Arquivo do mês: setembro 2005

ROYAL SALUT E UMA DO PAPAI

O Flavinho, nosso querido Xerife, fez colossal convite a mim e ao Fefê pra noite de ontem. Bateu o telefone cedinho pra mim e foi dizendo:

– Tens algo pra hoje à noite?

E eu que não recuso convites:

 – Tinha!

E ele:

– Quero você e o Fefê lá em casa hoje à noite então, vamos abrir uma garrafa de Royal Salut…

Eu fiquei mudo – bebera apenas uma única vez desse tesouro – e ele emendou “Cem dólares a garrafa!”.

Eis aí, nessa frase – “cem dólares a garrafa” – a certidão de nascimento do Flavinho e seu atestado de origem. Egresso do Cachambi, onde não tinha nem pro Teacher´s ou pro Old Eight, hoje morando no Flamengo, e na companhia da minha mui amada Betinha, o Flavinho ligou em seguida pro Fefê e foi um íntegro repetidor do que disse a mim no telefonema. Soube disso porque em minutos o Fefê me ligou:

–  Edu, você vai, né? Cem dólares… putz!

O Flavinho estava repetindo “cem dólares a garrafa” como quem respira.

Mas vamos ao encontro.

Apenas nós quatro: eu, Fefê, Flavinho e Betinha.

Eu cheguei primeiro (como sempre). O porteiro interfonou, fui autorizado a subir e eis que salto do elevador e o Flavinho está no corredor a minha espera. Abraça-me e diz “cem dólares, cem dólares!” e ficou brandindo a nota do DuttyFree no meu nariz (a Betinha chegou, há dias, da Suíça, e vejam que nisso, também, reside a escalada do Flavinho, cujas namoradas até então chegavam, no máximo, de Cabo Frio).

Tínhamos de esperar o Fefê pra abrir o tesouro, ele me disse. E o Fefê chegou em meia-hora. Toca a campainha, é o Fefê. O Flavinho vai à porta e, como fez comigo, espana o nariz do meu irmão com a nota fiscal e fica dizendo “cem dólares, Fefê!, cem dólares!”.

Antes de abrir a garrafa o Flavinho posou, deixe-me pensar pra que eu seja de novo preciso, para umas quinze fotografias abraçado à garrafa. Numa delas – eu vi!, eu vi! – o Flavinho sentou-se no sofá e ajeitou a garrafa em almofadas a seu lado e ficou fazendo festinha na tampinha até que disse pra Betinha “Pode bater, amor!”, e em seguida ficou estendendo a mão pra câmera dizendo “Deixa eu ver! Deixa eu ver! Ficou boa?”.

Mas bem. Abriu-se a garrafa. Ao primeiro gole, o Flavinho, “Hummmm…” pra logo em seguida pôr a boca em meu ouvido e repetir “cem dólares!”.

Um vizinho pôs-se a espiar pela janela em direção a nós (como estou velho, quem ainda usa o verbo “espiar”?) e o Flavinho, grosso:

– Qual que é, camarada? Nunca viu uma garrafa dessas não? Cem dólares, otário! Cem dólares!

E assim seguiu-se até que parti. Mas notem bem. Eu falei no vizinho do Flavinho e quero lhes contar uma do papai. Imperdível.

Eu cresci – e creio que também o Fefê – tendo uma piedade aguda dos vizinhos. Nutrindo um sentimento de pena, de dó, imenso, intenso, incessante, pelos vizinhos. Pensava ser, o vizinho, o ser mais solitário e abandonado da face da Terra. Tudo por culpa do papai. E quero explicar.

Cresci ouvindo o papai dizer coisas como: “Meus filhos… se o papai não se preocupar com vocês, vai se preocupar com quem? Com o vizinho?”, e nós dizíamos instruídos “nãããão…”.

Se um dia estávamos à mesa sem fome, lá vinha o papai. “Vocês têm que comer tudo!”, e nós, depois do muxôxo, ouvíamos, “Meus filhos… se o papai não se preocupar com a alimentação de vocês, vai se preocupar com a alimentação de quem? Do vizinho?”.

Tínhamos uma febrinha. E o papai vinha, com o termômetro, a cada meia hora. Bastava dizer “de novo, papai?”, e ele espetado e já enfiando o termômetro debaixo de nosso braço, “Se o papai não tirar a temperatura de vocês, vai tirar a temperatura de quem? Do vizinho?”, e notem que isso me fazia, às vezes, chorar escondido com pena do vizinho. Por que?, eu pensava, o vizinho é o último dos homens e o mais desprezível? Quem?, eu me torturava, quem cuidará do vizinho?

Ontem brindamos, em determinado momento, eu e o Fefê. Erguemos o copo e dissemos “Ao papai!”, ao que o Flavinho, “Alguma razão especial?”, e eu, repetindo o gesto do meu velho pai… “Flavinho… se nós não brindarmos à saúde de nosso pai, vamos brindar à saúde de quem? Do vizinho?”, e ele riu, apenas riu.

Até.

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PROVA DE CARINHO

Há um samba triste do Adoniran Barbosa que diz assim “Com a corda mi do meu cavaquinho fiz uma aliança pra ela: prova de carinho”. Pois tenham em mente esse samba, esse trecho do samba. O fundo para a leitura de hoje. Se você não conhece o samba, francamente…

Na foto, José Sérgio Rocha, mais conhecido como Zé Sérgio, que ontem – vejam que doçura a dele e vejam que quebra de sigilo de correspondência a minha! – escreveu-me assim na despedida de um dos inúmeros emails que trocamos ao longo dos dias: “Zé, orgulhoso de ter um amigo que nem tu, ô animal!”

Vejam que é no “ô, animal” que reside a doçura do Zé. Se além de não conhecer o samba você não compreende isso, francamente… (estou repetindo “francamente” hoje pela segunda vez e está me dando uma saudade aguda de ouvir o Brizola dizer “francamente” com a haste direita do óculos na boca).

