ROYAL SALUT E UMA DO PAPAI

O Flavinho, nosso querido Xerife, fez colossal convite a mim e ao Fefê pra noite de ontem. Bateu o telefone cedinho pra mim e foi dizendo:

– Tens algo pra hoje à noite?

E eu que não recuso convites:

 – Tinha!

E ele:

– Quero você e o Fefê lá em casa hoje à noite então, vamos abrir uma garrafa de Royal Salut…

Eu fiquei mudo – bebera apenas uma única vez desse tesouro – e ele emendou “Cem dólares a garrafa!”.

Eis aí, nessa frase – “cem dólares a garrafa” – a certidão de nascimento do Flavinho e seu atestado de origem. Egresso do Cachambi, onde não tinha nem pro Teacher´s ou pro Old Eight, hoje morando no Flamengo, e na companhia da minha mui amada Betinha, o Flavinho ligou em seguida pro Fefê e foi um íntegro repetidor do que disse a mim no telefonema. Soube disso porque em minutos o Fefê me ligou:

–  Edu, você vai, né? Cem dólares… putz!

O Flavinho estava repetindo “cem dólares a garrafa” como quem respira.

Mas vamos ao encontro.

Apenas nós quatro: eu, Fefê, Flavinho e Betinha.

Eu cheguei primeiro (como sempre). O porteiro interfonou, fui autorizado a subir e eis que salto do elevador e o Flavinho está no corredor a minha espera. Abraça-me e diz “cem dólares, cem dólares!” e ficou brandindo a nota do DuttyFree no meu nariz (a Betinha chegou, há dias, da Suíça, e vejam que nisso, também, reside a escalada do Flavinho, cujas namoradas até então chegavam, no máximo, de Cabo Frio).

Tínhamos de esperar o Fefê pra abrir o tesouro, ele me disse. E o Fefê chegou em meia-hora. Toca a campainha, é o Fefê. O Flavinho vai à porta e, como fez comigo, espana o nariz do meu irmão com a nota fiscal e fica dizendo “cem dólares, Fefê!, cem dólares!”.

Antes de abrir a garrafa o Flavinho posou, deixe-me pensar pra que eu seja de novo preciso, para umas quinze fotografias abraçado à garrafa. Numa delas – eu vi!, eu vi! – o Flavinho sentou-se no sofá e ajeitou a garrafa em almofadas a seu lado e ficou fazendo festinha na tampinha até que disse pra Betinha “Pode bater, amor!”, e em seguida ficou estendendo a mão pra câmera dizendo “Deixa eu ver! Deixa eu ver! Ficou boa?”.

Mas bem. Abriu-se a garrafa. Ao primeiro gole, o Flavinho, “Hummmm…” pra logo em seguida pôr a boca em meu ouvido e repetir “cem dólares!”.

Um vizinho pôs-se a espiar pela janela em direção a nós (como estou velho, quem ainda usa o verbo “espiar”?) e o Flavinho, grosso:

– Qual que é, camarada? Nunca viu uma garrafa dessas não? Cem dólares, otário! Cem dólares!

E assim seguiu-se até que parti. Mas notem bem. Eu falei no vizinho do Flavinho e quero lhes contar uma do papai. Imperdível.

Eu cresci – e creio que também o Fefê – tendo uma piedade aguda dos vizinhos. Nutrindo um sentimento de pena, de dó, imenso, intenso, incessante, pelos vizinhos. Pensava ser, o vizinho, o ser mais solitário e abandonado da face da Terra. Tudo por culpa do papai. E quero explicar.

Cresci ouvindo o papai dizer coisas como: “Meus filhos… se o papai não se preocupar com vocês, vai se preocupar com quem? Com o vizinho?”, e nós dizíamos instruídos “nãããão…”.

Se um dia estávamos à mesa sem fome, lá vinha o papai. “Vocês têm que comer tudo!”, e nós, depois do muxôxo, ouvíamos, “Meus filhos… se o papai não se preocupar com a alimentação de vocês, vai se preocupar com a alimentação de quem? Do vizinho?”.

Tínhamos uma febrinha. E o papai vinha, com o termômetro, a cada meia hora. Bastava dizer “de novo, papai?”, e ele espetado e já enfiando o termômetro debaixo de nosso braço, “Se o papai não tirar a temperatura de vocês, vai tirar a temperatura de quem? Do vizinho?”, e notem que isso me fazia, às vezes, chorar escondido com pena do vizinho. Por que?, eu pensava, o vizinho é o último dos homens e o mais desprezível? Quem?, eu me torturava, quem cuidará do vizinho?

