Arquivo do mês: fevereiro 2006

>A FUMAÇA E O TERREMOTO

>

“Vai lá pra ver
a tribo se balançar
e o chão da terra tremer
Mãe Preta de lá mandou chamar…”

(Anderson Cunha)

Vejam que beleza de foto, em 05 de fevereiro de 2005, mostrando, no meio do furdunço do Cordão do Bola Preta, por volta das nove da manhã, Maria Paula, Guerreira, Fumaça e Dani Sorriso Maracanã (o Buteco prossegue festejando a chegada da Fumaça). Falei na Fumaça novamente e vejam o que ela escreveu, comentando o texto de ontem. Vou transcrever:

“Edu, estou fechando a mala. A Globo aqui noticia as chuvas, os Rolling Stones e as vinhetas do carnaval. Estou quicando de ansiedade. Muita saudade. Beijos!”

Vejam que eu não minto! Foi ela escrever, eu ler e deparei-me com a notícia no Globo Online: “Terremoto sem maiores proporções atinge Moçambique”. Eis o que se passou.

A princípio tomei um susto tão intenso quanto o desfile do Bola Preta. Pouco tempo depois deu-se a luz… A Fumaça estava quicando de felicidade… E quando a Fumaça quica, e quica com a mesma tenacidade com que ri, é capaz de fazer mexer os ponteiros da Escala Ritcher. Desfeito o mistério, acalmei-me.

Vamos em frente.

Amanhã, sexta-feira, véspera do primeiro dia do Carnaval, o Buteco entra em recesso momesco e só retorna na quinta-feira (mas sobre o Carnaval falarei amanhã).

Fechando o texto de hoje, um filme de apenas 14 segundos, feito no ano passado, no dia 16 de agosto, no Bar Getúlio, no Catete, durante a primeira etapa da comemoração do aniversário da Fumacinha (vejam que gostei da novidade).

No filme, Aldir Blanc está cantando “O Bêbado e a Equilibrista”, dele e de João Bosco, e no filme vocês poderão ver, além do próprio Aldir, é claro, Paulo César Pinheiro do seu lado à mesa, o imperiano Wilson das Neves no tamborim, eu e Dani bem à frente, Zé Luiz do Império à minha frente e também à mesa marcando nas palmas, Mari Blanc (de vermelho e empolgadíssima!), mais ao fundo o João de Aquino no violão, Mariozinho Lago (de camisa azul, ao lado do João de Aquino), Wanderley Monteiro também à mesa, e, na nossa mesa (foi Fumaça quem fez o filme), Cacau (a mulher-Listerine), Ângela, Incêndio e Bombeiro no desfecho do mais-que-curta.

Divirtam-se.

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Até.

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>ELA VEM CHEGANDO…

>

“Ela vem chegando
e feliz vou esperando…”

(Jorge Benjor)

Chega amanhã, quinta-feira, ao Brasil, esse portento de bom humor que aparece na foto ao lado da Dani Sorriso Maracanã, a Fumaça, egressa de Maputo, na África do Sul, onde está trabalhando já há um bom número de meses, fazendo uma tremenda falta nas mesas, nas festas, nos furdunços, e divido com a Incêndio, com o Bombeiro, com o Brasa, a alegria por sua chegada em busca do Carnaval.

Pausa para dizer que a foto foi tirada no dia 07 de agosto de 2005 durante a festa de aniversário do Augusto, biltre paulista, que anda sumidíssimo, mudo, numa ausência que me angustia.

A Fumaça (peço perdão antecipadamente pelo que pode lhes soar repetitivo) é ao lado da Lelê Peitos uma mulher capaz de fazer gargalhar a viúva diante do caixão do falecido marido para espanto da assistência (a princípio, eis que em questão de minutos a assistência fará o esquife tremer diante da gargalhada coletiva). Ri, e ri não só pelos cotovelos, mas por todas as juntas. E o tempo inteiro (penso que nisso puxou à mãe, a doce Incêndio).

Quando de sua última estada no Brasil, a Fumaça contou, a mim e à Dani, que oferecemos a ela um lauto jantar em nossa casa, algo que a fizera rir ainda mais (como se isso fosse possível) nas primeiras semanas em Maputo. Cidade paupérrima, Maputo oferecia algumas promessas (eu disse promessas) de, por exemplo, poucos mas bons restaurantes. E lá foi a Fumaça a um deles.