Mas vamos ao Zé.

O Zé Sérgio esteve no Estephanio´s no domingo passado.

“Pra quê? Pra quê?”, perguntarão vocês. Vou responder.

Pra ver o Helinho tocar.

Mas o Helinho não estava lá.

Eis o primeiro acidente. Há o segundo.

Eu estava em casa e quieto. Recuperando-me da amigdalite e da faringite que ainda estão presentes. Toca o telefone. É o Zé Sérgio. “Estou indo pro Estephanio´s, a que horas você estará lá?”, e eu, piorando a voz, tossindo de propósito, “Acho que não vou (tusso mais)… estou com febre…”. E o Zé, aquela pompa, aquela educação, aquele respeito pelo mais próximo, “Foda-se. Não me despenquei de Niterói à toa”.

E lá fui eu. E piorei a olhos vistos, a cada par de minutos que passava, o biltre baixo do Zé Sérgio me oferecendo cachaça, capivodka, cigarros. Eu disse “Zé Sérgio me oferecendo” e preciso completar, “e eu aceitando tudo”.

Bem. A noite passava, o samba comendo solto, e o Zé decidiu passar da cerveja pra cachaça. Primeira dose? “Vou de Chico Mineiro”, decretou o Zé que não entende rigorosamente nada de cachaça. Pediu a segunda. E pediu a terceira.

Quando, animadíssimo, decidiu pedir a quarta dose, pôs os cotovelos no balcão e pediu ao Hilton: “Mais um do Chico de Assis”. O Hilton fez que não tinha. “Então do Chico Buarque”. De novo, o Hilton. Zé perdendo a paciência, “Chico Bento, porra!”, e quando o Hilton fez que não mais uma vez o Zé descontrolou-se, “Bar de merda! Bar bosta! Não tem as cachaças que eu peço…”, e o Fefê o interrompeu servindo-lhe mais uma dose esfregando o rótulo “Chico Mineiro” no nariz (vejam, na foto, como é adunco o nariz do Zé).

Aliás eu falei de nariz do Zé Sérgio e preciso lhes contar sobre a primeira impressão da Dani. Quando a apresentei ao Zé a Dani ficou, por trás dele, fazendo sinais estranhíssimos em minha direção. Eu, que sempre me comporto mal nessas situações, sou péssimo em disfarces ou sutilezas comportamentais, dizia “o quê? o quê? não estou entendendo!”, e o Zé sem jeito pensando que era com ele. E era. Mas vamos em frente.

Daí ela me chama num canto. “Conheço ele, conheço ele de algum lugar…”. E eu, espetado de curiosidade ficava repetindo “donde? donde? donde?”, e ela com as mãozinhas na cabeça, cotovelos apoiados na mesa, balançando a cabeça denotando o esforço que fazia pra lembrar. Até que explodiu, a Dani.

Abriu os braços e o sorriso (Maracanã lotado, vejam que imagem linda – e é do Szegeri, de novo). E gritou “Já sei!”. Eu pus meu ouvido em sua boca e fiquei “donde? donde? donde?”, até que ela… “De lugar nenhum…”, e passou a guinchar de rir chamando a atenção da assistência. “Ele é a c-a-r-a do Paulo Silvino!!!!!”, e aí o guincho foi coletivo, Fefê batendo palminha de tanto que ria, eu no chão, Dani rôxa, sem ar, e vejam pela foto se não é uma inapelável constatação. Vamos voltar ao domingo.

“O que é que tem…” – estão dizendo vocês – “…o samba do Adoniran com o Zé Sérgio?”

Vou explicar.

O Zé, a certa altura, a roda de samba havia terminado, já tinha bebido entre 8 e 10 doses de cachaça, cerca de 10 a 15 chopes, algumas cervejas em garrafa, uma capivodka de tangerina e comido, apenas, uma porção de bolinho de carne, “os melhores do mundo”, ele repetiu de boca cheia a cada bolinho que comeu. Pagou a conta. Estava se despedindo e saindo do bar quando voltou correndo e, vi apenas de longe, cravou as unhas no braço do Erasmo em cujo bolso botou umas notas de dinheiro. Fiquei obervando. Encostou-se no balcão e bebeu mais uma.

Passados uns dez minutos o Erasmo lhe estende uma sacola. E vem o Zé Sérgio em minha direção, andando como um pato bêbado, girando a sacolinha e estaca diante de mim num pulinho ridículo. E diz: “Não são os melhores do bolinho do mundo? Pois bem. Tô levando pra viagem pra melhor mulher do mundo!”. Deu-me um beijo, beijou a Dani e partiu em busca de um táxi, e eu só fiquei observando aquele sujeito caminhando e tratando a bolsinha plástica, que rodava sem parar, como se fora a bengalinha do Chaplin.

“Pobre Dôra”, pensei.

Até.

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ERA PRA SER SEGREDO

Bem. Pequena pausa para uns pigarros. Antes, vejam que foto linda. Minha garota ao fundo, meus livros, meus discos, e meu cigarro preferido. O Carlton. Peraí, pôrra… chorando antes de começar a escrever…

Como eu ia dizendo, aproveitando a amigdalite e a faringite que ainda me dão “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite” e me obrigaram a deixar o cigarro de lado uns dias, convoquei a Dani anteontem à noite pra uma conversa seriíssima. Mesmo. Sentei-a à minha frente e comecei meu pequeno discurso.

Afinal, eu havia decidido, horas antes, parar de fumar pela – deixe-me pensar para que eu possa ser preciso do início ao fim, como sempre… – oitava ou nona vez, não consigo chegar a um número preciso. E havia chegado a uma conclusão junto com a decisão. Não cometeria dois erros primários novamente, a fim de que, dessa vez, o êxito fosse definitivo. Em primeiro lugar, decidi não chegar pra ninguém e dizer, “oi, parei de fumar“, como sempre fiz. E em segundo, exercitar o despredimento e jogar fora meus isqueiros, meus BIC´s históricos, meus Zippos, meus fluidos, meus maços…

Peraí, porra, que eu chorando de novo! Eu disse “tô chorando” mas a Dani, super solidária, guinchou de rir diante de minha decisão.

