Arquivo do mês: setembro 2005

>DA SÉRIE A TIJUCA É A TIJUCA II

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(continuação)

Vanda Lúcia na cozinha. Olhos nas panelas e ouvido na direção do banheiro, onde faz silêncio. Vai ao corredor. E bate à porta:

“Alô? ´cê tá bem?”

O que pode parecer preocupação com o marido – que chegou trôpego em casa – é na verdade ansiedade.

“Vanda Lúcia, que pergunta é essa que tu nunca se preocupou comigo, Vanda Lúcia? Tô ótimo, por que?”

“Nada, Alô. Só estranhei que o chuveiro não tá ligado, e daqui a pouco a janta tá na mesa…”

“Vanda Lúcia, a janta vai andando pra mesa ou é você que põe os pratos? Não enche, Vanda Lúcia. Tô soltando um barro. Já vou”

A categoria do Aloysio era comovente.

E Vanda Lúcia fez cara de nojo no corredor e teve náuseas só de lembrar do marido saindo do banheiro com aquele cheiro insuportável de Leite de Rosas, que ele adorava. Vai à janela fumar outro cigarro.

Lá está a cabecinha da Bizantina virada pra cima.

Vanda Lúcia vai à cozinha não sem antes esticar o dedo médio em direção à vizinha.

Aloysio está no vaso lendo o “Extra”, amarfanhado. Apalpa os bolsos do paletó, que está no chão, em busca dos cigarros e da caixa de fósforos. Acha os cigarros. A caixa de fósforos. E um bilhete: “Aloysio, te quero a cada dia mais.”, e só um beijo marcado de batom, sem assinatura. Aloysio, bêbado, cérebro a meio pau, não se lembra de nenhum encontro, de mulher nenhuma. “Pô, não estou tão bêbado assim…”, pensa.

Dona Bizantina esperara Aloysio chegar na portaria. Subira com ele no elevador. E colocara o bilhete no bolso de seu paletó, sem trocarem palavra.

Aloysio, ato contínuo, depois de se limpar, mistura o bilhete ao papel higiênico e dá descarga. Liga o gás e toma o banho. E sai, nu.

Vanda Lúcia, o jantar já pronto, ao sinal da porta aberta, voa pro banheiro. Diz a frase de sempre:

“Alô, eu não agüento mais esse fedor de Leite de Rosas…”

Aloysio, como de hábito, nem responde. Está dentro do quarto minúsculo vestindo o pijama.

Vanda apanha o terno no banheiro. Vasculha os bolsos. Nada.

O pendura num cabide atrás da porta do quarto e vai à janela.

Nem sinal de Bizantina.

“Alô, tá na mesa!”

Aloysio chega. Senta-se.

“Puta merda, Vanda Lúcia… ensopado de frango de novo?”

“Aloysio, tu encontrou com alguma mulher hoje?”

“Você sabe que eu odeio ensopado de frango…”

“Aloysio, tô falando contigo!”, espeta o garfo na mesa.

“Só pode ser de sacanagem, Vanda Lúcia. Eu odeio ensopado de frango!”

(continua amanhã)

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>DA SÉRIE A TIJUCA É A TIJUCA…

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A Vanda Lúcia mora no quinto andar, de frente. Tem o péssimo hábito de bater as cinzas do cigarro na janela, e vão todas morrer no apartamento de baixo, onde mora a Dona Bizantina, viúva e como as viúvas, cheia de manias. A Vanda Lúcia é casada com o Aloysio, a quem chama de Alô, jogador, mulherengo e biriteiro. Não têm filhos.

Dia desses toca a campainha da Vanda Lúcia.

“Bom dia, dona Vanda Lúcia. Olhe bem, a senhora está impossível com esses cigarros, minhas cortinas estão um nojo, um nojo!”, era a Dona Bizantina dando um escândalo no corredor. E um escândalo num corredor na Tijuca significa portas sendo abertas e pequenas frestas contendo dois ou quatro olhos, ou ouvidos, que na Tijuca tudo se sabe.

Vanda Lúcia, finíssima, de lenço na cabeça e cigarro no canto da boca nada diz. Espera o ataque da vizinha e bate a porta depois de um “passar bem” aos gritos. E quando bateu a porta, uma dezena de portas bateram em seguida, em uníssono, havia 15 apartamentos por andar naquele muquifo perto do Largo da Segunda-Feira.

