MOACYR, LUZ

Eu, mais uma vez, ergo as portas de ferro do estabelecimento pra homenagear, modestamente, de pé no balcão imaginário do Buteco, um grande sujeito. E dele vou falar absolutamente à vontade, já que dividimos momentos que podem ser chamados de épicos, que incluem – vou citá-los pra dar mais cores ao troço – desde cerveja às sete da manhã de um domingo, quando o Caderno B estampava o malandro na capa e eu fui convocado pra comemorar a coisa, até porrancas com duração de 72h em Búzios, durante um verão já não tão próximo. Isso pra não falar de um aniversário, em abril, em que eu cheguei às nove na casa do malandro, na Muda, com uma cesta. Mas não de café da manhã. O mimo incluía cervejas importadas, salames italianos, queijos franceses e outros congêneres. Eu disse dividimos e uso o verbo no passado. Hoje já não dividimos o convívio e, se isso não vem ao caso, deve ser ao menos mencionado justamente para que a modestíssima homenagem – quero repetir – seja ainda mais genuína e verdadeira. Não estou puxando o saco de ninguém. Estou, isso sim, rendendo justo reconhecimento a um grande Carioca, com “c” maiúsculo.

Vejam bem.

Eu conheci o Môa antes dele me conhecer, e quero explicar. Ainda moleque, fui levado ao Caras & Bocas, na Tijuca, aonde, bebendo pouco à época, assistia Aldir Blanc, Paulo Emílio, Moacyr Luz, Helinho Delmiro, feras que deram ainda mais argamassa pro edifício que carrego dentro de mim. Até que um dia – há testemunhas – e o Caras & Bocas não existia mais, eu esbarrei com o cara no Bar da Maria. Pedi à Verinha, mulher do Lélio, sem vergonha:

– Verinha, me apresenta a ele. Sou fã do cara.

E assim foi feito.

Daí viramos amigos. Mesmo.

E eu assisti o Moacyr transitar, cheio de respeito e devoção, nos mais sagrados terreiros do samba. Primeiro com o Aldir, com quem cravou um de meus CD´s preferidos, o “Vitória da Ilusão”. E depois vieram outros, outros, e de repente, quando já não mais dividíamos alma como outrora (notem a antigüidade da expressão!), eis que o Môa já tem gravado seu nome na história. Só que com um detalhe a mais, o que o torna um personagem ainda mais encantador.

O Môa não é apenas um compositor de mão cheia, um melodista daqueles de derreter o coração da gente. Não é apenas um sambista no topo da lista. É mais. E vou explicar. E vou explicar justamente porque me vi tomado de violenta emoção na segunda-feira quando foi lançado, no Renascença Clube, no Andaraí, o CD “Renascença Samba Clube”, mais uma das geniais idéias do Moacyr. O Môa bolou o troço em maio desse ano. A coisa chamaria “Samba do Trabalhador” e aconteceria às segundas-feiras, às 14h. Timidamente, com 40 pessoas. Todos amigos seus.

E o que se viu na segunda passada, 14 de novembro, não por acaso véspera da Proclamação da República, foram mais de 3.000 pessoas em êxtase diante do sucesso e da beleza do lugar, lato sensu.

Essa mesma genialidade, esse mesmo tino, o Môa demonstrou quando pensou na já conhecida barraca de feira, na Garibaldi, às sextas-feiras. Nada mais carioca (como ele, aliás, é o que estou querendo dizer desde o início).

Os amigos se reúnem em torno dele e de uma barraca de feira. As comidinhas, a bebida, o samba sem compromisso, e as águas do Rio Maracanã, onde se encosta a barraca, testemunham, a cada semana, a força bruta das águas que movem o Rio de Janeiro.