Pausa de novo. Em frente.

Vai daí que tenho à minha frente, nesse momento, não o clássico cinzeiro, não o Zippo, não o maço de Carlton… mas uma caixa de Zyban 150mg, com 60 comprimidos, meus companheiros pelos próximos dois meses. Ô, merda, chorando de novo.

Um desafio me encoraja. Um, não. Dois.

Pra mim, que crio e recrio os troços segundo as conveniências mais vantajosas pro meu coração, o Toledão está borrando de rir de mim. “De novo, Vossa Goldenblância?”, grita ele. É. De novo. Repito pra dentro.

O segundo desafio atende pelo nome de José Sérgio Rocha, biltre de estatura moral rasteira. Parou de fumar, lembrem-se, para passar a soprar os cigarros, dizia ele. Até que sucumbiu, semanas depois, quando, na festa da Fumaça, abafou os gritos de “parabéns pra você” com os histéricos urros de “tô fumando de novo, porra!”. Vou provar a esse cidadão – anote aí, biltre! – que eu sou – ah, como ficamos sensíveis sem a merda da nicotina… – mais forte que você.

Também ouço daqui as gargalhadas do Dalton, do Fefê, do Dedeco, esses amigos mesmo, com A maiúsculo, que torcem pra que você tenha um enfisema pra depois baterem na caixinha dizendo, “grande cara, grande cara…”.

Como vocês podem ver, estou a sofrer do mesmo mal que o biltre do Zé Sérgio: abstinência tabágica. Como acabo de tomar meu primeiro comprimido lilás – oh, ah – dentro de meia-hora, segundo a extensa bula, devo estar melhor.

Bem, então, resumindo a opereta – me perdoem isso aí, nexo algum… – já mandei às favas minha primeira decisão, a de não contar nada. Quanto à segunda… , peraíchorando outra vez…, depois penso no que fazer com esses objetos tão… tão… fundamentais, como meu time de botão.

Até.

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A TIJUCA É A TIJUCA É A TIJUCA É A TIJUCA


O título da croniqueta de hoje é ufanista mesmo. Dito de peito cheio. Aliás, pra ser gritado de pé, no banquinho imaginário. Vou explicar tudo, timtim por timtim (começo antiqüíssimo, notem, ninguém mais diz timtim por timtim).Acordei no domingo disposto a ir fazer compras no Mundial na Rua do Matoso. Atenção vocês que não são da Tijuca. Isso é, creiam, tijucanice em estado bruto! Mundial e Rua do Matoso. Combinação perfeita. Desci sozinho, deixei Dani dormindo e fui ao carro.

E estaquei diante de dois pneus arriados. Os dois do lado direito. Obra de alguém, óbvio, pensei. Dois pneus? De uma vez só? Só podia ser sacanagem. Enquanto com os cotovelos apoiados no teto do carro, pensava no que fazer, escutei: “Psiu. Psiu. Psiu!”.

Virei-me e dei de cara com um camarada na janela do prédio ao lado, sem camisa, que acenou-me (vejam a plástica do gestual da Tijuca em cada quadro!) e disse “Bom dia, cara. Sei quem fez isso”.

E eu, “Sabe? Você viu?”.

Vejam agora essa cena, vejam isso… Vejam o estudo dos gestos do sujeito!

Ele faz sinal com uma das mãos pra que eu espere, assim, com a mão direita, como se buzinando uma buzina imaginária, indo e vindo, e eu entendo o recado (espere!), disse, “Ok, espero!”.

Volta, em segundos, segurando uma câmera digital, dessa vez na mão esquerda. E com a mão direita, usando apenas o polegar, fica apontando pra câmera e diz sorrindo, “Três fotos…”. E eu, àquela altura excitadíssimo diante de uma espécie de dona Vitória da zona norte, apenas disse, “Você pode descer pra me mostrar?”, e ele, com o mesmo sorriso no rosto, usando o mesmo indicador da mão direita passa a fazer que “não” com o dedo, emendando em seguida “Você tem email?”, e eu grito, “Tenho, tenho, tenho!”, e ele repete o mesmíssimo gesto da buzina imaginária e me manda esperar de novo.

Volta à janela dessa vez com um bloquinho na mão esquerda e uma caneta na mão direita, a câmera ele trazia nos dentes, pelo cabinho, e disse, de dentes cerrados, “Fala o email”. Eu falei. Daí ele com a mão direita tira o cabinho da câmera da boca e diz “Em minutos estará no seu email. Bom dia, cara!”.

Subi. E eis que vem chegando o primeiro email. Notem o subject: “flagra 1/3”. O segundo: “flagra 2/3”. E o terceiro: “flagra 3/3”.

Que espetáculo! Vejam que a foto aí em cima é a 3/3 e na verdade não traz nítido, como nas outras duas, o rosto do moleque autor do troço. Obviamente que eu não faria isso aqui, imolá-lo de público, mas pus essa foto porque essa história, contada sem a prova material, iria render comentários típicos, “lá vem o Edu inventando…”, “mais uma mentira do Edu…”, “ainda tem coragem de dizer que é preciso do início ao fim”.

Mas notem. A coisa não parou por aí. Desci com as fotos impressas e as entreguei à síndica. Queridos, em coisa de meia-hora, quarenta minutos, dezenas de vizinhos e vizinhas transitavam pela portaria. Alguns momentos.

Uma das vizinhas me pergunta de qual janela partiu a foto. Eu aponto. Ela ali se posta e começa “psiu! psiu! psiu!” e o cara aparece. “Filho, você gosta de bolo de milho?”, e ele meio sem entender disse, “Gosto, por que?”, e a viúva (era uma viúva) “Ah, então vem cá… quero te oferecer um bolinho pra agradecer esse teu gesto corajoso!”.

