PROVA DE CARINHO

Há um samba triste do Adoniran Barbosa que diz assim “Com a corda mi do meu cavaquinho fiz uma aliança pra ela: prova de carinho”. Pois tenham em mente esse samba, esse trecho do samba. O fundo para a leitura de hoje. Se você não conhece o samba, francamente…

Na foto, José Sérgio Rocha, mais conhecido como Zé Sérgio, que ontem – vejam que doçura a dele e vejam que quebra de sigilo de correspondência a minha! – escreveu-me assim na despedida de um dos inúmeros emails que trocamos ao longo dos dias: “Zé, orgulhoso de ter um amigo que nem tu, ô animal!”

Vejam que é no “ô, animal” que reside a doçura do Zé. Se além de não conhecer o samba você não compreende isso, francamente… (estou repetindo “francamente” hoje pela segunda vez e está me dando uma saudade aguda de ouvir o Brizola dizer “francamente” com a haste direita do óculos na boca).

Mas vamos ao Zé.

O Zé Sérgio esteve no Estephanio´s no domingo passado.

“Pra quê? Pra quê?”, perguntarão vocês. Vou responder.

Pra ver o Helinho tocar.

Mas o Helinho não estava lá.

Eis o primeiro acidente. Há o segundo.

Eu estava em casa e quieto. Recuperando-me da amigdalite e da faringite que ainda estão presentes. Toca o telefone. É o Zé Sérgio. “Estou indo pro Estephanio´s, a que horas você estará lá?”, e eu, piorando a voz, tossindo de propósito, “Acho que não vou (tusso mais)… estou com febre…”. E o Zé, aquela pompa, aquela educação, aquele respeito pelo mais próximo, “Foda-se. Não me despenquei de Niterói à toa”.

E lá fui eu. E piorei a olhos vistos, a cada par de minutos que passava, o biltre baixo do Zé Sérgio me oferecendo cachaça, capivodka, cigarros. Eu disse “Zé Sérgio me oferecendo” e preciso completar, “e eu aceitando tudo”.

Bem. A noite passava, o samba comendo solto, e o Zé decidiu passar da cerveja pra cachaça. Primeira dose? “Vou de Chico Mineiro”, decretou o Zé que não entende rigorosamente nada de cachaça. Pediu a segunda. E pediu a terceira.

Quando, animadíssimo, decidiu pedir a quarta dose, pôs os cotovelos no balcão e pediu ao Hilton: “Mais um do Chico de Assis”. O Hilton fez que não tinha. “Então do Chico Buarque”. De novo, o Hilton. Zé perdendo a paciência, “Chico Bento, porra!”, e quando o Hilton fez que não mais uma vez o Zé descontrolou-se, “Bar de merda! Bar bosta! Não tem as cachaças que eu peço…”, e o Fefê o interrompeu servindo-lhe mais uma dose esfregando o rótulo “Chico Mineiro” no nariz (vejam, na foto, como é adunco o nariz do Zé).

Aliás eu falei de nariz do Zé Sérgio e preciso lhes contar sobre a primeira impressão da Dani. Quando a apresentei ao Zé a Dani ficou, por trás dele, fazendo sinais estranhíssimos em minha direção. Eu, que sempre me comporto mal nessas situações, sou péssimo em disfarces ou sutilezas comportamentais, dizia “o quê? o quê? não estou entendendo!”, e o Zé sem jeito pensando que era com ele. E era. Mas vamos em frente.

Daí ela me chama num canto. “Conheço ele, conheço ele de algum lugar…”. E eu, espetado de curiosidade ficava repetindo “donde? donde? donde?”, e ela com as mãozinhas na cabeça, cotovelos apoiados na mesa, balançando a cabeça denotando o esforço que fazia pra lembrar. Até que explodiu, a Dani.

Abriu os braços e o sorriso (Maracanã lotado, vejam que imagem linda – e é do Szegeri, de novo). E gritou “Já sei!”. Eu pus meu ouvido em sua boca e fiquei “donde? donde? donde?”, até que ela… “De lugar nenhum…”, e passou a guinchar de rir chamando a atenção da assistência. “Ele é a c-a-r-a do Paulo Silvino!!!!!”, e aí o guincho foi coletivo, Fefê batendo palminha de tanto que ria, eu no chão, Dani rôxa, sem ar, e vejam pela foto se não é uma inapelável constatação. Vamos voltar ao domingo.

“O que é que tem…” – estão dizendo vocês – “…o samba do Adoniran com o Zé Sérgio?”

Vou explicar.

O Zé, a certa altura, a roda de samba havia terminado, já tinha bebido entre 8 e 10 doses de cachaça, cerca de 10 a 15 chopes, algumas cervejas em garrafa, uma capivodka de tangerina e comido, apenas, uma porção de bolinho de carne, “os melhores do mundo”, ele repetiu de boca cheia a cada bolinho que comeu. Pagou a conta. Estava se despedindo e saindo do bar quando voltou correndo e, vi apenas de longe, cravou as unhas no braço do Erasmo em cujo bolso botou umas notas de dinheiro. Fiquei obervando. Encostou-se no balcão e bebeu mais uma.

