>SZEGERI E SEU PÉRIPLO

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Como já lhes contei, o Szegeri, meu irmão paulista, meu Otto na íntegra, esteve no Rio na segunda-feira passada para participar de mais um Encontro Ordinário da Sociedade Edificante Multicultural dos Prazeres e Rituais Etílicos, a S.E.M.P.R.E., a fim de homenagear nosso irmão em comum que partiu mais cedo, o Toledão. E a vinda e a volta do Szegeri foram uma delícia só, vejam vocês.

Antes uma observação. O Szegeri tomou o avião na segunda, em SP, às oito da noite. E embarcou de volta às cinco e meia da manhã. Congonhas-Galeão-Congonhas. Fui buscá-lo no aeroporto. Ver o Szegeri desembarcar já é um espetáculo, e explico. Desembarcam homens e mulheres com bolsas a tiracolo, mochilas, pastas, malas, pochetes. E o Szegeri sem rigorosamente nada. Só a carteira no bolso traseiro da calça jeans que não vestia há mais de quinze anos, que o Szegeri perdeu quinze quilos.

Daí deixamos o carro em casa e partimos de táxi pra CADEG. Onde o Szegeri – também lhes contei – bebeu por ele e pelo Toledo. Durante o encontro, me fez confissões lindíssimas, que torno públicas, e ele há de me perdoar.

Uma: “Não consigo passar mais uma noite longe da Stê”. Disse isso, chorou, e bateu o telefone pra Stê. Enquanto soluçava ao telefone dizendo coisas como “fala que também não consegue mais dormir sem seu ursão” eu guinchava diante dele e fazia sinais com a mão pedindo o telefone, que me foi passado. A Stê, vejam bem, àquela altura, duas da manhã, também com saudades colossais do meu irmão, respondeu-me que bebia em São Paulo na companhia do Daniel (vim a saber, depois, que é seu sócio no meu bar preferido de Sampa, o Ó do Borogodó). Mantendo minhas tradições de defender meus amigos de forma intensa, disparei um corolário de palavrões de fazer tremer a CADEG. E o meu irmão, à frente, chorando e fazendo que não com o dedo indicador.

Outra: “Depois que emagreci, meu cocô não afunda mais, mas bóia”. Disse isso, chorou de novo e bateu o telefone pra doce Stê. E disse: “Amor, fala pro Edu que o cocôzinho do seu ursão agora bóia”, e passou-me o fone. A Stê, tadinha, apenas ria e dizia, “É verdade, Edu, mas cuida aí do Fernando, ele não me parece bem…”.

E não estava bem, o meu irmão. Aproximando-se a hora de sua partida rumo ao Galeão, abriu o chafariz lacrimal e chorou de empoçar a mesa. E estava, digamos, sem condições sequer de se levantar. O Dalton, um de nossos Confrades, um homem que – é ele quem diz – deixa o Nei Lopes no chinelo quando o assunto é “africanismo”, levou-o até um táxi. E voltou o Dalton, solene e preocupado como o Palocci na recente entrevista coletiva: “Gente, vamos ficar ligando pro Szegeri, ele está péssimo”. E instalou-se o desespero na mesa. O celular do Szegeri urrava, urrava, urrava e nada dele atender. Restou-nos a espera.

E somente na terça-feira, às seis da tarde, ligou-me o Szgeri.

Contou-me que fora acordado, dentro da aeronave, por uma aeromoça: “Senhor… o senhor já perdeu o microônibus que levou os passageiros da pista até a área do desembarque… agora o senhor terá de deixar o avião… o senhor se importa de acompanhar a tripulação?”. E disse ele: “Não. Mas antes me traga uma cerveja, por favor.”. A moça, com pena daquele trapo, serviu-lhe uma latinha de Brahma e foi com ele, de mãos dadas, até o saguão do desembarque.

Szegeri havia deixado seu carro no estacionamento.

Sabendo-se sem condições de dirigir, ainda, sentou-se numa das cadeiras de Congonhas e dormiu por três horas seguidas. Não foi trabalhar. E dormiu, em casa, como que hibernando.

Ainda me fez três perguntas:

“Como eu fui da CADEG pro Galeão?”

“De táxi.”

“Meu Deus… não lembro…. Mas… eu paguei algum vexame durante o Encontro?”

“Nem vexame e nem a conta…”

“Meu Deus… não lembro disso também…”

“Aliás, nem vexame, nem a conta e nem a corrida de táxi, Szegeri. O motorista voltou à CADEG e nos cobrou a corrida…”

“Meu Deus… não lembro…”

Vejam se não é, o Szegeri, como o Vidal, uma lenda.

Bem mais feio, é verdade, mas uma lenda.

Até.

6 Comentários

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6 Respostas para “>SZEGERI E SEU PÉRIPLO

  1. >Zé Sérgio, é ou não uma lenda, esse Szegeri?

  2. >Lenda é pouco, escriba Edu. O homem resume, em si, toda a história milenar da esbórnia, toda a trova da cavalaria, toda a gesta, no caso sem rocinantes nem moinhos de vento, porém com uma amável Dulcinéia de carne e osso. Creio que a obra de Cervantes só não foi completa porque a amada do Senhor da Triste Figura nunca o chamou de Ursão. Foi linda, também, a história do cocô boiando. Uma cena que a Bossa Nova poderia ter retratado com sua poesia praiana. Imagine num dia de luz, festa do sol, quando o cocô vai e a tardinha cai. Maravilha!

  3. >Maravilhoso texto! Não apenas pelo talento do Edu, mas também pela paixão, lealdade e elegância ímpares do Szegeri. Esse ninguém duvida que exista, pois nem o Edu, com toda a sua criatividade e habilidade com as palavras, seria capaz de inventar!Parabéns para os dois. Adoro vocês!

  4. >É, Betinha querida, infelizmente parece que o nosso Edu, mais uma vez, foi preciso do começo ao fim. Eu digo “parece” por razões óbvias…

  5. >Um crime o Szegeri nos deixar e não estar do nosso lado até as 8 da manhã. Se era para não trabalhar ele podia ter ficado mais, pois teríamos com certeza prolongado aquela porranca memorável.

  6. >”Prolongado”?!?!?!?! Você só pode estar de sacanagem… 🙂

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