DOMINGO É O DIA

“Aonde houver cachaça
aonde houver barril:
presente está a Turma do Funil!”

(Mirabeau, M. de Oliveira e Castro)


(foto de Pedro Toledo)

Eu já disse e vou repetir.

Domingo é o melhor dia pra beber.

E esse troço de “melhor dia pra beber” cria sempre uma cizânia violentíssima quando os biriteiros se encontram. O Fefê, por exemplo, prefere beber às segundas-feiras. “Dia de profissional”, diz ele. O Branco, dono de beleza acachapante, prefere beber acordado pouco se importando com o dia da semana. É um estilo. O Szegeri. O Szegeri eu não sei. Andamos tão distantes que eu me percebo, agora, incapaz de apontar seu dia preferido para o esporte. Estivéssemos em dezembro do ano passado e eu saberia lhes dizer não apenas isso, mas qualquer coisa que envolvesse meu irmão paulista. Hoje, não. Beligerante, birrento, mais-paulista-que-nunca, o Szegeri está a milhares de quilômetros de mim embora eu ainda o guarde com carinho. Não me bate mais o telefone. Não me manda mais um rascunho de email. Um “olá” amistoso. Nada. Vejo chegando o 27 de abril e nem assim o Procurador irá me procurar.

Eu disse “Procurador” apenas para lhe contar uma de semana passada. O Szegeri trabalha na Procuradoria da República, em São Paulo. Quando ligo (ligava) para lá ele atendia pomposo:

– Procuradoria.

E bastava eu dizer, “Fala, mano!”, e toda a pompa, todo o protocolo, toda a cerimônia era pisoteada, cuspida, violada e estuprada diante dos uivos de alegria do meu bom amigo. Semana passada foi diferente (somente a segunda parte do telefonema).

Ele atendeu:

– Procuradoria.

E eu:

– Fala, mano!

E ele:

– Procuradoria.

E eu:

– Sou eu, Szegeri!

E ele:

– Procuradoria.

Desliguei tristíssimo. Dito isso, em frente.

Disse ontem que o Dalton é a cada dia mais meu irmão. E no dia da semana eleito para a melhor porranca somos siameses. É no domingo que o Dalton acorda com sede de beduíno. Foi assim no domingo retrasado. Foi assim no domingo passado. E será assim no próximo domingo. Será assim, acredito e espero, nos domingos vindouros (há tempos não digo isso: “Como estou antigo!”).

Nesse último domingo, a Dani, minha Maracanã amada, foi beber conosco. E portou-se como uma monitora com seus alunos petizes.

Sentamos à mesa e pedimos os chopes. O Dalton sorrindo:

– Edu? Cachacinha?

E eu guinchei que sim.

A Dani:

– Meninos… mas já?

Quando ela disse “já?” nós dois já lambíamos os beiços (cada um lambeu seu próprio beiço, é necessário o destaque).

E ficamos ali bebericando à graça da vida intercalando cada par de chopes com um copinho de Boazinha.

Fomos ao Estephanio´s.

O Dalton (descalço):

– Tequilinha? Tequilinha?

E a Dani:

– Meninos… pra quê isso?

E quando ela disse “pra quê isso?” sorvíamos o limão e o sal no sulco das mãos (cada um na sua, de novo).

É incrível esse troço quase-religioso. Eu dispenso a sexta-feira, eu fico recluso aos sábados, mas aos domingos dá-me um bicho carpinteiro (minha bisavó dizia isso demais…) e lá vou eu, cantando que se alguém perguntar por mim diz que eu fui por aí… Fazendo côro com o Dalton. Dá-me uma vontade gigantesca, sempre, da companhia do Szegeri. Mas ele – não é demais repetir – anda ainda mais distante do que Rio e São Paulo.

Até.

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3 Comentários

Arquivado em confissões, gente

3 Respostas para “DOMINGO É O DIA

  1. >Grande beijo ao Pai Dalton, meu padrinho querido. A bença!

  2. >Essa homenagem aos truás está ficando esquisita, posto que, três espadas convictos, cenas de desprezo e volta-meu-amor a dar com pau (xi!), alô alô procuradoria, alô alô dabliú brazil, alô alô aviadores do Brasil, aqui fala Jorge Veiga …

  3. >Só sei uma coisa: Que domingo eu estava com uma vontade monstra de comer moela! Graças ao seu livro, essa vontade me acompanha já há semanas…Sempre adorei moela, e minha mãe diz que sou teimosa, de tanto que comia as mesmas.Mas acho que ninguém nunca vai fazer igual as que minha avó fazia.E desde que ela morreu, poucas vezes voltei a come-las.Mas enfim, fomos parar num pé sujo, onde tinha as mais insosas moelas que já comi até hoje!!! :(Ainda bem que a carne seca desfiada com aipim e a Nega Fulô deu pro gasto!

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