Outra propôs um piquenique pro meio da tarde. “Confraternização, poxa! Nós temos vizinhos tão legais“, e começou a chorar não sem antes dizer “os sanduíches de atum com ovo são meus!”.

Um outro, gentilíssimo, estendeu a chave de seu carro e disse “Se precisar, fica à vontade, me devolve só depois que consertar os seus pneus”, ao que sua mulher disse (eu ouvi), “Idiota, se fosse a minha mãe tu não pagava nem o ônibus”, ao que ele apenas fez uma careta pra ela.

E dessa festa de gentilezas, de simpatia, dessa distribuição de “obas”, de “olás”, de sorrisos e de ofertas as mais diversas, emergiu, no domingo, a Tijuca, a gloriosa Tijuca, em estado bruto.

Até.

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>A ESCUMALHA NO LEBLON, DE NOVO

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Para quem não se recorda, está aqui. Em 13 de setembro de 2004, escrevi sobre o que chamei a “Festa Unibanco” promovida pela Maria Paula para comemorar seu aniversário. Eu sou, como todos sabem, preciso do início ao fim, mas não sou tão bom com previsões. Vejam o que eu escrevi naquela oportunidade: “Eu tenho como certo que foi a última festa que ela promoveu em sua casa.”. E eu escrevi isso, que teria sido a última festa em sua casa, porque o que se viu, naquele dia, há um ano, foi um pânico só. Vizinhas chiquérrimas – no Leblon só há vizinhas chiquérrimas – dando pequenos ataques com taças de espumante pelos corredores reclamando do barulho, viaturas da Polícia Militar diante do edifício atendendo chamados de pobres moradores do entorno que não conseguiam repousar – no Leblon ninguém dorme, no Leblon repousa-se – o síndico ameaçando cortar o fornecimento de energia elétrica da cobertura portentosa da Maria Paula. Mas errei.

No sábado passado, dia 10, a Maria Paula comemorou mais um aniversário em sua cobertura. E, pasmem, cometendo o mesmo fatídico equívoco do ano passado: chamou a mesmíssima escumalha tijucana, que compareceu – não poderia ter sido diferente – em peso. Vamos aos nomes.

Eu, Dani, Flavinho, Betinha, Fefê, Brinco, Branco, Marquinho (esse nem convidado foi, mas a Tijuca é pródiga nesse item), Lelê Peitos, Lelê Alê, Manguaça, Fernanda, Zé Colméia, Duda, Marcusa, Vidal, Gláucia, Mauro, Guerreira, Fumaça. Dirão os mais atentos, “a Guerreira e a Fumaça não são tijucanas”, e eu, de pé, no banquinho imaginário, grito, “podem não ser, mas incorporaram a Tijuca com um afinco de dar inveja a um morador de há décadas da Praça Saens Peña”.

Vamos a mais um detalhe, esse que diferencia a festa de 2004 pra de 2005. No decorrer do ano, a Maria Paula, a doce Maria Paula, incorporou à sua vida um novo hábito, o do mergulho. E devo dizer, sem medo de errar, que o pessoal do mergulho é bastante coerente com relação ao esporte que abraçaram. Tratando a mesa onde estava a comida como se fosse um navio naufragado, o pessoal foi fundo, muito fundo, nos quibes, nas esfihas, nos charutinhos de parreira, nos pães árabes, no tabule. Uns faziam o papel de tubarões, comendo tudo o que viam pela frente – eu vi, eu vi!, um deles fazendo uma espécie de BigMac com uma boina árabe, pasta de grão de bico, kibes e charutinhos de parreira – e outros de exploradores afoitos, atropelando uns aos outros, a cotoveladas, pra voltar à tona só depois de abarrotados. Uma cena, devo dizer, impagável.

Como estava sem beber graças a uma crise de amigdalite e faringite, pude ver tudo com mais nitidez. Vamos em frente.

É preciso dizer, com relação à escumalha tijucana, que todos chegaram já vindos de uma festa, do Mestre. Logo, chegaram bêbados. E eis o que vi.

Nenhum dos membros da escumalha, rigorosamente nenhum deles, levou qualquer presente. A Brinco, por exemplo, assim que chegou, trocando as pernas, tirou da bolsa o envelope que todo tijucano, via de regra, leva consigo, e abraçando a Maria Paula, leu o bilhete dentro do envelope imaginário: “Mary, querida… seu presentinho vem depois…”, e riu. Mas quem riu, mesmo, fui eu. No ano passado também a vi chegando. E também trocando as pernas, e também dizendo “Mary, querida… seu presentinho vem depois…”. É isso. O “presentinho que vem depois” não chega nunca. A Maria Paula, uma educada sob padrões europeus, apenas riu e disse o também falso, “que é isso, querida?, o presente é sua presença”. E eu ri de novo.

A Duda chegou com o Marcusa. E não é possível não lhes contar um episódio capaz de lançar luzes sobre as tijucanices. Vejam essa do Zé Colméia.

O Marcusa é baixista. E toca num conjunto, o “Lois Lane”. E fez um show, o conjunto, na semana passada, na Barra da Tijuca. Convocados pela Duda, compareceram o Fefê, a Brinco, o Branco, o Zé Colméia. Lá pelas tantas, no intervalo, a escumalha já calibrada, alguém toma do microfone e diz, “Boa noite, senhoras e senhores… vamos agora passar uma lista pelas mesas para que possamos recolher o email de todos para divulgar o trabalho do grupo…”, e o Zé Colméia, que calça 50 e mede quase dois metros de altura, gritou “Cala a boca, pôrra! A gente tá cagando pro grupo, a gente veio aqui pra ver o Marcusa!”, e a escumalha derramou-se em aplausos, no que foi acompanhada pelo pai da Duda, fazendo calar a relações públicas da banda. Aliás, o pai da Duda, orgulhosíssimo com o namorado da filhota, foi quem puxou o côro, seguido por todos: “Marcusa, tamtamtam, Marcusa, tamtamtam, Marcusa, tamtamtam…”, e passou a pedir baldes de vinho tinto por sua conta. Vejam como a filha não puxou ao pai. Mas tijucano é capaz disso mesmo, dessas demonstrações genuínas de afeto pelos irmãos da terra em detrimento do resto do mundo. Voltemos à festa.

