O SZEGERI E MEUS EXAMES

É preciso, antes de mais nada, pedir perdão por ontem, quando o Buteco não abriu. E não abriu porque passei grande parte da minha manhã na Barra da Tijuca, estranhíssimo bairro que evito como o Drácula evita uma cabeça de alho, em um consultório médico. E quando digo consultório médico tenho que lhes dizer quem é o médico: meu dileto amigo Vinícius.

Queixando-me de dores olímpicas, bati o telefone pro Vinícius na segunda-feira passada em busca do nome de um médico de sua confiança, que atendesse meu plano de saúde, para que eu pudesse marcar consulta. Fino – por isso também gosto dele, o Vinícius, que não atende o meu plano de saúde, disse “Vá se fuder, Edu!”, e marcou um horário pra mim no dia de ontem.

E lá cheguei na hora marcada.

Antes disso, pequena pausa. Durante a semana, bati o telefone pro Szegeri e contei-lhe tudo. E é preciso uma pequena confissão. O Szegeri, que sempre porta-se dessa forma, quando tem um amigo assim, digamos, adoentado, ou com alguma espécie de dor, e com médico marcado, não consegue disfarçar nem minimamente: fica entre a angústia e o pesar e a excitação e a euforia. Vejam isso.

– Szegeri, querido, estou com umas dores assim, assim, assado, e na quinta-feira tenho médico… – e sou cortado com fúria por um Szegeri varado de felicidade, “Quando mesmo? Quando mesmo?”, como quem pretende dizer que gostaria muitíssimo de estar comigo, ao meu lado, dentro do consultório (quando ele disse “quando mesmo” pude ouvir a baba a lhe escorrer pelo queixo barbado). Estar comigo mas não para me fazer companhia, e sim para acompanhar tudo de perto com a pretensão das velhas fofoqueiras das portarias dos edifícios da Tijuca.

Pois bem. Cheguei na hora e fui atendido. O Vinícius, um craque (foi minha primeira consulta com o bardo), pesou-me, mediu altura, tirou pressão, auscultou-me em vários locais do corpo (eu, o bobo, pensava que só no coração), apalpou daqui, apalpou dali, prendi a respiração, respirei fundo, e ele meteu lanternas nos meus olhos, na garganta, mexeu, remexeu, e disse ao final, cansadíssimo, “Edu… aparentemente – eu disse aparentemente… – você não tem nada. Fígado no tamanho normal, vesícula idem… sem dor…”, e eu ali, aliviadíssimo, pensando na frustração do meu irmão paulista.

Mas – todo médico investiga – o Vinícius pediu-me um exame de sangue completíssimo. Uma espécie de check-up do que me vai pelas veias. Despedimo-nos, agradeci do fundo da alma seu carinho, e da garagem mesmo do edifício onde fica o consultório, bati o fone pro Szegeri:

– Oi, oi, oi, e aí? – era ele excitadíssimo me atendendo (antes mesmo de ligar verifiquei que seis recados dele me aguardavam na secretária eletrônica).

– Tudo bem, os exames não deram nada a princípio, o Viní…

– Como nada? – vejam vocês a que ponto chega o meu bom Szegeri.

Eu nada disse, mantive-me calado.

E ele:

– Quer dizer… e a dor, porra?

– Ainda aqui, devagarinho… mas está… terei de fazer um check-up sangüíneo…

– Quando? Quando? Quando? – eu podia ver o sorriso em seu rosto.

– Provavelmente amanhã cedo…

– E o resultado? Quando? Quando? Quando?

– Sei lá, Szegeri! Porra! Vou saber amanhã…

– Jura que me liga assim que souber os resultados?

Eu mudo, desliguei, fingindo que caíra a ligação.

Percebam essa verdade inatacável que machuca um irmão seu: o Szegeri, hipocondríaco olímpico que é, acompanha um check-up de um amigo, acompanha um simples exame de um amigo, acompanha uma ida ao oculista (antiqüíssimo isso, hoje vai-se apenas ao oftalmo, assim mesmo, abreviado, que é mais chique) como quem acompanha uma final de Copa do Mundo.

Até.

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4 Comentários

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4 Respostas para “O SZEGERI E MEUS EXAMES

  1. E aí, já fez os exames??? 🙂

  2. Edu, obrigada pelo “oftalmo”… E parabéns pelo Buteco. Você realmente escreve muito bem, de um jeito que prende e nos deixa ansiosos pelo dia seguinte! Beijos, Ruivinha.

  3. Edu, e aí, qual foi o resultado dos exames? Bia

  4. Obrigado pelo fim-de-semana deletério. Passei o domingo na praia lendo seus exames e conjecturando hipóteses diagnósticas. Fiquei um tanto injuriado com o de hemácias glicosadas. Liguei hoje bem cedo pro meu médico pra saber por que diabos ele NUNCA me pediu! Afinal, eu tenho os meus direitos.

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