Vanda Lúcia vai à janela e espera o que era óbvio, Dona Bizantina pôr a cabeça pra fora e olhar pra cima. E a Vanda Lúcia sorri e bate a cinza, como de costume. Dona Bizantina, como tartaruga no casco, entra. Entra mas grita da janela, “Bisca!”.

E segundos depois: “Cornuda!”.

Vanda Lúcia quase teve um treco na sala.

Vai ao quarto andar.

Soca a porta.

E Dona Bizantina de dentro, sem abri-la, “O que foi agora?”.

“Tu me chamou de cornuda, bruaca? Chamou?”.

“Com conhecimento de causa. E me dê licença.”

Vanda Lúcia pensa, “Ih, porra, deixei o feijão no fogo!”, e sobe.

Sobe e olha o relógio na cozinha. Em duas horas, no máximo, o Aloysio chega.

Vanda Lúcia liga a TV. Vai assistir, como sempre, o programa do Wagner Montes na TV Record. Já está no segundo maço do dia, anda fumando demais mesmo. Morre de rir, como sempre – ah, as rotinas na zona norte – das falas do Wagner Montes, a quem acompanha desde os tempos de “O Povo na TV”. E dorme no sofá comprado em 36 prestações.

Acorda com o barulho das chaves.

Aloysio. Bêbado como um nem-sei-dizer-o-quê. Tropeçando, se lança sobre o corpo de Vanda Lúcia que diz “Chispa daqui, Alô! Que estado é esse? Que bafo! Sai, sai, sai!”.

“Mas Vanda Lúcia…”, e esse “Vanda Lúcia” dito pelo Aloysio era um espetáculo. As sílabas ditas bem devagar, o “u” do “Lúcia” demoradíssimo…

“Não tem mas, mas… pro banho, anda!”.

Toca a campainha. Abre sem nem olhar no olho mágico.

É a Dona Bizantina.

“O que foi agora?”, Vanda Lúcia sem paciência alguma, fumando.

“Dá uma olhadinha no bolso esquerdo do paletó dele, dá. Cornuda!”.

Vira-se e desce de escada mesmo.

Aloysio está no banheiro.

Trancado.

Provavelmente – ela deu uma olhada rápida no quarto-e-sala – entrou no banheiro sem tirar nem o paletó.

“Benhê?”

“Que foi?”

“´cê vai demorar?”

“Não, por que?”

“Nada. Pra eu esquentar a janta”

Vai à janela da sala.

A Bizantina está lá. Carinha virada pra cima. Sorrindo.

Vanda Lúcia joga o cigarro aceso mas não acerta.

(continua amanhã)

Até.

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>AGRADECIMENTOS PÚBLICOS

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Na foto, a orquídea que ganhamos da Val, eu e Dani, em 2000, no dia 18 de setembro, quando festejamos um ano vivendo juntos. Há 5 anos, portanto – esta foto é de ontem – a bichinha dá flores uma vez por ano, justo quando vem chegando a primavera (estou escrevendo sobre flores e sobre a primavera e estou conseguindo ver a cara de susto do Zé Sérgio).

Bem. O que eu quero hoje, justamente, é agradecer aos amigos que foram ao Estephanio´s no sábado comemorar os nossos 6 anos juntos. Como eu sou preciso do início ao fim, vou dar nome a quem foi: Betinha, Flavinho, Paulo Roberto, Marquinho, papai, mamãe, vovó, Guerreira, Raquelina, Marcy, Maria Paula, Armando, Miguel, Juliana, Sérgio, Cícero, Fefê, Brinco, Branco, Comandante, Dona Sá, Alex, Amanda, Zé Sérgio, Dôra, Augusto, Duda, Beth, Cachorro, Cris, Dalton, Manguaça, Fernanda, Manguaço, Marcelo, Duda, Vinagre, Arthur, Calu, Cissa, Mariana, Marquinho, Milena (cada vez mais linda…), Mauro, Gaby, Zé Colméia… acho que não esqueci ninguém.