Vai daí que o Moacyr faz, há anos, de sua própria casa, num aprazível apartamento térreo na Muda, um buteco, onde recebe os amigos pra reuniões antológicas pelo que escorre dali. Vai daí que o Moacyr pensou, e gravou, um CD magnífico chamado “A Sedução Carioca do Poeta Brasileiro”, onde virou parceiro do Drummond, do Vinícius, do Murilo Mendes. Vai daí que o Moacyr foi o mentor desse troço genial que é a barraca na feira da Garibaldi. Vai daí que o Moacyr foi o autor e mentor do “Samba do Trabalhador”, um fenômeno. Em menos de seis meses a coisa virou CD, DVD, e aquele pé de carambola fazendo sombra nos músicos no quintal do Renascença faz, hoje, o papel que já foi da jaqueira, da mangueira, da tamarineira.

Eis o que pensei, lágrimas no olhos, enquanto filmava a roda na segunda-feira.

O Môa cravou, com o Aldir e o Paulinho Pinheiro, o hino que os cariocas adotaram: “Brasil, tira as flechas do peito do meu padroeiro, que São Sebastião do Rio de Janeiro ainda pode se salvar”.

Eis a beleza da coisa.

O Môa cumpre, direitinho, e dia após dia, seu papel. Não espera, sábio que é, que o Brasil faça sua parte.

É ele mesmo quem tira, uma a uma, as flechas que castigam a cidade e seu padroeiro.

Assim, há de ser, o Rio se salva.

Até.

P.S.: as três fotografias são de autoria de Paulo Barbosa, o Cachorro, e podem ser vistas aqui.

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10 Comentários

Arquivado em música

10 Respostas para “MOACYR, LUZ

  1. >É isso aí.O Moacyr merece todos os louros!

  2. >Edu, Edu, mais um grande momento. Texto emocionante, comovente e o Moacyr merece mesmo esses e outros confetes. Ele é mesmo um carioca dos grandes!

  3. >Rapaz se o Moacyr representa mesmo isso tudo aí no Rio, aqui em SP ele faz até mais, porque traz o Rio pra mais perto da gente! Lindíssimo texto e bela e justa homenagem. Vocês brigaram? Abraço.

  4. >Já está à venda o CD e o DVD? Você pode me dar uma dica de como e onde comprar? As coisas aqui no Pará demoooooooooram D+ pra chegar! Está vendendo pela internet? Qual a gravadora?

  5. >Homenagem justíssima. É impossível escrever a história cultural de 2005 sem citar Moacyr Luz – e todos os cadernos de variedades dos jornais do Rio devem essa deferência a ele no balanço de fim de ano. O Môa foi um dos mais produtivos artistas do ano – lançou dois discos solos, organizou o criativo Samba do Trabalhador – que virou CD, produziu alguns discos de novos artistas, foi tema de documentário sobre o brilhante encontro que realiza numa feira de rua, foi protagonista de belos shows em São Paulo, lançou um livro, dentre outras atividades. Moacyr Luz cravou em 2005 a sua definitiva participação na lista dos grandes artistas de nossa geração.

  6. >É verdade o que o Augusto disse. Para que se faça justiça, sem diminuir seu belíssimo blog, o Moacyr tem de ser agraciado pela grande imprensa. Fez um belo ano de 2005 que na verdade é coerente com o que ele vem fazendo desde 2000, 2001, 2002… Por isso podemos esperar muito do grande Moa em 2006!

  7. >Lindo o texto e lindíssimas as fotos! Posso usá-las no meu blog?

  8. >UAU! Chiquíssimo! Será que alguém tem como avisar ao Moacyr Luz desse texto? Tipo de coisa que faz bem pra pessoa homenageada! Edu, conta pra nós aí o que é que houve entre vocês!

  9. >Edu concordo contigo em tudo. O Moacyr reúne refinamento, carioquice, malandragem e elegância. Merecida a homenagem. Você marcou um golaço.PS: conta aí! 🙂 O que aconteceu?

  10. >Edu como sempre supreendente. Sabe do que mais gostei? Do título. Moacyr, Luz. Sacada de mestre.

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