RACLETE, UMA EXPERIÊNCIA TRAUMÁTICA

Hoje quero lhes contar sobre meu jantar de ontem. Mas antes disso, quero dizer que, amanhã, contarei mais uma do Abelha, meu amigo protagonista da crônica de ontem, a pedidos, vejam vocês, do meu implacável Otto, meu irmão Szegeri, que me gritou, por email – como eu o conheço bem, sei, lendo, o tom que ele imprime às súplicas que me faz – “conta sobre o outdoor do Ziraldo”, e eu o farei.

Vamos ao jantar. Antes, uma explicação mínima. Eu, uma vez convidado para eventos gastronômicos, onde incluo almoços, jantares, lanches, degustações de cerveja, vinho e mais que tais, sou uma festa só. Como uma criança a quem se promete um passeio ao zoológico. Fico excitado, conto os minutos, e não recuso, jamais, um convite desse gênero.

Pois bem. Ontem fui convidado para um jantar na casa de um casal, em Copacabana, e omitirei os nomes dos anfitriões para que eu possa ficar bem à vontade para tecer meus, digamos, comentários críticos. Estávamos eu, Dani, Maria Paula, para quem confessei minhas saudades, no que fui retribuído, vejam que beleza esse mútuo sentimento de bem-querer, e, obviamente, o casal. Quero antes fazer nova pausa.

Eu já havia estado uma vez em sua casa para um outro jantar. E não me recordo, vejam bem, eu que tenho uma memória de elefante, como diz mamãe, de nenhum item do cardápio daquele jantar, eis que tenho ela, a memória, obnubilada pelo choque que representou, pra mim, naquela noite, o prato de arroz preparado pela anfitriã. Toda a gente refere-se a um arroz, quando empapado, como um “unidos venceremos”, “todos por um”, e por aí vai. Aquele arroz, não. Para mim, era a imagem da Antártida. Um imenso bloco branco, inteiriço, em formato de disco, que foi espetado, eu vi!, eu vi!, pelo constrangido anfitrião com um espeto de churrasco. E o arroz foi, sei que parece exagero, fatiado como uma peça de picanha. Lembro-me, disso eu me lembro!, que fui de uma franqueza tijucana com a cozinheira, a anfitriã, quando fui perguntado, “e aí, tá bom?”, e eu disse, “não sei, nunca comi isso na vida”, o que gerou olhares reprovadores da Dani e alguns chutes sob a mesa.

Vai daí que ontem, ainda no elevador em direção ao apartamento, a Dani passava as instruções, “veja lá o que vai falar”, “se não for pra elogiar mantenha-se calado”, e outras coisas mais referentes à etiqueta.

E eis que, a certa altura, é anunciado o cardápio: fondue de queijo, raclete e fondue de chocolate. Tremi. A princípio de felicidade, eis que não foi mencionado nenhum prato com arroz. Depois, porque nunca comi raclete. Os fondues eu traçaria fácil, mas a raclete… Bem, disse a mim mesmo, vamos em frente.

Veio à mesa o fondue de queijo. E algumas espetadas de pão no queijo depois, diz a Dani, educadíssima… “Fulana… está d-e-l-i-c-i-o-s-o esse fondue… parabéns!”. Antes que a moça agradecesse eu emendei, “Menos, Dani… pra fazer isso basta derreter o queijo que já vem pronto e cortar as fatias de pão”. Tomei um bico nas canelas, risos amarelos deram novas cores à sala, e veio à mesa a raclete. Estou escrevendo e não sei se é a raclete ou o raclete. Então… veio à mesa… raclete, sem qualquer artigo. Melhor assim.

O anifitrião pôs, no centro da mesa, um aparelho, que no formato lembra um disco voador, ligou o mesmo à tomada e em segundos fazia qualquer coisa perto dos 45 graus centígrados à mesa. Uma delícia, pensei eu. Cada um de nós recebeu uma espécie de pá de louça e eu, vejam que vexame, pensei que fossem leques a fim de aliviar a barra do calor e dei de me abanar com o troço. Mais um chute, mais sorrisos amarelo-gema e fiquei observando os demais convivas para imitá-los. O cenário era composto, ainda, por potinhos à minha frente contendo pepinos em conserva, milhos em miniatura, bacon, ovo mexido, cebolinha em conserva, tomate seco, talos de queijo gruyère e pimenta do reino. A anfitriã, gentilíssima, ensinou-me a fazer o treco. Pus sobre o que pensei ser meu leque um talo de queijo e sobre ele salpiquei bacon. Fui instruído a pôr no interior da nave espacial à minha frente a pá para que tudo derretesse. Sobre a nave espacial, tentem imaginar isso, batatas já cozidas esquentavam para que depois recebessem o queijo já fundido por cima. Uma praticidade comovente sob um calor do Iraque. Queimei meu antebraço na chapa quente e comi apenas uma leva da, ou do, raclete. Nunca mais, quero confessar.

E eis que veio à mesa o fondue de chocolate. Vejam uma coisa. O que eu vi com o arroz no primeiro jantar a que me referi, vi com o chocolate. Uma peça única, imensa, redonda, preta, cheirando a queimado, no formato da panelinha de louça, e a anfitriã, tadinha, dizendo, “deu errado”, e eu emendei, “pra variar”, e aí a Dani não suportou mais meu comportamento e me deu um soco, sem cerimônia, mandando-me calar a boca. Vejam como um casal da Tijuca é capaz de cenas espetaculares.