Não, eu não esqueci o Vidal. O Vidal não foi e sua ausência foi um corte. Vejam bem. Um corte. Não ligou. Não mandou um email miserável que fosse. Nada. Como não creio que meu irmão tenha mudado tanto, atribuo a falha grave que me cortou às novidades, às novidades. Que eu, aliás, nem sei quais são. Pigarrinho e vamos em frente.

O que houve de cômico.

Eu havia comprado 4 quilos de lentilha e 15 de carne, eis que a Lentilha Carneada que sirvo desde 2000 nessa data, é suculenta e merece o que pode lhes parecer exagero. Mas o Zé Colméia, que calça 50 e mede quase dois metros, bateu o telefone pra mim à tarde e disse “Tô indo hoje, heim!”, e eu voltei ao mercado pra comprar mais 3 quilos de lentilha e mais 5 de carne. Ainda bem.

A Dani, mais atenta que eu, comentou chocada, já em casa, “Nossa… o Zé comeu, eu vi, 11 pratos transbordando…”.

O Branco, dono de beleza acachapante, chegou e chegou trôpego, vindo de um churrasco. E abraçou o Comandante, chegado de um casamento e de terno e gravata (estava, assim, de terno e gravata, mais Comandante que nunca). E disse o Comandante, “Você então é que é o beleza acachapante?”, e o Branco rindo, rindo, disse, “É… dizem…”, e o Comandante, de voleio, copo de chope erguido, pede silêncio e diz, “Se eu sesse mulher meu útero hoje seria seu”, e gargalharam os dois, marcando pra domingo que vem uma carraspana em Volta Redonda, onde jogará o Fluminense. Como o Branco é tricolor e vai ao jogo, e como é lá que mora o Comandante, está feita a conveniência.

O Comandante, mantendo uma tradição de há décadas, cantou “Perfídia”. Num determinado momento virou-se pra Dôra, mulher do Zé Sérgio, e disse, “Querida… você faz lembrar, sendo que muito mais bonita, a Liza Mineli…”, e o Zé teve de ser contido pelo Augusto e por mim, já que dizia de dentes cerrados apontando pra Dôra, “Tu pode ser Comandante mas quem manda aqui sou eu…”. Uma coisa, uma coisa.

Delirante foi ver a Milena, nossa afilhada, a primeira que ganhamos, cada vez mais linda, cada vez mais doce, até às 3h, ali, sentada conosco, me deixando uma alegria no peito que ela nem sabe.

Como foi delirante ver e ouvir a Cissa cantando, e a Calu tocando, “Catavento e Girassol” pra nós dois.

Até.

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ROYAL SALUT E UMA DO PAPAI

O Flavinho, nosso querido Xerife, fez colossal convite a mim e ao Fefê pra noite de ontem. Bateu o telefone cedinho pra mim e foi dizendo:

– Tens algo pra hoje à noite?

E eu que não recuso convites:

 – Tinha!

E ele:

– Quero você e o Fefê lá em casa hoje à noite então, vamos abrir uma garrafa de Royal Salut…

Eu fiquei mudo – bebera apenas uma única vez desse tesouro – e ele emendou “Cem dólares a garrafa!”.

Eis aí, nessa frase – “cem dólares a garrafa” – a certidão de nascimento do Flavinho e seu atestado de origem. Egresso do Cachambi, onde não tinha nem pro Teacher´s ou pro Old Eight, hoje morando no Flamengo, e na companhia da minha mui amada Betinha, o Flavinho ligou em seguida pro Fefê e foi um íntegro repetidor do que disse a mim no telefonema. Soube disso porque em minutos o Fefê me ligou:

–  Edu, você vai, né? Cem dólares… putz!

O Flavinho estava repetindo “cem dólares a garrafa” como quem respira.

Mas vamos ao encontro.

Apenas nós quatro: eu, Fefê, Flavinho e Betinha.

Eu cheguei primeiro (como sempre). O porteiro interfonou, fui autorizado a subir e eis que salto do elevador e o Flavinho está no corredor a minha espera. Abraça-me e diz “cem dólares, cem dólares!” e ficou brandindo a nota do DuttyFree no meu nariz (a Betinha chegou, há dias, da Suíça, e vejam que nisso, também, reside a escalada do Flavinho, cujas namoradas até então chegavam, no máximo, de Cabo Frio).

