>O BATISTA DE VOLTA

>

“Si arrastré por este mundo
la verguenza de haber sido
y el dolor de ya no ser,
bajo el ala del sombrero
cuantas veces embozada
una lágrima asomada
yo no pude contener”

(Alfredo Le Pera)

Meu telefone tocou cedíssimo hoje. Eu disse “cedíssimo” e vocês poderão pensar em seis, sete da manhã. Nada disso. Às cinco e quinze da madrugada acordei com os gritos desesperados do telefone e lembrei-me, juro, naquele instante, dos braços do Batista agitados chamando minha atenção, como ele sempre faz. Os toques insistentes do aparelho telefônico eram os braços do meu saudoso amigo. E eis a surpresa impressionante.

Era o Batista.

Eu disse “alô” (bocejando) e o pulha teve a pachorra de perguntar-me:

– Te acordei?

Não respondi. Bocejei de novo. E disse-me, o Batista, que estava de volta ao Brasil. Tive vontade de mandá-lo à merda naquele instante, mas me contive. Batista, repetindo um de seus gestos cíclicos, disse-me que estava bebendo cerveja com anéis de cebola à milanesa numa birosca na CADEG.

– Venha pra cá, Edu, preciso de ti.

Ah, os amigos. Entrei no chuveiro, tomei um bom banho quente, pus um terno e parti, de táxi, ao encontro do Batista.

Tudo igual. Aportei na CADEG e lá estava o náufrago em terra firme, balançando os braços, urrando meu nome e apontando como um siderado a cadeira vazia à sua frente. Deu-me um abraço de urso panda, tapinhas nas costas, sentou-se esbaforido, pediu mais um copo ao garçom e depois de vasculhar uma bolsa de papel amassadíssima dela retirou uma caixa de Alfajores Havana e disse:

– É a cara de Buenos Aires. Uma lembrancinha.

O Batista, se vocês não lembram, estava há meses em Buenos Aires, com Dirce e Linda, com quem se casou numa estranhíssima seita portenha. Casou-se com as duas, recordem-se disso. Daí o “estranhíssima seita” que permite, incentiva e sacraliza a união de três.

– Mas e aí, Batistão? Quais as novidades?

Parece que o “Batistão”, uma novidade vocativa, chocou meu amigo.

Batista chorou com as duas mãos sobre meus ombros, soluçou, babou um bocado e disse:

– Péssimas. Nos separamos.

E contou-me o drama.

Dirce e Linda continuaram, em Buenos Aires, os exercícios eróticos que tanto encantaram meu amigo. Até que um dia, disse-me ele, as duas o convocaram para um jantar em Puerto Madero. E ali, sobre nacos de chorizo e taças reluzentes de vinho tinto, lhe deram o bilhete azul.

– Nós nos bastamos, Batista. Não estamos mais a fim, sabe?, de triangular a relação. Tudo acabado, hombre – foi o que disse Linda a um Batista atônito.

– Pensei em me jogar no mar, Edu… – chorava de novo o meu amigo.

E disse-me mais, o Batista. Ele ficou bastante chocado com a diminuição que sofrera com aquela figura geométrica do triângulo. Ele era apenas uma ponta de um triângulo, e isso provocara nele uma depressão agudíssima.

Fez as malas e embarcou para o Brasil no dia seguinte. Estava bebendo demais. As duas, Linda e Dirce, estavam empregadas clandestinamente numa casa de shows para turistas voltada para o público GLS. Dançavam tango, as duas, e eram a sensação da cidade, contou-me ele aos prantos.

Não estava dizendo coisa com coisa. Pediu-me guarida até arranjar um quartinho para alugar. Topei, mas dei a ele três meses, no máximo.

Quando eu disse “três meses” ele ficou repetindo “três, três, três…”, como um autista.

A figura viva do triângulo, de novo, a atormentar aquela pobre alma.

Pagamos a conta (eu paguei, que o Batista voltou ainda mais pão-duro) e tomamos um táxi. Deixei o Batista em casa, o alojei no quartinho de hóspedes e fui ao trabalho.

Chegando em casa a secretária eletrônica piscava. Apertei o botãozinho vermelho “message”:

– Edu, é Linda. O Batista deve te procurar. Ajude a ele, Edu.

Ele disse apenas “filha da puta” e pôs-se a chorar.

Ao longo das próximas semanas prossigo com a saga batistiana.

Até.

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s