O anfitrião ainda chegou a dizer, “mas isso nunca aconteceu, querida”, e eu tive certeza, ali, de que eu é que sou o pé-frio. Pena que o “frio” a que me refiro é apenas imaginário, já que seria bastante desejável algo realmente frio pra temperar a temperatura da sala, àquela altura na casa dos 60 graus centígrados, depois da panelinha do fondue de queijo, do aparelho para raclete e da panelinha do fondue de chocolate.

Até.

10 Comentários

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10 Respostas para “RACLETE, UMA EXPERIÊNCIA TRAUMÁTICA

  1. >Edu,Primeiramente, quero parabenizá-lo por esta revista! Só tomei ciência dela, por um acaso, um feliz acaso. E, como boa kardecista que sou, sei que acaso não existe, então, algo de bom só poderia ocorrer, assim que eu a lesse. E ocorreu! Mas isso é outra história!O que eu quero dizer é que adorei a forma com que vc descreveu as situações! Senti-me, em alguns momentos, como se tivesse participado e tive várias emoções! Gargalhei em muitos momentos! Fiquei surpresa em outros, pois, conheço muita das pessoas e as vi por outros olhos! Posso dizer que em muitos casos, vc descreveu fielmente como elas são! Ah, não poderia deixar de citar, o quanto fiquei emocionada com o texto “Papai arremessado ao passado”. Muito lindo o amor do seu pai!Talvez vc não ligue o nome à pessoa, mas na 5ª feira passada, depois de muito tempo sem ir ao Stéfi, fui beber um choppinho, rever uns amigos e para minha surpresa muitos conhecidos estavam lá, inclusive vc e a Dani! Tinha jogo do Flamengo! Como não sou Flamenguista, sou Botafoguense(como o Cachorro), não sabia do jogo!Mais uma vez, parabéns!

  2. >Patrícia, de fato eu não liguei o nome à pessoa, mas isso não importa muito, importa mais saber que você gostou do Buteco. Duas observações apenas.01) eu não descrevi as pessoas fielmente em “muitos casos”, mas em TODOS OS CASOS. Lembre-se de que sou, como diz o Vidal, “preciso do princípio ao fim”.02) Acabei por não entender. Você é botafoguense ou kardecista?Um abraço, volte sempre, e espalhe o endereço do Buteco pelos seus.

  3. Pat

    >Sim, Edu, sabia que vc não ia ligar o nome a pessoa, mas ontem estive no Stéfi com a galera comemorando o niver do Marquinhos! Agora vc irá fazer a ligação!Qto. “preciso do início ao fim”, meu amigo, há controvérsias!Futebel (BOTAFOGO) e religião (Espírita – Kardec) não se discute mesmo! rsCom certeza serei mais uma leitora!Abraços

  4. >Fondue no Rio? Tem certeza que gostam de vc?AbraçosMilano

  5. Pena a sua experiência com a raclete ter sido tão desastrosa! A minha primeira experiência com uma raclete foi fenomenal, mas isso provavelmente pelo fato de ter sido no inverno, na Alemanha e com queijos e outros tipos de frios fantásticos que só a Alemanha pode nos proporcionar, né?! (risos). De fato, raclete no calor do RJ ainda mais acompanhada de fondue, deve ter sido lastimável! E o arroz, bem, o arroz… é melhor não fazer comentários, afinal, talvez seja uma nova receita super moderninha dos gourmets mais sofisticados… (risos). Gostei dos textos e aguardo ansiosa por novas descrições das suas experiências gastronômicas…

    • Marcelo

      Muito bom o texto! Comentários extremamente incovenientes, tanto quanto engraçados!! Quanto a comer raclete, só na Alemanha mesmo, ou seja, nunca! Parabéns, Karen, pela viagem…

  6. adoreiiiiiiiiiiiiiiiiiiii vou comprar uma e depois te conto.

  7. Eliane

    Bem, quem fêz a raclete também não sabia como o prato deve ser servido, e no Rio, só se for com o ar condicionado ligado numa temperatura bem baixa.

  8. picolé no dos outros é refresco

    Buscando um aparelho de raclete para comprar pela internet, acabo vendo o blog do boteco do edu, sobre…Raclete.
    Temos um relato de um mal-educado, que, diz ele mesmo, é capaz dos piores comentários, sendo convidado. E ainda um perito em culinária, que explica que não gosta de raclete, o que seria a mesma coisa do que dizer que não gosta de queijo, por exemplo. Coisa de paladar de troglodita. Não se da nem o esforço de dizer porque não gostou. Pois raclete é um prato que em geral é servido nos Alpes, e o queijo derretido na frente do fogo de uma lareira. Pode se deduzir que nos Alpes faz frio, e que no calor do Iraque do Rio, nosso blogueiro deveria chupar picolé.

    • Baita ogro

      Na mesma situação que você, me deparo com essa matéria infeliz! Lamentável a pessoa nem saber o que é raclete e destratar tanto alguém que ainda insiste em convidá-lo para estar na sua casa.

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