SZEGERI EM PARATY

Como lhes contei ontem, estivemos, eu, Dani, Guerreira e Fumaça, no “Che Bar”, em Paraty. Para onde o Szegeri, meu Otto 24h por dia, não foi. Mas foi. Vou explicar.

Em 20 de janeiro de 2004, escreveu meu irmão paulista no Sodói, um de meus cantos prediletos: “Inauguro este espaço, dedicado à coleção das minhas sandices e conduzido pelos rios que cortam a minha vida, neste dia de São Sebastião do Rio de Janeiro – o mais caudaloso dos meus rios. São Sebastião, sincretizado com Oxóssi pelos cariocas, orixá que rege este ano e padroeiro da minha querida Portela, outro rio que atropelou minha vida pré-egressa de mangueirense. Tudo em casa, portanto.”

Vejam bem uma coisa. Vejam como os rios caudalosos a que se refere o Szegeri são incontáveis, e vejam mais, como um desses rios, que criei com lágrimas em Paraty, foi desaguar dentro do “Che Bar”.

O bar é uma maravilha cubana em Paraty. Fotos de Fidel, de Che, bandeiras de Cuba, fotos de Vinicius de Moraes, tudo contribuía para que babássemos à mesa. Estávamos bebendo mojito como se fosse água e eis que um dos cantores que lá se apresentava disse “agora com vocês, Maria Martha”.

Ruiva, baixinha, violão na mão, Maria Martha sentou-se diante do microfone e eis que o rio transbordou. Antes mesmo do final da primeira canção – que depois eu soube chamar-se “Leilão” – eu guinchava de chorar alagando o entorno da mesa, que mais parecia, àquela altura, uma jangada à deriva. Uma voz absurda, uma sensibilidade agudíssima, e Dani urrava “excelente, excelente, excelente!” ao final de cada canção. Guerreira e Fumaça, boquiabertas, e eu ali, chorando, chorando, comovido diante daquela – eu pensava – descoberta. Dei graças a todos os deuses por não estar com o celular. Caso contrário, gastaria fortunas ligando pro Szegeri somente para que ele ouvisse – bêbado tem desses troços – Maria Martha ao vivo. E foram horas de deleite e fui a ela e lhe disse, sincero em último grau: “Olha… você tem a voz mais bonita que eu ouvi nos últimos 20 anos, pelo menos…”, e ela, um doce, ao lado do marido, Ricardo, outro praça, agradeceu devagarinho, deu-me seu cartão e convidou-nos para assisti-la no dia seguinte, na hora do almoço, em outro bar.

Fomos, é claro.

E lá comprei os 5 CD´s que encomendara na véspera. Um para mim e outros 4 para alguns amigos. Daí liguei pro Szegeri assim que cheguei ao Rio.

E quando eu lhe disse, “Malandro, comprei um CD pra você de uma cantora que conheci em Paraty que é um absurdo… Maria Martha”.

Silêncio.

Fungadas.

Guinchos szegerianos.

“Eu amo a Maria Martha, pô! Ela é amiga da Robertinha Valente, cantou muito aqui em São Paulo… não acredito nisso… coincidência…” e ficamos, os dois, gastando uma fortuna pelo telefone, interurbano, até que desligamos.

Foi quando eu tive a certeza de que foi um dos rio do maluco do Szegeri que me levou, de canoa, pra Paraty e pro “Che Bar”. Onde desembarquei diante da Maria Martha que eu, vejam como sou tolo e um incapaz de conceber as mágicas desse monstro que é meu irmão paulista, pensava ter descoberto pra mim e pra ele.

Pra evitar maiores gastos com telefonemas – tem sido nossa rotina, irmãos que se amam fazem mesmo isso – estou indo, daqui a pouquinho, pra São Paulo. Levando o CD e uma vontade indizível de, como dizer isso sem parecer um biriteiro baixíssimo?, navegar por mares de cevada, lúpulo e outros cereais.

Maria Martha tem um site, onde se ponde conhecer um bocadinho mais sobre ela.

Até.

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3 Comentários

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3 Respostas para “SZEGERI EM PARATY

  1. >Meu irmão, acabo de constatar como, de longe, dos personagens que você faz fidedignamente ao extremo desfilar por estas páginas (isso é antigo…), sou o que menos faz sucesso, nas visitas, nos comentários. E, estranhamente -talvez porque tenho estado tão inundado de mineiridades -, agora me deu uma alegria danada. Uma alegria de Otto.Talvez você não lembre, mas naquele diálogo telefônico de domingo eu te disse que canto demais a belíssima canção “Leilão” (com melodia de Heckel Tavares e letra de Joracy Camargo – ou será de Olegário Mariano?) pra Iara, inculsive contando a história da música, falando da escravidão e tudo mais. Iara, a princesa de todas as minhas águas. Águas que erram de rios e se perdem e se misturam e se embrenham. E muitas outras coisas assim que não interessam a ninguém eu contaria aqui (e nem a você mesmo, por certo, mas eu sei que você gosta de mas ver contando, só porque sou eu que está contando), porque, mesmo de público eu sei que só nós leremos mesmo, invisível para os olhos da multidão dos teus merecidos leitores. E continuará, como sempre esteve, no rol das nossas confissões e intimidades.Pra arrematar, à oportunidade:”Coisa não há que mais hoje me espanteNem maior gosto talvez proporcioneque ver os liames tecidos na insoneatalaia de oculto vigilanteA unir o que os caminhos põem distante…”E já tou chorando. E foda-se.Beijo.

  2. >Sze, você é uma alma sensível. Mas não esqueça jamais que também é um escroto e que não vale porrissimamente nada, menos ainda do que o gato faz na esquina!

  3. >Escrevi a mensagem acima ontem à noite, meio calibrado. Leiam sem um pingo de agressão. Eu só quis homenagear o Szegeri.

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