Deslumbra-se com o cardápio. Daí chama o garçom:

– Boa noite. Eu gostaria de uma entrada… hum… (aponta o cardápio)… essa aqui!

– Senhora, tem mas não há.

Fumacinha leva um tempo até processar a informação.

E passa a noite ouvindo “tem, senhora, mas não há”, e enquanto nos contava isso rolava pelo chão da sala, rindo, rindo, rindo, rilhando os próprios dentes na tábua corrida (não é tábua corrida, mas parece).

A Fumaça fez olímpica falta no furdunço dos Rolling Stones, no sábado passado. Fez agudíssima falta na rabada que ofereci na casa de Isaac e Mariazinha há poucas semanas e graças a esse triste festival de ausências é que é sempre lembrada, o que a glorifica como personagem que é.

Chega amanhã, como eu disse.

E amanhã, para saudar sua chegada, sendo tecnologicamente possível (hoje não foi…), disponibilizo video de 14 segundos, curtíssimo, mas bem capaz de dar a dimensão da festa que acontece quando a Fumaça está presente.

Até.

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VENTOS EM MEU CORAÇÃO

“Santa Bárbara, dos tempos violentos,
Vosso rosto me aparece num clarão
quando um raio rasga a imensa escuridão.
Muitos ventos, muitos ventos
passam por meu coração…”

(Fátima Guedes)

Esta foto, provavelmente da década de 20, traz, à esquerda, Ficheli Goldenberg, meu tio a quem não conheci, e à direita, cigarro pendendo da boca (ah, a genética…), velho Oizer, Oizer Goldenberg, meu avô, pai de meu pai, passeando na Avenida Rio Branco em frente ao Museu Nacional de Belas Artes. Papai, num orgulho tão raro quanto olímpico, na matéria, mostrou-me tal tesouro no domingo em sua casa. E lhe pedi a foto, no que fui prontamente atendido. É que eu já tinha, desde domingo, o texto pronto para o dia de hoje, 21 de fevereiro, e vou explicar o por quê da importância (escapa-me palavra mais adequada) da data.

Em 21 de fevereiro de 1967, há pouco mais de dois anos de meu nascimento, um temporal devastador assolou a cidade do Rio de Janeiro. Fazia “um mau tempo de quinto ato do Rigoletto”, como dizia Nelson Rodrigues. E foi nesse mesmo 21 de fevereiro de 1967 que o prédio onde morava Paulinho Rodrigues, irmão de Nelson, em Laranjeiras, desabou devido à fúria das chuvas. E morreram Paulinho, sua esposa, seus filhos e mais alguns parentes que lá se encontravam para festejar o aniversário da cunhada do escritor. Tragédia.

E o que você tem a ver com isso?, ouço daqui as perguntas. Rigorosamente tudo. Desde que, sabe-se lá há quanto tempo (sempre fui um obsessivo nas leituras dos textos rodrigueanos), tomei conhecimento de tal fato, jamais fui o mesmo (e isso para não falar sobre o assassinato de Roberto Rodrigues, outro de seus irmãos).

Tenho um amor quase-egoísta pelos meus e, semi-descrente que sou (um dia debruço-me sobre o assunto), rezo, diariamente, para que nenhum deles me falte, mesmo sabendo o quão difícil é eu ser atendido.

Meu avô, por exemplo. Somente agora, aos 36 anos, me deparo com essa sua imagem e dela tenha agudíssima saudade (no singular, Szegeri, como nos apraz). Meu avô era, até então, um senhor de cabelos brancos esvoaçantes, uns olhos de azuis impressionantes, e vê-lo flanando pelas ruas do centro do Rio com esse sorriso sacana e com o cigarro no canto da boca me é, eu diria, imprescindível para que tudo sobreviva da melhor maneira possível.

Voltando à tragédia vivida pelo Nelson.

Tenho dois irmãos de sangue (digo de sangue porque posso dizer que o Szegeri e o Vidal, enumerados em ordem alfabética para que não haja ciúme, são meu irmãos) e sofro de pânicos aparentemente inexplicáveis quando, por exemplo, eles vão viajar.

