A PROFESSORINHA

“Que saudade da professorinha
Que me ensinou o bêabá…”

(Ataulfo Alves)

(foto de Paulo Barbosa)

Luísa. Professora de Língua Portuguesa. A conheci no balcão do Bar Getúlio, no Catete, numa terça-feira sem qualquer compromisso que não comigo mesmo: sentar à mesa às sete, ver o movimento nas calçadas, beber até umas nove e voltar pra casa.

Não voltei às nove porque a Luísa sentou-se à mesa. O bar lotado e eu sozinho com uma cadeira vazia à minha frente. Ela sorriu. Perguntou se podia sentar-se. Eu nem respondi. Assenti com a cabeça, ofereci a ela um cigarro que foi recusado e começamos a conversar pelo viés mais banal. “Qual seu nome?”, “Mora por aqui?”, “Faz o quê?” e eu ri demais quando ela disse Luísa com “s”, professora de língua portuguesa.

Há mais de 20 anos eu tive uma professora de português, Luísa também, também com “s”.

Ela riu de volta.

Baixinha, olhos puxados, cabelos curtos num corte antigo, gordinha mas que me deixou com um tesão absurdo ainda dentro do bar, Luísa foi gentil quando disse “eu pago a conta, faço questão, minhas férias começam hoje”.

Meu tesão dobrou por conta disso. Senti-me ali o aluno de novo. A tia pagando a conta.

Não sei exatamente como a coisa se deu, mas quando o garçom trouxe o troco naquela carteira de couro já estávamos nos beijando e eu beijei mal de propósito. Queria ser o aprendiz.

Luísa – pareceu-me – sacou o jogo e convidou-me pra um Frangelico em sua casa. Tomamos o táxi.

– Praia de Botafogo, por favor… – ela disse sentada no banco traseiro, a meu lado, alisando minha coxa acintosamente.

Pagou o táxi e subimos pelo elevador. Eu, representando, fiquei olhando pros meus próprios pés fingindo timidez e de soslaio percebi Luísa retocando a maquiagem diante do espelho.

Saltamos no nono andar. Luísa remexeu a bolsa, sacou da chave, abriu a porta e me disse “entra, meu bem…” com uma doçura estonteante.

Pediu licença e eu fiquei de pé, diante da janela, observando o movimento dos carros àquela hora. Perdi a noção do tempo hipnotizado pelo traçado vermelho e branco dos faróis e lanternas dos carros naquela noite de chuva quando escutei o “psiu” e virei-me.

Luísa nua.

– Me bate, meu bem – e estava chorando.

– Hein?

– Vem aqui, vem…

Cheguei mais perto.

Luísa tomou-me pelas mãos. Pôs minha mão direita em sua face esquerda e disse:

– Bate… com força…

Bati.

– Mais! Mais! Me machuca, querido!

Fiquei confuso, fiquei tonto, estava de novo com cinco anos de idade e a Tia Luísa, de Português, queria apanhar, e a Luísa, do Bar Getúlio, implorava por um espancamento que não estava nos meus planos. Não lembro de nada. Apenas que a Luísa, diante da minha impotência, abriu uma garrafa de Frangelico, que era, afinal, o que estava no roteiro.

Mas eu tô sempre lá.

Uma vez por semana, praticamente.

A cada dia me chama de um nome.

Seus alunos, imagino.

E eu tomei gosto. Valho-me das mãos, do cinto, de pequenos chicotes que ela coleciona, de uma colher de pau, tenho sempre que deixar uma marca em seu corpo. Só assim, me disse a Luísa, ela é feliz.

– O bêabá do prazer, meu bem, não tem regra, sabe?

Luísa – creio que isso é importante para compreendê-la – paga sempre o meu táxi quando volto pra casa.

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6 Comentários

Arquivado em ficção

6 Respostas para “A PROFESSORINHA

  1. >hi from canadai like your blog , keep on going !

  2. >Edu você está pintando com outras cores quadros igualmente interessantes. É um laboratório para algo que vem por aí?

  3. >Hhhmm… interessante!

  4. >Interessante nada! Provocante! 🙂

  5. >Provocante sem dúvida… deve ser do Português 😉

  6. >Interessantes são os comentários a este texto! :-)))Gostei muito. O estilo está bem diferente mas igualmente inteligente e inspirado. Gostei muito mesmo.

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