MEU CARO AMIGO (carta aberta pro Szegeri)

“Meu caro amigo me perdoe,
por favor,
se eu não lhe faço uma visita…”

(Chico Buarque)

Meu irmão: bem sei que você me notou, ontem, ao telefone, um tanto quanto angustiado, e eu tenho como certo que não fui capaz de lhe dizer nada assim de muito concreto. Uma rotina, isso. Abro a boca e as palavras ficam aqui, à minha volta, implorando para serem transformadas em verbo e nada acontece. Não as domino, fico indo e vindo, e só mesmo quando conjugo o verbo que agora conjugo – escrever – é que faço delas minhas fiéis intérpretes. Me perdoe, por favor, se não lhe faço uma visita. Não é por falta de vontade. É falta de tempo mesmo.

Mas preciso lhe dizer que as coisas ao menos serenaram quando a Sorriso Maracanã chegou na noite de ontem, pouco depois do temporal, assombroso, que castigou o Rio que você tanto ama. Tive medos olímpicos. Choveu demais, o céu com cores cujo nomes desconheço, raios cortavam o que de céu eu via de minha janela, na Tijuca que você tanto ama, e, veja você o que fez Dani. Bateu o telefone pra mim:

– Meu amor… estou ainda no avião… e isso é proibido! Mas sei que você deve estar morrendo de medo. Acabei de pousar. Tá tudo bem. Te amo.

Ah, mano querido, vesti-me e fui, destemido, buscá-la no Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, e fui chovendo dentro do carro ansiando pelo encontro. Foi quase que cena de cinema. Freei o carro bruscamente, saltei, dei-lhe um abraço que esperava há quase uma semana e fomos jantar no Fiorino – você não conhece, né? – onde fui minguando e você há de entender. Pelo caminho do aeroporto ao restaurante pusemos os assuntos banais em dia. Mas quando sentamos eu lhe pedi atenção. Eis um dos papéis, dentre tantos, que a Sorriso Maracanã tão bem desempenha. Minha ouvinte. E veja você… Eu que bebi durante a semana inteira de maneira intensa, em casa, pedi, assim de cara, uma dose caprichadíssima de Jack Daniels, um bourbon que me tira do sério.

E fui dizendo a ela o quanto tenho precisado de uma pausa de mil compassos. O quanto foi difícil minha semana devido ao absurdo número de novidades que me têm caído na cabeça, na alma, nos ombros. Uma semana lindíssima, diga-se de passagem, mais detalhes depois. Intensa demais, bonita demais, emocionante ao extremo. Quase que me fez ficar a ponto de não suportar o peso de tanta beleza. Acho mesmo que não estou, ainda – estarei um dia? – pronto pra tudo isso. E ela ali, aquela mulher que me ensinou a sorrir – nunca foi tão perfeita essa imagem como agora – a me ouvir, a dar pequenos sorrisos de vez em quando, a afagar a minha mão trêmula que não dava conta do copo cheio de gelo. Dividimos uma garrafa de vinho tinto argentino e uma pizza. E a alma, de novo e como sempre.

De lá saí tão melhor, meu irmão, mas tão melhor, que, não fosse a prudência, eu teria lhe telefonado de novo só para lhe contar o diagnóstico da Maracanã. Disse a Dani que eu andava muito self-centered, acredita? Mais uma expressão pro seu dicionário! Saí melhor, é verdade, mas ainda com os ombros pesadíssimos, com os olhos vermelhos, com as mãos menos tremidas, é verdade, e com mais vontade ainda de lhe fazer uma visita. Me perdoe por não fazê-la, ao menos por agora.

Você está vindo ao Rio, como sempre, para o Carnaval. E me anunciou, ontem, que fará uma quaresma abstêmia. Vou tentar acompanhá-lo nesse sacrifício espartano. E na Páscoa, ou pouco depois, vamos ver isso, irei a São Paulo, espero que mais leve e menos angustiado para que bebamos o que deixaremos de beber nos tais quarenta dias.

Eu deveria lhe dizer isso tudo por email, certo? Certo. Mas é que ando, lhe disse isso ontem e tenho dito isso por aqui, muito disposto a abrir as janelas, mesmo quando chove demais e corre-se o risco da inundação. Beijo.

Até.

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3 Comentários

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3 Respostas para “MEU CARO AMIGO (carta aberta pro Szegeri)

  1. >Já está quase pronto o novo livro…

  2. >Resposta aberta ao Edu (numa manhã paulistana nublada por fora, mas inundada de sol por dentro de mim – mais detalhes depois)S.P., 13 .02.06Querido,Pela primeira vez neste anos não precisei debruçar-me sobre os dicionários e nem consultar os amigos especialistas pra saber – como naquele dearest que me matou – o significado das sempre encantadas palavras de Tontom. É que já nos ia pelo espírito, e compartilhamos em algum momento com Stê e Zé Dinda, que o seu espírito compreensivelmente padeceria de uma sobrecarga de self-centering.Então, meu irmãozinho, ouça aqui esse teu compadre que, diferentemente do que a torcida desconfia, nunca esteve tão sereno, tão preciso, tão centered (mas não self). Porque diferentemente de sempre, a poesia, a beleza e a vida não tem doído mais do que o inevitável. Não tem angustiado na ameaça ínsita da finitude. Elas tem estado aí, eis o fato.Note, querido, que em geral a gente depende demais da relação que consegue estabelecer – e, na medida do possível, administrar – entre essa dimensão necessariamente efêmera e os nossos inafastáveis suspiros de perenidade. Da consciência da nossa pequeneza, dos nossos limites e, ao mesmo tempo, da nossa singularidade absoluta, da nossa natureza criadora, partícipe da do Ser Supremo.Ouça, então, essa voz que te chama. Não carregue o mundo todo nas tuas costas, meu irmãozinho. Isso é exatamente o oposto de tudo o que é possível dar certo. Nem toda a dor, nem toda a beleza. Nem a glória e nem a culpa da humanidade competem exclusivamente a nós em particular. Primum vivere deinde filosofare. O grão de feijão só germina se cair na terra e morrer. Dura lex, sed lex, no cabelo só Gumex.Seguirão por email, carta fechada, que não são coisas pra blogues, os detalhes supra referidos e dois poeminhas da reserva especial.Beijo,Teu irmãoSzegeri

  3. Pingback: SZEGERI, O BRIGÃO (dessa vez, com razão) | BUTECO DO EDU

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