zybans da vida, com os maços na cabeceira, com os amigos te alertando, e você jurando que nunca mais. Du, quando se quer realmente tomar uma decisão, ninguém precisa saber, ninguém precisa ser testemunha, não é preciso lamentar o isqueiro novo, nada disso é preciso!!!”

Vejam vocês que eu fiquei assombrado com a mensagem. Parece que depois de 36 anos o papai ainda não me conhece. E assombrou-me, violentamente, a seguinte frase: “(…) quando se quer realmente tomar uma decisão, ninguém precisa saber, ninguém precisa ser testemunha…”. Ora, ora, ora.

Desde que, meninote, fui instruído a gritar “paiê, acabei!!!!!” ou “manhê, acabei!!!!!” depois do cocô que nunca mais perdi esses impulsos de propaganda, de auto-promoção, de súbitos desejos de a tudo anunciar no outdoor. Lembro-me de, meninote, sentado no penico, pensar justamente nisso, no absurdo que era esse alardear do fim do cocô. As visitas na sala da casa de minha avó, e eu lá do banheiro:

– Manhêêêêê?

Ela tentando disfarçar:

– Já vou!

E eu de pé com o penico entre as pernas:

– Acabei!!!!!

Ficava orgulhosíssimo, ainda mais quando percebia os olhares de reprovação das amigas de minha avó, aqueles cabelos azulados reluzentes, todas em choque, velhas que, com raríssimas exceções, eu achava chatíssimas, o que me dava um prazer imenso em chocá-las. E passei a tomar gosto pela autopromoção, pela exposição permanente do que me vai na alma, do meu dia-a-dia, e não posso me arrepender, eis que daí, dessa exposição olímpica, foram aparecendo o Szegeri, a Ju Amaral, a Inês Baptista, o Vicente Melo, a Lu Matos, gente que, pelo jeito, tomou gosto por me ver e me saber. E papai está cansado de saber disso.

Volta e meia bate o telefone pra mim com o mesmo conselho:

– Filhão, diz pro papai, diz… O que interessa às pessoas a feijoada que você fez no domingo? A próxima vai azedar! Olha o olho grande! Olha o olho gordo!

E eu, confiando na tribo da qual sou íntimo, arco e flecha imaginários na mão, sigo assim, ó, escancarando as janelas, sem medo do mau agouro.

Até.

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