Houve uma moça que deu de presente à Maria Paula um número de dança do ventre. E quando a moça entrou no salão, já com a música árabe nas alturas, deu-se o susto. Baixinha, bem simpática, dançando bem pra burro, a moça mostrou o par de seios, sob o bustiê, é claro, e deu-se um “oh” e um “ah” uníssono e coletivo. Não vou falar sobre o tamanho dos seios da moça. Mas vou dizer o que o Zé Colméia gritou quando ela entrou.

O Zé apontou, acintosamente, pra Lelê Peitos, até então a mais farta no quesito, e gritou, “Com vocês… Lelê Mamilo”. Façam uma idéia do tamanho do guincho generalizado. O Mauro, bêbado, como todos, berrou “Alá é grande!”, e o Fefê, trôpego, de voleio, “Alá é duplo”, e o Branco, ajoelhado no chão, “Eu quero Alá”, e o Flavinho dando tiros pro alto, e o Marquinho, o que não foi convidado, apenas chorava num canto. Indagado sobre a razão do choro, disse apenas, “Nada não… constatei minha pequenez como ser humano…”. A moça, tadinha, cumpriu seu papel até o fim sem conseguir esconder, entretanto, o pânico diante daquele ataque verbal dos hunos em fúria.

Aliás, o Marquinho foi à mesa um momento. Meteu o dedo dentro de um prato e perguntou à garçonete, “O que é isso, filha?”, e ela, “Baba ganouj” (lê-se baba ranu). Ao ouvir a palavra “baba”, o Marquinho, que baba olimpicamente quando bebe, limpou o indicador no avental da serviçal e disse, “Pô, que nojo, quero não!”, e saiu.

Como estava me sentindo mal, parti cedíssimo, coisa que nunca fiz. Soube, há pouco, pela Maria Paula, que foram derrubados dez engradados de cerveja. Uma bela marca. Vou fechar reproduzindo trecho da dedicatória que escrevi no cartão entregue à Maria Paula. Alguns amigos decidiram comprar de presente pra Maria Paula um equipamento de mergulho caríssimo. Mas, inovando, não trataram de rateá-lo. Cada um daria o que quisesse. E assim foi feito. E o presente foi comprado. Eis o trecho do cartão onde escrevi esse lindo poema tijucano:

“Maria Paula, querida,
quero dizer sobre esse presente,
havido depois de um ratatá
que bastante dinheiro rendeu,
que ninguém, ninguém,
deu mais dinheiro do que eu”

Vejam que fino. Que elegante. E que sincero.

Até.

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EM SÃO PAULO – PARTE IV

Na foto acima, mais um atestado da minha feiúra olímpica da qual jamais me envergonhei, eu e o Capitão Leo, irmão da Stê, cunhado do Szegeri, um dos donos do Ó do Borogodó, bebendo cachaça, e justamente no Ó (a foto é de abril de 2005).

Lembrem-se de que hoje contarei sobre o mais bonito presente que já ganhei, como lhes prometi na segunda-feira.

A foto é de abril, como eu disse, e em maio, mais precisamente no dia 04 de maio, eu estive novamente em São Paulo, dessa vez a trabalho. Mas procurando aliar trabalho a prazer, encontrei-me com o Szegeri, o Augusto e o Capitão Leo no Bar do Giba, no final do dia, onde ficamos até umas duas da manhã. Quando partimos eu e Capitão Leo pro Ó, a fim de fazer uma horinha, pois meu vôo seria apenas às oito da manhã do dia seguinte. O Augusto – e nesse tempo eu ainda não o reconhecia como o biltre que hoje sei que ele é – foi direto pra casa, o Szegeri ainda nos acompanhou no Ó por umas horas, mas ficamos, de umas quatro até as sete da manhã, os dois, no balcão do Ó, bebendo Amarula, Seleta, Lagoa Azul, Brahma, Vermute, Cinzano, Campari, derramando elogios ao mundo, críticas ao mundo, quando o Leo, crava a mão no meu antebraço e diz, segundos depois de me entregar o CD do Grupo Pau d´Água, do qual faz parte: “Sabe, Edu… as duas coisas que eu mais amo no mundo são a minha irmã e a minha cuíca… como não posso te dar a minha irmã, que já é do Fernandão, vou te dar minha cuíca…”.

Algumas explicações necessárias. Essa frase, do Capitão, encaixa-se no rol do que meu irmão Szegeri chama de “é mentira mas é lindo”. Um exemplo. Uma vez meu Otto reclamava que ninguém lhe dera um filho para ser padrinho, que isso era a prova de seu fracasso pessoal. Fefê, à mesa nessa ocasião, tocado e chorando com a pungente confissão do Szegeri, disse, “Szegeri, quando eu tier um filho você será o padrinho…”, e o Szegeri, guinchando de chorar, urrou pro bar inteiro ouvir… “que lindo! que lindo! eu sei que é mentira mas isso foi lindo!”. Bem, contei tudo isso pra dizer que, obviamente, o álcool e o excesso de carinho que temos um pelo outro – quase que de cara, desde Cajaíba – foram os responsáveis pela frase do Capitão.

E eu repeti a cena do Szegeri naquela madrugada de maio. Disse, olhos cheios d´água, “pô, Capitão, mesmo sendo mentira foi lindo…”, e apenas brindamos e bebemos mais.

