UMA SAGA TOLEDIANA

É preciso manter o humor vivo, eis que o humor vivo é capaz de amainar a torpeza que a saudade dos mortos gera. Vamos, portanto, a um quadro de humor, e tenham viva essa chama bruxuleando e escrevendo na parede “que ironia!”.

Vejam vocês que o Fernando Toledo, que partiu ontem ao encontro dos bambas, detestava os advogados. Antes de lhes contar essa história, que envolve um advogado – eu, no caso – quero falar de outro bamba, meu Otto full time, meu irmão Szegeri, que partiu ontem à noite, de SP, de avião, para se despedir do nosso companheiro de Conexão Irajá, de vida, de crenças e de rituais. Encontramo-nos no Memorial do Carmo, no Caju, para um beijo na Áurea e uma regada de lágrimas diante do Totô. Papo vai, papo vem, decidimos, certos de agradar ao amigo, dar uma esticada no Capela, na Lapa, terreno mais-que-familiar a nós. E lá sentamos, eu, ele e Dani. Éramos 3, portanto. E atendeu-nos o bom Cícero, garçom de primeira linha. Cícero que, quero dizer, não entendia nada quando pedíamos 4 chopes à mesa a cada rodada. Ora, ora, éramos nós, ali, recriando a conexão. E pedimos doses de Magnífica, e assim se fez nossa primeira homenagem ao grande Toledo, como prometido.

Mas eis que acordei, hoje, com uma incumbência que me foi passada ontem mesmo pela Áurea, a doce companheira do Fernando. O Toledão manifestou em vida, inúmeras vezes, o desejo de ser cremado. Mas acontece que o malandro – e ele iria parar pra pensar nisso? – não deixou nada por escrito. Mas acontece que o malandro foi atropelado por um ônibus, vítima, portanto, de acidente grave. E aí é que a coisa pegou. A Lei brasileira não permite a cremação de nenhuma vítima de acidente grave que não tenha manifestado por escrito seu desejo, sem a devida autorização judicial.

E quem obtém autorizações judiciais? Somente um advogado.

Vai daí que pela manhã, em frente ao espelho, disse ao Toledão: “Hoje tu vai ver pra que serve um advogado, porra!”. Chorei, lavei o rosto, pus o escafandro, dei o nó na gravata, tomei a pasta pela mão e lá fui eu pro Tribunal de Justiça.

Eu já lhes contei, diversas vezes, que sou um bobo trabalhando. Choro copiosamente quando obtenho resultados favoráveis na Justiça, choro quando faço defesas orais acaloradas diante de Desembargadores incrédulos com meus números, choro, choro e choro.

Não vou contar todo o trâmite, pois sei que vocês não teriam paciência pra sequer tentar entender o emaranhado que é o Judiciário. Mas depois de ver meu pedido indeferido ontem mesmo, altas horas da noite, por uma insensível Juíza que não entendeu como urgente o pedido, encarei uma Juíza que, calcada na Lei, declinou de sua competência para apreciar a questão. Mas foi tão doce diante dos meus guinchos diante dela, que perdeu uns bons 20 minutos tentando localizar o Juiz competente pelo telefone. E conseguiu. E lá fui eu, pasta na mão, petição redigida à mão, suando e chorando, falar com o Juiz. Juiz que mandou-me ao Ministério Público para seu parecer. Atravessei a rua e fui à representante do Ministério Público, que também foi dulcíssima, oferecendo água e cafezinho para aplacar meus guinchos e soluços, que foi de uma humildade rara pedindo-me indicações legais para que pudesse dar parecer favorável ao meu pleito, e por fim voltei eu ao Juiz com tudo em cima. E ele, ele sim um Magistrado maiúsculo, também ofereceu-me água e seu banheiro privativo a fim de que eu me recompusesse, e quando me vi no espelho, suado, amarfanhado, olhos inchados, disse, “Seu putão, olha o trabalho que tu tá me dando!”. Voltei e ele estendeu-me o alvará de autorização, único meio possível para que o desejo do meu irmão fosse atendido. Daí liguei pro Szegeri, liguei pra Mariana, liguei pra Dani, liguei pra Áurea, com a sensação do dever cumprido.

Ainda pensei, “que bosta de presente que tive de dar a ele…”. Liguei pra Áurea e combinamos que eu entregaria o documento à Mariana Blanc, incansável no oferecer do ombro e do conforto à doce Áurea, a “Aual do Totô”.

Amanhã o fabuloso Toledo vira cinza, como queria.

Mas permanece, cigarro na boca, copo numa das mãos, os óculos embaçados sobre o nariz, aquela cultura e aquela sabedoria impressionantes escorrendo diante de nós.

Até.

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3 Comentários

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3 Respostas para “UMA SAGA TOLEDIANA

  1. Pat

    >Edu,Veja como são as nuances da vida! Justamente no dia do advogado é que o Toledo virará cinza!Tenho certeza de que, apesar de toda experiência, em algum momento vc se sentiu desnorteado com os trâmites legais, porém, seu desnorteado é tão somente saudade, vazio deixado pela “ascensão” de um amigo!Parabéns por ter cumprido sua missão. Veja que ela estava destinada à vc. Primeiro, por ser amigo e depois por ser advogado. Afinal, “a advocacia é uma luta de paixões”. (parte dos 10 mandamentos – Couture)Tenha certeza que o Toledo, em sua subida aos céus, estará orgulhoso de você!

  2. >Du , nunca duvidei da sua competência e persistencia e certamente , uma vez mais , dessa vez , foi importante para seu amigo Fernando que se foi tão jovem e cheio de sabedoria . Meus parabens e abraços pelo dia dos Advogados .

  3. >Impossibilitado que estive, pela tristeza e pelos aborrecimentos práticos da vida, de visitar este Buteco, minha amada Stê contava-me como riu e chorou ao mesmo tempo lendo este teu texto, mano. E fiquei comigo cismando como podia ser isso. E agora eis-me aqui rindo e chorando diante do monitor, imaginando a cena bela e patética de você aos prantos diante do juiz e lembrando dos óculos embaçados do nosso irmão. Aliás, só agora me caiu a ficha de porque ele tava tão diferente naquele caixão… Beijo, querido, e obrigado por tudo: pelas palavras, pelo ombro, pelo Capela e pelo alvará, enfim.

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