QUEM NÃO CHORA NÃO MAMA

“Quem não chora não mama,
segura, meu bem, a chupeta!
Lugar quente é na cama
ou então no Bola Preta!
Vem pro Bola meu bem,
com alegria infernal!
Todos são de coração
foliões do Carnaval…
Sensacional!”

(Vicente Paiva – Nelson Barbosa)

Eis que estamos às vésperas do carnaval. E eu, que venho há semanas chocando os mais próximos com frases como “não sei o que está acontecendo, acho que estou ficando velho, não tenho nenhum ânimo para pular este ano”, vejo-me aqui, neste começo de manhã, ainda com um copinho de Dimple na mão (perdão se continuo a chocá-los) contando as horas para o início do desfile do Bola Preta, o tradicionalíssimo Cordão da Bola Preta, que desde 1918 abre o carnaval carioca (quando eu digo 1918 tenho uma piedade olímpica de Ivete Sangalo e cia.) aos sábados.

Um detalhe: minha ansiedade se explica, também, porque estão para chegar ao Rio o Szegeri com a doce Stê, e o Augusto com a Ju, uma querida com quem venho costurando um bonito enredo via email. Szegeri e Stê, inclusive, ficarão aqui em casa e apenas por 24h, e explico. O Szegeri vem apenas para sair no Bola Preta.

Tem uma coisa que preciso lhes contar. Eu tenho apenas 36 anos, é verdade (esse “apenas” soou falso como uma fantasia mal ajambrada), mas “no Bola Preta eu vou de muleta e sinto a caceta rejuvenescer”, como disse meu mestre Aldir Blanc na letra magistral (mais uma) para choro do Jacob do Bandolim. Digo isso porque andei macambúzio. Triste. Angustiado. Tudo por excesso de beleza, é verdade, e talvez eu atribua a isso, a essa torrente, a falta de ânimo que me assolou até ainda há pouco.

E o Bola, amanhã, bem cedo, há de fazer com que seja pisoteada pela multidão de mais de 50 mil pessoas essa tristeza e essa angústia que não terão vez, pelo menos, até a Quarta-Feira de Cinzas, dentro do meu coração combalidíssimo pelo malte, pela nicotina, pelo alcatrão e pelas mais de 4.700 substâncias tóxicas que um cigarro, como esse que me pende da boca, tem.

Amanhã – podem escrever – estarei antes das oito da matina diante da Igreja Universal do Reino de Deus (apenas uma referência geográfica, eis que não suporto esse conglomerado econômico comandado pelo B. (“B” de bandido, não de bispo) Edir Macedo), na Cinelândia, concentrado com os amigos egressos de Marechal Hermes, comandados pelo Celsinho, amigo querido, bebendo cerveja gelada e esperando, ansiosíssimo, pelo toque dos primeiros clarins.

Mil vezes direi e mil vezes não serão suficientes para descrever o que sente esse combalido coração quando sai o Bola. São quase 90 anos ali, naquele mesmo centro daquela mesma cidade (dessa mesma cidade soaria melhor), e o que se vê ali são famílias inteiras, sem a babaquice baiana do abadá, disputando cada palmo de asfalto, de pedra portuguesa (falei portuguesa e lembrei-me da Inês), costurando as ruas que “são pontes de safena pra tamanho amor”, e eu tinha que citar o Aldir de novo. Pausa de novo. Falei em pedras portuguesas, lembrei-me da Inês, e preciso lhes contar o que ela me disse ontem à noite, conversando pelo Messenger.

O que ela disse? Eu lhe contei, instando a dizer o que faríamos no carnaval, que iríamos, eu e Dani, desfilar nos blocos. E ela disse, “Ah, blocos, sei… Agrupamentos de pessoas, com muita bebida e comida, saltando de uma rua para outra…”. Quase isso, querida, quase isso.

Tão mais que isso é o Bola Preta…

Reparem que o carnaval vai até a quarta-feira, mas é ali, no sábado, que eu me redimo e me satisfaço. Não fosse assim, tão sagrado o Bola Preta, e meu irmão Szegeri não atravessaria a Via Dutra, mais de 400km dirigindo apenas para isso.

Eu tenho, tenho de confessar (carnaval é também tempo de penitência), uma certa inveja desse sacrifício, desse sacerdócio, dessa demontração inequívoca de amor.

