Arquivo do mês: janeiro 2006

SUBURBANO CORAÇÃO

“A casa está bonita
A dona está demais…”

(Chico Buarque)

 

Ela tem viajado demais, conseqüências de mudanças no trabalho, e eu tenho, ô constatação boba, ficado sozinho demais. Mas vai que deu uma viração nesse começo de ano e ela tem ficado em casa durante a semana e a casa está muito mais bonita por isso.

Quando ela chega eu vento e tenho a ligeira impressão de que isso fica visível. Ela faz sempre festinha em mim, ainda de pé na porta, dá-me um beijo e acarinha meus cabelos. E eu, bobo, marejo os olhos.

Assim como eu, bobo, fico a fazer fotografias dela diante do espelho se pintando, dela acordando, dela dizendo bom dia, dela pedindo mais um “cadiquinho” de preguiça antes de se levantar, como, bobo, fiz-lhe uma surpresa na segunda-feira.

Sacumé. Semanas a fio sem a minha garota e o sol da segunda-feira parecia muito mais brilhante, o azul do céu ainda mais azul, só porque ela me dissera no domingo à noite, “essa semana eu não viajo…”. Daí eu tô no centro da cidade, penso nela e me dá vontade de dar pulos, como disse o Pessoa num poema recitado pela Bethânia (lembrei-me dos versos na hora!). Seria ridículo. Entro num quiosque de flores e escolho as mais bonitas. Mando entregar em seu trabalho. Rápido. Paro pra tomar um café e fico, bobo (de novo), esperando o celular tocar.

Ele toca. E ela me diz coisas tão bonitas (tive a impressão de ouvi-la com a voz marejada) e eu choro no balcão sozinho, e eu prometo um jantar caprichado à noite, e ela sorri, diz que sim, que quer, e eu, bobo, fico zanzando pelos corredores do Forum a pensar no cardápio da minha menina.

E vou às compras e escolho cada ingrediente como se fosse preparar o primeiro jantar, para causar a primeira impressão, para impressionar pela primeira vez.

Chego em casa e a casa está muito mais bonita do que na semana passada pelo simples fato de que a expectativa de sua chegada é capaz de dar cores a tudo, enquanto que sua ausência me deixa andando pela casa na penumbra em busca do cheiro que o olfato mais aguçado há de perceber (deixei de fumar de novo).

Preparo a comida e lembro que não janto em casa quando ela não está. Acho graça disso. E fico de olho no relógio, e sinto que vento quando vem chegando a hora.

E quando ela chega à noite abraçada na braçada de rosas dá-me um abraço indizível e ficamos ali, os dois, na sala da casa que está tão bonita…

A dona está demais.

22 Comentários

Arquivado em confissões

>O MEU VIZINHO DO LADO

>

“O meu vizinho do lado se matou de solidão, ligou o gás o coitado, o último gás do bujão…”

(Vinicius de Moraes e Toquinho)



Nada dava conta de que isso fosse acontecer. É verdade que o sujeito era estranhíssimo, morava sozinho, tinha hábitos incapazes de desenhar no dia-a-dia qualquer vestígio de rotina na acepção mais quadrada da palavra. Não fosse o entregador do jornal avisar ao porteiro do forte cheiro de gás que vazava por debaixo da porta e quando?, sabe-se lá quando a vizinhança notaria a Morte ali, como vizinha.

Eu, é verdade, algumas vezes bebi com o cara encostado no balcão do pé-sujo quase na esquina do prédio, a poucos metros da Praia de Botafogo. Não dizia coisa com coisa. Ou melhor, às vezes até que dizia, e – é verdade… esse troço da morte mexeu comigo e está atrapalhando minhas lembranças… – coisas bastante interessantes. Mais que isso, mais que isso! Estou me lembrando melhor agora, ficamos algumas vezes conversando por muito tempo. Eu sempre bêbado nessas ocasiões e ele sempre pagando a minha conta.

Dizia receber pensão do pai e da mãe, o que lhe garantia um certo conforto e alguns prazeres, como o de pagar a cerveja dos amigos (ele me chamava de amigo, vejam que coisa). Soube, há poucos dias, que ele pagava as despesas de quase uma dezena de freqüentadores que se dispunham a ouvi-lo.

