>EU, ESTRANGEIRO NA BARRA

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“E eu, menos estrangeiro no lugar que no momento
Sigo mais sozinho caminhando contra o vento”

(Caetano Veloso)

Passei, no sábado passado, por estranhíssima experiência. Já lhes disse milhares de vezes que só vou à Barra da Tijuca (cada vez menos da Tijuca, diga-se de passagem, e cada vez mais americanizada) para visitar a Magali, a irmã que eu não tive, e cia.. Nada mais me seduz naquele pedaço do Rio de Janeiro. Aliás, justiça seja feita, um pedaço belíssimo e a fotografia não me deixa mentir. Mas nada ali é Rio de Janeiro e eu sou capaz de ser mais amplo e dizer que nada ali é brasileiro. Da patética Estátua da Liberdade em frente ao (vão tomando nota!) New York City Center, passando pelo Barra Garden, Barra Mall, Barra Medical Center e por outras babaquices e você definitivamente sente-se fora da ordem. Pois bem. Fui, no sábado, deixar a Sorriso Maracanã às oito e meia da manhã no (vão tomando nota!) Barra Tower para um compromisso de trabalho que duraria até às cinco da tarde. Como eu iria buscá-la, pensei: vou ficar na praia, lendo, depois vou ver as meninas na Magali, depois venho buscá-la. E assim fiz. E eis que aí deu-se a estranhíssima experiência.

Antes, porém, breve explicação para que tudo “make sense” (isso vai em homenagem ao Szegeri, contaminado pelos arrancos em inglês que escapam da Maracanã, vez por outra, e para que fique ainda mais coerente com o cenário).

Estou com 36 anos. E há 72 anos eu vou à praia em Ipanema. É bem verdade que durante um período da minha adolescência eu ia à praia na Barra, mas isso durou pouco e por isso omito o fato. Voltando. Há 72 anos eu vou à praia em Ipanema. Em frente à Barraca do Mineiro, o bom Miguel, entre a Vinicius de Moraes e a Farme de Amoedo. Obsessivo que sou, fico no mesmo metro quadrado de areia, sei de cor os prédios às minhas costas, as ilhas à minha frente, cumprimento o Dois Irmãos à minha direita, o Arpoador à minha esquerda, e todos os freqüentadores não me são estranhos. Ir à praia na Barra, depois de 72 anos, pareceu-me que seria levemente desconfortável.

E foi.

Sabem o que é ambiente hostil? Pois é. Sei que lhes parecerá pequena doença, e reconheço que pode ser, pode ser! Começando por estacionar o carro. Encontro uma vaga. Embico o carro. E vem um guardador. Não sendo o Paulo, meu guardador de fé em Ipanema, com quem deixo sem medo a chave do carro, já fico puto. Abaixo o vidro e digo:

– Que foi?

– Quer a vaga, meu patrão?

– É tua?

– Ô, patrão… devagar, patrão…

– Não sou teu patrão, malandro. Cadê o tíquete do estacionamento?

– Não tem, chefia…

– Então não tem dinheiro também. Bom dia.

Tomei o rumo da praia. Quase fui atropelado. A largura da Avenida Sernambetiba difere da largura da Vieira Souto, razão pela qual distrai-me e por pouco não fui pra Terra do Pé Junto. Cheguei à areia. E que horror. Que horror!

Toneladas de barracas de ambulantes. Mas tomem nota. Em Ipanema há a Barraca do Mineiro, a Barraca da Dilma, a Barraca do Uruguaio. Naquele breve trecho onde eu estava (em frente ao Barramares, pedaço da praia que é uma espécie de filial desativada da Praça Saens Peña, que aquilo era assim de tijucano!) as barracas que eu avistava eram a Brother´s Dream, Barra´s Point e Unforgetable. De chorar.

Lembrei-me do Dalton, que ficaria “puzzled” junto comigo. Tudo me era estranho. Cheguei a achar que o mar era doce. E tudo culminou quando, interrompendo minha leitura, um camarada a quem nunca havia visto na vida chegou-se e disse:

– Ô, brou… Eu vi que tu tem protetor solar aê… Dá pra emprestar?

Sem tirar os olhos do livro:

– Não.

– What? – disse o cara – O que é que custa, brother?

Daí tirei os olhos do livro:

– Custa R$15,00 em qualquer farmácia.

Ele saiu e senti-me calmíssimo. Vá entender.

Mudando o rumo da prosa, de pato a ganso.

Faz anos hoje, 27 de março, a Inês, a quem já tantas vezes referi-me aqui no Buteco. Eu e Dani a conhecemos no final do ano passado, ela que esteve por uns dias no Brasil, e depois de uma noitada rápida no Trapiche Gamboa, uma clássica passada no Capela (onde cantei com sotaque lusitano, lembram?), uma feijoada deliciosa no Bar do Mineiro em Santa Teresa e uma passadinha a jato no “Nem Muda Nem Sai de Cima” estabeleceu-se um bem querer mútuo que rende frutos.

Já lhes disse, por exemplo, que a Inês, que mora nos EUA, num gesto dulcíssimo, fez a ponte entre nós (eu e Dani) e seus pais (que provam que é mesmo pela árvore que se conhece o fruto) e durante nossa viagem a Portugal, em maio/junho, ficaremos por um ou dois dias em Setúbal, onde moram Próspero e Cidália. Não lhes disse, e digo agora, que mandou-nos carinhosíssima carta, manuscrita (!!!), com um CD com, vejam isso, 46 horas de música, suas preferidas. Um carinho só.

Pois então.

Todo mundo tem suas maluquices e suas obsessões, eu que o diga. A Inês é doida pelo amarelo, e vive a repetir isso.

Então, eu e a Sorriso Maracanã, de pé no balcão imaginário do Buteco, erguemos o copo à sua saúde e embarcamos no delírio da imagem, oferecendo a ela, através do monitor (haverá um dia em que isso será possível?) tulipas amarelas pela data de hoje. Muita saúde, muitas felicidades, Inês, e todo nosso carinho.

Até.

5 Comentários

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5 Respostas para “>EU, ESTRANGEIRO NA BARRA

  1. >Como a emoção que senti (e ainda sinto) ao ler estas linhas é grande demais para ser expressa em palavras, digo apenas (e perceberão tudo o que quero dizer):- ‘A vossa!!! ‘A vossa!!! (como a Dani tanto gostou e fez questão de repetir o brinde no Mineiro, só para escutar de novo).Bem hajam meus queridos!Saudade, assim ó… transatlântica!

  2. >Edu,eu adorei essa história da Barra ser cada vez menos da Tijuca! Eu também detesto aquilo que não é Rio de Janeiro nunca.Abçs.

  3. >É verdade mesmo que a Barra é de tirar a paciência da gente! Não se vê quase nada em português por aquelas bandas. Mas as barracas de praia com esses nomes é demais pra minha paciência :-)Um beijo pra Inês, leio sempre o CasacoAmarelo.

  4. >Não tem boteco, não dá para andar a pé e parece Miami. É motivo mais que suficiente para não ir lá.

  5. >A Barra é muito estranha mesmo!Tô imaginando a cena do protetor solar…Você vai a praia em frente ao Mineiro??Conhece a Dilma e seu chapelão???Já provou os pasteis de forno da Dayse??Eu fico em frente a Denise! Adoro a praia ali.Ando quieta, mas venho sempre aqui.Beijo para Inês.:)

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