Nesse sábado, no Ó, vem à mesa o Capitão Leo (eu devia estar na Seleta número 08). Com uma cuíca. Estende a caixa pra mim e diz, “é tua”.

Vejam bem. Eu não saberei reproduzir o que houve com a precisão que nunca me falta. Eu guinchava como um javali, e a Dani, tadinha, lembro bem disso, ficava fazendo festinha na minha cabeça, e eu cutucando o Szegeri, que por sua vez sorria como um mágico assistindo a mais um de seus truques (aliás, bebeu pouco o Szegeri, o final de semana inteiro, o que irritou-me sobremaneira), e eu fiquei, ali, naquela hora, sob o que chamei “efeito cuíca”. Que durou o domingo inteiro, inclusive.

Aliás, quando acordei no domingo dei de cara com a Stê na cozinha. E disse a ela após o bom-dia, “nossa, Stê… que lindo o gesto do teu irmão com a cuíca ontem…”, e ela riu de fazer acordar a Dani e o Szegeri. “O que foi, pô?”, eu disse quase magoado com o deboche. “Nada, Edu. Você deve ter dito essa frase ontem, por baixo, umas 200 vezes”.

O tal efeito cuíca.

Até.

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>EM SÃO PAULO – PARTE III

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Conforme eu havia dito, acordamos quase ao meio-dia no sábado. E sábado, em São Paulo, é dia de feijoada no Ó do Borogodó, com roda de samba dos Inimigos do Batente, condução doce e segura dos meus compadres (mesmo) Szegeri e Railídia, pais da minha Iara. Falei em condução doce e segura e preciso falar do extremo oposto. Eu mesmo.

Tendo prometido quebrar meu próprio recorde no Ó, decidi que beberia 13 doses de Seleta. E isso, vejam vocês que imaturidade, só pra me mostrar pro Marcão, que não apareceu, fazendo do meu porre quase que um troço à toa. É que na última vez em que estive no Ó, bebi 12 doses da mesma Seleta. E no dia seguinte encontrei o Marcão, o mesmo gênio da raça que descobriu as semelhanças uterinas entre o Bandeira Brasil e a Lecy Brandão, e mandei, “Marcão… ontem foram doze Seletas lá no Ó…” e ele, de primeira, com aquela voz que o Szegeri imita com perfeição (estou escrevendo e ouvindo a voz do meu Otto a imitá-lo), “Porra, Edu, doze seletas? Nem se fosse laranja eu acreditaria!”.

Por isso convidei o Marcão pro Ó no sábado. E pedia as doses de cachaça à Ana – sempre pra Ana – e ela ia marcando minha comanda e eu contando os “x” só pra mostrar pro Marcão. Tudo, como eu disse, em vão. O Marcão não apareceu e eu – dizem os presentes – desapareci. Eu disse que pedia “sempre pra Ana” as doses de cachaça pra que ficasse ainda mais claro o ridículo da minha situação. Foi a doce Stê quem me contou no dia seguinte.

Trocou o turno das garçonetes. Saiu a Ana. Entrou outra (cujo nome não lembro mesmo). E a Stê contou-me que eu uurava “Ana, Ana, Ana!, mais uma, mais uma!”, e a coitada da substituta dizia-me, a cada nova dose servida, “eu não sou a Ana, senhor”, ao que eu respondia, “engraçadinha você, heim, Ana!”, “sei, sei, e eu não sou o Edu…”, e outras merdas do gênero.

Mas merdas mesmo aconteceram no Pasquale.

Não lhes contarei nenhuma, que eu não abri o Buteco pra acabar comigo mesmo.

Vou lhes contar só a mais bonitinha da noite.

Mesa de cinco: eu, Dani, Szegeri, Stê e Roberta Valente. Aliás, muito valente. Era quem nos conduzia em seu veículo pelas ruas…

Levanto-me no meio do jantar e vou ao portentoso jardim que fica na entrada do restaurante. Diante dos olhares incrédulos dos clientes que fazem a enorme fila de espera, ajoelho-me na terra, como se fora eu o próprio Belchior, o jardineiro corcunda de Leôncio Almeida, apaixonado por Isaura (que troço antigo!!!!!), e arranco, com raiz e tudo, lírios, avencas, rosas e dálias. E volto ao salão, deixando cair terra por onde passo – isso inclui o interior dos pratos de algumas mesas que ficam pelo caminho – e reparto meu buquê em três e entrego à Dani, à Stê e à Roberta, não sem antes fazer um discurso emocionadíssimo sobre a presença das mulheres em minha vida (algo assim).

Como notei – contaram-me essa depois – que o Szegeri ficou triste sem flor alguma, fui ao banheiro e tomei daquela peça branca, plástica, em formato de estrela do mar, com uma pedra azul no meio, tipo sabão, que fica a desinfetar os mictórios. E levei-a à mesa para, após emocionado discurso sobre a presença dos amigos em minha vida, entregá-la a um enojado Szegeri.

Até.

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>EM SÃO PAULO – PARTE II

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Prosseguindo a saga em São Paulo, no último final de semana, vamos falar hoje do Ó do Borogodó, na Rua Horácio Lane 21, na Vila Mariana, cuja fachada é mostrada na foto. O Ó do Borogodó é, de longe, na minha insuspeitada opinião, eu que sou preciso do início ao fim, o melhor buteco de São Paulo. Tem tudo, rigorosamente tudo, o que um bar precisa pra aplacar o coração e a alma de um biriteiro. Vamos por partes.

