O PASQUIM

“O meu pai era paulista
meu avô, pernambucano
o meu bisavô, mineiro
meu tataravô baiano…”

(Chico Buarque)

Na foto vê-se um grande amigo, Luiz Carlos Toledo, abraçado à coleção caprichosamente encardernada, de 12 volumes, mais um sacão desses de lixo industrial de quase um metro de altura contendo jornais ainda a encadernar. Ah, sim… a coleção é do legendário “O Pasquim”, e estão encadernados os anos de 1969 até 1974. Fora, não se esqueçam, todos os exemplares que estão no tal saco.

Ontem estivemos, eu e Dani, a convite do grande Toledo (que vem a ser o “Pai do Ilustrador”), no sítio onde ele e a Luciana se refugiam vez por outra, e ainda na companhia do Pedro (que vem a ser o “Ilustrador”) com a Diana e suas duas filhas, Bia e Nina. Saímos de casa por volta das 10h e chegamos lá pouco antes das 11h. O Toledo me provocando desde a semana anterior, quando fizera o convite:

– Vou te dar o presente do ano! Do ano!

A essa altura vocês já sabem. O malandro, num gesto que me fez ter vontades olímpicas de fumar de tão nervoso (não fumei), que me fez ter vontade de beber em pleno período de abstinência programada (bebi), entregou-me, um a um, os volumes, enormes como se vê, e ainda disse sorrindo:

– Ainda falta aquele saco! Ainda falta aquele saco!

E eu fazendo força pra não desabar diante do cara e da Luciana (Dani, já que moças são menos controladas nessa hora, já chorava), com a cara mais embasbacada do mundo diante daquele presente que nunca (dito com veemência) imaginei ganhar na vida.

Mas eis o momento em que desabei de vez, em que fiquei com as pernas bambas e os olhos que não desgrudavam do tesouro.

Eu, como vou dizer isso?, pra não cair no chão e abraçar aqueles livros, lancei-me nos braços do Toledo, diante dos olhos da Sorriso Maracanã e da Luciana, e só consegui dizer:

– Obrigado! – pra em seguida tascar-lhe um beijo de gratidão, de sei lá mais o quê (estava visivelmente eufórico), no pescoço.

E ele, mal disfarçando a emoção:

– Não sou eu que estou te dando…

E eu ainda abraçado ao cara.

– É meu pai.

Bem, façam uma idéia do que eu fui dali em diante, vocês que me conhecem. Luiz Carlos, arquiteto, filho do Aldary Toledo, um dos mais destacados arquitetos brasileiros, e um senhor artista plástico, estava ali, diante de mim, entregando a mim um tesouro guardado, com esmero, por seu pai, que lhe dera a coleção a certa altura da vida. E eu fiquei sem saber o que dizer, literalmente.

Mas há mais! Há mais! Ainda há mais!

Já semi-refeitos da “cerimônia de entrega”, já sentados e bicando uma cerveja (minha abstinência foi pras cucuias), eu folheava excitadíssimo o volume I, com a coleção do ano de 1969, quando “O Pasquim” foi lançado.

A capa do jornal número 01 é essa aí embaixo.

O dedo no alto é da Dani, felicíssima por mim.

Então. Eu folheava um por um e o Toledo valeu-se de sua autoridade:

– Pára de olhar isso agora, pô! – e riu.

Estava certíssimo. Eu estava tão absorto ali que não aproveitaria o dia.

E disse ele, olhando pra longe:

– Edu… Eu não poderia dar isso a mais ninguém. E você há de me prometer. Quando você fizer 60 anos, saberá a quem passar esse tesouro, como meu pai fez comigo, como faço agora contigo.

– Prometo, prometo… – também olhando pro mesmo longe que ele, dizendo por dentro ao seu Aldary, a quem conheci quando namorava a filha do “Pai do Ilustrador” (a vida e seus meandros…), que não o decepcionaria.

E ficamos ali bebendo, comendo uma lingüicinha mineira, mudamos o assunto, Pepê chegou com a Diana e as duas meninas, eu fiquei apaixonadíssimo pela Nina, e até a hora de irmos embora, todos, eu não estava exatamente ali, se me entendem.

Ah, e Toledo… Eu continuo sem saber o que te dizer.

Beijo (pra ele) e até (pra todos).

PS: hoje, dia 20 de março, é aniversário da Sônia, minha queridíssima Manguassônia, por quem ergo o copo no balcão imaginário do Buteco.

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8 Comentários

Arquivado em confissões, gente

8 Respostas para “O PASQUIM

  1. Edu, eu quero me candidatar desde agora a ser o sucessor desse tesouro! Tenho 26 anos e eu acho que você tem 36 pelo que escreve sempre. Dá pra ser? Estou brincando. Parabéns pela aquisição.

  2. CA#%*HO! Você tem noção de quanto isso pode custar?

  3. Edu, meu mano, o homem mais bem presenteado da história da República, uma espécie de suserano do legado sentimental da nossa geração. Que beleza! Está ficando difícil de fazer o ranking. Os presenteadores têm-se superado… E não há de merecer, o gajo?

  4. ROBERTO ROMUALD0 (e depois você não quer que o Zé Sergio te sacaneie…): eu tenho noção, sim, de quanto o presente que recebi com a incumbência que eu recebi pode custar. Você é que parece não ter entendido o quanto tudo isso vale. Mas nem vou tentar explicar a você. Me perdoe a franqueza.

  5. Caraca, que presente… Saudade de você e da Dani! Beijos.

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