>DA SÉRIE A TIJUCA É A TIJUCA IV

>(continuação)

Quando Vanda Lúcia termina de fumar seu cigarro volta-se e encontra o Aloysio sentado na poltrona que ganhara no Natal há uns dez anos, azul escura, um tanto quanto puída, de copo na mão, os pés esticados sobre uma das cadeiras da mesa, a garrafa de cerveja pousada sobre a mesinha que fora de sua mãe, falecida. Mal curara o porre com o banho e com aquela maçaroca de arroz e farofa e estava bebendo de novo. Disse à mulher:

“Mô, traz um quindim pra mim…”

“Só se tu me disser como é que essa vaca dessa vizinha sabe que tu gosta dessa bosta desse doce!”

“Pega lá. Eu te conto.”

Vem Vanda Lúcia com os 10 quindins e pousa o tabuleiro no colo do Aloysio.

Aloysio pega o primeiro. Morde o quindim. Enquanto mastiga o primeiro pedaço, dá um gole na cerveja. Vanda Lúcia:

“Que nojo, Aloysio… que nojo! Quindim com cerveja!”

Aloysio come os dez. Mudo. A cada pedaço do quindim, um gole de cerveja. E Vanda Lúcia ali, a seu lado, as duas mãos apoiando o queixo, os cotovelos sobre os joelhos, alterando as frases “Que nojo, Aloysio” e “Conta logo, porra, que quero ir ver Hebe”.

“Tu quer ver a Hebe, não quer, Vanda Lúcia?”

“Arrã.”

“Tu tem asco do meu Leite de Rosas, não tem, Vanda Lúcia?”

“Arrã. Que que isso tem a ver, idiota! Fala o que te perguntei!”

“Tem nojo de como eu como, não tem, Vanda Lúcia?”

Nem responde mais.

“E não me dá vai fazer um ano, não é, Vanda Lúcia?”

“Hã… e aí?”

“E aí, Vanda Lúcia… pega mais uma cerveja pra mim…”

Volta Vanda Lúcia com outra ampola. Aloysio serve-se fazendo espessa espuma no copo de geléia.

“Continua, Aloysio…”, impaciente.

“E aí que eu tô comendo a filha da Bizantinha.”

“Bizantina, Aloysio.

“Que diferença isso faz, Vanda Lúcia?”

“E como é que a mãe da vagabunda sabe que tu gosta de quindim, Aloysio? Comer a vadia tu pode comer, o que é que eu vou fazer? Não tenho a m-e-n-o-r vontade de transar contigo mesmo, entendeu? Tem mais de ano, Aloysio, mais de ano. Não vai fazer um ano, não. Vai fazer é quase dois! Agora… intimidade… saber qual a tua sobremesa preferida… puta merda, aí não! Aí não!”

E chora, a Vanda Lúcia.

E o Aloysio, condoído:

“Ô, Vanda Lúcia… faz isso não… Quem faz os quindins é ela, a Dalila…, deve ter contado pra mãe, sei lá, porra!”

“Aloysio… (fungando e assoando o nariz na manga do pijama do Aloysio)… me promete uma coisa…”

“Quê, Vanda Lúcia…”, e faz festinha na cabeça da mulher.

“Duas coisas…”

“Pede, Vanda Lúcia…”

“Primeiro… quer continuar comendo a vadia, come. Mas por nossa história, Alô… não traz mais os quindins pra casa… Aqueles quindins que tu dizia comprar na Tasca da Vovó no Centro da cidade… é mentira, né? Tudo feito por ela…”

“É, paixão, é. Mas prometo. Não como mais quindim em casa… E a outra?”

“Me come hoje?”

“Agora?”

“Agora… por favor…”

Aloysio assente. Vai ao banheiro, liga o chuveiro, e Vanda Lúcia à janela. Acende o cigarro e surge dona Bizantina, que olha pra cima. Sorri, debochando. Vanda Lúcia faz um sinal com a mão, “espere aí, espere aí…”.

Vanda vai ao quarto, onde espera Aloysio nua, depois de ter aberto, ligeiramente a janela. E Aloysio entra no quarto, aquele cheiro de Leite de Rosas pesado. Nu, enrolado na toalha.

Trepam.

E Vanda Lúcia grita frases sem nexo, “Vai meu quindim!”, “Faz que nem tu faz com ela, faz!”, e urra, e geme, e depois de uns 40 minutos – Aloysio não tem fôlego para mais do que isso – levanta-se. Vai à janela fumar, enquanto Aloysio diz, “Vanda Lúcia… Vanda Lúcia… que desperdício esse tempo toda parada…”.

Bizantina e Dalila, olhando pra cima, e Vanda soltando um rolo de fumaça: “Obrigada pelos quindins, Bizantina. Deliciosos!”

“De nada”, disse Bizantina.

“Fui eu que fiz”, Dalila emenda.

Vanda Lúcia: “Além de puta uma puta doceira”

As duas recolhem as cabecinhas e Vanda Lúcia fecha a janela.

Aloysio ronca feito um porco, nu.

“Que nojo”, é o que pensa Vanda Lúcia antes de apagar o abajur.

9 Comentários

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9 Respostas para “>DA SÉRIE A TIJUCA É A TIJUCA IV

  1. >Tijuca purinha, Edu. Belo quadro. E gostei do clima de capítulos. Vai continuar? Vai ter sempre? Olha, eu acho que esse casal aí rende um bocado de história. E nota 10 pra clima da resignação da pobre da Vanda Lucia, ahahahaha! Chorar por causa do quindim e perdoar o chifre foi demais!

  2. >Muito legal, Edu. Pô, quando a Vanda Lúcia pediu p o Aloysio comer ela achei q ia rolar um lance Lorena Bobbit… mas felizmente aí é a Tijuca, não os EUA. 🙂 Bjo, Eugênia

  3. >Definitivamente, Eugênia, isso não passaria pela cabeça da compreensiva, como se viu, Vanda Lúcia. Sorte do bom Aloysio!

  4. >Edu, cuidado. Acho que esse cara quer dar para você…Beijos.

  5. >Beleza de conto! Esse menino vai longe.

  6. >Que legal Edu. Sou uma das que vai ficar torcendo pra ter mais essa coisa de continuação. Além de prender a gente, se bem que eu já venho quase todo dia aqui mesmo (risos), e ser bastante clima de suspense, é um estilo que eu adoro. Fiquei com peninha do Aloysio (risos) 🙂

  7. >Edu,Parece até que vc se espelhou em algum caso verídico! Seja preciso até o fim e dê os nomes reais!Perdoar os chifes e chorar pelos quindins? Realmente, que mulher é esta? Compreensiva d+! Ah, mas pode ser que exista um Ricardão! Vamos esperar as cenas dos próximos capítulos!Pat

  8. >Palmas para você Edu, tá perfeito. Como eu disse tem um estilo pessoal de escrever, o que é o mais difícil.

  9. >DO GRANDE CACETE ISSO AQUI!VC PODE DISPONIBILIZAR SEU EMAIL PARA CONTATO POR AQUI MESMO?REPETINDO! DO GRANDE CACETE! GRANDE HUMOR. GRANDES SACADAS.CLÁUDIO LYRA

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