Tínhamos de esperar o Fefê pra abrir o tesouro, ele me disse. E o Fefê chegou em meia-hora. Toca a campainha, é o Fefê. O Flavinho vai à porta e, como fez comigo, espana o nariz do meu irmão com a nota fiscal e fica dizendo “cem dólares, Fefê!, cem dólares!”.

Antes de abrir a garrafa o Flavinho posou, deixe-me pensar pra que eu seja de novo preciso, para umas quinze fotografias abraçado à garrafa. Numa delas – eu vi!, eu vi! – o Flavinho sentou-se no sofá e ajeitou a garrafa em almofadas a seu lado e ficou fazendo festinha na tampinha até que disse pra Betinha “Pode bater, amor!”, e em seguida ficou estendendo a mão pra câmera dizendo “Deixa eu ver! Deixa eu ver! Ficou boa?”.

Mas bem. Abriu-se a garrafa. Ao primeiro gole, o Flavinho, “Hummmm…” pra logo em seguida pôr a boca em meu ouvido e repetir “cem dólares!”.

Um vizinho pôs-se a espiar pela janela em direção a nós (como estou velho, quem ainda usa o verbo “espiar”?) e o Flavinho, grosso:

– Qual que é, camarada? Nunca viu uma garrafa dessas não? Cem dólares, otário! Cem dólares!

E assim seguiu-se até que parti. Mas notem bem. Eu falei no vizinho do Flavinho e quero lhes contar uma do papai. Imperdível.

Eu cresci – e creio que também o Fefê – tendo uma piedade aguda dos vizinhos. Nutrindo um sentimento de pena, de dó, imenso, intenso, incessante, pelos vizinhos. Pensava ser, o vizinho, o ser mais solitário e abandonado da face da Terra. Tudo por culpa do papai. E quero explicar.

Cresci ouvindo o papai dizer coisas como: “Meus filhos… se o papai não se preocupar com vocês, vai se preocupar com quem? Com o vizinho?”, e nós dizíamos instruídos “nãããão…”.

Se um dia estávamos à mesa sem fome, lá vinha o papai. “Vocês têm que comer tudo!”, e nós, depois do muxôxo, ouvíamos, “Meus filhos… se o papai não se preocupar com a alimentação de vocês, vai se preocupar com a alimentação de quem? Do vizinho?”.

Tínhamos uma febrinha. E o papai vinha, com o termômetro, a cada meia hora. Bastava dizer “de novo, papai?”, e ele espetado e já enfiando o termômetro debaixo de nosso braço, “Se o papai não tirar a temperatura de vocês, vai tirar a temperatura de quem? Do vizinho?”, e notem que isso me fazia, às vezes, chorar escondido com pena do vizinho. Por que?, eu pensava, o vizinho é o último dos homens e o mais desprezível? Quem?, eu me torturava, quem cuidará do vizinho?

Ontem brindamos, em determinado momento, eu e o Fefê. Erguemos o copo e dissemos “Ao papai!”, ao que o Flavinho, “Alguma razão especial?”, e eu, repetindo o gesto do meu velho pai… “Flavinho… se nós não brindarmos à saúde de nosso pai, vamos brindar à saúde de quem? Do vizinho?”, e ele riu, apenas riu.

Até.

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PROVA DE CARINHO

Há um samba triste do Adoniran Barbosa que diz assim “Com a corda mi do meu cavaquinho fiz uma aliança pra ela: prova de carinho”. Pois tenham em mente esse samba, esse trecho do samba. O fundo para a leitura de hoje. Se você não conhece o samba, francamente…

Na foto, José Sérgio Rocha, mais conhecido como Zé Sérgio, que ontem – vejam que doçura a dele e vejam que quebra de sigilo de correspondência a minha! – escreveu-me assim na despedida de um dos inúmeros emails que trocamos ao longo dos dias: “Zé, orgulhoso de ter um amigo que nem tu, ô animal!”

Vejam que é no “ô, animal” que reside a doçura do Zé. Se além de não conhecer o samba você não compreende isso, francamente… (estou repetindo “francamente” hoje pela segunda vez e está me dando uma saudade aguda de ouvir o Brizola dizer “francamente” com a haste direita do óculos na boca).

Mas vamos ao Zé.