Tem, à frente, no comando, a doce Stê, companheira do Szegeri, o meu Otto, meu emotional-trainer, e o Capitão Leo, seu irmão. Tem banheiros pichadíssimos, com inscrições profundas, de fazer o delírio dos que vão tirar água do joelho. Tem um time de garçonetes de fazer o cliente pedir Isordil segundos após o ingresso na casa. Aliás, vivi hilariante epsiódio por lá dessa vez. Estava à mesa com a Dani e vi passar a Ana, uma negra de sorriso arrebatador – embora incapaz de fazer frente ao Sorriso-Maracanã da minha Dani. Fiz sinais com a mão e pedi uma dose de Seleta e uma Brahma, que a cerveja lá vem à mesa coberta pela capinha de gelo que faz chorar o cidadão. E volta a Ana, sambando, gingando, sem deixar cair a cachaça e sem fazer tremer a garrafa. Daí, sem sentir, comecei a cantar, “Quero seu amor, crioula… crioula… por favor não seja tola…” e Dani deu-me uma varada no rosto que rodou 360 graus, fazendo com que eu tivesse uma visão panorâmica privilegiada do Ó. Tem paredes vermelhas que dão um tom entre o sinistro e o sagrado à casa. E uma vista, de frente, pro muro do cemitério, pra facilitar o passeio dos que exageram na birita. Mas vamos dar seguimento ao périplo.

Como lhes contei, saímos eu, Dani e Augusto, a pé, da Mercearia São Pedro em direção ao Ó do Borogodó, onde acontecia a roda “Amigos dos Inimigos” com a cantora Graça Braga como convidada. Era 2 de setembro e, mal chegamos, Szegeri deu início a uma homenagem lindíssima ao aniversariante, Aldir Blanc. A casa veio abaixo. E veio à mesa a Graça Braga, a quem eu nunca tinha visto. Outra negra de presença intensa, vozeirão de fazer chorar os mais emotivos, eu sou um deles, e ouvir a Graça cantar fez com que a minha noite tomasse proporções homéricas já que eu chorava e punha cerveja pra dentro numa velocidade estonteante. Lembrei-me de alguns detalhes comoventes.

Quando chegamos a casa estava lotada e com uma fila de INSS. Capitão Leo, nos vendo do lado de fora, abre uma portinha lateral e por ela nós entramos, e meu irmão Szegeri, chorando abraçado comigo disse – só pra me fazer chorar também – “O bar tem mais de 80 anos e nunca ninguém entrou por aí…”. Vejam que é uma besteira. Mas me derrubou.

O Szegeri tomou, à certa altura, do violão, e mandou “Saindo à Francesa”, pro Toledão, e o biltre do Augusto, guinchando no meu ouvido, “É a octagésima segunda homenagem que o Fernando faz ao Toledo…”, e eu retribui o comentário maldoso com um soco no omoplata do Augusto que, do chão, apenas ria e pedia penico (vejam que coisa antiga “pedir penico”!).

O samba comeu solto até às cinco da manhã. Chegamos em casa, de volta, às seis. Dia claro, passarinhos cantando naquele pedaço da Vila Romana, onde está encravada a Mansão dos Szegeri, e dormimos até o meio-dia quando, acreditem, começou tudo de novo, com ainda mais intensidade como vocês verão amanhã.

Até.

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>EM SÃO PAULO – PARTE I

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Como lhes contei na sexta-feira passada, passamos, eu e Dani, o final de semana em São Paulo. Uma viagem, digamos, motivada por dependência química emocional. Desde a partida do Toledão, eu e meu irmão Szegeri vínhamos gastando fortunas em ligações telefônicas e um final de semana cara a cara pareceu o ideal para aplacar as saudades e aliviar o bolso. Quero inclusive lhes dizer, desde já, que dedicarei a semana no Buteco a esse final de semana mágico, e vou fechá-la, a semana, na sexta-feira, lhes contando sobre o mais bonito presente que recebi em 36 anos de vida. Vamos em frente.

Biriteiro tem dessas coisas mesmo. Um orgulho danado de apresentar aos amigos o seu buteco de fé. Na foto, a Mercearia São Pedro, templo freqüentado pelo Augusto, um dos presentes que o Szegeri, meu Otto na íntegra, me deu de bandeja. Parti do Rio na sexta-feira no vôo das 11h15min e ao meio-dia já estava em solo paulistano. Achei por bem, antes de iniciar os trabalhos, se é que me entendem, fazer uma visita que devia a uma grande amiga de lá, a Bia, morando há pouco tempo num bairro chamado Paraíso. Aliás, o nome do bairro foi o prenúncio do que eu viveria em São Paulo nas 48h seguintes.

Saí da casa da Bia às 16h em direção ao buteco da foto por ordens do Augusto, “É o meu bar, porra, me espere lá!”.

A Mercearia, na Rua Rodésia 34, é um troço enlouquecedor, e tentarei ser fiel, preciso do início ao fim, descrevendo o troço pra vocês. É uma mercearia, é um buteco, é uma livraria, é uma locadora de filmes, tudo no mesmo espaço. Biriteiro tem mesmo dessas coisas, e em segundos já estava em casa. Comprei um livro – “O Amante Detalhista”, de Alberto Manguel -, pedi uma Original e sentei-me ali, naquele caos ordenado, e em pouco tempo a doce Stê e o Capitão Leo, seu irmão, ambos donos do melhor bar de São Paulo, o Ó do Borogodó, me faziam companhia. Diante da demora do Augusto, biltre de currículo sujíssimo, o que me faz amá-lo, fomos à casa nova da Stê e do Szegeri, que eu ainda não conhecia. E que casa!, que casa! Encravada no bairro da Vila Romana, é casa de quintal amplo, pé direito altíssimo, e ficamos ali, na cozinha, à espera do Augusto que chegou, vejam vocês, de terno e gravata, em questão de meia-hora. Bebemos umas latinhas aguardando a hora da chegada da Dani, que saiu do Rio às 20h. Eis a primeira hilariante cena do final de semana. Segundo previsões do Augusto, levaríamos uma hora e meia até o aeroporto, ou seja, uma viagem de ida e volta de ponte aérea. Eu, assustadíssimo com aquele trânsito que não andava e o Augusto guinchando na direção, “Pô, o trânsito hoje está uma beleza, uma beleza!”. E falava sério, o biltre.

