BAITA AULA DE CARIOQUICE

(publicado no Jornal do Brasil em 25 de fevereiro de 2006)

As crônicas de ‘Meu lar é o botequim’, de Eduardo Goldenberg, ao tratar dos botecos e seus personagens, falam na verdade do bairro e da cidade do autor

Rodrigo Ferrari

Editor e livreiro da Folha Seca

“De uns tempos para cá falar em botequim ficou complicado. É só o assunto aparecer na mesa que todo mundo puxa logo seu manual e destila conhecimento. O papo já tem até bibliografia! No meio dessa profusão de lançamentos surgiu Meu lar é o botequim, de Eduardo Goldenberg, e seu aparecimento causou-me certo desconforto: afinal já estava meio de ressaca de tanta literatura sobre o assunto. Mas crônicas são crônicas, e não resisti. E acabei colocando-o em minha biblioteca afetiva junto aos do Aldir, do Jaguar e do Moacyr Luz.

O livro, ao falar do botequim e seus personagens, fala verdadeiramente de seu bairro e sua cidade, a nossa cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, e um bairro que junta Tijuca e Vila Isabel, uma região mítica como a Aldeia Campista dos livros do Nelson Rodrigues. Nas palavras do autor: ”(…) em mim, ainda que num delírio, esses dois bairros se fundem num só, nas águas do rio Joana, que nasce no Grajaú, e que vai desaguar no rio Maracanã, na Tijuca, depois de atravessar o bairro de Vila Isabel”.

Antes que os mais apressados acusem o autor do livro de bairrista – e conseqüentemente a mim também, que sou de lá -, devo dizer que o Eduardo entende do assunto e não bebe só em casa. Conhece, portanto, os botecos de toda a cidade. Mas é forçoso dizer que, embora determinados personagens sejam universais, têm mais facilidade de se criar nesse ambiente. Por exemplo: vai procurar o ”seu” Osório no Belmonte. Não vai achar… ”Seu” Osório é da região, torcedor do América, não vai ao botequim apenas para encher a cara, é lá que ele se serve toda manhã de um pingado com pão e manteiga, e é lá também que acumula as histórias do dia-a-dia que acabam fazendo do livro uma baita aula de carioquice.

Porque esse botequim não é aquele em que você vai para ser bem-atendido, ou para experimentar determinado acepipe inventado por um mestre-cuca premiado em Paris. Esse é daqueles onde o grande atrativo são as pessoas, onde todo mundo fala e sabe da vida de todo mundo, o cenário dos bons e maus momentos de cada um. Onde todos são personagens de um Rio que aparentemente não existe mais, um Rio meio romântico, onde ainda há espaço para a camaradagem e o bom humor, com umas pancadarias no meio que ninguém é de ferro. Talvez um Rio que seja mais facilmente encontrado na Zona Norte, que mescla o cosmopolitismo da cidade com um provincianismo característico desses bairros.

O Edu se acha um antigo. Tem vezes que pede até desculpas por determinadas expressões, digamos, do tempo do Onça. Mas quem desvenda o mistério é Fausto Wolff no texto da contracapa do livro: ”Edu e seus belos paus d’água vivem num mundo paralelo absolutamente carioca, um mundo culto e sofisticado em sua nobreza popular”. Vale lembrar o desenho da capa feito pelo Lan e também os que ilustram a saideira do livro, feitos por Pedro Toledo.

O boteco em questão fica na rua dos Artistas, o que por si só parece invenção de romancista. Parece também citação das coisas do Aldir Blanc, e a parecença não é ocasional. Os personagens daquelas crônicas do Aldir no Pasquim também passeiam por aqui, a toda hora aparece um Penteado e um Waldir Iapetec para um aperitivo. E também passam por aqui o marido traído, a santinha que no calar da noite revela-se a mais insaciável das amantes, o fanático torcedor de futebol… Gente que o Edu conheceu num botequim. Gente do povo da cidade do Rio de Janeiro.”

1 comentário

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Uma resposta para “BAITA AULA DE CARIOQUICE

  1. >Rodrigo, depois de tanto tempo – eu conheci o Buteco porque comprei o livro lá na tua livraria – é que eu fui ler o comentário. E você está "prenhe de razão". Salve o Rio de Janeiro! Um abração prá você e pro Edu, daqui da República dos Estados Unidos de Niterói.Caíque.

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