O Zé Sérgio esteve no Estephanio´s no domingo passado.

“Pra quê? Pra quê?”, perguntarão vocês. Vou responder.

Pra ver o Helinho tocar.

Mas o Helinho não estava lá.

Eis o primeiro acidente. Há o segundo.

Eu estava em casa e quieto. Recuperando-me da amigdalite e da faringite que ainda estão presentes. Toca o telefone. É o Zé Sérgio. “Estou indo pro Estephanio´s, a que horas você estará lá?”, e eu, piorando a voz, tossindo de propósito, “Acho que não vou (tusso mais)… estou com febre…”. E o Zé, aquela pompa, aquela educação, aquele respeito pelo mais próximo, “Foda-se. Não me despenquei de Niterói à toa”.

E lá fui eu. E piorei a olhos vistos, a cada par de minutos que passava, o biltre baixo do Zé Sérgio me oferecendo cachaça, capivodka, cigarros. Eu disse “Zé Sérgio me oferecendo” e preciso completar, “e eu aceitando tudo”.

Bem. A noite passava, o samba comendo solto, e o Zé decidiu passar da cerveja pra cachaça. Primeira dose? “Vou de Chico Mineiro”, decretou o Zé que não entende rigorosamente nada de cachaça. Pediu a segunda. E pediu a terceira.

Quando, animadíssimo, decidiu pedir a quarta dose, pôs os cotovelos no balcão e pediu ao Hilton: “Mais um do Chico de Assis”. O Hilton fez que não tinha. “Então do Chico Buarque”. De novo, o Hilton. Zé perdendo a paciência, “Chico Bento, porra!”, e quando o Hilton fez que não mais uma vez o Zé descontrolou-se, “Bar de merda! Bar bosta! Não tem as cachaças que eu peço…”, e o Fefê o interrompeu servindo-lhe mais uma dose esfregando o rótulo “Chico Mineiro” no nariz (vejam, na foto, como é adunco o nariz do Zé).

Aliás eu falei de nariz do Zé Sérgio e preciso lhes contar sobre a primeira impressão da Dani. Quando a apresentei ao Zé a Dani ficou, por trás dele, fazendo sinais estranhíssimos em minha direção. Eu, que sempre me comporto mal nessas situações, sou péssimo em disfarces ou sutilezas comportamentais, dizia “o quê? o quê? não estou entendendo!”, e o Zé sem jeito pensando que era com ele. E era. Mas vamos em frente.

Daí ela me chama num canto. “Conheço ele, conheço ele de algum lugar…”. E eu, espetado de curiosidade ficava repetindo “donde? donde? donde?”, e ela com as mãozinhas na cabeça, cotovelos apoiados na mesa, balançando a cabeça denotando o esforço que fazia pra lembrar. Até que explodiu, a Dani.

Abriu os braços e o sorriso (Maracanã lotado, vejam que imagem linda – e é do Szegeri, de novo). E gritou “Já sei!”. Eu pus meu ouvido em sua boca e fiquei “donde? donde? donde?”, até que ela… “De lugar nenhum…”, e passou a guinchar de rir chamando a atenção da assistência. “Ele é a c-a-r-a do Paulo Silvino!!!!!”, e aí o guincho foi coletivo, Fefê batendo palminha de tanto que ria, eu no chão, Dani rôxa, sem ar, e vejam pela foto se não é uma inapelável constatação. Vamos voltar ao domingo.

“O que é que tem…” – estão dizendo vocês – “…o samba do Adoniran com o Zé Sérgio?”

Vou explicar.

O Zé, a certa altura, a roda de samba havia terminado, já tinha bebido entre 8 e 10 doses de cachaça, cerca de 10 a 15 chopes, algumas cervejas em garrafa, uma capivodka de tangerina e comido, apenas, uma porção de bolinho de carne, “os melhores do mundo”, ele repetiu de boca cheia a cada bolinho que comeu. Pagou a conta. Estava se despedindo e saindo do bar quando voltou correndo e, vi apenas de longe, cravou as unhas no braço do Erasmo em cujo bolso botou umas notas de dinheiro. Fiquei obervando. Encostou-se no balcão e bebeu mais uma.