Deixou, contou-nos o porteiro, um bilhete que o síndico, um sádico filho da puta, irá pregar no quadro de avisos no hall social do prédio. Não se lembra, entretanto, de nada do que vira escrito. Com ele morreram o louro e um gato de estimação. O apartamento todo fechado e as frestas das portas vedadas com panos de chão molhados. Foi o entregador tentar enfiar o jornal por baixo da porta, empurrar o pano de chão da porta social e pronto, o cheiro da Morte.

Na nossa última conversa, cheia de misteriosas citações, enigmas que me pareceram fruto da sua mente, disse que estava doido por uma “vizinha nossa, casada, de pés absolutamente lindos que não têm me dado sossego”.

E eu me flagrei, há pouco, no furdunço que formou-se na portaria à espera da remoção do corpo, olhando pro chão, em busca de um par de pés absolutamente lindos capazes de tirar o sossego de alguém.

Quando a vi (casada, era a única pista que eu tinha além da beleza dos pés), de fato me deu uma vontade quase que incontrolável de me ajoelhar e alisar aqueles dedos. Ainda bem que não o fiz.

Mas estou aqui. E tenho que confessar, doido por ela.


4 Comentários

Arquivado em Uncategorized

FEIJOADA COMPLETA

 

Eu tenho sido acometido, de uns anos pra cá, aos domingos, de um troço que não dá nem pra chamar de mal, até porque é bom pra cacete. Acordo com uma sede de anteontem. Não importa o que foi feito do sábado, domingo eu levanto e às vezes dispenso até mesmo o café da manhã. Tamanha a sede. E anteontem, domingão, acordei não apenas com a sede de anteontem, mas também com uma fome que nem me contem! E de feijoada! Oito da manhã, aproveitando o mote de que na véspera, sábado, foi aniversário da minha mui querida Manguaça, bati o telefone pra Sônia. E fiz a proposta indecente. Eu iria ao Mundial (da Rua do Matoso, é claro), compraria tudo e me mandaria pra lá. Ela sorriu, disse que faria o arroz, picaria a cebola e o alho pro refogado e combinamos de eu estar lá antes das 10h.

E eis que fui ao Mundial e de lá parti pra Sônia com dois quilos de feijão preto, dois quilos de charque, dois de lombo, um quilo de lingüiça portuguesa, um de lingüiça calabresa, um de paio, um pé e um rabinho. Já fui recebido com caipivodka e com aquele abraço. Enquanto eu punha o feijão de molho, cortava as carnes, as laranjas pra cozinhar com o feijão (truque aprendido não-conto-com-quem), separava as folhas do louro, escaldava o pé e o rabo com limão, Sônia e Manguaça tratavam de convocar os sortudos, que foram chegando aos poucos: Dani Sorriso Maracanã (obviamente), Vidal e Gláucia, Dalton e Rino, André e Marcelo, Guerreira e Zé, Lelê Peitos, Zé Colméia e Vinagre, uma tia e a vovó.

 

E eu que sou de uma falta de modéstia olímpica não escondia o orgulho ouvindo os ohs e os ahs da Sônia diante da minha performance. Ela confessou, a certa altura, temer pelo feijão. A falta de tempo pra dessalgar as carnes, cozinhar o lombo, o rabinho, e se dizia estupefata diante do cheiro da comida, do chocolate do feijão, do sal no ponto certo (das carnes, sem uma pitada sequer).

E o glorioso momento do refogado? Sônia dizia “mas que dourado, mas que dourado…”, numa tietagem explícita, aquele tantão de cebola e alho submergindo no feijão fumegante.

Ficou perfeita. Os comensais gritavam “a melhor que você já fez”, “a melhor que já comi na vida”, “dá pra levar quentinha?, e a couve estava nos trinques, a farofa deliciosa, o arroz soltinho, a laranja gelada, e bebemos olimpicamente até 23h30min, quando a Sônia foi à sala de camisola e jogou beijinho.

Neguinho se mancou nessa hora.

Mas foi um senhor domingo.

Curioso e engraçado é que eu venho, há quase um ano, tentando marcar alguma coisa com a Sônia, um almoço, um jantar, e nada.