O Cristiano, o mais novo, morando atualmente na França, foi ontem à Bahia para passar o Carnaval. E tenho medos olímpicos de tudo. Do vôo até Salvador. Do tumulto das ruas. De tudo. O Fefê, o siamês, que viaja demais, e sempre dirigindo, me tira até o sono. Pra piorar, Fefê viaja freqüentemente para lugares estranhíssimos, onde não há, nunca, sinal de celular, e sou, durante suas viagens, um fóbico as 24h do dia.

(acabei de parar de escrever, eis que escrevo mecanicamente, rolei a tela para reler o que já escrevi até o momento e não percebi, preciso ser franco, qualquer sentido no que disse, eis que a dor é minha, os medos são meus, e tudo me entristece nesse momento)

Acho que queria, mesmo, apenas, mostrar meu avô para vocês.

Deve ter sido um grande sujeito.

E lamentei, por alguns instantes, não estar ali, ao lado dele, caminhando pela Rio Branco, em direção à Cinelândia.

Boa coisa ele não ia fazer, se me entendem.

O que só aumenta minha saudade atemporal.

Até.

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SUPERBACANA

“… estilhaços sobre Copacabana
o mundo em Copacabana
tudo em Copacabana, Copacabana…
O mundo explode

longe muito longe
o sol responde
o tempo esconde
o vento espalha
e as migalhas caem todas sobre
Copacabana…”

(Caetano Veloso)

Alguém há de me perguntar:

– E aí? Foi bom o show dos Rolling Stones?

E eu responderei orgulhosíssimo:

– Não tenho a menor idéia.

Eis aí a verdade um tanto quanto frustrante para o meu interlocutor imaginário. Não saberia dizer nada, rigorosamente nada, sobre o que se passou durante o show que os jornais do mundo inteiro anunciaram como o maior show de rock de todos os tempos. Tudo o que posso fazer, então, já que o assunto é praticamente inevitável, é dar meu testemunho preciso, como sempre faço.

Chegamos, como dois bons tijucanos, eu e Dani, às onze da manhã no apartamento do Dr. Bulhões, pai da Maria Paula que, como de costume também (foi assim no reveillon), ainda não havia chegado. Ficamos, então, de papo com a Santa na cozinha. Mentira. Fiquei pouco tempo na cozinha. Dediquei-me mais a babar, literalmente (pendiam babas olímpicas de minha boca), diante da impressionante, portentosa, gigantesca e preciosa biblioteca do Dr. Bulhões. Tomei coragem para folhear algumas páginas do livro “Notas Sobre o Rio de Janeiro (e partes meridionais do Brasil)” – para me humilhar, havia dois exemplares… – de John Luccock, edição antiqüíssima, e não saberia lhes contar da emoção que vivi naqueles momentos. Um dia desses debruço-me sobre o tema.

Como um bom tijucano, ainda (fui, durante todo o sábado, um tijucano fanático, nos gestos, nas falas e no comportamento), fotografei parte das 50 pulseiras que dariam livre acesso ao edifício, bem diante do palco, para 50 afortunados amigos da Maria Paula (eu fui o mais afortunado, eis que pude estacionar meu Brizolamóvel na garagem do Chopin).

Fomos à praia assim que a Maria Paula chegou. Isso por volta do meio-dia. Lá encontramos o Mauro (que assistiria ao show noutro lugar) e preciso lhes dizer que a Sorriso Maracanã estava emocionada de forma aguda. Fica sempre assim, já lhes contei, quando há grandes eventos, grande concentração de pessoas, e isso assume proporções gigantescas quando o furdunço é no Rio de Janeiro. Bebemos uma boa dúzia de latinhas de cerveja a R$2,00 cada. Hilária era a abordagem dos vendedores:

– Vocês são do Rio?

– Somos.

– Ah, tá. Então é dois real. Pros gringo é quatro real!

