UMA NOITE NO MUNICIPAL

Hoje à noite vamos, eu e a mulher que me ensinou a sorrir, ao Teatro Municipal, assistir “Carmen”, de Bizet, com o Ballet de Santiago, o que promete ser um programaço. Mas isso não interessa a nenhum de vocês, eu sei, eu sei. Mas é que a notícia é apenas mote. O que quero lhes contar é sobre a primeira experiência do casal no Municipal.

Nem lembro de quem foi a idéia.

Acho que lembro. Foi dela.

Foi, foi dela mesmo. Leu no jornal e disse um domingo pela manhã, “Querido… quero tanto ir ao Municipal com você… Está passando “Tannhauser”, de Wagner, vamos?”. Eu, que entendo tanto de ópera quanto a Pimenta, minha cocker spaniel, dei um salto no colchão e disse um enigmático “Pra quê?”.

Quero explicar a razão do meu “pra quê”.

Meu brevíssimo currículo na matéria inclui somente os clássicos, os clássicos mesmo: “Turandot”, “Barbeiro de Sevilha”, “Carmen”, “Aída”.

Jamais, mergulhado naquele colchão e na minha santa ignorância, ouvira falar de “Tannhauser”.

Mas geralmente o que ela me pede é como se ordem fosse.

E lá estava eu no dia seguinte na fila do Municipal.

Comprei os bilhetes.

E no dia marcado, lá fomos nós.

Um tijucano de quatro costados, como eu, quando entra no Municipal sente-se humilhado pela vaia coletiva imaginária, pelos inúmeros indicadores roçando seu nariz apontando a calça inadequada, a camisa inapropriada, os sapatos que nem os faxineiros da coxia usam. Foi assim que entramos (eu lembro que quando entreguei meu canhoto do bilhete pro porteiro disse baixinho, “Desculpa…”).

Sentamos.

E vai começar o espetáculo.

Vejam bem uma coisa. Eu não pretendo desrespeitar nada nem ninguém. Mas vamos ao que assisti. No palco, o cenário era o de uma taberna. Um sujeito, de pé, cantava, e tudo era traduzido no telão. Eis a tradução: “Me deixe ir embora”. Era apenas isso o que o sujeito cantava. E a patuléia, à mesa com ele na taberna do cenário, a cada “Me deixe ir embora”, cantava “Fica, fica, fica!”. Coisa de uns quarenta minutos nessa punheta.

Desculpa.

Quarenta minutos nesse mesmo movimento.

A cortina começa a fechar e a platéia, de pé, aplaude horrores (senti-me, preciso confessar, nesse momento, um jumento pastando no cenário campestre imaginário).

A Dani pra mim, “Fim do primeiro ato, vamos lá fora comer alguma coisa?”, e eu chorando de tédio e raiva, “Vamos”.

Comprei, bem lembro, dois saquinhos de amendoim. Fumei uns dois cigarros e dividi com a Dani meu constrangimento:

“Tu tá gostando dessa bosta, Dani?”

“Não”, e riu. “Nem um pouco… mas vai que melhora!”.

Toca uma sirene.

Voltamos ao nosso lugar.

Fazia um silêncio estarrecedor.

E eu – vejam isso! – abri, devagar, com calma, meu primeiro pacotinho de amendoim.

Ouvi o maior “shhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!!”, da minha vida.

Olhava em volta e o “shhhhh!!!!!” continuava, e as pessoas apontavam pra mim como se eu fosse a Fera da Penha ali, exposta. Despejei o conteúdo do saquinho de amendoim no bolso da camisa para que eu pudesse, ao menos, comer amendoim por amendoim sem o barulhinho do saco plástico.

Começa o segundo ato.

O mesmo cara agora está numa sala ampla.

Em frente a ele, uma camarada qualquer (não identifiquei ninguém, sequer segurei o libreto que me foi entregue na entrada).

Consegui entender que ele estava onde queria, ao lado da mulher que queria (tanto que ele pedia insistentemente “me deixe ir embora” lá na taberna).

A orquestra entra.

A mulher abre os braços e vai em direção a ele.

E ele, “Me deixe ir embora!!!!!!!!!!!!”, e ela dando saltitos “Fica, fica, fica!!!!!”.

Vai parecer mentira.

Mas não é.

Peguei a Dani pela mão e levantei-me.

Uma velha ao meu lado fez “shhhhhhh!!!!!” e eu joguei sobre ela o que restava de amendoim no meu bolso.

E eu gritei: “Indeciso! Chato pra caralho! Não sabe o que quer, porra! Quem vai embora sou eu, seu merda!”, e só sosseguei na Cinelândia quando quatro seguranças me pousaram no solo.

Até.

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1 comentário

Arquivado em confissões

Uma resposta para “UMA NOITE NO MUNICIPAL

  1. >Edu, dessa vez leve um pão com mortadela e polenguinho pra não passar fome com amendoim. Outra coisa: embora a história se passe na porta de uma fábrica de cigarros, e sabendo que você anda tendo problemas nessa área, não peça “as vinte” (guimba) de ninguém, pois pega mal, porra! Eu sei porque já tive problema semelhante quando foi aqui em Niterói. Falta de berço é uma merda.

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