Foi um telefonema num dia inspirado e pronto: deu-se o encontro.

 

Pra encerrar, a foto desses dois sorrisos de felicidade já de pança cheia de feijão. Vidal, a Lenda, e Lelê Peitos, a Sorriso Via Láctea na visão do meu irmão Szegeri.

Retrato, aliás, da manhã, tarde e noite desse domingo. Um tremendo astral, todo mundo num absurdo bom humor, brindando à vida, à graça do encontro, com boa bebida e boa comida (eu não resisto a um último eleogio).

Até.

3 Comentários

Arquivado em comida, confissões, gente

>JINGLE BELL EM VILA ISABEL

>

Quando eu me derramo de amores pela zona norte, quando eu me declaro um tijucano de quatro costados, quando eu choro quando passo no subúrbrio, é porque é na zona norte, na Tijuca e no subúrbio que se esconde o tesouro que guarda o segredo da carioquice no mais alto grau que me comove e que me justifica. Quero hoje lhes contar uma deliciosa passagem, realíssima, eis que mantenho-me em 2006 preciso do início ao fim, do Natal em dezembro de 2005. Eu disse “Natal” e acabo de me lembrar que o Vidal, a Lenda, e sua companheira, a Gláucia, foram passar o Natal em Nova York. O que renderá, por certo, bela abertura para hoje.

Foram os dois, Vidal (pela quarta vez) e Gláucia (pela primeira). E de lá voltaram numa alegria capitalista comovente. Eis alguns momentos atribuídos a egotrip vivida pelo casal.

– Hi, my darling, how are you? – disse a Gláucia tão logo me viu no Estephanio´s.

O Vidal me dá um abraço e me estende um embrulho que desembrulho na hora. É uma caixa de 20 cigarros Nat Sherman Classic. Antes que eu agradeça ele grita:

– Oito dólares!

A Gláucia, que a tudo assiste, aponta pros tênis do meu amigo e urra:

– Quarenta dólares!

Passamos o reveillon juntos. Meia-noite e a Gláucia me crava um abraço:

– Happy new year, my darling!

Eu, zonzo com os fogos, abraço meu irmão, o Vidal. Ela me empurra e diz:

– Não amarrota essa camisa! Oitenta dólares!

E assim estão até hoje. Que beleza as conseqüências de uma viagem na alma de um cidadão da zona norte!

Vamos ao episódio natalino.

O Celsinho, que está pra casar com a Tati, já há 2 anos cede sua casa, portentosa, em Vila Isabel, para o Natal da família da namorada.

Ano passado foi por conveniência. Por falta de espaço a Tati sugeriu o troço ao Celso, que tem o coração imenso, e lá foi a família inteira da Tati aos dominíos do Celsinho. Amaram tudo. O tamanhão da casa, o freezer, a piscina, e eis que nem se discutiu nada. O Natal de 2005 seria mesmo, também, na casa do bom Celso que nem titubeou. Só deu uma negociada.

Disse à Tati que receberia uns amigos por volta das 16h, mas que às 20h a casa estaria liberada pra família. Trato fechado.

Às 16h chegam os amigos do Celsinho, todos bárbaros, Fefê entre eles. E neguinho só bebendo. Bate aquela fome e ao mesmo tempo bate a campainha.

É um entregador com dois perus reluzentes, enormes, lindos, que são postos na mesa ao lado dos amigos. O Celso sacando os olhares manda essa:

– Gente… Nem fudendo! Ninguém toca na porra do peru que é pra ceia da família da Tati!

Nego concorda mas fica ali, secando a bandeja.

Dá sete horas e bate a campainha.

Entra uma senhora, bem vestidíssima.

Celsinho a apresenta aos amigos, já tortos:

– Gente, essa é a Tia Dorinha, tia da Tati.

Aquelas mesuras e tal e lá foi Tia Dorinha dar um jeito nas coisas.

Faltando meia hora pro fim da coisa, vem Dorinha e arranca uma das coxas do peru dizendo apenas:

– Que fome, puta que me pariu! – e volta ao trabalho.

Daí veio a revolta.

– Que porra é essa, Celso? Não era pra ceia essa merda? – gritou um.