Despedimo-nos do Mauro por volta das três horas e tomamos o rumo do apartamento, eis que a festa estava marcada para começar às quatro da tarde. Banhinho, almoço caprichado feito pelas mãos santas da Santa, e foram chegando os convidados, sendo desnecessário dizer que os tijucanos, é claro, foram os primeiros: Manguaça, Fernanda, Lelê Peitos, Vidal, Gláucia, Fefê, Brinco, Zé Colméia, Vinagre, Guerreira, Zé, e mais Miguel, Juliana, Denise com o marido (esqueci o nome, e minha precisão não me permite correr atrás da informação, eis que até os lapsos eu mantenho intactos), Magali, Ricardo, Ju, Dan, e quero lhes contar algo comovente.

Para comer, a Maria Paula encomendou toneladas de salgados árabes. E para beber, apenas cerveja. Mas a Denise e o Vidalzinho chegaram com garrafas de uísque e disseram, ambos, o seguinte:

– Edu… trouxe um uísque para nós!

Daí fui tijucano de novo. Levei-os à cozinha e escondi as garrafas. Apenas nós sabíamos a localização dos tesouros e bebemos demais. As pedras de gelo rolaram a noite inteira em meu copo, onde eu servia doses VM, à Vinicius de Moraes, até o topo, para desespero da Dani…

Essa foto aí foi tirada às 16h50min e dá bem a dimensão da beleza que foi a multidão de gente nas areias e nas ruas e de barcos no mar. O espaço vazio diante do palco foi ocupado pelos chamados VIP´s, uns escrotos em sua maioria. Mas vamos em frente.

O show começou por volta das sete, com a apresentação do AfroReggae e depois dos Titãs, e no instante em que os Titãs pisaram o palco a sala do apartamento transformou-se numa pândega absoluta. As pessoas quicavam, disputavam espaço na janela e dois aparelhos de som, no máximo volume, transmitiam ao vivo o show, o que transformou aquele apartamento num troço perfeito. Longe da muvuca da rua (não se via um mínimo pedaço de chão, de areia, nada), estávamos confortavelmente instalados e com uma visão mais que privilegiada.

Às oito e quinze a multidão era ainda mais impressionante (e lamentavelmente a bateria de minha câmera acabou, o que impossibilitou que eu fizesse mais fotos durante o show dos Stones).

Começou o show dos Rolling Stones e de nada me lembro.

Em primeiro lugar porque as duas garrafas de uísque (e mais uma terceira gentilmente cedida pela Maria Paula) estavam devidamente mortas.

Em segundo lugar porque foi emocionante demais ver a Praia de Copacabana, maiúscula, literalmente tomada de gente que, pisoteando Rosinha e César Maia, dois que lutam, diuturnamente, para achatar o astral dos cariocas, deu uma aula de civilidade, de alto astral e de bom humor.

Acordei às oito da manhã de domingo sem a mínima noção do que se passou no fim da noite.

Mas com a mesma sede dos domingos. Às dez já estávamos na casa de Isaac e Mariazinha para um café da manhã com o Cris, meu irmão que mora na França, e que veio ao Brasil para passar o Carnaval.

Resultado de tudo isso: eu e Dani vamos, muito provavelmente, em junho, para o Rock in Rio em Lisboa. Mais detalhes depois.

Até.

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>PAJELANÇA

>

“Coração independente,
coração que eu não comando…
Vives perdido entre a gente
teimosamente sangrando,
coração independente…”

(Amália Rodrigues – Alfredo Duarte)

Na foto, tirada por mim, Mauro, Inês e Dani, minha Sorriso Maracanã, no Bar do Mineiro, em Santa Teresa, 03 de dezembro de 2005. Eu disse 03 de dezembro e preciso lhes contar que no dia 02 de dezembro estivemos os quatro no Trapiche Gamboa até bem depois da meia-noite, quando aportamos no Capela, na Mem de Sá, na Lapa. Estávamos, Mauro, eu e Dani, empenhados em mostrar à Inês, portuguesa de quatro costados morando atualmente em Boston, o Rio de Janeiro e seus encantos (mesmo quando chove).

E por que Pajelança como título?, sou capaz de ouvir daqui as perguntas. E vou explicar.

