A TIJUCA É A TIJUCA É A TIJUCA É A TIJUCA


O título da croniqueta de hoje é ufanista mesmo. Dito de peito cheio. Aliás, pra ser gritado de pé, no banquinho imaginário. Vou explicar tudo, timtim por timtim (começo antiqüíssimo, notem, ninguém mais diz timtim por timtim).Acordei no domingo disposto a ir fazer compras no Mundial na Rua do Matoso. Atenção vocês que não são da Tijuca. Isso é, creiam, tijucanice em estado bruto! Mundial e Rua do Matoso. Combinação perfeita. Desci sozinho, deixei Dani dormindo e fui ao carro.

E estaquei diante de dois pneus arriados. Os dois do lado direito. Obra de alguém, óbvio, pensei. Dois pneus? De uma vez só? Só podia ser sacanagem. Enquanto com os cotovelos apoiados no teto do carro, pensava no que fazer, escutei: “Psiu. Psiu. Psiu!”.

Virei-me e dei de cara com um camarada na janela do prédio ao lado, sem camisa, que acenou-me (vejam a plástica do gestual da Tijuca em cada quadro!) e disse “Bom dia, cara. Sei quem fez isso”.

E eu, “Sabe? Você viu?”.

Vejam agora essa cena, vejam isso… Vejam o estudo dos gestos do sujeito!

Ele faz sinal com uma das mãos pra que eu espere, assim, com a mão direita, como se buzinando uma buzina imaginária, indo e vindo, e eu entendo o recado (espere!), disse, “Ok, espero!”.

Volta, em segundos, segurando uma câmera digital, dessa vez na mão esquerda. E com a mão direita, usando apenas o polegar, fica apontando pra câmera e diz sorrindo, “Três fotos…”. E eu, àquela altura excitadíssimo diante de uma espécie de dona Vitória da zona norte, apenas disse, “Você pode descer pra me mostrar?”, e ele, com o mesmo sorriso no rosto, usando o mesmo indicador da mão direita passa a fazer que “não” com o dedo, emendando em seguida “Você tem email?”, e eu grito, “Tenho, tenho, tenho!”, e ele repete o mesmíssimo gesto da buzina imaginária e me manda esperar de novo.

Volta à janela dessa vez com um bloquinho na mão esquerda e uma caneta na mão direita, a câmera ele trazia nos dentes, pelo cabinho, e disse, de dentes cerrados, “Fala o email”. Eu falei. Daí ele com a mão direita tira o cabinho da câmera da boca e diz “Em minutos estará no seu email. Bom dia, cara!”.

Subi. E eis que vem chegando o primeiro email. Notem o subject: “flagra 1/3”. O segundo: “flagra 2/3”. E o terceiro: “flagra 3/3”.

Que espetáculo! Vejam que a foto aí em cima é a 3/3 e na verdade não traz nítido, como nas outras duas, o rosto do moleque autor do troço. Obviamente que eu não faria isso aqui, imolá-lo de público, mas pus essa foto porque essa história, contada sem a prova material, iria render comentários típicos, “lá vem o Edu inventando…”, “mais uma mentira do Edu…”, “ainda tem coragem de dizer que é preciso do início ao fim”.

Mas notem. A coisa não parou por aí. Desci com as fotos impressas e as entreguei à síndica. Queridos, em coisa de meia-hora, quarenta minutos, dezenas de vizinhos e vizinhas transitavam pela portaria. Alguns momentos.

Uma das vizinhas me pergunta de qual janela partiu a foto. Eu aponto. Ela ali se posta e começa “psiu! psiu! psiu!” e o cara aparece. “Filho, você gosta de bolo de milho?”, e ele meio sem entender disse, “Gosto, por que?”, e a viúva (era uma viúva) “Ah, então vem cá… quero te oferecer um bolinho pra agradecer esse teu gesto corajoso!”.

Outra propôs um piquenique pro meio da tarde. “Confraternização, poxa! Nós temos vizinhos tão legais“, e começou a chorar não sem antes dizer “os sanduíches de atum com ovo são meus!”.