– Sacanagem! Tô morrendo de fome e tenho de asistir essa bruaca arrancar a coxa, logo a coxa que é o que eu mais gosto! – mandou outro.

Celsinho sem jeito bate o celular pra Tati e diz apenas:

– Perdi a moral. Dorinha avançou no peru. Vou liberar pra galera.

E liberou.

E o que se viu, sinceramente, só na zona norte.

Destruiram os perus em coisa de cinco minutos.

Comeram as peles das aves, a farofa, as ameixas, tinha gente comendo fios d´ovos como se fosse macarrão num espetáculo famélico hilariante.

Quando não havia mais nada, nem sinal do peru, neguinho foi se despedindo.

Daí vem Dorinha e grita:

– Meu Deus do Céu! Cadê o peru?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!

E o Zé Colméia, no meio da turba, abaixa as calças e devolve:

– Taqui, velha! Mas não é pro teu bico!

Até.

1 comentário

Arquivado em Uncategorized

FUMAÇA VERSÃO 2006

Na foto acima, Dani Sorriso Maracanã, eu, Fumaça e meu copo de uísque numa dose à VM, ou à Vinicius de Moraes, na noite do reveillon.

Citei a Fumaça e sou obrigado a reparar um erro grosseiro que cometi quando lhes contei sobre a noite de lançamento do livro no Estephanio´s. Disse eu, à certa altura, que a Incêndio comprara algo entre 4 e 5 livros. Errei. E de pé no banquinho imaginário corrijo-me entre chibatadas de autoflagelo nas costas: a Incêndio comprou quase 20 livros. Feita a correção, vamos em frente.

A Fumaça, já lhes disse, ri como quem respira. Mais-que-ri. Gargalha.

Veio de Maputo, onde está a trabalho, para passar o 31 de dezembro entre os amigos. E eis que à meia-noite, depois dos fogos, chega à festa toda a família inflamável. À Fumaça juntaram-se Incêndio, Bombeiro, Brasa e Ventarola. Ou, como queiram, à Débora juntaram-se Terezinha, Oswaldo, Paulo e Duda. “Ventarola?”, ouço daqui a Fumaça perguntar. E eu respondo que sim. É a Duda, que mantém o Brasa aceso. Vamos seguir.

A Fumaça, com quem encontrei-me no 31 pela manhã, fazia juras as mais pífias.

– Não ponho uma gota de espumante na boca hoje.

– Vou ficar na Coca Light.

– No máximo uma cervejinha.

E eu rolava de rir no chão de mármore da mansão à beira-mar (rolava no chão de mármore eis que tal sensação, para um tijucano de quatro costados, é de uma delícia indizível).

Duvidava de suas juras bizarras, feitas com os indicadores cruzados sobre os lábios, dando beijinhos na própria mão.

E veio a festa e a Fumaça bebeu Mumm no gargalo, socou o garçom que lhe ofereceu uma Coca Light e bebia um copo de cerveja a cada cinco taças de espumante, fora as bicadinhas esporádicas no meu uísque.

Como também já contei, o dia primeiro foi todo ele passado na casa da Maria Paula no Leblon, onde o piso também é de mármore e onde eu também rolava pelas mesmíssimas tijucanas razões.

Bebemos e comemos aquilo que nós, da zona norte, chamamos de “enterro dos ossos”, nome esdrúxulo pro troço já que há de tudo, menos osso no farnel.

Mas houve um destaque no tal pequenique.

Não sei se vocês hão de se lembrar, e tal história está, inclusive, contada no “Meu Lar é o Botequim” (comprem, comprem, comprem!), mas a Fumaça sofre de fome crônica, e foi capaz de ignorar solenemente a beleza imponente do Coliseu, em Roma, perturbada que estava pela vontade incontrolável de comer.

Dezoito horas do primeiro dia do ano.

E na sala eu, Dani, Maria Paula, Guerreira, Zé, Giulia e Fumaça.

E a Fumaça, que sempre sorri, deu de chorar dando socos nos braços da poltrona em que se encontrava.

Maria Paula preocupada:

– O que foi Debs?

Dani fazendo festinha:

– Ô, meu amor, aissipitu… (palavrinha de seu dicionário)… o que foi? É a viagem de volta pra Maputo, né?