Há semanas que o Buteco anda carregadíssimo. Emoções em demasia, à flor da pele, um tanto de tristeza que vem dessa beleza das descobertas que os encontros e os desencontros proporcionam, e eu achei que seria bom fechar a semana com uma certa dose de humor. Assim o farei, portanto (vocês não perdem por esperar…).

Vamos à pajelança, eis que tenho uma certa intimidade com os índios. Vamos evocar coisas boas, pôr a maré pra cima, varrer a angústia que me assolava (ainda assola, penso, mas hoje quero espantá-la) e rir. Porque vocês hão de rir com o que virá (vocês não perdem por esperar, quero repetir).

Como eu disse fomos ao Trapiche Gamboa na noite de sexta-feira. E Mauro apresentou Inês a mim e a Dani. E a Inês foi de uma doçura imensa, tremenda, e nunca é demais repetir que, como eu tenho feito, fez questão de expor a todos seu bem-querer, vejam aqui (cliquem sem medo no link, abrirá noutra janela, tenho aprendido truques para lidar com blogs). Vai daí que ficamos no Trapiche até bem tarde. E bebemos consideravelmente. E a fome nos disse “olá!” a certa altura. Eu e Mauro, com sede de mostrar o Rio à moça dissemos em côro:

– Cabrito no Capela!

E lá fomos nós.

Daí vejam vocês do que é (e do que foi) capaz um tijucano olímpico como eu.

Constrangendo nitidamente a pobrezinha da Inês, exigi que ela fizesse um filminho:

– Quero cantar para homenageá-la! – disse com um copo de chope na pressão na mão.

Notei, segundos após o meu pedido, um olhar da Inês em direção ao Mauro e à Dani pedindo aprovação. Ambos, amplos conhecedores de meus hábitos, disseram que sim com a cabeça como quem diz “não o contrarie, faça o filme”. E Inês fez.

E vejam, meus amigos, o que se deu.

Notem bem, ao ver o vídeo, eis a surpresa (como anda muderno o Buteco!), algumas coisas bastante patéticas.

Para homenagear a Inês não escolhi um samba, o que seria óbvio já que estávamos na Lapa, no coração do Rio de Janeiro. Escolhi um fado tristíssimo, e que diz muito do que me vai na alma nesses tempos superlativos.

Notem como soa ridículo o sotaque que imito! E minha grossura olímpica, lá pela altura dos 25 segundos de filme, quando a Inês apenas solfeja me acompanhando e eu, mão à frente, digo “Vira a câmera! Você tá cantando!” (mamãe não perdoará essa escassez de educação…).

Notem o talento (pigarros) do Mauro batucando (eu disse b-a-t-u-c-a-n-d-o) sem nenhum ritmo no acompanhamento mais bisonho para um fado.

E notem, mais, o diálogo patético no finalzinho…

Digo eu, orgulhoso (de quê?):

– É isso?

E ela:

– É! Lindo! Super aprovado! – num carregado sotaque lusitaníssimo.

E eu, bem cavalo, sem nenhuma classe, devolvo:

– Super o quê?!

Notem que o filme acaba ali, num corte feito pelo susto com a minha, digamos, tijucanice.

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Até.

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>GASTRONOMIA

>

(ou “as impressões de dois tijucanos diante da ´alta gastronomia´”)

“Caviar é comida de rico,
curioso fico, só sei que se come.
Na mesa de pouco fartura adoidado
mas se olhar pro lado depara com a fome!
Sou mais ovo frito, farofa e torresmo
pois na minha casa é o que se mais se consome…
Por isso se alguém vier me perguntar:
O que é caviar?
Só conheço de nome!”

(Luiz Grande – Barbeirinho do Jacarezinho – Marcos Diniz)

Vou dar uma breve espanada na espiral emocional que andava rondando o balcão do Buteco, até mesmo porque, ontem, eu, Szegeri e Isaac, nosso pai (!), estivemos a um passo do cambaleio. Razão pela qual – meu cotidiano costuma sempre oferecer essas alternativas – passo a lhes contar sobre meu almoço, corrido, é verdade, em razão de muito trabalho, ontem à tarde com o Dalton, meu irmão, e cada vez mais meu irmão, num restaurante no centro da cidade cujo nome não me lembro.