Passados uns dez minutos o Erasmo lhe estende uma sacola. E vem o Zé Sérgio em minha direção, andando como um pato bêbado, girando a sacolinha e estaca diante de mim num pulinho ridículo. E diz: “Não são os melhores do bolinho do mundo? Pois bem. Tô levando pra viagem pra melhor mulher do mundo!”. Deu-me um beijo, beijou a Dani e partiu em busca de um táxi, e eu só fiquei observando aquele sujeito caminhando e tratando a bolsinha plástica, que rodava sem parar, como se fora a bengalinha do Chaplin.

“Pobre Dôra”, pensei.

Até.

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ERA PRA SER SEGREDO

Bem. Pequena pausa para uns pigarros. Antes, vejam que foto linda. Minha garota ao fundo, meus livros, meus discos, e meu cigarro preferido. O Carlton. Peraí, pôrra… chorando antes de começar a escrever…

Como eu ia dizendo, aproveitando a amigdalite e a faringite que ainda me dão “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite” e me obrigaram a deixar o cigarro de lado uns dias, convoquei a Dani anteontem à noite pra uma conversa seriíssima. Mesmo. Sentei-a à minha frente e comecei meu pequeno discurso.

Afinal, eu havia decidido, horas antes, parar de fumar pela – deixe-me pensar para que eu possa ser preciso do início ao fim, como sempre… – oitava ou nona vez, não consigo chegar a um número preciso. E havia chegado a uma conclusão junto com a decisão. Não cometeria dois erros primários novamente, a fim de que, dessa vez, o êxito fosse definitivo. Em primeiro lugar, decidi não chegar pra ninguém e dizer, “oi, parei de fumar“, como sempre fiz. E em segundo, exercitar o despredimento e jogar fora meus isqueiros, meus BIC´s históricos, meus Zippos, meus fluidos, meus maços…

Peraí, porra, que eu chorando de novo! Eu disse “tô chorando” mas a Dani, super solidária, guinchou de rir diante de minha decisão.

Pausa de novo. Em frente.

Vai daí que tenho à minha frente, nesse momento, não o clássico cinzeiro, não o Zippo, não o maço de Carlton… mas uma caixa de Zyban 150mg, com 60 comprimidos, meus companheiros pelos próximos dois meses. Ô, merda, chorando de novo.

Um desafio me encoraja. Um, não. Dois.

Pra mim, que crio e recrio os troços segundo as conveniências mais vantajosas pro meu coração, o Toledão está borrando de rir de mim. “De novo, Vossa Goldenblância?”, grita ele. É. De novo. Repito pra dentro.

O segundo desafio atende pelo nome de José Sérgio Rocha, biltre de estatura moral rasteira. Parou de fumar, lembrem-se, para passar a soprar os cigarros, dizia ele. Até que sucumbiu, semanas depois, quando, na festa da Fumaça, abafou os gritos de “parabéns pra você” com os histéricos urros de “tô fumando de novo, porra!”. Vou provar a esse cidadão – anote aí, biltre! – que eu sou – ah, como ficamos sensíveis sem a merda da nicotina… – mais forte que você.

Também ouço daqui as gargalhadas do Dalton, do Fefê, do Dedeco, esses amigos mesmo, com A maiúsculo, que torcem pra que você tenha um enfisema pra depois baterem na caixinha dizendo, “grande cara, grande cara…”.

Como vocês podem ver, estou a sofrer do mesmo mal que o biltre do Zé Sérgio: abstinência tabágica. Como acabo de tomar meu primeiro comprimido lilás – oh, ah – dentro de meia-hora, segundo a extensa bula, devo estar melhor.

Bem, então, resumindo a opereta – me perdoem isso aí, nexo algum… – já mandei às favas minha primeira decisão, a de não contar nada. Quanto à segunda… , peraíchorando outra vez…, depois penso no que fazer com esses objetos tão… tão… fundamentais, como meu time de botão.

Até.

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A TIJUCA É A TIJUCA É A TIJUCA É A TIJUCA


O título da croniqueta de hoje é ufanista mesmo. Dito de peito cheio. Aliás, pra ser gritado de pé, no banquinho imaginário. Vou explicar tudo, timtim por timtim (começo antiqüíssimo, notem, ninguém mais diz timtim por timtim).Acordei no domingo disposto a ir fazer compras no Mundial na Rua do Matoso. Atenção vocês que não são da Tijuca. Isso é, creiam, tijucanice em estado bruto! Mundial e Rua do Matoso. Combinação perfeita. Desci sozinho, deixei Dani dormindo e fui ao carro.

