VENTOS EM MEU CORAÇÃO

“Santa Bárbara, dos tempos violentos,
Vosso rosto me aparece num clarão
quando um raio rasga a imensa escuridão.
Muitos ventos, muitos ventos
passam por meu coração…”

(Fátima Guedes)

Esta foto, provavelmente da década de 20, traz, à esquerda, Ficheli Goldenberg, meu tio a quem não conheci, e à direita, cigarro pendendo da boca (ah, a genética…), velho Oizer, Oizer Goldenberg, meu avô, pai de meu pai, passeando na Avenida Rio Branco em frente ao Museu Nacional de Belas Artes. Papai, num orgulho tão raro quanto olímpico, na matéria, mostrou-me tal tesouro no domingo em sua casa. E lhe pedi a foto, no que fui prontamente atendido. É que eu já tinha, desde domingo, o texto pronto para o dia de hoje, 21 de fevereiro, e vou explicar o por quê da importância (escapa-me palavra mais adequada) da data.

Em 21 de fevereiro de 1967, há pouco mais de dois anos de meu nascimento, um temporal devastador assolou a cidade do Rio de Janeiro. Fazia “um mau tempo de quinto ato do Rigoletto”, como dizia Nelson Rodrigues. E foi nesse mesmo 21 de fevereiro de 1967 que o prédio onde morava Paulinho Rodrigues, irmão de Nelson, em Laranjeiras, desabou devido à fúria das chuvas. E morreram Paulinho, sua esposa, seus filhos e mais alguns parentes que lá se encontravam para festejar o aniversário da cunhada do escritor. Tragédia.

E o que você tem a ver com isso?, ouço daqui as perguntas. Rigorosamente tudo. Desde que, sabe-se lá há quanto tempo (sempre fui um obsessivo nas leituras dos textos rodrigueanos), tomei conhecimento de tal fato, jamais fui o mesmo (e isso para não falar sobre o assassinato de Roberto Rodrigues, outro de seus irmãos).

Tenho um amor quase-egoísta pelos meus e, semi-descrente que sou (um dia debruço-me sobre o assunto), rezo, diariamente, para que nenhum deles me falte, mesmo sabendo o quão difícil é eu ser atendido.

Meu avô, por exemplo. Somente agora, aos 36 anos, me deparo com essa sua imagem e dela tenha agudíssima saudade (no singular, Szegeri, como nos apraz). Meu avô era, até então, um senhor de cabelos brancos esvoaçantes, uns olhos de azuis impressionantes, e vê-lo flanando pelas ruas do centro do Rio com esse sorriso sacana e com o cigarro no canto da boca me é, eu diria, imprescindível para que tudo sobreviva da melhor maneira possível.

Voltando à tragédia vivida pelo Nelson.

Tenho dois irmãos de sangue (digo de sangue porque posso dizer que o Szegeri e o Vidal, enumerados em ordem alfabética para que não haja ciúme, são meu irmãos) e sofro de pânicos aparentemente inexplicáveis quando, por exemplo, eles vão viajar.

O Cristiano, o mais novo, morando atualmente na França, foi ontem à Bahia para passar o Carnaval. E tenho medos olímpicos de tudo. Do vôo até Salvador. Do tumulto das ruas. De tudo. O Fefê, o siamês, que viaja demais, e sempre dirigindo, me tira até o sono. Pra piorar, Fefê viaja freqüentemente para lugares estranhíssimos, onde não há, nunca, sinal de celular, e sou, durante suas viagens, um fóbico as 24h do dia.

(acabei de parar de escrever, eis que escrevo mecanicamente, rolei a tela para reler o que já escrevi até o momento e não percebi, preciso ser franco, qualquer sentido no que disse, eis que a dor é minha, os medos são meus, e tudo me entristece nesse momento)

Acho que queria, mesmo, apenas, mostrar meu avô para vocês.

Deve ter sido um grande sujeito.

E lamentei, por alguns instantes, não estar ali, ao lado dele, caminhando pela Rio Branco, em direção à Cinelândia.

Boa coisa ele não ia fazer, se me entendem.

O que só aumenta minha saudade atemporal.

Até.

4 Comentários

Arquivado em confissões

4 Respostas para “VENTOS EM MEU CORAÇÃO

  1. >Du, certamente seu avô aplaudiria de pé o que você escreveu e ele diria mais adiante: o Eduardo é o melhor escritor do mundo, porque se ele gostava de alguma coisa essa coisa era a melhor do mundo!!!Obrigado pela homenagem!!

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