Sentamos e fomos logo atendidos por uma japonesa gorda. Pausa. Pensei que não existissem japonesas gordas. E ficamos os dois, aparvalhados, diante daquela imagem surreal que nos estendia os cardápios e as toalhinhas quentes. O Dalton, que dá um banho no Nei Lopes quando o assunto é africanismo (com sua licença, Mestre, para o deboche inevitável), o Dalton que faz o Montenegro, do IBOPE, parecer um iniciante nos meandros das estatíticas, o Dalton que sabe mais sobre o Candomblé do que a Mãe Menininha do Gantois, o Dalton também entende mais de comida japonesa do que toda a população nipônica incluindo as baixas de Hiroshima e Nagasaki.

Foi por isso que dispensei o meu cardápio e fiquei aguardando a escolha do sabe-tudo. Ele, gentil, perguntou-me:

– Você tem alguma preferência?

E a japonesa balofa estacada ao lado da mesa.

E eu:

– Se tiver guiozá, para a entrada, eu gostaria.

E ele, naquele tom professoral que é uma de suas marcas (além das de acne, na pele):

GUIÔZA, Eduardo… sem esse acento inexistente…

A japonesa muda.

Dalton coçou o queixo, cheirou o cardápio (não me perguntem o por quê), e fez a pergunta que me pareceu definitiva à baleia de olhos rasgados:

– Aqui os senhores usam Gohan?

Ela apenas fez que sim com a cabeça.

Ele então fez o pedido e não saberia lhes repetir o nome do prato, dificílimo. Mas explicou-me ele que, após a entrada (guioza), comeríamos sushis e sashimis sobre um mar de arroz tipo Gohan. E de fato veio tudo à mesa e comemos bem. Muito bem. Mas o que nos perturbou ao longo do almoço foi o almoço dos três rapazes (três moças, se me entendem) na mesa ao lado. O cardápio oferecia um troço chamado “menu degustação”, algo perto dos R$100,00 per capita, composto por seis pratos preparados pelo chef. E foi a escolha dos rapazes.

E, meus fiéis leitores… O que era aquilo?

Aproxima-se o garçom. Serve os primeiros três pratos aos três. O Dalton riu tanto que manchou meu terno de molho shoyo. Unam, nesse momento, o polegar direito ao indicador direito. Uniram? Eis o tamanho do primeiro prato. E disse o garçom:

– Eis a primeira obra-prima do chef. Pequena lasca de atum crocante com gergelim tostado sobre um futon de foies-gras.

Os três pratos foram devastados em aproximadamente cinco segundos. E vem o segundo:

– Senhores, eis a segunda criação de nosso chef. Uma pérola de salmão escorada numa espécie de emulsão vitrificada de algas marinadas…

E assim foi até o sexto prato. Um menor que o outro, sendo que o último era composto por uma pequena colher de louça sobre a qual vinha um mínimo de comida (não reconhecemos o que era) e mais nada. E os três gemendo, fazendo “uis” e “ais”. É preciso dizer que comemos, pagamos a conta, mas ficamos ali, acompanhando aquele espetáculo patético.

Levantamos para não vomitar quando um dos rapazes disse, após pedir a sobremesa:

– Ai… Meu sorvete preferido é o de manjericão fresco com aceto balsamico

Francamente. Essa é a dita “alta gastronomia”. Os babacas de plantão que gostam disso chamam de “baixa gastronomia” (ó o preconceito na área!) o que nós, eu e Dalton, nós tijucanos, Szegeri, Marcão, Augusto (cadê você, homem?), gostamos: rabada, feijoada, dobradinha, galinhada, e por aí vai. Não dá nem pra saída.

Eis, então, uma verdade incontestável.

À mesa, também, pelo que se come, se conhece um homem. E tenho dito.

Até.

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O PAI ME DISSE

“O pai me disse que a tradição é lanterna,
vem do ancestral, é moderna,
bem mais que o modernoso…”

(Moacyr Luz – Aldir Blanc – Luiz Carlos da Vila)

Vejam vocês que ter um pai bobo, na mais bonita acepção que possa ter a palavra, é um troço delicioso. Isaac, meu pai, na foto, é ciumentíssimo. Não o fosse e não teria feito o comentário que fez ontem, aqui no Buteco. Foi o seguinte o comentário de meu velho: “Du, faltou dizer que a Panificação Estudantil, a FENÔMENO, quem te ensinou a ´fazer uso dela´ fui eu!!!!!”. E como eu sou preciso do início ao fim, e talvez também por vício de profissão, sempre carreando robustas provas para dar solidez ao que eu digo, grito de pé: “Foi, pai!”.

