>O MEU VIZINHO DO LADO

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“O meu vizinho do lado se matou de solidão, ligou o gás o coitado, o último gás do bujão…”

(Vinicius de Moraes e Toquinho)



Nada dava conta de que isso fosse acontecer. É verdade que o sujeito era estranhíssimo, morava sozinho, tinha hábitos incapazes de desenhar no dia-a-dia qualquer vestígio de rotina na acepção mais quadrada da palavra. Não fosse o entregador do jornal avisar ao porteiro do forte cheiro de gás que vazava por debaixo da porta e quando?, sabe-se lá quando a vizinhança notaria a Morte ali, como vizinha.

Eu, é verdade, algumas vezes bebi com o cara encostado no balcão do pé-sujo quase na esquina do prédio, a poucos metros da Praia de Botafogo. Não dizia coisa com coisa. Ou melhor, às vezes até que dizia, e – é verdade… esse troço da morte mexeu comigo e está atrapalhando minhas lembranças… – coisas bastante interessantes. Mais que isso, mais que isso! Estou me lembrando melhor agora, ficamos algumas vezes conversando por muito tempo. Eu sempre bêbado nessas ocasiões e ele sempre pagando a minha conta.

Dizia receber pensão do pai e da mãe, o que lhe garantia um certo conforto e alguns prazeres, como o de pagar a cerveja dos amigos (ele me chamava de amigo, vejam que coisa). Soube, há poucos dias, que ele pagava as despesas de quase uma dezena de freqüentadores que se dispunham a ouvi-lo.

Deixou, contou-nos o porteiro, um bilhete que o síndico, um sádico filho da puta, irá pregar no quadro de avisos no hall social do prédio. Não se lembra, entretanto, de nada do que vira escrito. Com ele morreram o louro e um gato de estimação. O apartamento todo fechado e as frestas das portas vedadas com panos de chão molhados. Foi o entregador tentar enfiar o jornal por baixo da porta, empurrar o pano de chão da porta social e pronto, o cheiro da Morte.

Na nossa última conversa, cheia de misteriosas citações, enigmas que me pareceram fruto da sua mente, disse que estava doido por uma “vizinha nossa, casada, de pés absolutamente lindos que não têm me dado sossego”.

E eu me flagrei, há pouco, no furdunço que formou-se na portaria à espera da remoção do corpo, olhando pro chão, em busca de um par de pés absolutamente lindos capazes de tirar o sossego de alguém.

Quando a vi (casada, era a única pista que eu tinha além da beleza dos pés), de fato me deu uma vontade quase que incontrolável de me ajoelhar e alisar aqueles dedos. Ainda bem que não o fiz.

Mas estou aqui. E tenho que confessar, doido por ela.


4 Comentários

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4 Respostas para “>O MEU VIZINHO DO LADO

  1. >Excepcional Edu! Minimalista, eu diria. Tocante. Preciso. E cinematográfico como sempre.Nova fase?

  2. >Prezado Eduardo ou Edu, como as pessoas te chamam no cyberespaço: tenho lido, desde que vi a dica do link no Cesar Tartaglia, seu blog e já li tudo. E li o livro também!Quero declarar-me seu fã e seu leitor. Aprecio seu estilo. Gosto do clima que você cria. Das cores que dá ao quadro mental que nós mesmos pintamos seguindo a ordem das suas palavras.E dizer finalizando que esse texto de hoje é o meu preferido. Dramático a seu modo. De humor a seu jeito. Comovente também.Estou aguardando o segundo livro, Edu. E que seja breve.O abraço,F.N. Filho

  3. >Adorei. Com pausa entre as sílabas.

  4. >Deus me livre, me deu arrepios de ler isso!!Por que?Porque eu tenho um conhecido, que um dia vai acabar assim….Tudo que você escreveu, se parece demais com essa pessoa, tirando o fato que ele não tem dinheiro prá pagar a bebida dos amigos, nem um louro; mas tem o gato e a fixação por pés!!E tem também uma capacidade enorme de afastar dele, aqueles que querem se aproximar e de alguma forma lhe fazer o bem!Pessoa complexa, tem um belo sorriso, que se abre com a mesma facilidade que se fecha para a vida.

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