>A TIJUCA EM ESTADO BRUTO

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Cheguei há pouco do Mundial (o menor preço total). Promovendo uma queima de preços em razão de seu aniversário, o Mundial estava assim, l-o-t-a-d-o. Preciso dizer que falo do Mundial da Rua do Matoso, onde a Tijuca é mais Tijuca.

Um tijucano, como eu, de raiz, dos pés à cabeça, quando vai ao supermercado tem diante de si – se tiver essa capacidade, e eu tenho!, eu tenho! – um espetáculo vivo, tijucano, genuíno, que chega a ser comovente.

Vou contar a vocês algumas cenas:

cena 01) estou no corredor dos cereais. O locutor – há um locutor com a voz idêntica à voz do Sílvio Santos no Mundial, percorrendo os corredores com um microfone sem-fio anunciando promoções-relâmpago – vem em minha direção, estaca diante do meu carrinho (eu estava comprando Corn Flakes) – e diz em alto volume, “Oi, bom dia você, bom dia dona de casa, bom dia vovô, bom dia vovó… olha só quem está aqui… oi… dona Carlinda… bom dia!, mas oi… você… eu quero anunciar para os próximos cinco minutos o Corn Flakes por apenas um real, um real apenas… aqui na minha mão, quando eu vou pôr a etiqueta da promoç…” – e foi atropelado pela clientela. Tungaram o meu pacote de Corn Flakes e eu nada pude fazer. O que é importante ter em mente é que quando eu falo em clientela eu falo quase que da assistência de uma clínica geriátrica. Mas ali, naquele instante, diante da promoção, os velhos reumáticos e as velhinhas de cabelo azul eram lobos com fome na floresta.

cena 02) já avancei um bocado. Estou diante da gôndola dos pães de forma. Diante de mim, uma mocinha simpática surge com um bandejão, pendurado no pescoço, onde se vê um pratinho de pão de forma e outro tipo bisnaguinha, e um potinho de requeijão. Diz a menina, “Servido, senhor? Gostaria de provar nossos pães e nosso requeijão de soja?”, e eu digo, sorrindo (o que é raríssimo), “Não, obrigado…”. Mas a alcatéia não tarda. Só ouço o arrastar de sandálias, chinelinhos, tamanquinhos, e o falatório. “É de soja, filha?”, diz uma velhota já tascando duas bisnaguinhas e mordendo a primeira a seco. “Posso experimentar, querida?”, diz outra e a menina, “Mas de novo, senhora?”, e a indignada, “Petulante! Eu tô com fome!”, e a clientela concorda, “É muito petulante!”, “Abusada!”, “Vê se pode!”, “Ai esses jovens de hoje em dia…”, e em questão de segundos a menina é abandonada, cercada por migalhas e farelos, a bandeja árida, sem os pães, sem os pratinhos, sem o pote do requeijão.

cena 03) estou chegando ao caixa. Começo a pôr minhas compras na esteira. Um cutucão. Eu olho e é a velha faminta que agrediu a mocinha dos pães de soja. Ela, “Filho, posso usar seu carrinho ou você vai usar?”, e eu sem olhá-la diretamente (um perigo em supermercado), “Pode, senhora…”, e ela com a mão geladíssima e cheia de gordura (deve ter comido outro troço durante seu passeio pelo supermercado) no meu braço, “Ah, que bom, meu filho, é que eu tenho artrose, e pra ir lá fora pegar um carrinho…”, eu nem digo nada mas a velha que está pagando me pede licença e tasca também a mão no meu braço pondo a mão por cima da mão da primeira velha e diz, “Eu também. Um horror. Vamos juntas ali na Vita? Os remédios estão em promoção!!!!!”, e as duas saíram de mãos dadas, a outra esqueceu-se inclusive do carrinho. Era só mesmo pra encher o saco.

Até.

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1 comentário

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Uma resposta para “>A TIJUCA EM ESTADO BRUTO

  1. >Edu, você é realmente muito persistente. Eu teria desistido das compras antes mesmo de entrar no mercado, só de ver a multidão lá dentro!E como foi no Municipal desta vez?

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