Passados uns dez minutos o Erasmo lhe estende uma sacola. E vem o Zé Sérgio em minha direção, andando como um pato bêbado, girando a sacolinha e estaca diante de mim num pulinho ridículo. E diz: “Não são os melhores do bolinho do mundo? Pois bem. Tô levando pra viagem pra melhor mulher do mundo!”. Deu-me um beijo, beijou a Dani e partiu em busca de um táxi, e eu só fiquei observando aquele sujeito caminhando e tratando a bolsinha plástica, que rodava sem parar, como se fora a bengalinha do Chaplin.

“Pobre Dôra”, pensei.

Até.

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16 Comentários

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16 Respostas para “PROVA DE CARINHO

  1. >Edu, o Zé não pegou táxi nenhum ao sair do bar. Foi e voltou comigo. Me lembro bem disso.

  2. >Marconi, pelo que me consta você é novo aqui na área do Buteco. O Zé há de confirmar: eu sou preciso do início ao fim. Se você quer que da próxima vez eu conte que você é taxista, que não cobra a corrida por amizade ao Zé, eu faço isso. Mas não macule a verdade. Eu não minto.

  3. >Edu,ADOREI a parte da Dani falando que “ele é a cara do Paulo Silvino”!Olhei mais atentamente a foto e a Dani está com toda a razão! Estou gargalhando até agora.

  4. >Porra, não tinha foto pior minha pra colocar aí nessa josta não, ô animal?! Desse ângulo fico mesmo parecido com o Silvino. Em outras fotos lembro mais o Richard Gere. Outra coisa: entre a tua memória e a do Marconi, sou mais a dele. Quer dizer, acho que vocês empatam.

  5. >Ele é muito parecido com o Paulo Silvino mesmo! Se a Dani foi perfeita ao reparar isso você foi de novo perfeito narrando os fatos. Excelente. Ri DEMAIS! Parabéns.

  6. >Pffff! hahahahaahahahahahaaha.Essa família é SÓ sofrimento. Pfff. Ele contou do dia que a velhinha o assediou no Steak House por causa do crachá do Globo? ¨Ah, então Zé Sergio é o seu verdadeiro nome hein! Me dá um autógrafo, Silvino!¨ E como se não bastasse, comigo é o lance da Fernanda Torres, dizem que sou os córnos dela.Meu pai, meu orgulho! shshshshs! Mesmo tendo vergonha dos meus révi metals eu não tenho vergonha dos teus sambas. Valeu Edu, tá MASSA o post sobre o véio.:*Tati (a Rocha) 😀

  7. >RÁRÁRÁRÁRÁRÁ!O RELÓGIO MARCA… PAULO SILVINO-NO-NO-NO-NO…RÁRÁRÁRÁRÁRÁ!SENSACIONAL.FUI CHAMADO A ATENÇÃO PELO MEU CHEFINHO. ESTAVA CAINDO DA CADEIRA DE RIR.10!

  8. >Edu (pintor), belíssima a imagem do seu amigo indo embora à la Carlitos. Gostei muito. Taí um clássico que faz rir e emociona!

  9. >Já mandei prô Zé uma gravação de “Prova de carinho” com a Vania Carvalho e o Adoniran, que lhe servirá de fundo musical.Vale o registro: o samba tem a parceria do Hervê Cordovil.

  10. >Caraio! Paulo Silvino é de matar de rir, Edu. Sacanagem com o nosso Zé Sérgio – ou seria vice-versa, sacanagem com o Silvino? Agora um depoimento sobre a doce grossura do Zé… epa! Nada disso, moçada. Nunca dei ré no quibe não. Eu queria só dizer algo pessoal sobre o Zé… ops. Tá ficando cada vez mais suspeito, né? Melhor deixar pra lá, antes que o Silvino de Niterói me mande um de seus carinhosos e-mails: “Ô vascaíno duma figa, vai entubar uma brachola com essa história de doce grossura!”. Ó, mas era mesmo muito gente o que eu ia falar dele… Ih, tchau.

  11. >Edu, por gentileza, qualquer hora você coloca no ar aquela minha outra foto, em que apareço bem, não de perfil. A que tem como título Zé Sergio em Niterói. Aquela sim é fiel e precisa do início ao fim.

  12. >Zé, não vou pôr porra nenhuma de foto! (perdão, assistência)Você não tem NENHUMA (tá ouvindo eu gritar daí?), NENHUMA semelhança com o Richard Gere. Por Deus. Poupe-me. Ele não tem um pingo do seu charme!Caro Tartaglia… por que será que a gente dana de falar do Zé e o discurso sai sempre esquisito? Será que é piedade de nossa parte?Juro que eu não sei…

  13. >Não é piedade, é viadagem mesmo…

  14. >Biltre sujo, não foi a você que eu perguntei.

  15. >Edu, se o Zé diz que é viadagem, acredite no – vá lá – homem. Ele entende disso como ninguem.

  16. >Edu, pena que não temos uma foto da tsunami de cevada do Zé…

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