>VIOLAÇÕES DE ETIQUETA

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É preciso que eu seja honesto com vocês uma vez mais (além de preciso do início ao fim eu sou também de uma honestidade de fazer corar o Lula). Encontrei ontem com o Dedeco. E um Dedeco afoito, ligeiramente calibrado, pediu-me “conta sobre o Marquinhos na casa da Betinha, conta!”. Logo, minha honestidade hoje reside na confissão que faço no sentido de que a pauta de hoje é do Dedeco, não minha. Não serei, tenho certeza disso, o cronista que o Dedeco imaginou quando pediu-me tal coisa. Queria, eu sei disso, seu sorriso sórdido não conseguiu esconder suas intenções, que eu fizesse pilhéria com o bom Marquinhos, que é, é mesmo, uma espécie de mascote coletivo do Estephanio´s ao lado do João Vitor. O João Vitor tem seis anos, é afilhado do Fefê, e queridíssimo de todos os freqüentadores do bar. O João tem, no currículo, vejam que criança fabulosa, seis aniversários, todos eles comemorados no Estephanio´s. E nesses aniversários, 90% da assistência era de adultos, fãs confessos da articulação verbal genial do garoto, da sagacidade de seus gestos, da franqueza de seus abraços. E o Marquinho, na casa dos vinte e poucos anos, é também mascote de todos. Bebe como um adulto, coleciona revistas em quadrinhos que já são mais de 20.000 em seu apartamento, nunca foi à praia na vida eis que é adepto da máxima “intelectual bebe, intelectual não vai à praia”, é Flamengo rôxo, uma espécie de Luiz Mendes quando o assunto é conhecimento futebolístico. Você pergunta pro Marquinhos, enquanto CRB e CSA fazem uma partida chata na TV, “Marquinhos, quem é o camisa 9 do CSA?”. E ele, depois de um gole do chope permanente numa das mãos, toma fôlego e diz, “Rodolfo Berdinazzi, 21 anos, revelado nas divisões de base do Baraúnas, de Natal mesmo, comprado pelo CSA por 200 mil reais, craque de bola, não dou um ano pra ele estar jogando na Europa, tem 1m80, estatura ideal pro centroavante que é, já fez 13 gols nessa temporada, 3 de pênalti e um em impedimento não marcado pelo bandeira cearense que apitava o jogo contra o próprio Baraúnas.”. Um colosso nesse quesito.

Como eu ia dizendo, o Dedeco queria que eu fizesse graça com a pessoa do Marquinhos, não fosse isso e não teria me pedido pra contar sobre o episódio do bom Marquinhos no solar da Betinha e do Flavinho, no Flamengo. E o que houve lá? Vou contar.

A patuléia tomou o gesto como uma tremenda mancada em questões de etiqueta e de comportamento, mas quem conhece o Marquinhos sabe que ele é incapaz de uma grossura voluntária. Estávamos lá, numa sexta-feira, eu, Dani, Dedeco, Marquinhos, Flavinho e Betinha, obviamente, os anfitriões. O pretexto era, apenas, beber, comer e ouvir uns CD´s raríssimos da coleção do Xerife. E quando o pretexto é beber, naquele lar, isso significa geladeira tomada por cerveja, tinas de gelo na área de serviço com mais cerveja e o freezer abarrotado também de cerveja. Como éramos apenas seis, e as latinhas eram mais de 400, sabíamos que não iríamos passar sufoco com a falta da bebida feita de cevada, lúpulo e outros cereais.

Coisa de uma da manhã, eu e Dani levantamos, Dedeco disse “vou com vocês” e o Marquinhos disse baixinho, “tô legal, vou depois”. Fomos, nós três, pro Estephanio´s. Duas da manhã o Flavinho bate pro meu celular e diz, “Pô, Edu… dá um jeito de falar pro Marquinho ir praí… eu já estou de pijama, a Betinha de baby-doll no quarto dormindo, e o cara fica fazendo sinais com o polegar pra cima repetindo, tô legal, tô legal, tô legal, e não sai!”. Pedi que ele passasse o telefone pro Marquinhos. “Não, Edu… tô legal… vou mais tarde…”. E desliguei.

Bem. Na segunda-feira pela manhã – lembrem-se que a reunião foi numa sexta-feira – quando a Betinha saiu pro trabalho, o Marquinho lhe disse, “Vou pegar uma carona com você.”.

O cara ficou lá, sentadão no mesmo banquinho, diante da mesma mesa, durante 60 horas seguidas, bebendo em quantidades industriais. E a patuléia, repetindo, tomou isso como uma tremenda mancada do garoto. E o Dedeco, eis aí a grande ironia, pediu-me que contasse o episódio aqui no Buteco. Como se não fosse ele, o André Menezes, um grosso magnânimo.

Vejam vocês, nem vou me alongar muito, o que é o Dedeco em matéria de gentileza.

Fui visitá-lo na semana passada.

Ao entrar na sala da casa do cara, deparei-me com uma espécie de varandinha, de mármore, um pequeno degrau contíguo à sala dando pra janela, com um vasinho de flores no parapeito da janela. E sobre o vaso, que o Dedeco me apontou gargalhando, uma tabuleta de madeira, “que eu mandei fazer na feirinha de artesanato da Praça Saens Peña”, onde se lia “eu gosto de violetas, mas prefiro as trepadeiras”. Finíssimo. E completou: “Dá certo com o pessoal que vem aqui em casa”. E riu de tossir carradas. E ainda disse: “Faço o serviço aqui mesmo, nesse piso geladinho…”, e riu mais, mostrando a arcada amarelada de cigarro.

E ao escrever “serviço”, lembrei-me de uma coisa que quero dividir com vocês. Lembrem-se que o Dedeco, que dividia apartamento com a pobre Polu, que casou-se recentemente, agora mora sozinho. E a Dani, essa sim gentilíssima, conseguiu uma moça pra trabalhar em sua casa. E ontem, ao encontrá-lo, Dani lhe fez três perguntas sobre o tema. Saquem a etiqueta rasgada pelo bruto em embusteiro André.

“Dedeco, e aí, tá gostando da Fulana?”

“Tô. A única diferença entre ela e a Polu é que agora eu tenho que pagar pelo serviço”. E riu, o André.

“Ela é boa no que faz? Lava, passa, cozinha?”

“Uma beleza. E já comi”. E riu mais, de guinchar.

“André… não foi isso que eu perguntei… Você está satisfeito? É só o que quero saber…”

“Mais que satisfeito, Dani. Ela está indo às segundas, quartas e sextas pra trabalhar e às terças, quintas e sábado pra dar pro papai aqui”.

Vejam vocês se tem, o Dedeco, moral para pedir-me a imolação pública do Marquinhos.

Até.

2 Comentários

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2 Respostas para “>VIOLAÇÕES DE ETIQUETA

  1. >Nossa Edu! Tô vendo que cada casa, desta turma adorável, tem seu próprio buteco! Este “Buteco da Betinha” ficará famoso, depois da saga do Marquinhos! Afinal, o garoto passou o fim-de-semana no Flamengo (Tijucando querendo tirar onda de garoto Zona Sul) e ainda pegou carona com a dona da casa na 2ª feira! No mínimo a tirou do caminho do trabalho e siquer pagou a gasolina do carro! Esta semana será a do Marquinhos?!

  2. >Olha, seja você quem for, anônimo ou anônima, não vou responder. Salvo se você se identificar. É um troço pra lá de desagradável responder a sabe-se-lá-quem.

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