Notem que meu pai está, suponho, com agudos ciúmes do Szegeri, que ocupa o balcão do Buteco há dias. E pretendeu, disso não tenho dúvidas, dizer que muito do que me vai por dentro foi e é obra dele. Verdade. Razão pela qual dedico o texto de hoje a ele. Não. Vou tentar ser ainda mais preciso. Dedico o texto de hoje ao exercício, dificílimo (tenho de lhes dizer), de tentar enumerar as tradições que me foram passadas por meu velho. Bastou dizer “dificílimo” e estou, por isso, graças à dificuldade que se anuncia, diante de uma xícara enorme de café e um Carlton já aceso crepitando do meu lado direito.

Vamos partir da padaria, a Fenômeno. Se foi, de fato, meu pai quem me fez fazer “uso dela”, pra usar a expressão que ele usou (sei da repetição do verbo usar, e é de propósito), foi meu avô Oizer, pai de meu pai, quem fez papai abrir os olhos pra Panificação Estudantil. Notem a beleza da espiral. Eu moro hoje, com Dani, no apartamento onde moravam meus avós paternos, Oizer e Elisa, a poucos metros da tal padaria (façam uma idéia da idade do estabelecimento). E o velho Oizer, um homem de olhos azuis e cabelos brancos esvoaçantes, não dispensava, jamais, os produtos comprados na “melhor padaria do mundo” (meu avô Oizer sempre se valia dessa expressão), e virá daí, desse hiperbolismo ancestral, o meu próprio hiperbolismo do qual não abro mão? Diga, Szegeri. Penso que sim.

Mas é óbvio que não a isso se resume a influência de meu pai. Comecei a fumar, não tenho dúvidas, por causa dele. Aquele troço de filho idolatrar o pai e buscar a semelhança até nos piores gestos.

Já disse isso mas é preciso repetir. Papai, carnaval atrás de carnaval, me tomava pelas mãos e íamos à Avenida Presidente Vargas só pra ver os carros alegóricos do Cacique de Ramos e do Bafo da Onça. Papai me punha no alto dos carros e eu posava para as fotografias quase sempre ao lado de mulatas estonteantes que fixaram, em mim, uma paixão avassaladora por aquelas cores e aquelas curvas (delas, mulatas). Papai me levava ao Maracanã, cravando em mim outro sacerdócio, tendo havido, aí, nesse quesito, pequeno desvio de conduta (na visão dele!), eis que deixei pelo caminho a Cruz de Malta e virei Flamengo até morrer. Papai me levava à praia, me apresentou ao mar, com quem eu já tinha uma intimidade de quatrocentas encarnações, e sempre foi o chefe da tribo dos Tupinambás, desde o tempo em que eu era um curumim distraído no quarto com amigos invisíveis.

Em casa, ainda hoje, ouço Dani dizer a todo o tempo, “Igualzinho a seu pai…”, e eu sorrio, apenas. Ainda que eu queira, e quero às vezes, é verdade, me é quase-impossível sair de dentro do molde que não se vê mas que está permanentemente aqui.

Daí me deu vontade de lhes contar sobre a frase que talvez eu mais tenha ouvido de sua boca desde que eu entendo a voz do homem, sempre com aquele jeito orgulhoso.

“Meu filho, pouco importa o caminho que escolheres… (detalhe, detalhe!… Papai, quando está falando sério, fala na segunda pessoa, sempre!) … Sejas sempre o melhor. O melhor gari. O melhor empregado. O melhor aluno. O melhor amigo. O melhor. O melhor. Sempre o melhor.”

E daí me bate, agora (fumo olimpicamente nessa manhã), aquela sensação de na verdade não ter sido nem metade daquilo que ele sonhou. Mas fiz, meu pai, o que pude. O melhor que pude.

Até (antes que eu enfarte).

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