Pegamos Dani em Congonhas e voltamos à Vila Romana onde já encontramos o Szegeri em casa. Abraços, pequenos chôros pela alegria do encontro, mais latinhas de Brahma, e fomos, eu e Dani, acompanhar o Augusto à sua casa onde ele tiraria aquele escafandro para que partíssemos para o Ó do Borogodó. Mas eis que o Augusto decretou: “Me esperem na Mercearia”, que fica a poucos metros de sua casa.

A carinha da Dani ao entrar na Mercearia foi como a minha, quando cheguei à tarde, e já fez valer a pena a viagem e o investimento. O susto pela confusão ordenadíssima, o delírio diante das pilhas de livros apoiados nas garrafas, e ficamos ali, no balcão, à espera do Augusto, bebendo umas cervejas que vinham cobertas pela capinha de gelo que faz chorar um biriteiro, que biriteiro tem dessas coisas, essas pequenas emoções diante da beleza desses detalhes que fazem toda a diferença.

E eis que chega o Augusto que, como era de se esperar, começa a se exibir pra nós, cumprimentado garçons, beijando o gerente, chamando todo mundo pelo nome, com aquele orgulho a que me referi. E apresentou-nos o Marquinho, um dos donos, o Tonho, pilotando a cozinha, o França, “o mais famoso garçom da Mercearia”, o Neto, mistura de barman com gerente geral do furdunço, e devastamos sanduíches de pernil – Betinha, querida, de deixar o Opus, ó, no chinelo… – e mais cerveja, e doses cavalares de Germana, que o Augusto estava mesmo a fim de se exibir.

De lá partimos, a pé, pro Ó do Borogodó para a roda “Amigos dos Inimigos”, que acontece uma vez por mês, às sextas-feiras. Os “Inimigos do Batente” receberam a cantora Graça Braga que quebrou tudo, e amanhã lhes conto mais sobre isso.

Até.

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SZEGERI EM PARATY

Como lhes contei ontem, estivemos, eu, Dani, Guerreira e Fumaça, no “Che Bar”, em Paraty. Para onde o Szegeri, meu Otto 24h por dia, não foi. Mas foi. Vou explicar.

Em 20 de janeiro de 2004, escreveu meu irmão paulista no Sodói, um de meus cantos prediletos: “Inauguro este espaço, dedicado à coleção das minhas sandices e conduzido pelos rios que cortam a minha vida, neste dia de São Sebastião do Rio de Janeiro – o mais caudaloso dos meus rios. São Sebastião, sincretizado com Oxóssi pelos cariocas, orixá que rege este ano e padroeiro da minha querida Portela, outro rio que atropelou minha vida pré-egressa de mangueirense. Tudo em casa, portanto.”

Vejam bem uma coisa. Vejam como os rios caudalosos a que se refere o Szegeri são incontáveis, e vejam mais, como um desses rios, que criei com lágrimas em Paraty, foi desaguar dentro do “Che Bar”.

O bar é uma maravilha cubana em Paraty. Fotos de Fidel, de Che, bandeiras de Cuba, fotos de Vinicius de Moraes, tudo contribuía para que babássemos à mesa. Estávamos bebendo mojito como se fosse água e eis que um dos cantores que lá se apresentava disse “agora com vocês, Maria Martha”.

Ruiva, baixinha, violão na mão, Maria Martha sentou-se diante do microfone e eis que o rio transbordou. Antes mesmo do final da primeira canção – que depois eu soube chamar-se “Leilão” – eu guinchava de chorar alagando o entorno da mesa, que mais parecia, àquela altura, uma jangada à deriva. Uma voz absurda, uma sensibilidade agudíssima, e Dani urrava “excelente, excelente, excelente!” ao final de cada canção. Guerreira e Fumaça, boquiabertas, e eu ali, chorando, chorando, comovido diante daquela – eu pensava – descoberta. Dei graças a todos os deuses por não estar com o celular. Caso contrário, gastaria fortunas ligando pro Szegeri somente para que ele ouvisse – bêbado tem desses troços – Maria Martha ao vivo. E foram horas de deleite e fui a ela e lhe disse, sincero em último grau: “Olha… você tem a voz mais bonita que eu ouvi nos últimos 20 anos, pelo menos…”, e ela, um doce, ao lado do marido, Ricardo, outro praça, agradeceu devagarinho, deu-me seu cartão e convidou-nos para assisti-la no dia seguinte, na hora do almoço, em outro bar.

Fomos, é claro.

E lá comprei os 5 CD´s que encomendara na véspera. Um para mim e outros 4 para alguns amigos. Daí liguei pro Szegeri assim que cheguei ao Rio.

E quando eu lhe disse, “Malandro, comprei um CD pra você de uma cantora que conheci em Paraty que é um absurdo… Maria Martha”.

Silêncio.

Fungadas.

Guinchos szegerianos.

“Eu amo a Maria Martha, pô! Ela é amiga da Robertinha Valente, cantou muito aqui em São Paulo… não acredito nisso… coincidência…” e ficamos, os dois, gastando uma fortuna pelo telefone, interurbano, até que desligamos.

Foi quando eu tive a certeza de que foi um dos rio do maluco do Szegeri que me levou, de canoa, pra Paraty e pro “Che Bar”. Onde desembarquei diante da Maria Martha que eu, vejam como sou tolo e um incapaz de conceber as mágicas desse monstro que é meu irmão paulista, pensava ter descoberto pra mim e pra ele.

Pra evitar maiores gastos com telefonemas – tem sido nossa rotina, irmãos que se amam fazem mesmo isso – estou indo, daqui a pouquinho, pra São Paulo. Levando o CD e uma vontade indizível de, como dizer isso sem parecer um biriteiro baixíssimo?, navegar por mares de cevada, lúpulo e outros cereais.

Maria Martha tem um site, onde se ponde conhecer um bocadinho mais sobre ela.

Até.

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