Um outro, gentilíssimo, estendeu a chave de seu carro e disse “Se precisar, fica à vontade, me devolve só depois que consertar os seus pneus”, ao que sua mulher disse (eu ouvi), “Idiota, se fosse a minha mãe tu não pagava nem o ônibus”, ao que ele apenas fez uma careta pra ela.

E dessa festa de gentilezas, de simpatia, dessa distribuição de “obas”, de “olás”, de sorrisos e de ofertas as mais diversas, emergiu, no domingo, a Tijuca, a gloriosa Tijuca, em estado bruto.

Até.

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10 Comentários

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10 Respostas para “A TIJUCA É A TIJUCA É A TIJUCA É A TIJUCA

  1. >Eduuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu! (rindo muito) Comparar o seu vizinho com a Dona Vitória foi MAIS UM GESTO GENIAL DESSA SUA CABEÇA ALUCINADA! Parabéns!

  2. >Aloysio já eu achei de rolar de rir a vizinha tijucana pedindo piquenique e pensando em sanduba de atum! Grande historinha Eduardo. Pra quem é da Tijuca, um quadro!

  3. >Também adorei a D. Vitória da Tijuca! :-))))Tenho certeza que não há chance de você cansar de escrever, mas caso isso acontecesse, de qualquer maneira você não poderia parar. Senão, o que fazer com tantas histórias que te perseguem?!

  4. >Aloysio, Sérgio e Betinha: eu sou o que falo sempre que o Edu PINTA UM QUADRO A CADA CRÔNICA. Pô! Eu também passei mal de rir, mas passei mal de rir enquanto fazia o que ele escrevia principalmente no negócio da “buzina imaginária” (MUITOS RISOS), do vizinha mandando esperar! Muito bom, Edu! Outro quadro! Espetacular!

  5. >Edu, é a primeira vez q apareço aqui. A Bia Fontes (Café Zurrapa) sempre falava q era 10 e é verdade. Esse texto é ótimo!!!Bjo, Eugênia

  6. >Grande Edu, Mais uma vez brilhante. Gostaria de registrar o quanto a Tijuca é solidária, até na marginalidade. Digo isso porque o pequeno meliante, apesar de lhe furar os pneus, foi incapaz de lhe fazer uma maldade completa. Repare bem na foto que, mesmo lhe impossibilitando a saída motorizada, deixou gentilmente uma bicicleta para que vc pudesse ir ao mercado. Só mesmo a Tijuca… Beijos

  7. >Belésima crônica! Está febril de tão boa!

  8. >Detalhe que a D. Vitória, ao invés de gritar para espantar o garoto, preferiu deixá-lo esvaziar os pneus do carro para bater as fotos. Assim ganhou, além da admiração dos vizinhos, um pedaço de bolo de fubá e até, quem sabe, um cafuné da viúva do prédio ao lado…

  9. >Velho Edu, Mais uma vez vou dar um pitaco. E fazer um pedido… Gostaria que escrevesse uma história, com riqueza de detalhes do tipo “mão na buzina imaginária” e “Dona Vitória da Tijuca” explicando o que leva uma criatura a: 1) Flagrar uma sacanagem com um seu vizinho e, ao invés de defendê-lo – o que não seria nenhum problema, dado tratar-se de um problema novo (de idade) e presumivelmente pequeno (de altura) – preferir ficar à sorrelfa somente pra dar alguma utilidade a sua câmera digital; 2) Ficar o dia inteiro pendurado na varanda esperando a vítima acordar e tomar conhecimento do prejuízo para depois, somente depois, entregar-lhe as provas do ilícito que poderia ter facilmente evitado; (e ainda por cima regulando as fotos, que somente poderia mandar por e-mail) E, por último e em especial: O que leva a vítima a ficar feliz com a história ao invés de encher o J.R. Duran tijucano de porrada? Beijos.

  10. >Aloysio, Sérgio, Betinha (sempre suspeita quando elogia…) e César: obrigado pelos elogios.Eugênia, obrigado também. E volte em sempre. Nos conhecemos?Zé Sérgio, biltre sujo, infâme a piada valendo-se da minha febre que já dura 4 dias. Espere seu primeiro espirro, querido. Serei implacável.Celso Belmiro, meu caro Celsinho. Vou atender seu pedido em brevíssimo. Volte amanhã aqui.

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