O REI E EU

“Eu sou terrível, vou lhe contar
Não vai ser mole me acompanhar”

(Roberto Carlos – Erasmo Carlos)

Vamos hoje, como diria minha sumida comadre Mariana Blanc, fazer a linha confissão.

Eu e Roberto Carlos temos algo em comum. Não é uma cobertura na Urca, não é um iate atracado na Marina da Glória, não é uma mãe de nome Laura, nada disso. Sofremos, ambos, de TOC.

E que beleza isso dito assim! TOC! Chega a soar simpático. Dá pra ouvir o muxoxo de uns, “puxa vida, queria ter TOC também!”.

Mas basta dizer que sofremos de Transtorno Obsessivo Compulsivo e tudo toma ares gravíssimos. Mas nem tanto, nem tanto!, já que o troço chega a ser ligeiramente cômico. Quando deparei-me com o diagnóstico (que eu mesmo fiz, preciso dizer) decidi, a cada encontro, subir no banquinho e dizer a todos os presentes, na direção exatamente oposta a que papai gostaria que eu tomasse:

– Eu tenho TOC! – e danava a discorrer sobre os sintomas e meus comportamentos.

E eis minha surpresa.

Não foi uma, nem foram duas, três, quatro, cinco vezes. Perdi a conta. Ao final de minha pequena palestra sempre vinha alguém me procurar, sempre! E dizia com a mãozinha em concha no meu ouvido:

– Eu também sou assim! – e vinham os relatos, alguns bem piores que o meu. Bem piores!

Vamos a uma ou duas passagens pra manter o humor.

Comecei a achar que eu tinha algo estranho (meu mano Szegeri, tenho mesmo?, não, né?) quando, indo para o trabalho, esperando o mesmíssimo ônibus de todos os dias, o 406A, fiz algo que jamais supus fazer. Notem bem. Todos os dias eu tomo a condução no mesmo horário, quando o lotação (oi, Bia!) vem rigorosamente vazio. Entro, pago a passagem ao motorista e sento-me para ler. Como entro sempre no ônibus ermo, sem viva alma em termos de passageiro, nunca havia notado algo que notei, apenas, numa determinada ocasião que passo a lhes contar.

Fiz o sinal. Parou o ônibus. Paguei a passagem ao motorista. Passei pela roleta. E fui em direção ao meu lugar (jamais havia notado que o lugar era meu). E havia, naquele dia, um passageiro e justamente sentado no meu lugar.

O que faria um cidadão sem TOC?

Sentaria numa das mais de 20 poltronas disponíveis na condução.

Eu, não. Estaquei diante do pobre homem e fiquei, de pé, as mãos agarradas no apoio do teto, olhos cravados no invasor. E suava, suava, suava de um ódio e de um desconforto que não cabiam dentro do pequeno ônibus (o 406A é daqueles microônibus).

“Meu Deus, como eu vou fazer pra ler agora?”, “Vai ser insuportável ir de pé até o Largo do Machado…”, mas esses pensamentos não duraram nem dois minutos. Sentindo-se profundamente incomodado – o homem não tirava os olhos, de soslaio, de cima de mim, que furava sua pele com a ponta afiada de meus dois olhos – o homem levantou-se e sentou-se em outro canto.

Sentei-me, então, no meu lugar, espreguicei-me, disse um “ahhhhhh…” bem lento, abri o livro e comecei a ler. Ainda sorri em direção ao homem que estava com um olhar assustadíssimo e fiz um “obrigado” com a cabeça. O cara saltou no ponto seguinte, não sei se por ser, de fato, seu destino ou por medo (acho que por medo).

E vejam isso!

A mulher de um grande amigo (não digo quem é e pronto) dia desses, após minha confissão pública, chegou-se a mim e disse:

– Eu sou pior! Eu sou pior! – e sorria excitada esfregando as mãos.

– Conta, conta, conta! – devolvi, já de mãos dadas com ela, e dançávamos uma ciranda, rodando sem parar.

Antes de contar-lhes, uma coisa que me intrigou. Por que essa incidência tão grande de manifestações de TOC nos transportes públicos? Ainda vou me aprofundar no palpitante assunto.

Mas disse-me ela que vai para o trabalho, diriamente, de metrô, que toma na estação terminal, na Praça Saens Peña. E que nem precisou passar pelo sufoco que eu passei, vendo seu lugar ocupado por um forasteiro, para perceber que era estranho seu comportamento.

Porque ela não tem um banquinho preferido. Ela tem um vagão preferido e dentro desse vagão preferido, um banco preferido. Notem o requinte e a especialização da coisa!

Um dia, contou-me ela, o metrô chega na estação terminal vindo da zona sul. Todos saltam pelo lado direito do trem, para que só então abra-se a porta do lado esquerdo para o embarque dos passageiros. Ela nota, sôfrega, que um passageiro não se levanta. E justo no seu lugar. E o que fez a moça?

Não enfrentou o forasteiro, como eu fiz. Não.

Teve uma crise de choro incontrolável, voltou pra casa a pé, teve febre (ainda no caminho de casa) e ligou para o trabalho alegando um febrão e dores insuportáveis pelo corpo.

– Não consegui, Edu, simplesmente não consegui superar o trauma! Você está de parabéns, viu? Viu como eu sou bem pior! Bem pior! – e continuamos a ciranda.

Daí em diante percebi que meu TOC é levíssimo, levíssimo. Mas para evitar novas supresas, passei a andar alguns quarteirões para pegar a condução no ponto final.

Até.

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4 Comentários

Arquivado em confissões

4 Respostas para “O REI E EU

  1. >Ah, Edu… outro sonoro tcharan! nos meus ouvidos… sabe que ontem mesmo conversava pelo msn com um grande amigo que é psiquiatra (você não sabe a de-lí-ci-a que é ter um amigo psiquiatra…), e ele me falava dos obsessivos. Tenha certeza que poderia ser muito, mas muito pior: contou-me que uma amiga sua (dele) não pode ir em bares e restaurantes com azulejos, porque ela “precisa” contá-los todos antes de sentar-se e tomar o primeiro gole, e mesmo tendo desenvolvido técnicas matemáticas sofisticadíssimas – uma Malba Tahan dos botiquins – a agonia tornou-se tamanha que a moça resolveu só beber em casa, em que os quadradinhos nas paredes foram devidamente retirados pra trazer algum conforto a essa alma perdida. Ou seja, meu bem, erga o copo, as mãos e as preces todas para o céu e agradeça aos deuses… beijos matinais.

  2. >HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA! Edu muito hilariante sua amiga gritando EU SOU PIOR, EU SOU PIOR! Gostei!

  3. Pingback: COLEGUINHA DE TOC | BUTECO DO EDU

  4. Pingback: A ESPIRAL – PARTE I | BUTECO DO EDU

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