OUTRA DO DIABO

Vejam vocês a que ponto chega a maldade do ser humano.

Uma leitora, após ler o texto de ontem, “O Diabo”, mandou mensagem pedindo uma foto do mesmo. Não o farei por algumas razões: sou contra a imolação pública de um ser humano como o Diabo, de bom caráter, e não quero perder os poucos mas fiéis leitores que tenho. O Diabo não é pra qualquer um, e eu não saberia dimensionar as conseqüências disso.

Mas como falei de Diabo ontem, volto a falar do Diabo hoje. Antes quero lhes dizer que meu irmão Szegeri, de São Paulo, mandou-me sucinto email no final do dia: “Estou com pena do pobre Diabo”, disse-me ele.

E quero, daqui, rejeitar o fomento do sentimento da piedade. O Diabo tem em torno de 30 anos. E alguém que convive há 30 anos com aquela feiúra, com aquele rosto, com aquele shape, com a experiência torturante da imagem refletida no espelho dia após dia, está resolvido e resignado com isso. Não há razão para o sentimento da piedade. Falei em espelho e cabe breve digressão antes de entrar no tema de hoje.

O Diabo, contou-me no domingo, escova os dentes no chuveiro e por um único motivo: é uma chance a menos de dar de cara com sua própria imagem estampada no espelhinho diante da pia. E tem mais!

Eu, também um feio, sinto-me um galã de cinema, de novela, diante dele. Domingo mesmo. Estava eu no balcão com o Diabo e algumas moças que jamais me disseram um “boa noite” que seja diziam “tá diferente, heim, Edu?”, “você está mais bonitinho…”, e outras pérolas. Mas eu sabia que no fundo era tudo fruto da comparação. Tendo ao meu lado o Diabo eu era, de fato, um anjo do Michelangelo. Vamos em frente.

Contou-me também, o pobre Diabo (expressão perfeita pro sujeito em foco), sobre sua mais recente experiência na Vila Mimosa. Sequinho da silva, num jejum de meses, decidiu valer-se da restituição do imposto de renda para uma farra das boas na Vila Mimosa, na Rua Ceará, na Praça da Bandeira.

Eis o lance.

Atravessou a pontezinha que separa a Praça da Bandeira do inferninho.

Eu disse “inferninho” e me lembrei do nascimento do Diabo.

Consta que seus pais, revoltadíssimos, choraram horrores na maternidade. O pai chamou um delegado alegando que haviam trocado seu bebê no berçário. A mãe, católica ferverosa, mais resignada e conformada que o pai, convocou um padre exorcista para benzer o bebê feioso que vira nascer. Foi a avó, uma sábia, quem pôs pra correr o delegado e o padre, num grito:

– Saiam! Saiam! Pelo menos o monstro tem saúde!

Voltando à VM, como dizem os íntimos do local.

Aproximou-se o Diabo de uma profissa da área.

– Oi, gata…

– Oi.

– Quanto é o programa?

– Pra você?

– Arrã.

Riu, a senhora (tinha, contou-me ele, perto dos 60 anos).

– Peraí.

E entrou numa casinhola a vetusta.

Volta com mais nove colegas.

As dez cercam o menino, assustadíssimo.

Quando o Diabo sorri, meio sem graça, cinco delas choram. Uma cambaleia e cai. Outra une as mãos, em prece, e começa a rezar baixinho. As outras três tiram no “zerinho ou um” quem vai pro sacrifício. Ganha a mais idosa que toma o Diabo pela mão e segue em direção à casinha.

No final do troço, o Diabo, exausto, percebe que a Dona Mirindinha, nome de guerra da Sueli, dormira. Cutuca a velha pra pagar pelo serviço. Nada.

Miridinha está morta.

Diabo salta pela janela nos fundos, toma o caminho da Leopoldina e segue, a pé, pelo Canal do Mangue, pra casa.

Até.

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2 Comentários

Arquivado em gente

2 Respostas para “OUTRA DO DIABO

  1. >A pena não foi pela feiúra do pobre. Foi pelo azar dele. Ninguém merece cair assim, desprevenido, no Estephanio’s num domingo, ainda mais no meio de um Fla x Bota, depois da praia…

  2. >Edu,meu velho,Tenho a mais absoluta certeza de que vc está colocando azeitonas na empada do tal Diabo, assim como fizera com o falecido Dedeco.Fatalmente aparecerão incautas dizendo que ele não é lá tão feio assim e, prestativas, resolverão as pendências afetivas – se é que me faço claro – do filhote de Belzebu.Afinal de contas – pensarão as desavisadas -, se é feio assim, a exclusividade está garantida, o que não é de se jogar fora hoje em dia.Beijos.

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