E estaquei diante de dois pneus arriados. Os dois do lado direito. Obra de alguém, óbvio, pensei. Dois pneus? De uma vez só? Só podia ser sacanagem. Enquanto com os cotovelos apoiados no teto do carro, pensava no que fazer, escutei: “Psiu. Psiu. Psiu!”.

Virei-me e dei de cara com um camarada na janela do prédio ao lado, sem camisa, que acenou-me (vejam a plástica do gestual da Tijuca em cada quadro!) e disse “Bom dia, cara. Sei quem fez isso”.

E eu, “Sabe? Você viu?”.

Vejam agora essa cena, vejam isso… Vejam o estudo dos gestos do sujeito!

Ele faz sinal com uma das mãos pra que eu espere, assim, com a mão direita, como se buzinando uma buzina imaginária, indo e vindo, e eu entendo o recado (espere!), disse, “Ok, espero!”.

Volta, em segundos, segurando uma câmera digital, dessa vez na mão esquerda. E com a mão direita, usando apenas o polegar, fica apontando pra câmera e diz sorrindo, “Três fotos…”. E eu, àquela altura excitadíssimo diante de uma espécie de dona Vitória da zona norte, apenas disse, “Você pode descer pra me mostrar?”, e ele, com o mesmo sorriso no rosto, usando o mesmo indicador da mão direita passa a fazer que “não” com o dedo, emendando em seguida “Você tem email?”, e eu grito, “Tenho, tenho, tenho!”, e ele repete o mesmíssimo gesto da buzina imaginária e me manda esperar de novo.

Volta à janela dessa vez com um bloquinho na mão esquerda e uma caneta na mão direita, a câmera ele trazia nos dentes, pelo cabinho, e disse, de dentes cerrados, “Fala o email”. Eu falei. Daí ele com a mão direita tira o cabinho da câmera da boca e diz “Em minutos estará no seu email. Bom dia, cara!”.

Subi. E eis que vem chegando o primeiro email. Notem o subject: “flagra 1/3”. O segundo: “flagra 2/3”. E o terceiro: “flagra 3/3”.

Que espetáculo! Vejam que a foto aí em cima é a 3/3 e na verdade não traz nítido, como nas outras duas, o rosto do moleque autor do troço. Obviamente que eu não faria isso aqui, imolá-lo de público, mas pus essa foto porque essa história, contada sem a prova material, iria render comentários típicos, “lá vem o Edu inventando…”, “mais uma mentira do Edu…”, “ainda tem coragem de dizer que é preciso do início ao fim”.

Mas notem. A coisa não parou por aí. Desci com as fotos impressas e as entreguei à síndica. Queridos, em coisa de meia-hora, quarenta minutos, dezenas de vizinhos e vizinhas transitavam pela portaria. Alguns momentos.

Uma das vizinhas me pergunta de qual janela partiu a foto. Eu aponto. Ela ali se posta e começa “psiu! psiu! psiu!” e o cara aparece. “Filho, você gosta de bolo de milho?”, e ele meio sem entender disse, “Gosto, por que?”, e a viúva (era uma viúva) “Ah, então vem cá… quero te oferecer um bolinho pra agradecer esse teu gesto corajoso!”.

Outra propôs um piquenique pro meio da tarde. “Confraternização, poxa! Nós temos vizinhos tão legais“, e começou a chorar não sem antes dizer “os sanduíches de atum com ovo são meus!”.

Um outro, gentilíssimo, estendeu a chave de seu carro e disse “Se precisar, fica à vontade, me devolve só depois que consertar os seus pneus”, ao que sua mulher disse (eu ouvi), “Idiota, se fosse a minha mãe tu não pagava nem o ônibus”, ao que ele apenas fez uma careta pra ela.

E dessa festa de gentilezas, de simpatia, dessa distribuição de “obas”, de “olás”, de sorrisos e de ofertas as mais diversas, emergiu, no domingo, a Tijuca, a gloriosa Tijuca, em estado bruto.

Até.

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