E a Fumaça, entre soluços que espumavam salivinha pra fora da boca misturada às lágrimas:

– Não… Tô com fome!

Maria Paula, Dani e Guerreira se entreolharam e apontaram, as três, pras bandejas na mesa do centro. Frios, pães, patês, uma tonelada de comida. E a Fumaça, determinada:

– Não, não e não! Tô com fome de rabanada!

Maria Paula acionou a padaria de fé e em 20 minutos chegaram dois pães daqueles gigantescos de rabanada, leite, ovos, açucar, canela e óleo. Fui à cozinha preparar as rabanadas.

E diante do fogão eu ouvia os guinchos da faminta.

Chego à sala com a bandeja onde estão dispostas 40 rabanadas.

E assistimos, perplexos, àquele espetáculo estrelado pela Fumaça que, percebemos, incorporara de vez o espírito africano. Devorou, em coisa de 10 minutos, 30 das 40 rabanadas.

Riu. Dormiu. E roncou. Felicíssima. Com o vestido salpicado de açucar e canela.

Até.

4 Comentários

Arquivado em gente

BUNDALELÊ-ESCARLATE

Hoje, 04 de janeiro, faz anos – eu disse faz – meu amigo Fernando Toledo, o Girassol, como o eternizou outro amigo, Fausto Wolff, que dedicou ao Totô (como carinhosamente era chamado) um réquiem no JB, logo após a partida do malandro. E o Fernando, ano após ano, no dia 04 de janeiro, organizava o que ele chamava de “Bundalelê-Escarlate”, para comemorar a passagem de mais um aniversário. A Áurea, sua companheira, organiza hoje, no Carlitos, em frente ao Teatro Rival, o tal do “Bundalelê”, aproveitando a oportunidade para inaugurar uma placa em sua homenagem, mais que justa, diga-se. E daqui do Buteco, mui humildemente, ergo o copo ao humor e à saudade que tenho dele, e junto meu copo ao copo do Szegeri, ainda em Pouso da Cajaíba curtindo a ressaca da virada do ano. Tenho certeza de que no instante do brinde estará refeita, por instantes, a Conexão Irajá, de duração tão curta quanto a passagem do Fernando no planeta, cada vez mais podre e cada vez mais ressentido de sua ausência física. Eu digo física porque ele está em cada um de nós que convivemos com ele.

Fecho hoje deixando com vocês um dentre os milhares de e-mails que tenho guardados enviados pelo Fernando, politicamente incorreto como eu, indignado como eu, tendo absoluta certeza de que ele aprova a quebra do sigilo. Enviado em primeiro de abril de 2004:

“De minha lavra…

MANIFESTO DO GREYPEACE
Vida no mato? Mosquitos e insetos desconhecidos pela Ciência? Cortar o pé em caminhadas inúteis? Aliás, fazer caminhadas? Dormir em um colchonete sobre um chão irregular, cheio de pedrinhas por baixo? Fazer cocô no bambuzal e limpar a bunda com folha de mamona, morrendo de medo que seja urtiga? Lavar a louça no rio, sabendo que o pessoal que está acampado mais acima já fez mesmo, logo a água está trazendo os detritos deles? Ter de tirar sanguessugas com brasa do cigarro após o banho? Andar duas horas para tomar uma cerveja gelada? Sentar em torno de uma fogueira com um filho da puta desafinado cantando “apenas apanhei na beira-mar um táxi para a estação lunar” etc etc acompanhado por um violão com cordas de aço enferrujadas cheio de adesivos pseudo-psicodélicos? Ouvir alguém tirar a abertura de “Stairway to Heaven” numa flauta em bá frustrenildo que ele mesmo fez, pois vive de “fazer trampo”? Fumar maconha com dez marmanjos e cinco gordinhas dentro do quarto da barraca, fazendo sauna? Comer muié feia? Tomar banho de água fria, num frio pior ainda? Queimar de calor de manhã dentro da barraca? Aturar os peidos do cara do quarto de barraca ao lado? Comer miojo? Pão todo despedaçado? Catar araçá no mato porque não agüenta mais salsicha em lata? Beber vinho Catafesta de garrafão? Aturar algum maluco que tomou chá de trombeta, surtou e teve que ser amarrado? Ouvir “pô bicho”, “aí maluco” e semelhantes de dois em dois minutos? Ficar sem cigarros no meio da noite, e, depois de andar três horas, descobrir que na maldita vendinha da porra do amaldiçoado povoado de bosta só tem o caralho de uma marca genérica paraguaia? Almoçar mal para caramba, sabendo que, àquele momento, está saindo um cabrito quentinho no Nova Capela? Estar a pelo menos cinqüenta quilômetros do uísque escocês mais próximo? Ter de aturar o rádio-gravador de algum apedeuta tocando Deep Purple sem parar?