Ontem brindamos, em determinado momento, eu e o Fefê. Erguemos o copo e dissemos “Ao papai!”, ao que o Flavinho, “Alguma razão especial?”, e eu, repetindo o gesto do meu velho pai… “Flavinho… se nós não brindarmos à saúde de nosso pai, vamos brindar à saúde de quem? Do vizinho?”, e ele riu, apenas riu.

Até.

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13 Comentários

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13 Respostas para “ROYAL SALUT E UMA DO PAPAI

  1. >Edu,Seu texto está cada vez mais espirituoso. Você tem o dom da crônica, capacidade de extrair interesse de situações banais. Bem… cem dólares a garrafa não é nada banal!Por favor, mande minhas saudações para o Fefê, Flávio e Betinha, e para todos os demais.Inté,Imperador

  2. >Edu eu sou síndico do prédio onde moro. Deve ser por isso, ou não, não sei (!?), que eu ri MUITO com suas divagações sobre os vizinhos graças as frases que seu pai dizia. Muito bom de novo. A bola foi mantida no alto a semana inteira!

  3. >Edu, eu tenho que concordar com o meu xará. Dom da crônica. Tu tem mesmo. Mas tem também o dom da pintura como eu sempre repito aqui. Muito boa essa de hoje, o Xerife é um dos meus personagens prediletos. Pena que ele não deu nenhum tiro. Bom final de semana e até segunda.

  4. >Prefiro Bento Velho, Topázio, Lua Cheia e aquele Chico cujo nome me escapa. Mas na companhia do grande Xerife, e a cem alfaces a rolha, com certeza foi uma carraspana de responsabilidade!

  5. >Nunca tive essa sorte de beber o Royal Salut. É bom, Edu? Conta aí. Gostei muito da história do seu pai com o coitado do vizinho. Ele diz isso até hoje? Rá rá rá! Edu, se eu não te perguntar isso vou perguntar praquem? Pro vizinho? Abç.

  6. >Puxa vida Edu vc deve considerar esse Flavinho como um grande amigo mesmo, porque pra pagar 100 verdinhas numa garrafa e dividir só com a esposa e com 2 amigos, POW!Amizade rara.Zé Sérgio, anooooootem… adorei 100 alfaces.Ah, ia me esquecendo: grande crônica. Eu gosto quando vc mistura dois assuntos que se encontram no final (whisky e vizinho, nesse caso).

  7. >Du ,tudo muito bom…..mas o xerife convida voce e seu irmão e não convida seu pai ???? mais a mais , depois que ele deu aquele furo de mandar a Betinha aqui em casa com voces e a Guerreira com aquele whisky de presente ” de baixa qualidade ” frente ao Royal Salut ,prometeu dar forra e não me chamou ???? Vou bater um papo com Betinha que assim não vale……

  8. >Du , e tem mais : se eu não me preocupar com a falta de convite do Flavinho , vou me preocupar com o vizinho que não me convidou ????

  9. >Edu, muito boa. A última (e raríssima) vez que me vi diante de um Royal Salut foi na casa do meu compadre Renê, em Petrópolis. Um irmão, o Renê comprou a garrafa e me esperou para abri-la. O ritual foi muito parecido. Botei smoking, cartola e polainas. Ele se meteu num kilt. Abriu a garrafa e de lá saiu um som de harpa do Chaco entoando uma guarânia. Como dizia o velho samba, desde então: “Decepção mora em meu coração…”

  10. >Noite memorável, pois o whisky estava ótimo, mas o papo e as companhias foram melhores. O pobre do Fernando só conseguiu ir embora as 4h, e assim mesmo na quarta tentativa.Pô Isaac, sei que eu furei naquele dia na sua casa, mas criticar o Dimple que eu te dei é sacanagem. Vamos marcar aqui em casa para discutir isso, você será o convidado de honra.Saudade de você Imperador, volta logo de Brasília!

  11. >Noite memorável, para ser contada a filhos e netos!Pena que o Royal Salut tenha feito o Chivas 12 que abrimos depois parecer álcool Pring…

  12. >Flavinho , se a Betinha achou o Chivas 12 parecer álcool Pring , então não estou muito longe da verdade ao achar que o Dimple comparando com o Royal Salute parece uma “Praianinha “………

  13. Pingback: FARTURA | BUTECO DO EDU

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