Não que eu não me sacrifique, ainda mais nesse 2006 que me derrubou de forma torpe. Vou ao Bola, disse isso ontem à noite mesmo, como um paraense que se despenca de muito longe em direção a Belém para saudar Nossa Senhora de Nazaré. Como um fiel que sai a pé, do Rio, em direção à Aparecida do Norte.

Guardo, nesse mesmo peito combalidíssimo, recordações emocionantes do Bola Preta. O Tio Osias, por exemplo, depois de mais de 60 anos desfilando no Cordão (ano passado, pela primeira vez, deixou de ir, preferindo o sossego de casa), vai amanhã comigo, dentro de mim (com sua licença, Szegeri), desfilar animadíssimo. Quando eu bater o olho na esquina vou dar de cara com quem? Com a Elizeth. Quem vai estar tocando? A Banda do Sodré. E vamos que vamos. Agüenta quem pode.

Uma promessa de quatro dias fora de órbita, é o que anuncia o Bola Preta.

Impressionante é que ainda teremos pela frente, depois do Bola, o Bloco do Barbas, o Boitatá, o baile à fantasia que o Mello Menezes está organizando, o Bloco de Segunda com a concentração na casa da Guerreira, e tantas coisas, tanta surpresa, tanto furdunço ainda por vir, tudo culminando com a Feijoada das Cinzas, que eu farei, na casa da Sônia, a Manguassônia, mãe da Manguaça, durante a apuração do Desfile das Escolas de Samba do Grupo Especial, eu torcendo, como um bobo, pelo Salgueiro e pela Vila Isabel.

Nos vemos (eu sei que o certo seria vemo-nos, mas estou bebendo desde ontem…) na quinta-feira.

Haja coração…

Até.

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6 Comentários

Arquivado em carnaval

6 Respostas para “QUEM NÃO CHORA NÃO MAMA

  1. Edu, querido: enquanto conversávamos, questionava-me mais quanto ao que eram blocos do que propriamente me referia a eles como conhecedora. Tenho deles uma ideia de estrangeira, de quem nunca viu ou presenciou, e isso notou-se nas palavras por mim usadas. Simples e modestas demais para toda a expressão que relatas. Um dia Edu… um dia estarei nesse Carnaval e, aí sim, talvez saiba expressar-me melhor 🙂 Um beijo e abraço grandes, de saudade… e uma invejazinha salutar! Divirtam-se!

  2. Inezita, foi pilha, apenas pilha. Mas foi tão estrangeira e tão boa a expressão que, veja você!, Dani me pediu que a escrevesse num papel para que fosse usada, hoje, durante o treinamento de professores do curso! Quanto ao Carnaval (e mesmo quanto ao réveillon, planos que você já me revelou), não preciso lhe dizer. A nossa casa é a vossa casa aqui no Rio. Estaremos os dois, pode estar certa, com os braços mais abertos que o Cristo Redentor! Beijo grande, saudade também.

  3. Enquanto lia o teu comentário, no rádio anunciavam que o Bono Vox, dos U2, vai cantar no Carnaval do Rio, com a Ivete Sangalo… sem perceber bem porquê, achei a coisa bem “fatela” (assim, meia sem jeito). Tragam as estrelas da cena musical, as estrelas mundiais, as estrelas de televisão. Nunca se comprarão a genuinidade das estrelas com a alma e espírito que relatas nas palavras do Aldir e no teu testemunho carioca. Ai, acho que estou mesmo apanhada pelo Rio… já fiquei imbuída no espírito do que escreveste. Eu bem digo que me contagio por “osmose”! 🙂 Mais beijo e saudade guardada.

  4. Oooops, esqueci-me de algo importante. Obrigada pela oferta. Com certeza aceitarei. Braços mais abertos que os do Cristo Redentor (meu Cristo Flutuante) é de um carinho que não se pode desperdiçar 😉 Beijo para ti e para a Dani!

  5. Inês: uma correção urgente. O Bono Vox, como não podia deixar de ser, vai cantar no carnaval (?!) na Bahia. Não no do Rio! Beijo.

  6. Estes tótos do rádio só metem os pés pelas mãos 🙂 Ainda bem para o Rio que não vão ter o Bono a azucrinar-vos o juízo! Beijo para os dois.

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