ESTE É O MANIFESTO DE FUNDAÇÃO DA ONG GREYPEACE, DESTINADA A MELHORAR A QUALIDADE DE VIDA E MANDAR OS RIPONGAS SE ROÇAREM NAS OSTRAS!

NATUREZA, TÔ FORA!

VIVA O URBANISMO!

ABAIXO O AR PURO!

VIVA O ASFALTO!

FODAM-SE OS URSOS PANDA QUE ANDAM DE BANDA E VIVEM EM UGANDA!

Um abraço,

Fernando Toledo”

Até.

7 Comentários

Arquivado em gente

LEOPOLDO

Recordem-se do currículo social do Xerife. Egresso do Cachambi, mora hoje na zona sul do Rio e é, do mais alto fio de cabelo à sola dos pés, um egresso do Cachambi as 24h do dia. Vou ser mais claro.

Não consegue – o que é mais do que compreensível – livrar-se dessa pecha.

Quando recebe os amigos em casa é de uma euforia suburbana. Antes, no bairro de outrora, servia cerveja Polar e salaminho “da casa”, quando tinha pra isso. Hoje não. Hoje faz questão de receber os convidados com o telefone sem fio do lado. E passa a noite batendo o telefone para os restaurantes do bairro, recebendo os pedidos pela entrada social, geralmente com gritos como “pastéis do Belmonte, R$20,oo a dúzia, quem vai?”, ou “caldinho de camarão da Devassa, R$15,00 o potinho, quem aceita?”, e por aí vai, desfilando o cardápio com que sempre sonhara.

Falei brevemente dos alimentos e quero falar dos bichos.

Quando ainda residia no Cachamba, como ele carinhosamente chamava o bairro, tinha em casa uma meia dúzia de vira-latas, um papagaio (ave indispensável para os moradores da região) que solfejava o hino do Flamengo, um aquário improvisado num balde plástico onde nadava um bagre e também um jabuti que passeava pelo quarto e sala, e era, o Xerifão, um homem feliz com a bicharada, como Noé durante o dilúvio.

E eis a primeira novidade de 2006 na vida do meu querido Xerife.

Esteve ontem, com sua companheira, a Betinha, na cidade serrana de Petrópolis.

Pausa breve para dizer que Petrópolis jamais estivera em sua malha rodoviária. Gostava mesmo era de Arraial do Cabo nos feriados, para onde ia de ônibus pirata fretado, levando frango, farofa, arroz com passas e latinhas de cerveja fabricada num quintal do Irajá.

Lá foi o Xerife à terra do Imperador buscar o Leopoldo.

Um cão? Não.

Um louro? Também não.

Leopoldo é um gato de 3 meses adquirido num leilão no site Mercado Livre por algo em torno de U$1,500 pagos em espécie. Mas não é apenas um gato. É um gato inglês, que chegou a Petrópolis em novembro, trazido por Mr. Cat, um obsessivo londrino criador da raça, diretamente da cidade dos Beatles.

Ontem mesmo liguei pro Xerife.

Queria convidá-lo para um risoto de camarão no Salete, onde fui jantar com a Sorriso Maracanã, a Maria Paula, a Fumaça, a Guerreira e o Zé.

– Não vai dar pra ir, Edu…

Quis saber a razão.

– Estamos os três no futon vendo o jornal da BBC na TV para que a fase de adaptação do Leopoldo seja a menos traumática possível…

– Leopoldo?

Foi quando contou-me a história.

Até.

7 Comentários

Arquivado em gente