>DA SÉRIE A TIJUCA É A TIJUCA II

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(continuação)

Vanda Lúcia na cozinha. Olhos nas panelas e ouvido na direção do banheiro, onde faz silêncio. Vai ao corredor. E bate à porta:

“Alô? ´cê tá bem?”

O que pode parecer preocupação com o marido – que chegou trôpego em casa – é na verdade ansiedade.

“Vanda Lúcia, que pergunta é essa que tu nunca se preocupou comigo, Vanda Lúcia? Tô ótimo, por que?”

“Nada, Alô. Só estranhei que o chuveiro não tá ligado, e daqui a pouco a janta tá na mesa…”

“Vanda Lúcia, a janta vai andando pra mesa ou é você que põe os pratos? Não enche, Vanda Lúcia. Tô soltando um barro. Já vou”

A categoria do Aloysio era comovente.

E Vanda Lúcia fez cara de nojo no corredor e teve náuseas só de lembrar do marido saindo do banheiro com aquele cheiro insuportável de Leite de Rosas, que ele adorava. Vai à janela fumar outro cigarro.

Lá está a cabecinha da Bizantina virada pra cima.

Vanda Lúcia vai à cozinha não sem antes esticar o dedo médio em direção à vizinha.

Aloysio está no vaso lendo o “Extra”, amarfanhado. Apalpa os bolsos do paletó, que está no chão, em busca dos cigarros e da caixa de fósforos. Acha os cigarros. A caixa de fósforos. E um bilhete: “Aloysio, te quero a cada dia mais.”, e só um beijo marcado de batom, sem assinatura. Aloysio, bêbado, cérebro a meio pau, não se lembra de nenhum encontro, de mulher nenhuma. “Pô, não estou tão bêbado assim…”, pensa.

Dona Bizantina esperara Aloysio chegar na portaria. Subira com ele no elevador. E colocara o bilhete no bolso de seu paletó, sem trocarem palavra.

Aloysio, ato contínuo, depois de se limpar, mistura o bilhete ao papel higiênico e dá descarga. Liga o gás e toma o banho. E sai, nu.

Vanda Lúcia, o jantar já pronto, ao sinal da porta aberta, voa pro banheiro. Diz a frase de sempre:

“Alô, eu não agüento mais esse fedor de Leite de Rosas…”

Aloysio, como de hábito, nem responde. Está dentro do quarto minúsculo vestindo o pijama.

Vanda apanha o terno no banheiro. Vasculha os bolsos. Nada.

O pendura num cabide atrás da porta do quarto e vai à janela.

Nem sinal de Bizantina.

“Alô, tá na mesa!”

Aloysio chega. Senta-se.

“Puta merda, Vanda Lúcia… ensopado de frango de novo?”

“Aloysio, tu encontrou com alguma mulher hoje?”

“Você sabe que eu odeio ensopado de frango…”

“Aloysio, tô falando contigo!”, espeta o garfo na mesa.

“Só pode ser de sacanagem, Vanda Lúcia. Eu odeio ensopado de frango!”

(continua amanhã)

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6 Comentários

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6 Respostas para “>DA SÉRIE A TIJUCA É A TIJUCA II

  1. >”a janta” e não “o jantar” foi perfeito! :-)))))Beijos!

  2. >Edu, bom demais cara! Você tá pintando que é uma beleza! O acerto não foi só na “janta”, foi no texto todo, corrido, linguagem diferente da que você normalmente usa. Mas legal demais como sempre. Tô na espera do “próximo capítulo”.

  3. >E a bisca? Gostei também.

  4. >Eduardo, alto nível. Diálogos perfeitos. Roteiro, isso, heim! Belas cenas e muito engraçadas. Continue assim!

  5. >Estou adorando esse ritmo de novela. E amei a imagem do Leite de Rosas. Fazia tempo que eu não via.

  6. >QUE CURIOSIDADE! E sabe como eu vim parar aqui? Pesquisando sobre botequins e suas variações, pra minha tese de final de curso. Coincidência das boas. Está nos meus favoritos! (aliás, como tem blogue bommmmmmmmmm!)

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